o que o desemprego mata em nós


Patrícia Reis,
Se a vida te dá limões, faz limonada. Pode parecer uma banalidade, mas serviu para dizer a uma amiga que tinha de andar para a frente. Acrescentei que o açúcar é o amor que tem à sua volta. Porque tem amor na sua vida e tomou sempre decisões em prol da família.

 

A minha amiga não tem 20 anos, está quase nos 40. É uma mulher inteligente, com curso, pós-graduações e outras valências. Saiu de Lisboa com a filha às costas por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade. Levou algum tempo a perceber isto, e foi à força de múltiplas desilusões antecedidas por cartas, envios de curriculum, entrevistas várias.

A empresa onde esteve faliu, fechou portas, deu-lhe os papéis para o fundo de desemprego, mas a minha amiga teimou que continuaria à procura de trabalho. Finalmente, como diz, caiu na real.

Sair de Lisboa podia ser melhor, tinha algum dinheiro de lado, a vida é mais barata, quem sabe se a sorte não lhe sorria lá para os lados da serra? Não sorriu.

A minha amiga conseguiu esta semana um emprego (ao fim de uns anos a bater às portas, a inventar). Vai passar recibo todos os meses, é um trabalho precário, sem regalias. Ela está contente por ter conseguido um trabalho. Vai receber 530 euros, mais coisa, menos coisa.

Ela está triste com o estado das coisas e com a sua vida. Acha que talvez não mereça mais, que talvez não seja competente em nada apesar de ter um curriculum que indica o contrário.

O desemprego mata a auto estima. A minha amiga, como tantos outros, merecia mais e melhor. Está farta de beber limonada.

0 comentários em “o que o desemprego mata em nós”

  1. Nunca passei pela experiência.
    Pertenço a uma geração de ouro e a uma classe profissional que, na altura, era altamente deficitária.
    Antes, os efeitos de duas guerras mundiais; depois, o que se vê.
    Vivi e vivo as duas realidades, melhor, as três, incluindo o meu berço dourado.
    Estou, portanto, habilitado para considerar a situação de desemprego um dos maiores atentados à dignidade humana.
    Desgraçadamente, ele é intrínseco ao liberalismo selvagem que nos oprime.
    E não me venham dizer que ele é menor em países desenvolvidos, arautos de tal regime: algures, no mundo, alguém paga, bem pago, também com o desemprego, tal privilégio.
    Não há volta a dar-lhe.
    João de Brito

  2. O desemprego é hoje mais do que nunca um estado de atestado de não pertença.
    E mais do que nunca porque em tempo algum o trabalho foi mais definidor do ser que somos hoje. Foi com essa Ideia que nos tentaram. E aceitamo-la ao fazemos o que somos aquilo que fazemos. E quando nada fazemos, nada valemos.

    Há uma ideia de recorrência.
    Criámos sistemas para nos servirem – morais, económicos, sociais, ideológicos – mas como criatura que se vira contra criador, esses sistemas, como que ganharam vida, através das suas múltiplas leis internas, geradas por esses mesmos sistemas, contra a vontade inicial do criador. E agora somos nós que servimos esses mesmos sistemas-vivos, que como todos os que há, apenas querem fazer-se durar. A economia pela economia, a ciência pela ciência, etc…São as Ideias que ocupam o topo da pirâmide alimentar e a sua presa favorita é todo aquele que crê na realidade da sua ideia.

    Que a sua amiga varra as ideias que não lhe sirvam e sirva-se das ideias como da roupa. Se não servirem, arranje outras, ou melhor, aprenda a não ter vergonha da sua nudez.

  3. Excelente post.

    Saiu de Lisboa por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade.

    É mais fácil arranjar trabalho na província quando já se passa dos 40? Não tinha noção disso.

  4. Na serra não há trabalho (a não ser para uns quantos maçons nas câmaras PS e umas horas avulsas de formação em cursos idiotas que não dão para pagar a gasolina para chegar ao local do curso). Sei-o bem demais. Estás sozinho e habitua-te.

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