A minha amiga não tem 20 anos, está quase nos 40. É uma mulher inteligente, com curso, pós-graduações e outras valências. Saiu de Lisboa com a filha às costas por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade. Levou algum tempo a perceber isto, e foi à força de múltiplas desilusões antecedidas por cartas, envios de curriculum, entrevistas várias.
A empresa onde esteve faliu, fechou portas, deu-lhe os papéis para o fundo de desemprego, mas a minha amiga teimou que continuaria à procura de trabalho. Finalmente, como diz, caiu na real.
Sair de Lisboa podia ser melhor, tinha algum dinheiro de lado, a vida é mais barata, quem sabe se a sorte não lhe sorria lá para os lados da serra? Não sorriu.
A minha amiga conseguiu esta semana um emprego (ao fim de uns anos a bater às portas, a inventar). Vai passar recibo todos os meses, é um trabalho precário, sem regalias. Ela está contente por ter conseguido um trabalho. Vai receber 530 euros, mais coisa, menos coisa.
Ela está triste com o estado das coisas e com a sua vida. Acha que talvez não mereça mais, que talvez não seja competente em nada apesar de ter um curriculum que indica o contrário.
O desemprego mata a auto estima. A minha amiga, como tantos outros, merecia mais e melhor. Está farta de beber limonada.

Nunca passei pela experiência.
Pertenço a uma geração de ouro e a uma classe profissional que, na altura, era altamente deficitária.
Antes, os efeitos de duas guerras mundiais; depois, o que se vê.
Vivi e vivo as duas realidades, melhor, as três, incluindo o meu berço dourado.
Estou, portanto, habilitado para considerar a situação de desemprego um dos maiores atentados à dignidade humana.
Desgraçadamente, ele é intrínseco ao liberalismo selvagem que nos oprime.
E não me venham dizer que ele é menor em países desenvolvidos, arautos de tal regime: algures, no mundo, alguém paga, bem pago, também com o desemprego, tal privilégio.
Não há volta a dar-lhe.
João de Brito
O desemprego é hoje mais do que nunca um estado de atestado de não pertença.
E mais do que nunca porque em tempo algum o trabalho foi mais definidor do ser que somos hoje. Foi com essa Ideia que nos tentaram. E aceitamo-la ao fazemos o que somos aquilo que fazemos. E quando nada fazemos, nada valemos.
Há uma ideia de recorrência.
Criámos sistemas para nos servirem – morais, económicos, sociais, ideológicos – mas como criatura que se vira contra criador, esses sistemas, como que ganharam vida, através das suas múltiplas leis internas, geradas por esses mesmos sistemas, contra a vontade inicial do criador. E agora somos nós que servimos esses mesmos sistemas-vivos, que como todos os que há, apenas querem fazer-se durar. A economia pela economia, a ciência pela ciência, etc…São as Ideias que ocupam o topo da pirâmide alimentar e a sua presa favorita é todo aquele que crê na realidade da sua ideia.
Que a sua amiga varra as ideias que não lhe sirvam e sirva-se das ideias como da roupa. Se não servirem, arranje outras, ou melhor, aprenda a não ter vergonha da sua nudez.
Excelente post.
Saiu de Lisboa por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade.
É mais fácil arranjar trabalho na província quando já se passa dos 40? Não tinha noção disso.
Não pagar renda (ou pagar uma renda baixinha) e ter internet é a ideia mais preciosa para um DLD.
Na serra não há trabalho (a não ser para uns quantos maçons nas câmaras PS e umas horas avulsas de formação em cursos idiotas que não dão para pagar a gasolina para chegar ao local do curso). Sei-o bem demais. Estás sozinho e habitua-te.