A burka, segundo Ussía


oanonimoanonimo,

Sábado passado, enquanto esperava no bar dum hotel de Burgos, li no La Razon este texto de Alfonso Ussía. Onde, designadamente, se diz:

  • «(…)Y las feministas profesionales mudas. Para ellas, el burka es sinónimo de tolerancia y modernidad. Protestan por un par de tetas en un anuncio y callan ante la humillación de una norma que impide a la mujer mostrar su rostro. Le sobra razón al Cardenal Miroslav  Vik, Arzobispo de Praga, cuando afirma que la renuncia a defender las raíces cristianas en Europa nos está llevando a una imparable islamización. A ellos no les importan nuestras tradiciones, y menos aún, nuestras leyes. Les importan las suyas y no esconden su objetivo de imposición. Un burka en una calle de Madrid es un insulto. Un insulto a la igualdad del hombre y la mujer, un insulto a nuestra Constitución, un insulto a nuestra educación y un insulto a nuestra cultura. Si quieren tapar a sus mujeres, que se queden en su tierra. Si quieren lapidar a sus mujeres, que lo hagan en sus pueblos. En unos años van a obligar a los cocheros de Sevilla a cambiar sus caballos por dromedarios. Modernidad y alianza de civilizaciones. (…)»

Não podia estar mais de acordo.

 

Obrigado, José.


oanonimoanonimo,

O actual governo prepara-se para devolver ao mundo dos tribunais metade das férias que o anterior lhe usurpou, quando reduziu de dois meses para um as férias judiciais. [Obrigado, José]. Esta foi uma daquelas medidas em que o governo de Sócrates andou mal. Disse-o desde o princípio. Com o ímpeto reformista a todo o vapor, o anterior governo achou que, reduzindo as férias, estava a pôr os "privilegiados" magistrados na ordem, ganhando, com isso, o aplauso do povo. Não pôs. Com a agenda na mão, os magistrados depressa aprenderam a gerir os seus tempos e não houve ganhos na celeridade processual. Atrevo-me, até, a pensar que o efeito foi perverso. Logo, não houve aplauso do povo. Quem se tramou com a medida foram os advogados. É que, mesmo sem diligências processuais marcadas, os prazos para os advogados continuavam a correr. E as férias dos advogados em prática isolada transformaram-se numa nesga. Com a suspensão de prazos entre 15 e 31 de Julho, que agora se propõe, vai passar a respirar-se melhor. Pena foi que não tivessem pensado no assunto antes. Mas isso já seria pedir coisas a mais.

 

(Ando aqui a cumprir os serviços mínimos, enquanto a malta do DO se diverte em Lisboa. É o mínimo que posso fazer, depois de ter sido obrigado a faltar à comemoração do aniversário por razões profissionais inesperadas. Correu bem, amigos? Fico à espera da acta. Beijos e abraços.)

Subsidiodependente


oanonimoanonimo,

Será que, pela primeira vez na vida, vou ter direito a um subsídio? Com tantos cigarros que já fumei e com o que isso deu de impostos ao Estado, parece-me justo. Ainda que eu saiba que o Estado não está preocupado comigo, nem com os outros fumadores – está preocupado é com os não fumadores, essas pobres vítimas que sofrem amargamente com o fumo dos outros, com o preço do ginásio, com o casamento gay e com o aquecimento global. Entretanto, talvez não fosse mau pedir, desde já, o reembolso dos cerca de 70 euros que me custou um cigarro electrónico que me impingiram por estes dias – a partir das oito da noite vendem-me qualquer coisa, porque ando normalmente distraído – e que, honestamente, ainda não tive coragem de usar em público, porque um fumador, queiram ou não, também tem o seu orgulho.

Incoerências por incoerências


oanonimoanonimo,

Há dias, dizia-me uma amiga que se o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse aprovado, teria de ir a um casamento não tarda muito. E que, provavelmente, até teria de ser madrinha. Não sei se da noiva, se do noivo, se. Encolhi os ombros – já estou por tudo. Pedi-lhe, apenas, que não se lembrasse de me convidar para a acompanhar no eventual evento. Do mesmo modo que já garanti que, como advogado, recusaria patrocinar qualquer parte num divórcio homossexual, também não me sinto preparado para entrar numa festa dessas. Tal como o Papa, acho que o casamento que é casamento, é entre pessoas de sexos diferentes. Tudo isto não invalida que respeite a orientação sexual de quem quer que seja. Ou que ostracize os homossexuais, desde que não sejam daqueles que, virilmente, impõem o seu incomodativo «orgulho». Ou que não respeitem a minha diferença.

Tenho visto, curiosamente, que os mais acérrimos defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo são aqueles que mais estremecem quando se lhes pergunta: «Como reagiria se o seu filho chegasse a casa e lhe apresentasse o namorado?».

Pois bem. Incoerência por incoerência, o único casamento homossexual em que admitiria participar seria o de um filho meu. Ou de um amigo muito próximo. Não iria muito feliz. Mas iria compassivo. E talvez até conseguisse esboçar um sorriso. Quanto ao mais, que o diabo seja cego, surdo e mudo. E paralítico.

 

O estado da Nação


oanonimoanonimo,

Lida a imprensa do fim-de-semana, concluo: o supra-sumo Cavaco anda tão fraquinho, que até o fraquinho Sócrates é capaz de chegar para ele. E, por falar nisso, por onde anda a oposição? O PSD, por exemplo? (Cheguei ao ponto – fraquinho – de precisar de apenas três linhas para dizer o que penso sobre o estado da Nação). E, por falar nisso: como está a Nação?

Meias consequências


oanonimoanonimo,

O Conselho Superior do Ministério Público concluiu que o procurador Lopes da Mota pressionou os seus colegas que tutelam o caso Freeport para que fosse arquivado. Primeira consequência: foi-lhe aplicada uma pena de 30 dias de suspensão; segunda consequência: Lopes da Mota decidiu – e bem, mas com atraso – demitir-se do cargo que ocupa no Eurojust. Problema resolvido? Sim. Pela metade. Entendamo-nos: eu não conheço o procurador em causa, a decisão de o suspender ainda não transitou em julgado e já ouvi dele coisas boas e coisas más. E também não sei se o procurador fez as coisas feias que lhe atribuem. Mas parece-me óbvio que se Lopes da Mota entendeu que a punicão do CSMP foi bastante para se demitir do Eurojust, também deveria entender que era o bastante para deixar de ser magistrado. É que os factos que lhe são imputados não caem no domínio da mera negligência, a que todos estamos expostos. Pelo contrário, tais factos abalam o cerne do que deve ser um magistrado ou, pelo menos, um magistrado como eu entendo que deve ser. E, certamente, a Lopes da Mota não seria difícil encontrar um lugar na política. Onde, aliás, já esteve.

A técnica da prioridade invertida


oanonimoanonimo,

Quando o que se devia discutir é o pântano de corrupção em que o país parece ter caído e a impunidade que grassa à volta do assunto; quando o que se devia discutir é se um país que é assim é viável e se ainda tem emenda; quando o que se devia discutir é se a classe política tem classe e se há ou não magistrados corajosos quando se trata de açaimar os poderosos, há quem, como Francisco Assis, venha pedir penas mais pesadas para os violadores do segredo de justiça. Percebe-se mal. É claro que quem viola o segredo de justiça pratica um crime. E, se o fez, deve ser condenado, depois de se apurar que não existem causas que excluam a ilicitude e a culpa. Mas será este o problema? O país vai mal, não porque se viola o segredo de justiça – mas porque há corruptos e impunidade e falta de classe e de coragem. Logo, a violação do segredo de justiça é um mal menor. Ou, por vezes, o último reduto de esperança.

Um país sem tomates


oanonimoanonimo,

Ando com a sensação de que a única coisa estável, duradoura e verdadeiramente importante que estes mais de 30 anos de democracia geraram foi uma associação criminosa, imensa e ramificada, que atravessa os principais partidos políticos e que assenta no Estado em conluio com os privados. Passa pelos gabinetes dos governos, pelos demais órgãos de soberania, pelos órgãos desconcentrados da administração pública, pelas empresas públicas, pelas autarquias locais. Bastaria para que ficássemos consternados. Dir-se-á que não é um exclusivo português. Não, não é. O que é exclusivo português é a falta de pudor com que tudo se faz e, mais ainda, a impunidade que se lhe segue. E, também, a forma como todos vamos encolhendo os ombros a cada notícia sobre corrupção. Concluindo: Portugal é um país sem tomates.

 

 

A encruzilhada do PSD


oanonimoanonimo,

Nas últimas eleições internas do PSD, votei em Pedro Passos Coelho. Digamos que não foi um voto pela afirmativa, mas, sobretudo, por exclusão de partes. Conheço mal PPC, nunca falei com ele, já ouvi sobre ele os maiores elogios e já ouvi sobre ele que não passa de um Sócrates de segunda. Manuela Ferreira Leite não me apetecia (muito menos os barões emproados que a empurravam) e Pedro Santana Lopes – sobre quem tenho melhor opinião do que a generalidade das pessoas – estava ainda muito fragilizado pela derrota eleitoral contra Sócrates.

Como candidato de "facção", pareceu-me que PPC era o que melhor se adequava a ir a eleições, ainda que fosse para perder, porque marcava um corte geracional no PSD.

O PSD perdeu as eleições. E perdeu-as por culpa própria. Manuela Ferreira Leite não era uma boa candidata a primeiro-ministro. Os barões do PSD que a apoiavam mostraram a sua incapacidade para perceber que há um PSD da carne-assada sem o qual não se ganha eleições. E o cavaquismo ajudou à festa.

Pelo meio, foram sendo triturados líderes. Durão Barroso foi andando, Santana Lopes ficou com o menino no colo e deitou-o fora com a água do banho, Marques Mendes não conseguiu impor-se, ao mal-amado Menezes deu-lhe aquela coisa e veio embora. Muitas trapalhadas em pouco tempo. E Paulo Portas a somar, como se viu nas últimas legislativas. Que é como quem diz, a tentar partir a espinha ao PSD.

Enquanto isso, dentro do PSD não há apenas adversários – há inimigos figadais que dificilmente se sentarão na mesma mesa, a não ser se for para distribuir poder. Um poder que não há, nem se vislumbra. PSD, por isso, na encruzilhada. E, assim, a equação parece ser simples: ou encontra uma solução de liderança o mais federadora possível, que garanta a sobrevivência do PSD como maior partido da oposição, ou dificilmente sobrevive a mais uma guerra de facções.

Creio que é precisamente isso que Marcelo Rebelo de Sousa pretende dizer com a sua linguagem cautelosa. Não haverá, neste momento, no PSD, figura que possa federar mais. E quem não perceber isto, arrisca-se a ser o liquidatário da loja. A não ser que, entretanto, Sócrates se suicide. E, aí, tudo pode acontecer – basta estar lá. Mas esperar pelo acaso pode ser fatal. Para o PSD. Porque, para o país, nem sei bem: talvez não fosse mau de todo que o regime partidário se reorganizasse. À esquerda e à direita.

 

 

O ser e o ter sido


oanonimoanonimo,

Há uns anos, num exercício de pura retórica, alguém perguntava-me se eu tinha a ambição de ser ministro. Respondi, com o ar mais sério do mundo, que a minha grande ambição era ser ex-ministro. O meu interlocutor ficou com ar mais ou menos aparvalhado com a resposta, indeciso entre o ter percebido ou não. Agora deve ter percebido. O problema é que, às tantas, o homem, ao perceber, ainda fica a pensar que eu sou desonesto.

Um “malhador” na Defesa


oanonimoanonimo,

Há dias, em debate televisivo, ousei afirmar que Augusto Santos Silva não seria o novo ministro dos Assuntos Parlamentares. Sem maioria e perante a necessidade de fazer "pontes" no Parlamento, seria pouco provável que Sócrates mantivesse na função o homem que afirma gostar de «malhar na direita». Confirmado: de acordo com o Público, Jorge Lacão é o novo ministro da pasta e Santos Silva transita para a Defesa Nacional. Estremeço. Entregaram as armas todas ao "malhador"… 

Ainda os Independentes


oanonimoanonimo,

Concordo com quase tudo o que o Carlos Barbosa de Oliveira diz, logo abaixo, sobre os Independentes nas candidaturas autárquicas. Até nos casos concretos que apontou, mesmo quando os visados são pessoas por quem tenho estima. Mas, tal como ainda ontem à noite referi no ‘Porto Canal’, quem adere voluntariamente a um partido não tem o direito de se candidatar contra ele e fazer de conta que não aconteceu nada.

Ainda assim, há que distinguir, aqui, dois planos. Em Matosinhos, nada – a não ser a obsessão de continuar a ser o "Senhor de Matosinhos" – justificava a candidatura de Narciso Miranda contra o seu sucessor e camarada e compadre Guilherme Pinto. Em Valongo a situação é outra: Maria José Azevedo foi, em 2005, a candidata do PS à Câmara de Valongo, teve um excelente resultado e um bom desempenho como vereadora da oposição. Natural seria, por isso, que as estruturas do PS lhe renovassem o voto de confiança. Creio, aliás, que se Maria José tivesse sido a candidata do PS, poderia, desta vez, ter a vitória assegurada, contra um desgastado Fernando Melo (PSD).

Se no caso de Matosinhos talvez não houvesse nada a fazer, no caso de Valongo a história é outra. As estruturas concelhia e distrital do PS denotaram manifesta inabilidade ou, então, foram determinadas por motivos que nos escapam. E que têm a ver com a lógica da "mercearia" partidária – essa coisa pérfida que inquina a democracia.

Não gosto de Fátima Felgueiras, pronto


oanonimoanonimo,

Peço imensa desculpa, mas tenho que lhes dizer que não gosto de Fátima Felgueiras. E não é por aquilo que eu sei que estão a pensar. Não gosto da senhora, porque ela, que não me conhece, é dada a estragar-me o efeito. Em 2001, quando fui candidato à Câmara de Marco de Canaveses, contra Avelino Ferreira Torres, eu tentava atrair a atenção do media para o facto do meu adversário estar pronunciado por crimes praticados no âmbito das suas funções políticas (e acabou condenado), e ninguém me ligava nada, preocupados, todos, com as trapalhadas da senhora. Durão Barroso, então líder do PSD, passou por essa altura pelo Marco e, em vez de falar de Avelino, falou… de Felgueiras. Eu sei que lhe era difícil falar contra um autarca que então era do CDS, partido com quem viria a coligar-se pouco depois. Mas ainda assim… Não gostei e disse-lho, logo aí, era Novembro e Luís Filipe Menezes, que fazia anos e também estava, era líder distrital do Porto.

Oito anos depois, a senhora voltou a pregar-me uma partida. Domingo à noite, completamente embalado na minha função de mandatário de Manuel Moreira (presidente da Câmara do PSD na Câmara do Marco), à espera da vitória da noite – a vitória contra um regressado Ferreira Torres -, aquela que iria demonstrar ao país que o Marco voltava a ser uma terra normal e que o país ainda tem emenda, eis que sou surpreendido com um telefonema lapidar que me diz que Fátima perdeu Felgueiras. Percebi logo: os holofotes já não seriam do Marco.

O lado bom da história é que não foi apenas um – foram dois os que cairam. Trambolhão. A ruralidade teve juízo. A suburbanidade, nem por isso e Valentim lá prossegue em Gondomar, enquanto, em Oeiras, supostamente concelho de excelência, revigora Isaltino. Há qualquer coisa aqui que não bate bem. 

Papo legal (ou é bonita a festa, pá)


oanonimoanonimo,

Consta por aí – que eu não leio jornais, nem blogues, nem coisa que me faça perder mais do que cinco minutos – que houve um golpe-de-estado-institucional por causa de uma coisa de escutas em órgãos de sobreania, de espionagem via internet, que meteu demissões de fidelíssimos assessores à mistura, declarações solenes do PR, resposta violenta do PS à declaração solene, comentários de comentadores que avisavam para coisas más, tal como o fim do regime ou, pelo menos, uma guerra civil latente. Nada. Nada disso. Os lados conflituantes conversaram durante 45 minutos. E disse Sócrates que foi uma conversa "boa". E disse Cavaco também que sim, que a conversa foi "boa". Tudo na maior, portanto, o pessoal preocupou-se à toa, a conversa foi "boa". Coragem, meus amigos. E optimismo. Tudo como dantes. O país? Ora, que interessa isso, quando a conversa é "boa"? Por falar nisso: alguém a escutou?

 

(recordo-me que, em 25 de Maio, no Tribunal de Vila verde, confidenciei a uma colega de profissão, que o caso ia andar assim. Troca de cromos: freeport, BPN, submarinos, Cova da Beira, and so on. O bloco central dos interesses em movimento – uma desgraça.)