Carta da minha sobrinha


Luís Naves,

Carta da minha sobrinha-neta Flora, escrita em 2100, enviada pela máquina do tempo que ela mesma inventou, na sua primeira experiência. A carta apareceu-me hoje assim, manuscrita, na minha secretária:

«Querido tio, gostava que aqui estivesses, para poderes ver o meu mundo, tão diferente daquele que imaginaste. Não posso dizer que somos todos mais felizes do que no teu tempo, pois isso seria exagero e mentira, mas vivemos numa sociedade que, apesar dos seus defeitos, é mais justa do que aquela que conheceste, mais rica e progressiva, mais otimista e segura. Somos mais sábios? Não me parece, mas sabemos mais coisas, o que não é o mesmo. Os problemas da tua época não têm a mesma forma na minha, mas persistem neste tempo alguns dos defeitos menores da nossa espécie, a inveja, desprezo, medo, ambição e os chamados erros humanos em geral, que resultam das fraquezas correntes e que seria apesar de tudo uma grande pena perderem-se pela inevitável e progressiva modificação da nossa natureza. É talvez o problema que mais nos apaixona: até que ponto queremos manter a natureza humana, prolongar a vida, aumentar as nossas capacidades mentais e físicas, incluir uma parte maquinal nos nossos corpos, viver em comunidades de consciência alargada, entre outras amplas possibilidades tecnológicas que dificilmente poderias entender. Os meus pais ensinaram-me a gostar e cuidar de pessoas e assim vivi todos estes anos, já não vou mudar, embora me preocupe a longevidade e, claro, tudo farei para atrasar o meu próprio envelhecimento e a miséria da decadência. Tenho 82 anos, o que nesta época ainda é ser jovem, por isso viverei mais umas décadas. No ano em que nasci, em 2018 (lembras-te quando me pegaste ao colo?) sei pelos teus apontamentos que imaginaste um futuro com viagens mais velozes, energia abundante, gente em demasia, crises sociais e poderes oligárquicos. No fundo, olhavas para a tua realidade e pensavas como ela iria evoluir através de mais do mesmo: haveria aviões, mas mais rápidos, computadores mais pequenos, pessoas mais saudáveis, conflitos com mais fogo-de-artifício, um capitalismo mais selvagem. Não aconteceu exactamente assim, houve saltos súbitos e mudanças profundas, sobretudo quando acabaram os combustíveis fósseis e descobrimos a forma de viajar entre as estrelas e de construir autómatos capazes de fazer todo o trabalho mecânico. Não, não concluas que somos indolentes e preguiçosos, dispomos de um exército de escravos robóticos, mas cada indivíduo pensa em ser útil e, na realidade, vivemos uns para os outros, mergulhados em fantasias e na busca da felicidade, já nos libertámos da ideia de utilização finita de recursos (usamos sempre menos do que está disponível), explorámos outros sóis na galáxia e levámos connosco o esplendor da vida, com nova compreensão da mortalidade e melhor entendimento do universo. Tudo aquilo que entre nós te poderia horrorizar (as experiências de mente colectiva, por exemplo, ou a minha máquina do tempo), possui também alguma coisa de milagre; as nações diluíram-se e as culturas misturaram-se, não há fronteiras (excepto em alguns locais que escolheram manter-se isolados), temos mais liberdade e tolerância. Pensarias porventura que, para as nossas idades, somos infantis, ingénuos e demasiado irreverentes, certamente ficarias surpreendido com a sofisticação artificial e algo pedante das conversas que mantemos à hora do chá. Talvez te fizéssemos rir e talvez nos ríssemos de ti, meu tio-avô, que estás tão sério neste velho retrato da tua meia-idade, uma imagem diluída que tenho à minha frente e me leva, através da espessa névoa que cobre o oceano do tempo, a vagas memórias da tua existência.

Para que se preserve a minha sanidade, peço encarecidamente…


Luís Naves,

Tenho andado a preparar-me mentalmente para resistir aos disparates e alarvidades que vou ler e ouvir nos próximos dias sobre as eleições legislativas húngaras, que se realizam no domingo. Para que se preserve a minha sanidade mental, peço a todos os que quiserem escrever sobre o assunto que, por favor, não tratem o senhor George Soros por milionário filantropo e benemérito, mas por aquilo que ele é, financeiro e especulador. Peço por favor que não considerem o Jobbik como mais um partido democrático, mas que o definam como partido de extrema-direita, anti-semita e anti-cigano. Peço por favor a todos os que quiserem escrever sobre este assunto que não considerem o MSzP como um simples partido socialista, mas como o herdeiro do antigo partido único e actualmente baluarte do pós-comunismo. Peço também a todos os analistas que admitam por um instante os bons resultados económicos do governo do Fidesz, o carácter liberal da economia, o desemprego mínimo e a situação muito razoável da classe média. E, por favor, não escrevam que as fronteiras estão seladas, pois no ano passado, mais de três mil migrantes pediram asilo, dos quais mil conseguiram estatuto de refugiado. Considerem por um instante que a explicação para a vitória mais que provável do governo se deverá não à falta de democracia, mas à falta de oposição credível. Grande parte da crise política está nos socialistas, que não se livram do código genético da era comunista e que chegam a admitir aliar-se ao Jobbik para governar (a geringonça ao quadrado). Admitam por um segundo que o PM Viktor Orbán é um excelente orador e político carismático, genuinamente popular, que conquistou a direita e o centro eleitoral: provavelmente, só quando o seu partido se dividir em dois haverá verdadeira oposição e acredito que isso possa acontecer nos próximos quatro anos. Por favor, não repitam a asneira do governo ser anti-europeu ou de não haver instituições e liberdade de imprensa. Não insistam na lenda absurda de Orbán ser pró-Putin e rejeitem as interpretações parvas que comparam a Hungria com o regime turco ou com a Rússia. Tentem compreender a amizade da Hungria com a Polónia, que é um velho assunto, e procurem entender que são antigas muitas das coisas que ali se passam.      

O problema da teoria


Luís Naves,

Confesso que fiquei um pouco perplexo com este post de Luís Menezes Leitão. Embora a conversa não seja comigo, não resisto a um pequeno comentário: quando a lógica de uma teoria nos leva a conclusões absurdas, talvez exista um problema com os pressupostos da teoria. É muito duvidosa a frase do autor segundo a qual «no regime fascista português havia absoluta separação de poderes». Os juízes eram independentes? Os deputados do partido único legislavam com liberdade? A polícia política cumpria a lei? A censura deixava passar as notícias? Acho que todos os poderes do regime obedeciam a Salazar, mas de resto a discussão é tão ao lado da questão catalã, que nem vale a pena insistir no tema. Em relação à definição «preso político é aquele que é colocado numa prisão por defender as suas convicções políticas» estamos em território verdadeiramente virgem, pois isto transforma qualquer terrorista amador num futuro preso político. Parece haver um problema sério com esta definição pois, sem qualquer ambiguidade, alguém detido por auxiliar o Estado Islâmico será condenado devido às suas convicções e obviamente todas as leis anti-terroristas servem para reprimir ideias políticas. Nem entro nas comparações entre a Espanha da Guerra Civil e a Espanha democrática, basta apenas reflectir no seguinte: se a Espanha tem presos políticos, então não é uma democracia; se não é uma democracia, não cumpre os critérios que lhe permitem ser membro da UE e deve ser imediatamente afastada do clube. Portugal deve denunciar a Espanha e aceitar receber refugiados catalães em fuga da perseguição. Aliás, é estranho que a Alemanha se prepare para extraditar Carles Puigdemont, que não devia ser extraditado por um país democrático para se tornar preso político numa ditadura. Enfim, talvez não haja separação de poderes na Alemanha, ou algo assim.  

Sobre o orçamento europeu


Luís Naves,

Instalou-se finalmente um mini-debate sobre o próximo pacote de fundos comunitários (para sete anos), que os líderes europeus vão discutir nos próximos dez meses e que entra em vigor em 2021. O que desencadeou a conversa foi uma proposta, apresentada como sendo de António Costa (na realidade, é tirada a papel-químico das ideias da comissão e do parlamento) de aprovar três impostos europeus, sobre economia digital, empresas poluentes e transacções financeiras. Ao aderir tão de perto a ideias que já circulam, Portugal reduz a sua capacidade negocial, não terá cedências e aceita tudo o que vier da negociação. O Brexit implica uma quebra nas receitas: sem o contribuinte líquido Reino Unido, haverá menos dinheiro para distribuir pelos países que recebem mais do que pagam. Tendo regiões acima de 75% do rendimento médio per capita, Portugal terá menos dinheiro do que nos anteriores pacotes, pois as verbas tenderão a beneficiar os países de leste, mais pobres e que prometem negociar com dureza. Além disso, o essencial do orçamento comunitário sustenta a agricultura, sobretudo a francesa, sendo pouco provável que esse bolo se reduza sem resistência da França. A saída dos ingleses equivale a 10% das verbas, portanto, só há duas soluções: impostos europeus ou aumento da percentagem que cada país paga, de 1% do PIB para pelo menos 1,1%. No segundo cenário, os países contribuintes líquidos vão exigir qualquer coisa em troca. Por seu turno, a ideia de impostos que Lisboa apoia tem vários problemas. O da economia digital visa multinacionais americanas e terá a devida retaliação comercial de Washington (pode fazer enormes estragos); o das transacções financeiras contradiz a ambição de franceses e alemães de absorverem parte do negócio da City de Londres, no mundo pós-Brexit; e o das empresas poluentes é pago pelos países mais atrasados da União, aqueles que precisam de fundos exactamente para acabar com as empresas poluentes. Ou seja, tudo aponta para o futuro aumento da contribuição dos países e Portugal, com os seus crónicos problemas orçamentais, vai provavelmente pagar mais para os cofres europeus, recebendo menos das políticas comunitárias (é preciso não esquecer que as contribuições nacionais, calculadas em função do PIB per capita, representam 70% das receitas). A alternativa ao aumento da contribuição nacional será a redução de todos os programas europeus, a começar pela agricultura, que absorve 40% dos 140 mil milhões de euros anuais do orçamento. Haveria ainda a hipótese de diminuir as ambições da UE, mas os líderes pretendem avançar na direcção oposta, querem adicionar segurança e migrações a uma longa lista de programas comunitários onde constam energia, emprego, formação, alterações climáticas, ajuda externa, inclusão social, inovação, ciência, entre muitos outros. Em resumo, entramos na fase intensamente política, onde o interesse nacional será determinante. Nos próximos meses, a UE terá de fazer uma escolha estratégica, se quer ou não ceder mais poderes e dinheiro à estrutura supranacional.

Blogue da semana


Luís Naves,

Escrever com simplicidade e autenticidade é mais difícil do que parece. Luís Milheiro consegue reunir estas duas qualidades em Largo da Memória. Há ali um bocadinho de nostalgia, de solidão, mas no fundo estamos perante uma realidade muito portuguesa, o retrato de uma comunidade e as observações genuínas de alguém que vai flutuando um pouco ao sabor do rio que passa. Largo da Memória (que belo título) é a minha escolha para blogue da semana.

Panfleto inútil sobre tema muito discutido


Luís Naves,

Luís Menezes Leitão tem razão quando escreve, mais abaixo, que a União Europeia pratica uma política sistemática de dois pesos e duas medidas. Pois é, mas vamos circular, não há nada de novo para ver. Dito isto, é evidente que a UE não possui qualquer poder para sancionar um país por este cumprir a sua Constituição, como é o caso da Espanha, sendo também verdade que as sanções que pretende aplicar à Polónia não têm por objectivo repor qualquer tipo de legalidade, mas pressionar um governo a cumprir uma determinada linha política. As sanções não serão aprovadas, mas com um bocadinho de sorte um governo eleito pode ser substituído por outro (digamos) mais civilizado.
E preciso não levar muito a sério o artigo do Público citado no post do Luís, pois está repleto de interpretações que considero erradas. Já tentei escrever sobre isto antes, é inútil o esforço, inútil repetir que não existe nenhum regime autoritário na Europa de Leste, nem democracias iliberais, como escreve o autor do Público, há apenas tigres de papel. Existe uma luta pelo poder na Europa, uma luta para ocupar o vazio deixado pelos britânicos. Surgem igualmente interesses que defendem a urgência de se avançar com o projecto federal liderado pela França e pela Alemanha, projecto sobre o qual sabemos pouco e que nos será apresentado chave na mão, sem verdadeiro direito a voto. Os meios de comunicação prometem ficar excitadíssimos, dirão que é uma coisa genial para salvar a Europa, e as coisas estão mais ou menos decididas.
Estamos sobretudo a assistir a uma mudança significativa do modelo da União. Até agora, a UE foi uma aliança de nações. No futuro, os federalistas dirão que os seus «valores europeus» são incompatíveis com os nacionalismos. A preparar o terreno, eles têm feito a distinção entre patriotas e nacionalistas (como se fossem dois conceitos, não dois sinónimos), olham com simpatia para movimentos secessionistas conduzidos por elites razoáveis, como parece ser o caso dos catalães, levados ao colo pela imprensa oficial da Europa, a mesma que repete em cada parágrafo essa irritante treta dos «regimes iliberais» do Leste.
O facto é que as pessoas que escrevem sobre o leste da Europa já esqueceram que estes países saíram de ditaduras totalitárias e que ainda têm as mesmas pessoas lá a viver, não houve ajuste de contas com a História, há sistemas políticos crispados (a esquerda e a direita odeiam-se mesmo a sério) e nunca tiveram juízes independentes, pois os juízes eram parte do sistema de repressão e depois foram parte do sistema de corrupção (não todos, claro). Os cidadãos destes países acham que foram abandonados e traídos várias vezes pelo Ocidente e ficam doidos, de bigodes revirados, quando ouvem aquelas tiradas condescendentes de que até estão a receber umas massas e, apesar de tanta generosidade ocidental, não são nada solidários com quem os ajuda. A Polónia conservadora, em particular, é acusada de querer rever a sua história; mas em que parte? Será nos genocídios nazis, nas violações soviéticas, no holocausto, na resistência católica, na ditadura comunista ou na roubalheira da transição? A discussão sobre os refugiados esquece sistematicamente um pequeno detalhe: os países de Visegrado foram vítimas do uso de uma cláusula passerelle num conselho europeu e forçados a obedecer à maioria num tema que devia ser de unanimidade e que eles olham com alarme (esqueçam o que leram nas narrativas míticas sobre o assunto e tentem ver o ponto de vista do atropelado pelo camião TIR).
Voltando ao post de Luís Menezes Leitão. A UE tem dois pesos e duas medidas. É um facto. Sempre foi assim, pois a União é uma aliança de potências que nunca foram iguais. Ao longo do próximo ano, a UE vai negociar um pacote financeiro para o qual tem menos dinheiro (os britânicos estão de saída e há um buraco de 15% nas verbas). Desde já, temos dois grupos: os que pagam mais do que recebem e os que recebem mais do que pagam. Os fundos estruturais, que servem como compensação para países mais pobres pela abertura dos seus mercados ao comércio livre vão na realidade ser usados como moeda de troca: não há solidariedade em relação aos refugiados, então, dizem os alemães, também não há dinheiro para compensar o mercado comum. Esta será uma conversa política que só serve de pressão, não pode ir demasiado longe, por ser contra os tratados e haver potencial para rupturas na união, mas as opiniões públicas já estão a ser trabalhadas, quer nos países que recebem, quer nos que pagam.
Ou seja, tudo isto é sobre distribuição de poder (o Grupo de Visegrado quer uma fatia maior do bolo político europeu), é sobre dinheiro, é sobre migrações (Polónia e Hungria querem resolver o problema demográfico atraindo étnicos da sua nacionalidade). Isto não tem nada a ver com juízes ou constituições, tem a ver com nações que se sentem ameaçadas pelas potências dominantes. Há países que não cedem na defesa dos seus interesses e têm de ser disciplinados. Por outro lado, a Europa tenta avançar com um projecto político onde as nações terão menor espaço, um projecto onde não cabem os nacionalistas (os mais assanhados, polacos e húngaros, caem na categoria de xenófobos), um projecto que não se resume aos mercados livres que os britânicos defenderam, mas a verdadeira convergência (a iliberal Hungria tem um IRC de 9%, que Macron já criticou, por achar muito baixo). Haverá harmonização fiscal e os parlamentos nacionais vão perder parte dos seus poderes orçamentais.
Então, o que é que a Polónia tem a ver com a Catalunha? O caso catalão mostra-nos o que poderá acontecer às nações que não contam: a Espanha será uma manta de retalhos, como provavelmente a Itália acabará por ser (um governo com Berlusconi, Liga Norte e ainda uns ultra-nacionalistas promete travar os populistas). A Polónia quer evitar a menorização, vê-se como grande nação regional, defensora da civilização cristã, num patamar semelhante ao da França. A Polónia delira, a Espanha apanhou gripe catalã, a Itália, essa, está na mesma.
E, mesmo assim, há uma agitação no Danúbio. Em vez de aceitarem a generosidade alemã, os países de Visegrado querem resistir e juntam-se num clube que lembra cada vez mais o império Habsburgo, lembram-se? aquele que acabou em Sarajevo. Ao mesmo tempo, o caso catalão, sendo um exercício de alta criatividade artística dos seus dirigentes, está a dar ideias. Já ouviram falar da impronunciável Szekely Fold e da resposta que deu o PM romeno? Claro que não. E há mais micro-regiões que até agora só existiam em mapas obscuros desenhados nas húmidas catacumbas do castelo de Kafka.
Em resumo, e termino, a Europa não se sabe bem para onde vai, mas vai levada por elites que já não querem ouvir as suas próprias populações. Os catalães votaram, mas serviu para alguma coisa? Os polacos também votaram, mas ninguém quer saber. Os alemães votaram em Outubro e disseram que os social-democratas iam para a oposição, e que vemos, os populistas lideram a oposição? As eleições na República Checa, onde venceram os populistas, já deram em governo? E em Itália, votar servirá para alguma coisa? E na Hungria, onde Orbán tem sondagens a dar maioria qualificada, vão dizer que não conta? Não, votar já não serve para nada, nós estamos a ser dirigidos pelos 32% da CDU alemã e pelos 35% (se não me engano) do movimento de Macron na primeira volta das legislativas francesas. Só há coligações negativas, grandes entendimentos entre derrotados, geringonças e minorias. É disto que estamos a falar: votar já não conta.

Teoria da domesticação


Luís Naves,

Instalou-se aos poucos a ideia perversa de que os jornalistas têm de ser bacteriologicamente puros, um pouco como acontece com os eunucos no harém, não lhes sendo permitida a opinião, a tendência, a defesa de uma causa ou a simples frontalidade, estando aberto somente o caminho da intriga e da dissimulação. Segundo esta tese, as notícias não têm preferência, como se houvesse fórmulas matemáticas para a sua escolha, como se o jornalista fosse despido de emoções, como se ele não tivesse o direito e até a obrigação de defender, por exemplo, a justiça e a liberdade. Em vez da prosa sem alma, o trabalho do jornalista consiste em estabelecer a relevância relativa dos factos e depois, tentar ficar o mais próximo possível de uma leitura autêntica do mundo, ou seja, contando a história com um máximo de honestidade e espírito livre. Quem não compreenda que o jornalismo é sempre uma versão da realidade acredita no futuro do jornalismo burocrático, supostamente equidistante de tudo, embora a equidistância de tudo seja um lugar inexistente. Claro que há na profissão quem confunda relevância com militância, mas fazer propaganda ideológica nunca teve nada a ver com jornalismo e os leitores têm sempre a liberdade de mudar as suas fontes de leitura. Ou seja, a crítica ao jornalismo de causas baseada em exemplos de acção militante é um tiro ao lado e transforma-se facilmente na defesa da escrita dependente e funcionária que os poderes desejam e que os leitores rejeitam. Esta teoria da domesticação dos meios de comunicação é o velho sonho das oligarquias e a polémica sobre as chamadas fake news não passa de mais um episódio sofisticado desse combate. Têm surgido pequenas tentativas de limitar noticiários ou de legislar sobre o tema, supostamente para aniquilar as chamadas notícias falsas, cujos exemplos, muitas vezes, não passam de interpretações inconvenientes. As elites acham o público estúpido e acreditam que ele necessita de condução inteligente, serão obviamente essas vanguardas políticas a decidir sobre a pureza dos noticiários. A fragmentação mediática (que tem complexos motivos económicos e tecnológicos) ainda está na sua infância e tornou mais difícil a tarefa de colocar mensagens do poder. Governar é hoje mais incerto e a opinião pública está mais dividida, mas a realidade é a inversa daquela que se discute: as fake news são tão velhas como a imprensa, pois sempre houve boatos, desmentidos e manipulação; o que é novo na comunicação contemporânea é a impossibilidade crescente de se esconder informação do público.

Pensamento da semana


Luís Naves,

“A riqueza nunca perdeu a menor ocasião para se mostrar estúpida”. Esta frase de Honoré de Balzac, retirada do romance A Prima Bette, mantém toda a sua actualidade nestes tempos hipócritas e frívolos.

 

O pensamento do grande escritor francês acompanhou os leitores do Delito durante toda esta semana

Quando todos perdem


Luís Naves,

As declarações bombásticas do ex-presidente exilado fazem temer o pior e permitiram camuflar uma circunstância que nunca vi em eleições democráticas: todos os partidos perderam. Ciudadanos foi a formação com mais votos, 25,3%, mas os seus 37 deputados dificilmente permitem liderar o governo autonómico. O poder irá certamente para a geringonça do segundo e terceiros mais votados, cujas derrotas são apesar de tudo subtis: Juntos pela Catalunha teve 21,6% e elegeu 34 deputados, mas é uma pálida sombra do partido nacionalista de centro-direita que dominou a política catalã nos últimos 40 anos e que se habituara a maiorias absolutas; os republicanos da ERC tiveram 21,4%, mas falharam o objectivo de ultrapassar o seu parceiro da direita. Para formar governo, estes dois partidos precisam dos anti-capitalistas da CUP, que quase desapareceram, e serão mais uma vez a muleta da burguesia, tudo em nome do independentismo que, em conjunto, não somou os necessários 50% de votos e que está longe de formar um bloco unido. Se os soberanistas não têm maioria nas urnas, os constitucionalistas perderam as eleições em número de deputados e com todas as letras, sobretudo os socialistas (com mais um eleito, mas estando este partido transformado numa pálida sombra do passado) e os populares, que governam em Madrid e parecem extintos na Catalunha. Também o Podemos catalão foi vítima do voto útil e os seus 8 deputados não deverão servir para coisa alguma, tendo portanto fracassado a estratégia que colocaria o partido numa posição indispensável para um dos blocos. Ontem, perdeu a Espanha, pois a crise constitucional é agora uma distracção para meses ou até anos, com impacto económico e político, com a possibilidade concreta da Espanha se estilhaçar nesse caminho das pedras. Perdeu a Catalunha, pois a sociedade está fracturada e a reconciliação será, na melhor das hipóteses, lenta e difícil. Perdeu Portugal, porque está demasiado perto desta crise espanhola. Perdeu a Europa, pois haverá aqui ampla inspiração para libertar o veneno das nações que se julgam oprimidas. E sobre o futuro, só há perguntas angustiantes: os independentistas vão tentar governar a Catalunha ou avançam para a ruptura? Os líderes são presos à chegada ou não se aplica a Constituição? As empresas catalãs vão continuar a sair da região? A monarquia é extinta? E qual será a reacção dos mercados? E da Europa? Qualquer observador conclui que é preciso negociar uma nova constituição ou um novo estatuto autonómico, mas isso é possível com o actual elenco de partidos e dirigentes?

Outra vez na linha justa


Luís Naves,

A eleição de Mário Centeno no Eurogrupo está a ser aproveitada pelo governo para o habitual estardalhaço propagandístico que acompanha as suas pequenas vitórias, mas a partir de agora torna-se mais difícil esconder a esquizofrenia da combinação política que nos governa. Centeno não terá poderes para contrariar a ortodoxia financeira na zona euro, pelo contrário, será ele a anunciar as medidas necessárias para garantir o cumprimento do Tratado Orçamental que regula a relação entre os países da moeda única. O próximo ano é decisivo para negociar os fundos comunitários após 2020, mas convém não perder de vista que desaparece a contribuição britânica e haverá menos dinheiro para distribuir. Portugal tem vantagem em aderir ao cumprimento estrito das regras (redução do défice estrutural) e o presidente do Eurogrupo será relevante na negociação da futura arquitectura da zona euro, que precisa de novos mecanismos para impor a disciplina aos Estados. O Conselho Europeu tem o exclusivo das decisões relevantes sobre essas reformas e, dentro do Conselho, o directório de potências (que escolheu o ministro português). Enfim, não muda nada lá fora, mas muda qualquer coisa cá dentro, pois Centeno terá poderes comparáveis aos de Vítor Gaspar. O PM não o pode demitir ou substituir, sob pena de arranjar um trinta-e-um nos mercados e perder uma posição europeia. A influência interna do ministro aumenta, pois invocando a sua qualidade de presidente do Eurogrupo, terá força para impor metas ambiciosas na redução da despesa e defender maior ousadia na diminuição da dívida, o que não foi possível nas circunstâncias da geringonça. O governo minoritário é capaz de viver com isso, mas o apoio parlamentar dos partidos de esquerda pode sofrer. A dois anos de eleições, a confiança entre os parceiros não será a mesma: com uma simples nomeação, a Europa conseguiu recolocar Portugal na linha justa.

Os vulcões adormecidos


Luís Naves,

Quem viveu durante a primeira metade do século XX habituou-se a esperar a violência, a desconfiar da longevidade da paz e a temer as ameaças existenciais da sua época. O nosso tempo parece ser diferente, habituámos-nos ao rumor profundo dos vulcões, mas eles não nos preocupam, pois julgamos que estão adormecidos. Em vez da decadência que destrói o passado, somos do esquecimento que idealiza o presente. Vivemos na cultura do efémero, no gosto superficial que rejeita o que pareça antigo. Na cultura, triunfou a frivolidade. As castas políticas desprezam os eleitores e falam em nome do povo, as ideologias foram substituídas pelo consenso pragmático, que ocupa o centro bacteriologicamente puro, em oposição às franjas, onde se instalaram lunáticos, deslumbrados e populistas. Os sensores da economia dão os sinais mais fortes da fúria que se acumula nas profundezas da sociedade: o poder salvou os bancos, mas nunca se preocupou em salvar as indústrias que empregavam os trabalhadores pouco qualificados; os operários quase desapareceram e competem hoje com emigrantes e refugiados por empregos precários e serviços públicos subfinanciados. Os migrantes apareceram numa altura em que se precisava de mão-de-obra conveniente, foram recebidos pelas elites com flores e beijos, mas não têm ainda o direito de trazer as suas famílias. Além do rumor dos povos em marcha, é possível ouvir outros sons dos vulcões adormecidos: os robôs que dão pulos, os tiranos com mísseis, os inquisidores e novos episódios de caça às bruxas, o trovão dos gelos em colapso, as guerras autênticas que não interessam. Este é um mundo onde a solidariedade paga imposto e os milionários estão entre os grandes arautos da moralidade. Este é um mundo onde o que se diz hoje não é válido amanhã. Este é um mundo que perdeu a alma e ainda não encontrou outra, que perdeu as nações e raízes, as línguas e até as sementes, que apaga o que é velho. Este é um mundo aparentemente fragmentado, mas que tende para a convergência e para o conformismo, onde tudo o que interessa é ditado de cima e se torna igual para todos, a cultura de massas, o consumo desenfreado ou o consenso mole na política.

Os espanhóis são parecidos com os portugueses; nós somos mais franceses


Luís Naves,

Um dos elementos bizarros da crise política na Catalunha é a retórica dos independentistas radicais sobre a Espanha, como se esta fosse uma nação repressora e autoritária, atrasada e pobre, que a desenvolvida e avançada nação catalã arrasta como um fardo. Existe outro lado, talvez ainda mais sinistro e demagógico: estas ideias científicas do líder republicano Oriol Junqueras, numa polémica de 2008, são bem o espelho do que verdadeiramente pensam alguns destacados separatistas. O líder republicano catalão estava convencido de que pertencia a uma raça de certa forma superior. Também se entende o que ele pensava dos portugueses, esses pequenos trogloditas tão semelhantes aos bárbaros espanhóis (leiam o último parágrafo). A crise política catalã está a ser interpretada por alguns dos nossos intelectuais como uma coisa democrática e engraçada, de umas pessoas sofisticadas que querem o direito ao voto, apesar de vermos em cada dia exactamente o inverso. A esquerda continua a usar dois pesos e duas medidas em relação aos nacionalismos: há quem possa ser nacionalista, racista e burro, tudo ao mesmo tempo, sobretudo se estiver a lutar contra a liberdade; já defender o Estado de Direito e, em simultâneo a nação, isso parece ser repressivo e perverso. As democracias já perderam e isto é apenas o início de um movimento populista que visa a fragmentação acelerada da Europa, que se pode partir numa galáxia de micro-Estados.

Vitória amarga


Luís Naves,

As sondagens à boca das urnas apontam para uma surpresa relativa nas eleições legislativas alemãs: o resultado da grande coligação que estava no poder é péssimo, o pior de sempre; somados, os dois grandes partidos do bloco central alemão (CDU, SPD) terão pouco mais de 53% dos votos, menos 14 pontos percentuais do que em 2013. A extrema-direita populista entra no parlamento quase a triplicar a votação anterior, quando falhou por um triz a barreira dos 5%. A fragmentação do novo parlamento obrigará a chanceler Angela Merkel a uma coligação potencialmente instável, que exigirá longas negociações, provavelmente a chamada coligação Jamaica, que incluirá cristãos-democratas, liberais e verdes. A confirmarem-se os resultados (e falta a contagem de deputados), a Alemanha terá um governo complicado, com dois pequenos partidos minoritários que discordam entre si em numerosos assuntos, além de uma oposição feroz.
As sondagens falharam, os analistas e os políticos subestimaram o descontentamento popular, a imprensa deixou de entender os verdadeiros sentimentos da opinião pública (e nem quer saber). A bolha em que vivem as elites políticas começa a ser perigosamente distante da realidade em que vivem os desfavorecidos. Na sondagem à boca das urnas que a BBC está a usar, a CDU terá apenas 33% e o SPD foi cilindrado. O voto de protesto (AfD e Linke) soma quase um eleitor em cada quatro, o que parece ser uma proporção enorme para um país em excelente situação económica.
Nos últimos meses, houve entre os comentadores uma espécie de euforia europeísta. Segundo essa narrativa, estava tudo a correr maravilhosamente, sob a batuta da nova líder do mundo livre; os indicadores favoráveis demonstravam que era possível avançar com as utopias de federalismo europeu. Todos os discursos esqueceram os eleitores, esse pequeno detalhe. Afinal, o descontentamento dos perdedores da globalização não desapareceu, há muitas pessoas que recusam as ideias internacionalistas e que olham com desconfiança para o que consideram ser a diluição da sua identidade. Merkel teve uma vitória escassa e a Alemanha entra num período de política mais crispada. Será também interessante observar amanhã a reacção dos mercados, se começa ou não a reinstalar-se algum nervosismo.

 

O problema não é o sonho


Luís Naves,

Tenho dificuldade em perceber os duplos critérios da esquerda bem-pensante. Os nacionalistas polacos e húngaros são péssimos, já os nacionalistas catalães são espectaculares. Um país considerado mau não pode atrever-se a legislar sobre o seu sistema judicial, tratando-se de intolerável violação dos valores europeus, mas um governo regional considerado bom pode desafiar o juiz, as decisões do tribunal constitucional e ainda ignorar o parlamento eleito e as instituições, sendo qualquer punição das ilegalidades considerada absurda (a lei não é igual para todos). Percebo que haja na questão catalã forte dose de romantismo, mas não entendo as interpretações de moralidade, de preto e branco, de quente e frio, sobretudo quando se acumulam notícias sobre a forma como estão a ser tratados na Catalunha todos aqueles que discordam dos independentistas: eles sofrem abusos verbais, intimidação e gritaria.
Vamos fazer um pequeno exercício mental, admitindo que isto da independência avança num prazo de seis meses, com proclamação unilateral semelhante à de 1934, que colocou um prego bem forte no caixão da II República espanhola. Nesse cenário felizmente hipotético, a Espanha entrará numa espiral de instabilidade e de empobrecimento acelerado. Haverá problemas legais e uma barafunda financeira. As consequências económicas serão calamitosas, no mínimo uma recessão prolongada. As ilegalidades só podem ter uma opção a nível europeu: a Catalunha fica fora da UE e haverá vários Estados a apoiar a Espanha na punição dos soberanistas, que terão escassa probabilidade de reconhecimento internacional. O efeito dominó de movimentos independentistas será perigoso para a Europa.
Do ponto de vista português, a equação devia ser simples, mas lendo os comentários das notícias sobre a Catalunha, julgo que a nossa opinião pública não estará a ver bem o filme: Portugal deve ter medo do fortalecimento excessivo da Espanha, mas sobretudo da sua fragilidade. Se a Espanha entrar em crise, isso só pode ter consequências graves para nós. Tudo o que implique a dissolução do país vizinho devia parecer-nos uma ameaça, para mais quando o processo de separação está a ser conduzido por radicais cujo objectivo não se entende. Os catalães querem ser mais pobres e menos livres? Querem arrastar o país para uma nova guerra civil? Acabar com a democracia espanhola? Ao contrário do que li num texto sobre o tema, sonhar nunca foi irresponsável, sonhar é gratuito e livre. O problema não é o sonho, é a realidade.

Portugal Visto pela CIA


Luís Naves,

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Amanhã, quinta-feira, 14, é lançado em Lisboa, na FNAC do Chiado, a partir das 18 e 30, o meu livro Portugal Visto pela CIA, uma edição da Bertrand que terá apresentação da historiadora Irene Pimentel. Com base em relatórios secretos, até hoje inéditos, tento analisar a forma como os espiões americanos olharam para o nosso país durante um período longo, entre os anos 40 e o final dos anos 80. No fundo, trata-se de uma radiografia da sociedade portuguesa feita por espiões americanos, que enviavam para os seus líderes políticos análises muito detalhadas das diferentes situações nacionais. A CIA acompanhou de perto as perturbações do Estado Novo, a ditadura salazarista, a guerra colonial, a primavera marcelista, a revolução e o fim do império. Houve exemplos de má avaliação, mas também observações certeiras sobre a mentalidade dos portugueses, as ilusões nacionais e a nossa tendência para delírios poéticos. Gostaria de convidar todos os interessados, autores e leitores deste blogue, para a sessão de lançamento.

O independentismo folclórico


Luís Naves,

O processo de independência da Catalunha está a ser tratado com pinças pelos meios de comunicação nacionais, talvez pela circunstância do tema ser fracturante dentro da chamada geringonça, a aliança de poder entre esquerda radical e centro-esquerda. Muitos dos comentadores olham com indisfarçada simpatia para o separatismo catalão, que é sobretudo folclórico e sentimental. E no entanto, se a Catalunha se separasse da Espanha, isso era objectivamente péssimo para os interesses portugueses.
Para os catalães, a independência era uma calamidade: ficavam mais pobres, mais inseguros e provavelmente menos livres, pois muitos cidadãos têm raízes na Andaluzia ou na Galiza, de onde os seus pais emigraram há 40 ou 50 anos, atraídos pelo emprego industrial desta próspera região. A independência da Catalunha, sobretudo num processo ilegal como aquele a que assistimos, implicava a imediata saída da União Europeia e da zona euro. E podia ser uma saída sem regresso. Os catalães negociariam um período de transição, mas fora do BCE e do mercado único. Passados alguns anos, a Catalunha teria imensas dificuldades em voltar à UE, pois a Espanha e todos os países com minorias separatistas tenderiam a votar contra. Entre os nossos comentadores da esquerda surge entretanto uma tese extraordinária, de que há nacionalismos bons e nacionalismos maus; há aspirações nacionais que temos de combater e outras que podemos defender com simpatia. Há constituições que devem ser preservadas e outras que podemos rasgar. Há Estados onde os tribunais pesam e as leis se aplicam e outros onde isso não é bem assim.
O mais espantoso, nos nossos dias, não é este desejo popular de reforçar a identidade das nações, mas a tendência suicidária que se manifesta em sectores substanciais das sociedades mais ricas, neste caso entre a burguesia catalã, mas podíamos acrescentar o exemplo do Brexit. É este o grande enigma contemporâneo: o que leva países prósperos a namorar os abismos?

 

Os radicais


Luís Naves,

Muito do que lemos na Imprensa reflecte o crescente conflito em torno da criação de uma nova identidade nacional desenraizada, repleta de culpa do homem branco, de leituras alternativas da História e de simplificações ideológicas alheias à vivência normal das pessoas comuns. Após a queda do Muro de Berlim, a esquerda entrou em crise, fragmentou-se, e a sua franja mais radical começou a negar a própria herança. Após lutar durante décadas contra as discriminações a grupos maioritários, como trabalhadores ou mulheres, a esquerda abandonou o passado e adoptou novas lutas ligadas a questões de minorias. Os movimentos que saíram desta fragmentação começaram a olhar para a sociedade como uma manta de retalhos de pequenos grupos, tentando federar o maior número possível numa agenda política que procura acomodar os problemas de cada um e de todos ao mesmo tempo. Esta abordagem precisa por outro lado de combater e até de negar tudo aquilo que possa parecer maioritário: contesta-se a religião da maioria, os grandes partidos e empresas, a língua (onde houver mais que uma), todos os costumes enraizados, incluindo o casamento tradicional, a ideia da nação e os respectivos símbolos. Terá isto futuro? É possível, mas para já está a criar forte reacção dos conservadores radicais, que começam a defender cada pedaço de território ameaçado como se fosse o último. Uns querem substituir tudo e criar o homem novo, os outros não admitem mexer uma vírgula, como se a identidade fosse algo imutável. E, no meio disto tudo, está um público perplexo, por vezes divertido, a assistir a gritarias ridículas sobre assuntos que, do seu ponto de vista, são de lana-caprina.

A União Europeia não se leva a sério


Luís Naves,

A União Europeia não consegue ser levada demasiado a sério pela razão simples de produzir uma anedota como esta, que pretende ser um ranking das cidades europeias no domínio da cultura e da criatividade. Lisboa dá um baile a Hamburgo, que tem uma nova casa de ópera, mas também damos banho a Barcelona e (pasme-se) a Viena e até a Roma. Claro que estas coisas são depois utilizadas pelos nossos alucinados e panglossianos como prova de que tudo corre maravilhosamente. Abrimos as notícias locais e Portugal é uma festa e somos uns pândegos; os nossos intelectuais, com ajuda preciosa dos peritos europeus, garantem que bastava elevar a autoestima dos portugueses até à região orbital do delírio e daí resultava o milagre da multiplicação dos pães. Estive três semanas sem internet, reduzido a uma rádio governamental de um país protofascista e só ouvi duas notícias sobre Portugal: uma de fogos calamitosos e outra sobre a queda de uma árvore em cima de uma multidão, acidente que se deu apesar de múltiplos avisos. De facto, não nos falta criatividade para o desastre e, em termos de cultura, parecemos consistentes, trata-se de insistir no mesmo erro de bater com a cabeça na parede até à insensibilidade; quando se bate muito, muito, muito, acaba por não doer. E, no intervalo, os óculos cor-de-rosa que nos oferece a Comissão ajudam a aliviar os sintomas.