As declarações bombásticas do ex-presidente exilado fazem temer o pior e permitiram camuflar uma circunstância que nunca vi em eleições democráticas: todos os partidos perderam. Ciudadanos foi a formação com mais votos, 25,3%, mas os seus 37 deputados dificilmente permitem liderar o governo autonómico. O poder irá certamente para a geringonça do segundo e terceiros mais votados, cujas derrotas são apesar de tudo subtis: Juntos pela Catalunha teve 21,6% e elegeu 34 deputados, mas é uma pálida sombra do partido nacionalista de centro-direita que dominou a política catalã nos últimos 40 anos e que se habituara a maiorias absolutas; os republicanos da ERC tiveram 21,4%, mas falharam o objectivo de ultrapassar o seu parceiro da direita. Para formar governo, estes dois partidos precisam dos anti-capitalistas da CUP, que quase desapareceram, e serão mais uma vez a muleta da burguesia, tudo em nome do independentismo que, em conjunto, não somou os necessários 50% de votos e que está longe de formar um bloco unido. Se os soberanistas não têm maioria nas urnas, os constitucionalistas perderam as eleições em número de deputados e com todas as letras, sobretudo os socialistas (com mais um eleito, mas estando este partido transformado numa pálida sombra do passado) e os populares, que governam em Madrid e parecem extintos na Catalunha. Também o Podemos catalão foi vítima do voto útil e os seus 8 deputados não deverão servir para coisa alguma, tendo portanto fracassado a estratégia que colocaria o partido numa posição indispensável para um dos blocos. Ontem, perdeu a Espanha, pois a crise constitucional é agora uma distracção para meses ou até anos, com impacto económico e político, com a possibilidade concreta da Espanha se estilhaçar nesse caminho das pedras. Perdeu a Catalunha, pois a sociedade está fracturada e a reconciliação será, na melhor das hipóteses, lenta e difícil. Perdeu Portugal, porque está demasiado perto desta crise espanhola. Perdeu a Europa, pois haverá aqui ampla inspiração para libertar o veneno das nações que se julgam oprimidas. E sobre o futuro, só há perguntas angustiantes: os independentistas vão tentar governar a Catalunha ou avançam para a ruptura? Os líderes são presos à chegada ou não se aplica a Constituição? As empresas catalãs vão continuar a sair da região? A monarquia é extinta? E qual será a reacção dos mercados? E da Europa? Qualquer observador conclui que é preciso negociar uma nova constituição ou um novo estatuto autonómico, mas isso é possível com o actual elenco de partidos e dirigentes?
Quando todos perdem
Luís Naves,

A análise mais próxima da verdade, porque longe da certeza.
” Perdeu a Europa, pois haverá aqui ampla inspiração para libertar o veneno das nações que se julgam oprimidas.”
– O desejo de ser independente é veneno?! Às vezes, muitas vezes, a língua atraiçoa-nos.
” E sobre o futuro, só há perguntas angustiantes: E qual será a reacção dos mercados?”
– Ora aí está! A angústia são os mercados. A eles convém a globalização. As ovelhas são muito mais facilmente controladas, manipuladas e exploradas em rebanho do que dispersas.
João de Brito
Este comentário é curioso e obriga-me a escrever (um dia destes) sobre as nações que se julgam subjugadas e que existem em silêncio nos países europeus a que pertencem. A nossa opinião pública está felizmente alheada do fenómeno político a que me refiro. A União Europeia, tal como a conhecemos, não vai sobreviver ao tsunami nacionalista. O desejo da independência é um veneno? Claro que sim, como foi na ex-Jugoslávia.
Muitos portugueses detestam esta palavra mercados, mas pode colocar lá sinónimos: prosperidade, riqueza, emprego.
A Jugoslávia deixou de existir quando morreu Tito….
Quanto aos mercados significarem riqueza, emprego, prosperidade, pergunto, para quem?
25% dos jovens estão desempregados.
A riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale, pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes, baseado em dados do banco Credit Suisse relativos a outubro de 2015….)
Já para não falar na destruição ambiental associada a este modelo económico, quando existe tecnologia para outras opções.
Só pode estar a brincar…
Faça -me um favor apague o meu primeiro comentário.
Luís, que lê?
As ilusões anticapitalistas são sempre interessantes, mas de facto não existem sociedades que prescindam da economia de mercado e ao mesmo tempo tenham prosperidade, garantam emprego, qualidade de vida, progresso, inovação.
E a discussão do post não era sobre este tópico.
Não, mas com certeza que todo o sistema, dentro do mercado livre, é adaptável/reformulável, quando são por demais evidentes as suas distopias….o que é que a politica financeirista tem a ver com a economia produtiva? Diz-me o capital? Apenas 20% do capital em bolsa não é especulativo, ou seja é aplicado na economia real/geradora de empregos….já para não falar nos paraísos e lavandarias…
” A União Europeia, tal como a conhecemos, não vai sobreviver ao tsunami nacionalista”
A União Europeia da colaboração entre os povos, que foi a UE que nos venderam nunca existiu completamente, mas o que existiu está a caminho da extinção.
A partir do momento que tivemos uma gestão da crise como a da atual crise, ficou claro que a ideia de UE morreu. Alguns líricos lá no centro da Europa pensaram que isso não teria consequências para eles, iam só pôr os PIGS a trabalhar, parece que se enganaram. Deixaram de dar importância à unidade da UE e agora estão preocupados com a unidade dos próprios países.
Se a maior parte da política económica dos países é ditada pela Alemanha através de Bruxelas, que diferença faz que a Catalunha seja ou não parte de Espanha?
A prevista vitória de Arrimadas na grande cidade deve-se aos recém chegados e agora barcelonistas -não catalães- vindos de outras regiões de Espanha, como a própria jóvem política. Fora da cidade a música foi outra.
Por outro lado na cidade existem muitos eleitores que acreditam que poderá aparecer, caída do céu, uma “Paz” nem que seja à “força” como se viu.
Este referendo quantificou catalões (e não barcelonistas) vs os outros os que não são nem peixe nem carne, como Arrimadas.
Todos sabemos que foi assim, na Catalunha, em Madrid.
Clarificada a situação o caricato funcionalismo da UE já mostrou de que lado está.
Esperemos que surja tino em Madrid e que não se queira prosseguir insistindo na via “força” do há-des ser Espanhol quer queiras quer não. constitucional ou outra.
A certeza do futuro relativamente à Catalunha e à posição da Europa foi ditada por Rajoy y sus muchachos europeus, em que Valls, por razões óbvias, é um desses ícones.
O resultado é simples: a Catalunha será independente. Resta ter a expectativa que seja de forma pacífica e não à porra e ao maço como Rajoy y sus muchachos desafiam.
Ter medo do futuro é o mesmo que agarrar na charrua e olhar para trás. Quem se movimenta a olhar para trás acaba sempre no encontro com um poste.
“A Catalunha será independente”.
Se mais de metade dos eleitores não exprimiram isso nas urnas, vai ser independente contra uma maioria? Aí sim, é de perguntar que estratagema coercivo vão usar.
João, parece-me que sua afirmação está induzida por um misto de emoção e de informação emocional. São duas emoções, a sua mais as do que lê.
O futuro será o que afirmei. Demos tempo.
Nem me preocupo a colocar aqui várias ligações que indicam o contrário do que pena. E não faço isso porque a afirmação é minha e parte de minha análise, que é bem antiga a estas eleições.
Podem fazer as coisas à americana ou à israelita: o Puigdemont arranja umas “reservas” ou uma “faixa de Gaza” e enfia lá os 50% de “índios” e de “palestinianos” que não engolem a independência e não querem ser tratados como sem-pátria na sua própria terra. Simples.
Que maioria? Você por acaso sabe como pensam os eleitores do Podemos?
Em relação à situação da Catalunha só há um caminho a seguir: respeitar a democracia, respeitando a vontade da maioria do povo catalão, que compareceu de forma maciça ao ato eleitoral, no qual votaram mais de 82% dos eleitores e que de forma maioritária votou nos partidos independentistas. Ou será que só se respeita a vontade do eleitorado quando esta coincide com os ” nossos interesses ou convicções”? A invocação constante de uma Constituição obsoleta, ainda bastante influenciada pelo franquismo, não pode servir de argumento para se tomarem atitudes repressivas e antidemocráticas. As constituições também são suscetíveis de revisão com em qualquer país democrático, particularmente quando no seu articulado contêm normas de cariz anti democrático e discriminador como é o caso da Constituição espanhola.
O Mundo é composto de mudança, e se no futuro se prefigura uma eventual separação da Catalunha em relação à Espanha, há que aceitar com abertura de pensamento e de espírito essa situação. O mapa da Europa já mudou muitas vezes e irá continuar a mudar. É algo inerente à dialética da própria vida. Só mentes quadradas, conservadoras, prisioneiras do status quo, não conseguem compreender e aceitar tal realidade.
Feliz Natal.
Que nenhuma constituição é eterna é uma verdade insofismável. Que a espanhola é “obsoleta” e “bastante influenciada pelo franquismo” já me parece altamente duvidoso. Onde é que estão as influências franquistas numa norma geral que permitiu a democracia, o multipartidarismo, as autonomias regionais, e em geral tudo o que os franquistas odiavam (aliás consideravam tal documento como ” uma ruptura”)? Tinha de se contentar os derrotados da guerra civil ou tentar conciliar as vontades? Além de que teve legitimidade democrática, coisa que a nossa, bem mais ideológica, não teve tão directamente. Aliás a constituição espanhola é mais jovem que a portuguesa, a francesa, o costume britânico, etc.
Pela lógica deste leitor, teremos fatalmente de chegar à conclusão que o franquismo afinal era profundamente democrático, descentralizador e respeitador dos direitos humanos.
Tal e qual… Assim como é uma pena não recuperarmos, aqui e hoje, o atualíssimo e esclarecidíssimo pensamento político do Professor Marcelo Caetano.
A existência do artigo 155º na dita Constituição é um claro resquício do centralismo e autoritarismo franquista, o que no fundo se compreende, dada a conjuntura politica que existia em Espanha no momento da elaboração da referida Constituição. Bastava que a Constituição espanhola tal como a nossa e outras, reconhecesse o legítimo direito dos povos à autodeterminação e eventual independência.
Independentemente disso, a questão crucial aqui prende-se com o respeito da vontade democrática de um povo, que vota maioritariamente em partidos legais que defendem abertamente a independência de uma nacionalidade. Ou será que a partir do momento em que o eleitorado vota por propostas contrárias ao sistema ou status quo, suspende-se a democracia??? Até me faz recordar uma frase famosa proferida por uma notável personagem politica do PSD, que defendeu a alguns atrás a ideia extraordinária que talvez fosse benéfico para tratar de alguns problemas do país a suspensão da democracia pelo menos por seis meses!!! Ridícula, para não dizer altamente perigosa tal conceção! Por vontade politica do PP espanhol, parece que é o que pretendem fazer em Espanha, ou melhor na Catalunha. Precedente muito perigoso numa UE que se pretende defensora dos direitos humanos e vanguardista no que diz respeito a democracia. Enfim, são estas situações limite que mostram à colação a hipocrisia das sociedades democráticas ocidentais.
A coisa anda sempre pela radical bipolaridade: ou ganham todos ou todos perdem. De fora da análise fica aquilo que é verdadeiramente importante, a saber: a quem queria entronizar estas eleições como o referendo que iria confirmar o anterior “referendo” organizado pela Generalitat saiu-lhe o tiro pela culatra, pois os 80% a favor da independência transformaram-se nuns meros 50% de independentistas a que se opõem 50% de constitucionalistas.
Embora a senhora Inés Arrimadas jamais venha a ser presidente da Generalitat, a primeira vitória de um partido constitucionalista na Catalunha em mais de 40 anos (e não de um partido qualquer, mas sim de um partido que sempre defendeu um 155 puro e duro com intervenção profunda no sistema educativo, nos órgãos de comunicação social e nas forças policiais da Catalunha) é a prova provada de que o “procés” falhou rotundamente apesar dos milhões e milhões que se enterraram na promoção da “singularidade” étnica, linguística, histórica e política catalã .
Não nos esqueçamos de um outro dado importantíssimo que é o facto de nas províncias litorais e urbanas terem triunfado os partidos constitucionalistas e nas províncias mais interiores e rurais ter prevalecido o voto independentista. Avancemos, assim sendo, para a gloriosa República Independente da Catalunha, a qual terá o seu motor produtivo assente no setor primário e inundará o resto da Europa com tomates e pepinos…
A insistirem no caminho que até agora resolveram trilhar, o PdCat, a ERC e as CUP levarão, na melhor das hipóteses, a Catalunha à ingovernabilidade e à ruína económica. Na pior das hipóteses levá-la-ão a uma belíssima guerra civil com vista para o Mediterrâneo.
Quanto ao “tsunami nacionalista”, ele há que ter cuidado ao preconizar (consciente ou inconscientemente) a decapitação do paciente para que se lhe cure uma dor de cabeça…
Quando falta a ideologia racional (e sabe Deus quanto a UE tem trabalhado para enterrar toda e qualquer ideologia sob as toneladas de terra da suposta neutralidade ideológica dos “mercados”) entram em cena as primárias, irracionais e muitíssimo emotivas questões de identidade.
Se tivermos em conta a imensa crise de emprego (crise premeditada, não nos enganemos) que consome a UE e não esquecermos o descalabro da educação em todo o espaço europeu, bom será promovermos uma abordagem crítica à emergência dos múltiplos quistos identitários: não tarda, perto estaremos da situação em que pertencer a uma comunidade étnica e linguística será o garante de emprego e de bem estar e em que as efetivas qualificações de cada um nada serão face a essas concretíssimas “qualificações” identitárias.
Olhem para a Catalunha atual e vejam nela o futuro. A pergunta que se impõe é só uma: será esse o futuro que desejamos?