Os vulcões adormecidos


Luís Naves,

Quem viveu durante a primeira metade do século XX habituou-se a esperar a violência, a desconfiar da longevidade da paz e a temer as ameaças existenciais da sua época. O nosso tempo parece ser diferente, habituámos-nos ao rumor profundo dos vulcões, mas eles não nos preocupam, pois julgamos que estão adormecidos. Em vez da decadência que destrói o passado, somos do esquecimento que idealiza o presente. Vivemos na cultura do efémero, no gosto superficial que rejeita o que pareça antigo. Na cultura, triunfou a frivolidade. As castas políticas desprezam os eleitores e falam em nome do povo, as ideologias foram substituídas pelo consenso pragmático, que ocupa o centro bacteriologicamente puro, em oposição às franjas, onde se instalaram lunáticos, deslumbrados e populistas. Os sensores da economia dão os sinais mais fortes da fúria que se acumula nas profundezas da sociedade: o poder salvou os bancos, mas nunca se preocupou em salvar as indústrias que empregavam os trabalhadores pouco qualificados; os operários quase desapareceram e competem hoje com emigrantes e refugiados por empregos precários e serviços públicos subfinanciados. Os migrantes apareceram numa altura em que se precisava de mão-de-obra conveniente, foram recebidos pelas elites com flores e beijos, mas não têm ainda o direito de trazer as suas famílias. Além do rumor dos povos em marcha, é possível ouvir outros sons dos vulcões adormecidos: os robôs que dão pulos, os tiranos com mísseis, os inquisidores e novos episódios de caça às bruxas, o trovão dos gelos em colapso, as guerras autênticas que não interessam. Este é um mundo onde a solidariedade paga imposto e os milionários estão entre os grandes arautos da moralidade. Este é um mundo onde o que se diz hoje não é válido amanhã. Este é um mundo que perdeu a alma e ainda não encontrou outra, que perdeu as nações e raízes, as línguas e até as sementes, que apaga o que é velho. Este é um mundo aparentemente fragmentado, mas que tende para a convergência e para o conformismo, onde tudo o que interessa é ditado de cima e se torna igual para todos, a cultura de massas, o consumo desenfreado ou o consenso mole na política.

3 comentários em “Os vulcões adormecidos”

  1. “Este é um mundo que perdeu” e vai continuar a perder porque nada acontece por acaso (basta saber o que pensam e o que querem os “milionários que estão entre os grandes arautos da”… imoralidade), não esquecendo o robot a “que” deram cidadania na Arábia Saudita (não “quem” porque, aqui, não aceito a programação intensional de falar em máquinas como se fossem seres humanos, com um ele ou uma ela). Como dizia um dos robots, quando fizerem milhões até passam a ganhar eleições… e a malta aplaude e tira fotos.
    No Web Summit ninguém pareceu ligar ao que foi dito sobre Inteligência Artificial e à futura obsolescência dos humanos que vão perder os empregos a favor dos robots porque “o trabalho é uma chatice”… e, novamente, os cérebros em açorda, aplaudem (O mais interessante é alguns pensarem que estão a salvo dessa razia).

    Tudo o que fala é verdade mas, vai tudo conforme o “programa”, robots parecidos a seres humanos enquanto vão conseguindo que os humanos se transformem em robots, de baixa qualidade e, tenho de dar a mão à palmatória, nunca pensei que fosse possível mas, estão a fazer um “excelente trabalho”.

    Mesmo que se queira passar informação ou falar de coisas importantes como no seu texto, nem vale a pena, a grande maioria dos cérebros já perdeu a capacidade de processar, muito menos pensar em causas e consequências, basta saber rodar o dedo no écran do “brinquedo” para ver se têm mensagens ou quantos likes receberam e comprar a última m**** de novidade, seja coisa ou ideia que, à partida, tem garantidos 90% de seguidores.
    Vamos a caminho do redil e, nas coisas realmente importantes, sem tugir nem mugir.
    Quando já vemos a razia na net sobre aqueles que ainda não se transformaram em carneiros e ouvimos: “Apple CEO Tim Cook Supports Chinese Style Censorship For Internet”, nem é preciso acrescentar mais nada, para ver que tipo de mundo e que tipo de vida nos estão a preparar e os… com o cérebro lavado… já estão mais que prontos para aplaudir, tirar fotos e deixar introduzir o chip, onde eles quiserem, até no cérebro.

    https://www.theverge.com/2017/3/27/15077864/elon-musk-neuralink-brain-computer-interface-ai-cyborgs
    Elon Musk launches Neuralink, a venture to merge the human brain with AI

    Entretanto se leu The Economist – The case for taxing death, os que já têm mais de metade da riqueza do Planeta, preparam-se para não podermos deixar nada aos filhos ou netos, o Estado sabe melhor o que fazer com os bens porque com dívidas impagáveis, eles já controlam os Estados… razão das “castas políticas desprezarem os eleitores”, pois sabem quem, realmente, manda e quem não sabe, colabora, continuando a centralizar o Poder e a transformar-nos num rebanho obediente e submisso que só esteja interessado no aumento imediato… da quantidade da palha.

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