Os espanhóis são parecidos com os portugueses; nós somos mais franceses


Luís Naves,

Um dos elementos bizarros da crise política na Catalunha é a retórica dos independentistas radicais sobre a Espanha, como se esta fosse uma nação repressora e autoritária, atrasada e pobre, que a desenvolvida e avançada nação catalã arrasta como um fardo. Existe outro lado, talvez ainda mais sinistro e demagógico: estas ideias científicas do líder republicano Oriol Junqueras, numa polémica de 2008, são bem o espelho do que verdadeiramente pensam alguns destacados separatistas. O líder republicano catalão estava convencido de que pertencia a uma raça de certa forma superior. Também se entende o que ele pensava dos portugueses, esses pequenos trogloditas tão semelhantes aos bárbaros espanhóis (leiam o último parágrafo). A crise política catalã está a ser interpretada por alguns dos nossos intelectuais como uma coisa democrática e engraçada, de umas pessoas sofisticadas que querem o direito ao voto, apesar de vermos em cada dia exactamente o inverso. A esquerda continua a usar dois pesos e duas medidas em relação aos nacionalismos: há quem possa ser nacionalista, racista e burro, tudo ao mesmo tempo, sobretudo se estiver a lutar contra a liberdade; já defender o Estado de Direito e, em simultâneo a nação, isso parece ser repressivo e perverso. As democracias já perderam e isto é apenas o início de um movimento populista que visa a fragmentação acelerada da Europa, que se pode partir numa galáxia de micro-Estados.

5 comentários em “Os espanhóis são parecidos com os portugueses; nós somos mais franceses”

  1. Ainda não percebi porque é que a nossa direita bem pensante está tão obcecada com a Catalunha.

    Tantos anos a ouvirem a ladainha do botas do Portugal do Minho a Timor que ficaram traumatizados. Pensam que os países são indivisíveis, porque agrada a deus e a el rey.
    Claro que, tal como o botas, pensam que o povo é soberano, não está é preparado para votar. Por isso as votações devem ser reprimidas, pela força se necessário.

    Se existe um número razoável de pessoas que quer a independência faz-se uma consulta popular. É uma boa altura para debater ideias. Podem-se até fazer-se umas chantagenzitas durante a campanha para o referendo. A direita é muito boa nas chantagens. Se quiserem mesmo sair saem.
    A única razão de peso que tem de ser apresentada é essa: querem sair.

  2. Verdade Luís, se há coisa que me enerva profundamente é esta mania dos catalães radicais em retratarem a Espanha como se fosse a dos tempos de Franco. Talvez não lhe fizesse mal fazerem um teste simples: perguntarem-se a si mesmos se, cada vez que afirmaram em público ser a favor da independência, foram presos, torturados ou mortos. Não? Então vivem em liberdade.

    Só não gostei da tua “reflexão” sobre a esquerda. Terá obviamente muita gente à esquerda que é a favor desta independência catalã. Como terás à direita. E não é a esquerda (ou a direita) quem usa dois pesos e duas medidas no caso dos nacionalismos. Toda a gente o faz.

  3. a Europa, que se pode partir numa galáxia de micro-Estados

    A Europa já é uma galáxia de micro-Estados. Dou-lhe exemplos: São Marino, Andorra, Azerbaidjão, Croácia, Chipre… Tudo micro-Estados com população ainda inferior à da Catalunha!

    Agora dizem que as ilhas Faroé (50 000 habitantes) também se querem tornar independentes.

  4. Os povos precisam estar atentos. Será que a Catalunha quer ser independente ou por trás desta ideia podem estar grupos políticos e econômicos gananciosos que querem a separação apenas por interesses pessoais e não estão nem aí para as pessoas. Será que não estarão induzindo as pessoas para utilizá-las só como massa de manobras?!

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