Teoria da domesticação


Luís Naves,

Instalou-se aos poucos a ideia perversa de que os jornalistas têm de ser bacteriologicamente puros, um pouco como acontece com os eunucos no harém, não lhes sendo permitida a opinião, a tendência, a defesa de uma causa ou a simples frontalidade, estando aberto somente o caminho da intriga e da dissimulação. Segundo esta tese, as notícias não têm preferência, como se houvesse fórmulas matemáticas para a sua escolha, como se o jornalista fosse despido de emoções, como se ele não tivesse o direito e até a obrigação de defender, por exemplo, a justiça e a liberdade. Em vez da prosa sem alma, o trabalho do jornalista consiste em estabelecer a relevância relativa dos factos e depois, tentar ficar o mais próximo possível de uma leitura autêntica do mundo, ou seja, contando a história com um máximo de honestidade e espírito livre. Quem não compreenda que o jornalismo é sempre uma versão da realidade acredita no futuro do jornalismo burocrático, supostamente equidistante de tudo, embora a equidistância de tudo seja um lugar inexistente. Claro que há na profissão quem confunda relevância com militância, mas fazer propaganda ideológica nunca teve nada a ver com jornalismo e os leitores têm sempre a liberdade de mudar as suas fontes de leitura. Ou seja, a crítica ao jornalismo de causas baseada em exemplos de acção militante é um tiro ao lado e transforma-se facilmente na defesa da escrita dependente e funcionária que os poderes desejam e que os leitores rejeitam. Esta teoria da domesticação dos meios de comunicação é o velho sonho das oligarquias e a polémica sobre as chamadas fake news não passa de mais um episódio sofisticado desse combate. Têm surgido pequenas tentativas de limitar noticiários ou de legislar sobre o tema, supostamente para aniquilar as chamadas notícias falsas, cujos exemplos, muitas vezes, não passam de interpretações inconvenientes. As elites acham o público estúpido e acreditam que ele necessita de condução inteligente, serão obviamente essas vanguardas políticas a decidir sobre a pureza dos noticiários. A fragmentação mediática (que tem complexos motivos económicos e tecnológicos) ainda está na sua infância e tornou mais difícil a tarefa de colocar mensagens do poder. Governar é hoje mais incerto e a opinião pública está mais dividida, mas a realidade é a inversa daquela que se discute: as fake news são tão velhas como a imprensa, pois sempre houve boatos, desmentidos e manipulação; o que é novo na comunicação contemporânea é a impossibilidade crescente de se esconder informação do público.

8 comentários em “Teoria da domesticação”

  1. Nunca teorizei nem nunca fui teorizado sobre jornalismo.
    Mas sou consumidor assíduo.
    Como consumidor, aplico o meu sentido crítico e seleciono o que me interessa.
    Depois, volto a aplicar o meu sentido crítico e faço as minhas interpretações.
    Reconheço o mesmo estatuto ao jornalista.
    Selecionados os factos que acha relevantes, terá de os respeitar integralmente na sua objetividade.
    Depois, tem o direito, quiçá o dever, de se posicionar relativamente a eles.
    O consumidor fará exatamente o mesmo que o jornalista.
    Quer relativamente aos factos por ele expostos, quer relativamente ao seu posicionamento perante eles.
    João de Brito

  2. Descordo totalmente. Aliás são contradições atrás de contradições :

    1- como se o jornalista fosse despido de emoções, como se ele não tivesse o direito e até a obrigação de defender, por exemplo, a justiça e a liberdade.

    Quando deixamos as emoções falar raramente somos justos e o nosso pensamento imparcial.

    2- Em vez da prosa sem alma, o trabalho do jornalista consiste em estabelecer a relevância relativa dos factos.

    E o critério seria , presumo , as emoções e preconceitos do jornalista.

    3- Quem não compreenda que o jornalismo é sempre uma versão da realidade .

    Um convite ao revisionismo e à pós verdade….

    Luís, o que defende aplica-se a quem se dedica a escrever livros e não notícias.

  3. “a crítica ao jornalismo de causas baseada em exemplos de acção militante é um tiro ao lado e transforma-se facilmente na defesa da escrita dependente e funcionária que os poderes desejam e que os leitores rejeitam.”

    Errado. São os jornalistas mais militantes que defendem a Governamentalização.

    O Jornalismo no Ocidente funciona como acelerador do poder da Religião.
    A religião de que falo é obviamente a Fé na Política.
    O Jornalismo existe para nos convencer que a Política pode resolver todos os nosso problemas.
    Por exemplo os Jornalistas até nos dizem-nos que a Política consegue controlar o Clima.

    Jornalistas não passam de Padres a fazerem proselitismo da religião.
    A missa hoje é o telejornal.
    Mas note-se o Jornalismo já está a abandonar o apoio à Política e passar a apoiar o Estado tout court.

    Esse apoio explica o nascimento dentro do Estado de organizações com poder e âmbito muito superior ao passado, explica o nascimento de “Autoridades” com âmbito de poder sobre as pessoas que um Ditador há 100 anos não sonharia.

  4. O grande problema, caro Naves, é o exagero!! O exagero tudo subverte! Com o tempo antecipam-se os trejeitos e o entendimento que se faz destes é instante!!
    Vivemos uma era de hiper-interpretação, hiper crítica. Qualquer dia, quando as letras forem insuficientes ou excedentárias, lançam-se runas e estripam-se animais para ler melhor! Os jornalistas tardaram em perceber que o leitor é mais sonso que o jornalista, vê ao longe mas finge-se de morto!! E no resto a mesma coisa!

  5. Já agora, um mau exemplo de jornalismo:
    Ainda hoje de manhã, na Antena1, o Sr. Nicolau, que versa temas económicos, a propósito de uma conferência de imprensa dada pelo Presidente angolano e referindo-se ao diferendo relacionado com o julgamento do Sr. Vicente, disse algo como isto: se é verdade, como alegou João Lourenço, que há um acordo entre os dois países, no âmbito da CPLP, que justifica o envio do processo para a justiça angolana, então os responsáveis portugueses estão a ser muito irresponsáveis.
    Mas o que é isto escarrapachado num meio de comunicação de âmbito nacional e em horário nobre?! … se é verdade… então…!
    É evidente que este Senhor, antes de falar, deveria ir investigar a coisa.
    Assim não sendo, não fez jornalismo – mandou um bitaite.
    E bitaites qualquer um pode mandar em qualquer mesa de qualquer café.
    João de Brito

  6. Esse nicolau é tremendamente perspicaz : que o diga o Prof.Doutor Artur Baptista da Silva…
    E de inteireza de carácter : todos recordamos o seu imediato desprendimento dos diversos “tachos”, perdão, cargos, aquando desse memorável episódio…

    JSP

  7. Eu distingo entre jornalistas e cronistas.
    Claro que há alguns que vestem os dois fatos.
    E alguns cronistas no DN querem passar por jornalistas, nomeadamente o empregado do BE e do PCP que com a conivência do jornal escondem que são o que são.
    Resumindo como jornalistas devem ser isentos, se querem vestir as duas fatiotas não são nem uma coisa nem outra.

  8. Jornalismo, por exemplo, era tudo aquilo que nos trazia quando estava na Hungria. Opinião é aquilo que em regra nos apresenta por aqui.

    Eu julgo saber distinguir o Luís-jornalista do Luís-opinativo. Mas também julgo saber quem é o Luís-investigador (autor) através dos livros que publica.

    Estou em crer que pelo facto de possuir estas 3 características nenhuma delas se poderá confundir com o Luís-jornalista. Em resumo, ser opinativo e autor não o transforma em jornalista.
    Em suma, o que está em causa é que o jornalista, enquanto tal, não pode ser outra coisa.

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