O bom mau tempo


Pedro Correia,

Os canais de televisão que passam o ano a alertar as massas ignaras para os riscos do aquecimento global e polvilham os telediários com oportunas notícias sobre os malefícios da seca prolongada são os mesmos que chamam “mau tempo” aos dias chuvosos. Sem perceberem que mau tempo, para boa parte daqueles que os escutam, é haver semanas e meses sem um só pingo de chuva a cair do céu.

35 comentários em “O bom mau tempo”

    1. Isto do bom ou mau tempo não é exclusivamente uma questão urbana.
      No mundo rural também se reclama sol na eira e chuva no nabal.
      Isto do tempo é como tudo: é bom quando convém e mau quando não convém (a cada um e em termos imediatos).
      Afinal, não é o homem (cada homem) a medida de todas as coisas?!
      João de brito

  1. Mais curiosa é a publicidade em 1as páginas de jornais à vacina da gripe…..” estirpe mais perigosa “…..”caos nas urgências devido à gripe”…..”ciclone bomba”….

    Esta cultura do medo não pode ser inocente

    Agora temos também o Estado a proibir certos alimentos. …..ninguém se dará conta? Estado Totalitário!?

    1. O medo da chuva, o medo da neve, o medo do granizo, o medo do frio.
      O medo é um valor-notícia, como dizem os teóricos da coisa.
      O medo vende. Tudo gera medo: as gorduras, o fumo, o álcool, o sexo, a condução, o sol, o vento, o fogo, o rio, o mar.

      1. A ameaça dobra vontades, Pedro.

        A ameaça permanente surge nos manuais de tortura. Serve para quebrar a vontade, insidiosamente.

          1. Profundo!

            E quem anda ao sol, queima-se.

            E de água fria gato escaldado tem medo.

            Comer laranja da manhã é ouro, à tarde é cobre e de noite mata? É assim? Não rima!

  2. Quando me perguntam, perturbadamente:

    – Amanhã chove?

    – Sei lá. Logo vejo pela janela….

    Cambada de maricas.

    1. A notícia mais velha do mundo, entre nós, é haver chuva em Janeiro. Mas os órgãos de informação urbano-depressivos pegam no tema como se fosse novidade e transformam isso num folhetim dramático.

  3. No meu tempo de criança, anos sessenta, um inverno normal, tinha mau tempo, com muita chuva, muito vento, trovoada abundante, (as pessoas queimavam parte dum dos ramos de oliveira do Domingo de Ramos do ano anterior, que acreditavam, nos protegia das trovoadas assustadoras e perigosas) pinheiros e outras árvores caídas no caminho da escola (a escola não fechava por causa da invernia) e alguns dias sem energia eléctrica, em que tínhamos ao fim da tarde que fazer os deveres da escola à luz da vela. Isto era o inverno, sem avisos coloridos de uma entidade da meteorologia, que nem conhecíamos. Realmente, caminhamos para nova época das trevas, a do homo imprestável.

    1. Tempos também em que o serviço público de rádio-televisão chamava a si a emissão de um boletim meteorológico diário, digno desse nome. Tempos de Anthímio de Azevedo, se se quiser invocar um símbolo desse serviço e da credibilidade que lhe era reconhecida.

      Depois foi a avalanche de jovens senhoras vestidas para permanente (e escaldante) Verão, fosse em que altura fosse, exibindo-se em curvilínea sedução – ou sua tentativa – à frente de um mapa com uns símbolos que nem os convencionais seriam, e que de meteorologia sabiam nada. Agora, tirando uma tentativa débil de informação minimamente detalhada, pela manhã, na RTP, a coisa dispensa mesmo a presença humana – a não ser a “voz off” que se limita em inútil redundância a repetir a informação gráfica – e esgota-se em poucos segundos.

      Querendo saber mais, sobre o tempo por cá, e ficando-nos pela TV, é melhor ver e ouvir o boletim da RTVE. E tentar preencher a lacuna a que corresponde aquele rectângulo naturalmente ignorado, nas cartas da Península que lá se apresentam.

      Costa

    2. Os dias sem energia eléctrica nos anos 60 não eram consequência apenas do mau tempo mas sim da falta de infraestruturas. Era das trevas vivia-se nessa altura.

      1. Viva, caríssimos! Um bom ano!
        Não, caro Vlad. Tive uma luxação nos dedos e, portanto, andei fisicamente impedido de acompanhar, com comentários, os caríssimos conspinscas por aqui . Acho, contudo, estranho que a realidade tenha seguido o seu curso mesmo sem o impulso dos meus comentários. Os dias sucederam-se às noites, e ambos indiferentes à minha ausência!!
        Um bem haja a todos,

  4. Assino por baixo, mesmo que neste momento, como referi no meu blogue, a chuva esteja a “empatar” trabalhos de renovação.
    António Cabral

  5. Aguardo ansiosamente pelo dia em que os canais de televisão nos alertem para algo que alguns de nós conhecemos como Inverno!
    Deve dar pano para mangas, entrevistas em direto e ainda quem sabe, a admiração do entrevistado, pelo facto de existir uma estação com esse nome…
    M. Lopes

  6. Vivemos uma cultura preper. Manter-nos aterrorizados e alerta para as tragédias e calamidades como se o mundo pudesse acabar a qualquer minuto é o propósito dos média há já algum tempo.
    O friozinho, esse dispensava, que me faz parecer uma cebola, mas a chuva só poderia ser mau tempo se fosse de proporções diluvianas. Depois do verão que tivemos, poderia dizer da chuva a frase favorita da minha bisavó, quando se referia a algo muito bom :” Isto é volfrâmio “

    1. Essa frase é interessante, Dulce. Anotei-a no meu caderninho de frases simbólicas e sintomáticas.
      O medo é um poderoso ingrediente nos critérios editoriais, sobretudo das televisões. Apenas com o desígnio de prender audiências. Até por saberem que têm um espectro de consumidores cada vez mais envelhecido e à medida que os anos passam o medo aumenta. O medo difuso, incaracterístico, insubstancial.
      Há que falar destas questões que nunca são abordadas no espaço mediático. Precisamente porque os órgãos de informação jamais se questionam a si próprios na praça pública.
      Aqui há uns anos havia “provedores de leitores” nos jornais. Isso acabou em todos eles sem um sussurro de indignação dos jornalistas.

  7. Tem mais substância e lógica qualquer diário desportivo nacional que os tele diários das tvs que passam o dia todo a contradizerem-se …

    WW

    1. Já não arrisco tanto. Mas que os telediários se contradizem a todo o passo, isso é verdade.
      Dou um exemplo: no mesmo noticiário em que se fala dos pobrezinhos, e das carências sociais e dos emigrantes forçados, na primeira metade, a segunda metade é dedicada a “publirreportagens” promovendo restaurantes com estrelas Michelin e hotéis de luxo. Com ementas capazes de exceder o salário mínimo.
      E nenhum editor parece reparar no disparate de tudo isto.

  8. A única ligação entre o tempo e as alterações climáticas causadas pelo aquecimento global é a maior incidência de situações extremas (como estas de seca prolongada).

    Claro que tens razão: “bom” e “mau” tempo depende da circunstância. Lembro-me de estar em férias no Egipto e os habitantes do Cairo andarem todos felizes quando viram o céu nublado em dois dos dias. Compreensível. Já eu estive todo feliz com o sol em Portugal depois de andar meses sob um céu nublado…

    1. Como se pode qualificar de “mau tempo” um dia de chuva nos mesmos telediários que vêm alertando para os riscos de seca severa e até extrema no mesmíssimo país que é o nosso?

      “Bom tempo” ou “mau tempo” são qualificações imprecisas, subjectivas e sem rigor, que nunca devem ser usadas em peças jornalísticas.

      Não é preciso ir ao Egipto. Perguntem aos nossos irmãos caboverdianos, que chegam a estar um ano inteiro sem chuva, se esta, quando vem, significa “mau tempo”.

      1. Pedro, de acordo. O comentário agora é só para indicar que fui eu quem escreveu o comentário a que respondeste. Por qualquer razão não me registou como autor…

  9. Acho que a diferença está na duração desse “bom” ou “mau” tempo.
    Um dia de sol em Janeiro é bom. 31 dias de sol em Janeiro é péssimo.

  10. Boa , Pedro
    Como diz o povo, não se pode ter sol na Eira e chuva no Nabal. Bolas, mas o povo é chamado para que? Afinal o que é o povo? “Se isto não é o povo onde está o povo?” Ano de sonho, com tudo a arder?

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