Outra vez na linha justa


Luís Naves,

A eleição de Mário Centeno no Eurogrupo está a ser aproveitada pelo governo para o habitual estardalhaço propagandístico que acompanha as suas pequenas vitórias, mas a partir de agora torna-se mais difícil esconder a esquizofrenia da combinação política que nos governa. Centeno não terá poderes para contrariar a ortodoxia financeira na zona euro, pelo contrário, será ele a anunciar as medidas necessárias para garantir o cumprimento do Tratado Orçamental que regula a relação entre os países da moeda única. O próximo ano é decisivo para negociar os fundos comunitários após 2020, mas convém não perder de vista que desaparece a contribuição britânica e haverá menos dinheiro para distribuir. Portugal tem vantagem em aderir ao cumprimento estrito das regras (redução do défice estrutural) e o presidente do Eurogrupo será relevante na negociação da futura arquitectura da zona euro, que precisa de novos mecanismos para impor a disciplina aos Estados. O Conselho Europeu tem o exclusivo das decisões relevantes sobre essas reformas e, dentro do Conselho, o directório de potências (que escolheu o ministro português). Enfim, não muda nada lá fora, mas muda qualquer coisa cá dentro, pois Centeno terá poderes comparáveis aos de Vítor Gaspar. O PM não o pode demitir ou substituir, sob pena de arranjar um trinta-e-um nos mercados e perder uma posição europeia. A influência interna do ministro aumenta, pois invocando a sua qualidade de presidente do Eurogrupo, terá força para impor metas ambiciosas na redução da despesa e defender maior ousadia na diminuição da dívida, o que não foi possível nas circunstâncias da geringonça. O governo minoritário é capaz de viver com isso, mas o apoio parlamentar dos partidos de esquerda pode sofrer. A dois anos de eleições, a confiança entre os parceiros não será a mesma: com uma simples nomeação, a Europa conseguiu recolocar Portugal na linha justa.

3 comentários em “Outra vez na linha justa”

  1. Portugal no caminho da glória:

    Depois da estrondosa vitória de Centeno, temos outra em linha de partida:

    Azeredo Lopes para Sectário Geral da Nato…

  2. Sempre que acontece qualquer coisa, seja o que for, vêm-se vaticínios do desparecer da Geringonça.

    A menos que a Gerigonça seja eterna, o que parece pouco provável, um dia destes acertam. Vai ser difícil é perceber se foi vidência ou persistência.

  3. A sua análise está ferida pelo sentimento de pesar pela queda da anterior geringonça.
    Eu explico-me: esta geringonça aplicou a ortodoxia europeia, mas fê-lo de outra maneira. O que não aplicou segundo a ortodoxia europeia foi o processo das reversões.
    Quando refere que “terá força para impor metas ambiciosas na redução da despesa e defender maior ousadia na diminuição da dívida, o que não foi possível nas circunstâncias da geringonça.”, eu percebo o que diz. Mas o sentido que lhe dá é errado.
    A anterior geringonça jamais conseguiria uma redução de 3.9 mil milhões na dívida pública com as políticas que tinha seguido. E esta redução alcançada foi precisamente pelo estrangulamento originado pelo défice primário, isto é, cativações e outras despesas. Aqui tem o que a ortodoxia europeia pode originar: manutenção da pobreza, péssimo serviço público e aumento da dívida através das próximas emissões, provavelmente lá para o 1º trimestre de 2018.

    Quanto à eleição de Centeno, é uma manobra do Eurogrupo para fingir estar atento às reivindicações dos países do sul da Europa. Todavia, eu penso que Centeno se não se puser à cautela eles tentarão “sujar-lhe” as mãos.

    O aspecto positivo do que está a acontecer em Portugal resume-se à entrada de Santana Lopes em cena; e espero que Seguro também o faça.

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