Piano Bar
lauraramos,
O novo livro do Filipe Nunes Vicente já está nas bancas.
Depois de tantos preliminares, confesso que estava muito curiosa com esta deriva para a novela.
Um caso muito sério, o deste resmungão talentoso.
Gosto desta forma de falar, que não abdica do reconhecimento da qualidade.
Os tempos não estão pródigos para o estado social, mas a linguagem e a praxis das reformas penalizadoras, essas, sim, já são diferentes.
Nenhuma gestão ministerial pode dar-se ao luxo de cilindrar os poucos clusters de excelência que o SNS conseguiu construir, à custa de muita capacidade de organização, visão, lideranças pessoais, equipas altamente treinadas e profissionais de categoria internacional.
Mas era mais meio ano … e a destruição estaria completa.
Afinal, parece que ainda não está tudo perdido.
Nada como uma pausa num monte alentejano para nos devolver a dimensão do tempo.
Nem tão imóvel quanto agora. Nem tão urgente quanto aquele que nos aguarda.
Esta quietude não é deste mundo. O mundo da pam-politização. Das convulsões. Dos impasses da moeda. Da geo-estratégia. Das culturas decadentes e das economias emergentes. Da insegurança. Do medo do futuro. Do pânico da perda.
– Pânico? – Perda? Não. Subitamente, o mundo é isto, aqui, suspenso na relatividade absoluta de uma abóbada celeste descomunal e perfeita, descrevendo um ângulo raso tão nítido, de extremo a extremo, quanto os milhares de estrelas que semeiam este céu sardento.
Larguei o meu Divórcio em Buda (na verdade, e por hoje, estou um pouco farta das confissões de Kristóf, talvez porque me lembrem um pouco a minha própria vida, tão alinhada entre os apelos do desempenho e as contradições do espírito).
Apaguei as lanternas do terraço e assim fiquei, espectadora da noite, perdida nos enigmas do planeta, nos segredos da vida, nas ironias do tempo, que nos verga e devora. E nós sempre sem perceber porque corremos. – Exactamente atrás de quê?
Quedei-me por aqui dois dias, pertinho de Sabóia, escapando ao êxodo de fim do ciclo de férias. Entre manhãs a contemplar esta lonjura, e tardes longas, ardentes de calor, despeço-me do mar e percorro a costa vicentina: Zambujeira, Alteirinhos, Milfontes… Tudo estereótipos. Redime-me apenas o Malhão. E Porto Côvo (sempre).
Mas as águas quentes… que é delas? Nada nos consola quando se regressa do fidalgo aconchego da Ria Formosa.
Acordo ao som de um ruído compassado que vem da porta do meu quarto: o arranhar das patas do meigo labrador branco, que implora por afagos e atenção.
– E quem não pede o mesmo? Apenas demoramos mais, nós, os humanos. O Óscar, esse, adoptou-nos no espaço brevíssimo de um dia (e teria partido connosco para destino incerto).
O espectáculo do céu despareceu agora, à luz do dia. Cedeu o palco ao horizonte, tomado pela planura e pelos maciços de freixos e amieiros.
Sempre que a vida for insuportável, voltarei aqui, ao som e ao verbo da planície.
Para rever a dimensão pequena da nossa circunstância.
E, como o Óscar, acreditar inabalavelmente nas pessoas.
Confiar e rosnar. Guardar e atacar.
Regresso às lides com esta voz por dentro.
Segundo uma lei conhecida, os homens, considerados colectivamente, são mais estúpidos do que tomados individualmente. Numa conversa a dois, convém que respeitemos o parceiro, mas essa regra de conduta já não é tão indispensável num debate público em que se trata de dispor as massas a nosso favor.
O mimetismo é a mola principal para mover as massas no sentido do entusiasmo, do respeito ou do ódio. Mesmo perante um pequeno público de trinta pessoas, há sempre algo de religioso que provém da coagulação dos sentimentos individuais em expressão colectiva.
No meio de um grupo, é necessária energia para pensar contra a maioria e coragem para exprimir abertamente essa opinião.
Georges Picard
Os nossos líderes têm pedido que partilhemos sacrifícios. No entanto, quando fizeram esse pedido, esqueceram-se de mim.
Informei-me junto dos meus amigos milionários para saber que sacrifícios lhes foram pedidos, mas também eles ficaram intactos.
Enquanto muitos americanos lutam para chegar ao fim do mês e pagar as despesas, nós, os mega-ricos, continuamos com as nossas extraordinárias isenções fiscais.
Paguei ao Estado Federal 17.4% dos meus vencimentos do ano passado, enquanto a vintena de pessoas que trabalham no meu escritório pagou uma percentagem que oscila entre os 33% e os 41%.
Warren Buffet, tido como o 3º homem mais rico do mundo
«Parem de mimar os super-ricos», The NYT, 14.08.2011
Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados. É raro alguém manter com exactidão a justa medida. Aqueles que, por intermédio de esforços e esperanças, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que hão-de vir, são, apesar dos seus ares petulantes, comparáveis àqueles asnos da Itália, cujos passos são apressados por um feixe de feno que, preso por um bastão, pende diante da sua cabeça. Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim (interinamente), até morrer.
Só o presente é verdadeiro e real; ele é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência. Dessa forma, deveríamos sempre dedicar-lhe um acolhimento jovial e fruir com consciência cada hora suportável e livre de contrariedades ou dores, ou seja, não a turvar com feições carrancudas acerca de esperanças malogradas no passado ou com ansiedades pelo futuro.
A. Schopenhauer
Na A1 em direcção ao Norte, rumo a esse trópico imaginário com nome alquímico: férias. Os preliminares enjoam-me. E o cansaço, este ano, devorou qualquer réstea de festa antecipada. -Quando conseguirei eu partir sem mais, de mãos a abanar, livres para agarrar tudo o que me espera? Excesso de bagagem. Malas mentais, a abarrotar de peso. Felizmente, neste percurso só há controladores de velocidade e flashes devassadores que disparam instantâneos sobre o meu carro, e os de todos nós, os que desafiamos o limite estabelecido por decreto. Não há check-in nas autoestradas portuguesas (ai, se descobrem e se lembram, como se lembraram da via verde). Apesar de tudo, vou decidida mas de olho vivo em tudo e todos, não vá um doido quebrar o manual de sobrevivência do infractor, tacitamente aceite pelos viajantes do asfalto.
Saí pela fresca. A tardinha garante-me a paz de que preciso. Não gosto de calor e o ar condicionado faz-me mal. Prefiro a janela aberta, o vento na cara, a estrada razoavelmente livre e o Venham Mais Cinco em altos berros no leitor (ninguém ouve). Nas duas faixa S-N, o espectáculo de sempre: pesados a ultrapassar pesados, obrigando os ligeiros a travar, a bufar, a reduzir drasticamente a velocidade para que os tontos possam brincar impunemente. Passo o Porto, e o dédalo de entradas. Desta vez, nada com ele. Quero é a ponte do Freixo, a última cortada. A ver se não me engano na entrada para a A3 (eterna ratoeira para quem circula sempre pela esquerda). Feito. A preceito. E então sim, suspiro, num arremedo de felicidade, porque me sinto a passar a barreira da atmosfera. Estou finalmente em terras do condado. Há lá força telúrica que se compare a isto… Começo a cantar alto e o parceiro do lado acorda, estremunhado (dorme sempre, num cumprimento à qualidade da minha navegação terrestre… gosto de pensar que é disso). Nomes deliciosos: Cruz. Celeirós. Um rio, Labriosque. Passos. Martim. Um pouco mais e pronto: eis-me chegada a estas paragens onde tudo é verde, tudo é granito escuro, a fazer brilhar hortênsias e glicínias, onde tudo é água e em suma, profusão. Agora, sim, apetece-me andar a 40. Quero sentir o cheiro forte a eucalipto, ouvir os cigarrais, gozar a noite fresca e perder-me a olhar o céu despudoradamente transparente, exibindo aquele disco branco, enorme, que me confirma a entrada num outro reino de grandezas. Essa lua diferente, imensa, nova-rica do espaço sideral, que teima em vir comigo estrada fora, até chegar ao portão verde da casa onde me aguardam.
Boa noite às coisas aqui em cima. Soou a minha hora!