Nada como uma pausa num monte alentejano para nos devolver a dimensão do tempo.
Nem tão imóvel quanto agora. Nem tão urgente quanto aquele que nos aguarda.
Esta quietude não é deste mundo. O mundo da pam-politização. Das convulsões. Dos impasses da moeda. Da geo-estratégia. Das culturas decadentes e das economias emergentes. Da insegurança. Do medo do futuro. Do pânico da perda.
– Pânico? – Perda? Não. Subitamente, o mundo é isto, aqui, suspenso na relatividade absoluta de uma abóbada celeste descomunal e perfeita, descrevendo um ângulo raso tão nítido, de extremo a extremo, quanto os milhares de estrelas que semeiam este céu sardento.
Larguei o meu Divórcio em Buda (na verdade, e por hoje, estou um pouco farta das confissões de Kristóf, talvez porque me lembrem um pouco a minha própria vida, tão alinhada entre os apelos do desempenho e as contradições do espírito).
Apaguei as lanternas do terraço e assim fiquei, espectadora da noite, perdida nos enigmas do planeta, nos segredos da vida, nas ironias do tempo, que nos verga e devora. E nós sempre sem perceber porque corremos. – Exactamente atrás de quê?
Quedei-me por aqui dois dias, pertinho de Sabóia, escapando ao êxodo de fim do ciclo de férias. Entre manhãs a contemplar esta lonjura, e tardes longas, ardentes de calor, despeço-me do mar e percorro a costa vicentina: Zambujeira, Alteirinhos, Milfontes… Tudo estereótipos. Redime-me apenas o Malhão. E Porto Côvo (sempre).
Mas as águas quentes… que é delas? Nada nos consola quando se regressa do fidalgo aconchego da Ria Formosa.
Acordo ao som de um ruído compassado que vem da porta do meu quarto: o arranhar das patas do meigo labrador branco, que implora por afagos e atenção.
– E quem não pede o mesmo? Apenas demoramos mais, nós, os humanos. O Óscar, esse, adoptou-nos no espaço brevíssimo de um dia (e teria partido connosco para destino incerto).
O espectáculo do céu despareceu agora, à luz do dia. Cedeu o palco ao horizonte, tomado pela planura e pelos maciços de freixos e amieiros.
Sempre que a vida for insuportável, voltarei aqui, ao som e ao verbo da planície.
Para rever a dimensão pequena da nossa circunstância.
E, como o Óscar, acreditar inabalavelmente nas pessoas.
Confiar e rosnar. Guardar e atacar.
Regresso às lides com esta voz por dentro.


Belíssimo e desassossegante desabafo esse com que nos bilrou.Senti-me sentado à soleira da porta ou no balancé escutando o sussurrar da barragem de Santa Clara por perto.Obrigado.
Obg, Renda 😉 À soleira, sim, segundo o bom costume alentejano… percebe-se melhor quando se está por lá.
Sabe Laura?
Uma escrita assim faz uma pessoa gostar de si.
A. Samora, só sei que… nem sei que lhe diga! Que um comentário desses me faz gostar de si. Obrigada 😉
Bonito texto, Laura. Há muito tempo que não lia nada tão bucólico.
E nós sempre sem perceber porque corremos.
Eu diria mesmo: E nós sempre sem perceber porque ocorremos.
Agora… Laura e Ivone,
Vossemcês surpreenderam-me. É que não me passava pela ideia que tanta gente assim importante aqui dos blogues conhecia Sabóia. Sabóia deve estar a ficar importante por se situar próximo de St.ª Clara… 😉
(vá lá, um espinhozinho na velha rivalidade)
Quer dizer que, só aqui entre a gente, já somos 3 a conhecer Sabóia. Assim, lá se vai o sossego!
E sabe que fiquei curiosa acerca da origem do nome da terra? Aliás, naquela zona há lugares com nomes bem bonitos, como ‘Relíquias’, por exemplo. Ah: e estradas bem conservadas (importantíssimo!).
E sempre que voltares aí – espero que não por essa razão, mas por outras mais suportáveis – não te esqueças de brindar-nos com um texto assim pausado, rico, cheio de beleza e filosofia. Quem bom ler-te. E que milagres produz em nós o Alentejo, não é? Fiquei com saudades, agora. Adoro o Alentejo.
Anyway, bem-vinda à loucura diária do mundo real. Fazes falta por cá. Beijo!
Obg, Ana…. Vamos à vida, que a morte é certa – como dizia a minha Avó 🙂
(escrevi um comentário e, depois, devo tê-lo apagado, não faço nada com jeito)
Dizia eu que este é um texto belíssimo e que nasci muito perto de Sabóia porque os meus pais estavam a passar o fim-de-semana em casa dos meus avós.
Se formos como o Óscar, será tudo mais simples. Boa rentrée.
Custa tanto a rentrée, Ivone! Ora que belo concelho para se nascer, o de Odemira. Bem procurei o tal vizir de que falava o Carlos T… mas até S. Teotónio, nada 🙂 Em compensação, encontrei um bom restaurante. O Tarro!
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facebook, assim não vale, que eu fico sem saber…quem é.