Para a semana há mais?


jorgeassuncao,

 

Dois dos arguidos do processo Freeport revelaram à TVI que há um outro primo de José Sócrates envolvido no negócio. O primeiro ministro é, obviamente, um tipo com muito azar na família que lhe calhou na rifa. Entretanto, a pergunta que se coloca é: dia 11, 18 e 25 de Setembro, a TVI vai continuar a dar seguimento à investigação sobre o Freeport ou o caso voltará a desaparecer da agenda mediática?

Já desmentiu? Já se pronunciou? A vítima já disse alguma coisa?


jorgeassuncao,

 

«O Governo já disse que não foi consultado no negócio que envolve a PT e um canal privado de TV», sublinhou João Tiago Silveira.

 

Esta capa do Expresso teve direito a qualquer comunicado ou conferência de imprensa do Governo? Sócrates alguma vez foi questionado sobre o facto de ter mentido aos portugueses? Ou são tudo campanhas negras, o homem merece o benefício da dúvida e eu devo ficar aqui caladinho quando sei que o primeiro-ministro elevou a mentira a arma política como nenhum outro? Judite de Sousa não entrevistou Sócrates recentemente? Fez-lhe alguma perguntinha sobre este caso? Ou é jornalismo de sarjeta questionar o nosso primeiro quando o homem mente com todos os dentes que tem?

Muito mal vai a sociedade em que este tipo de notícias não fica mais de uma semana na imprensa e, sem que o principal interveniente alguma vez tenha-se pronunciado sobre a mesma, pura e simplesmente desaparece da actualidade noticiosa.

Comparações


jorgeassuncao,

O caso Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) em nada pode ser comparado com o caso Manuela Moura Guedes (MMG). Passo a explicar: 1) MMG não vai ter direito a ser recebida por um Presidente da República preocupado com a liberdade de imprensa (imaginem que Cavaco tentava algo semelhante com o que fez Jorge Sampaio. Imaginam? Pois, eu também não). 2) MRS era uma voz incómoda de dentro do próprio partido (uma das coisas que me espanta nos actuais socialistas é a incapacidade de pensamento critico, nisso, reconheça-se, os sociais democratas há cinco anos revelaram ser bem melhores). 3) Santana Lopes nunca beneficiou da retórica da campanha negra, nem do benefício de dúvida, de que Sócrates parece beneficiar (comparem a quantidade de casos de um e do outro lado e eu arrisco-me a dizer: volta Santana que estás perdoado).

Há asfixia democrática em Portugal, como acusa Manuela Ferreira Leite?


jorgeassuncao,

Há. E Pedro Santos Guerreiro tem um excelente texto sobre o assunto no Jornal de Negócios:

 

Mas há quem tenha medo e faça auto-censura. E há ameaças de represálias. Ferreira Leite foi pouco específica, mas subentende-se que falava daqueles que trabalham ou têm relações com o Estado: a Administração Pública, as empresas públicas, as empresas privadas que, numa economia tão estatizada, dependem de uma licença, autorização ou beneplácito do Governo. Vários casos de represálias foram sendo tornados públicos. Do processo disciplinar da DREN a um professor que faz piadas de mau gosto, a Paulo Azevedo que assume que a Sonae perde negócios por causa da linha editorial do "Público". […] Sim, o Estado é retaliador, sim há um clima de desrespeito pelo livre funcionamento da economia, da igualdade de oportunidades entre as empresas, da liberdade de crítica e de imprensa. Nunca foi tão mau? Enquanto a sociedade se amochar, será cada vez pior.

 

O exemplo de Paulo Azevedo e da SONAE talvez ajude a explicar as "razões económicas" que  fundamentaram o fim do Jornal Nacional à sexta-feira na TVI.

A greve compensa


jorgeassuncao,

Esta empresa dá prejuízo atrás de prejuízo. A TAP que, por lei, não pode controlar a empresa, na prática, controla-a. Há muito que a companhia aérea nacional procura um investidor privado que queira comprar a Groundforce (como já referi, a legislação a isso obriga). Contudo, dificilmente alguém estará interessado numa empresa que em 2008 apresentou um prejuízo de cerca de 36 milhões de euros. Uma reestruturação da mesma é necessária. Os sindicatos, em nada aproveitando o facto de estarmos próximos de eleições, forçam a adopção de um acordo que dificulta qualquer reestruturação, pedindo a acção do governo para salvar postos de trabalho na empresa. O governo, através da TAP, cede à pressão dos sindicatos. Nem tão cedo aparecerá um privado interessado na empresa. Nem tão cedo a empresa deixará de apresentar prejuízo. Para um privado o prejuízo constante não é opção. Em empresas controladas pelo Estado é. Todos sabemos quem é que paga. Para o contribuinte não há quem o salve. Neste país, o direito à greve, legítimo e justo, está totalmente desvirtuado, aproveitando sobretudo a quem procura extrair rendas junto do contribuinte.

Extracção de rendas junto do contribuinte


jorgeassuncao,

 

O quadro em questão pretende identificar as diferenças salariais, para o mesmo nível de qualificação, entre os trabalhadores do sector privado e os trabalhadores do sector público dos países em questão. Os dados têm cerca de uma década, mas entretanto, como confirmado por outro estudo recente, as coisas se mudaram foi para pior. Em Portugal, uma trabalhadora no sector público ganha, em média, cerca de 65% mais do que uma trabalhadora no privado. Justifica-se que assim seja? A minha resposta é não. A começar nos horários vantajosos dos funcionários públicos e a acabar na generosa protecção ao emprego que o sector garante.

O número de desempregados tem crescido quase sem descanso desde o início da década, quantos desses desempregados vieram do sector público? A grande maioria vem do sector privado. Portanto, quando alguns se referem aos funcionários públicos como "os mesmo de sempre" no que toca a pagar a crise, revelam, no mínimo, desconhecimento. Porque não há quem sofra mais na pele a crise do que aquele que está desempregado. Esse (a) coitado (a) é que é o (a) mesmo (a) de sempre.

Outros há que duvidam dos números, nunca os funcionários públicos podem estar tão melhor remunerados que os trabalhadores do sector privado. Deixo a pergunta, se assim é, porque surgem tantos candidatos quando abrem vagas no público? E qual o motivo que leva o fluxo de trabalhadores que troca o público pelo privado a ser tão reduzido/inexistente?

Infelizmente, temo que o que explica o diferencial é a mera extracção de rendas junto do contribuinte, não por acaso, os sindicatos com maior peso estão normalmente associados ao funcionalismo público. E o político encontra no sector bem organizado dos funcionários públicos um grupo onde procura obter vantagem eleitoral. Ele sabe que se não agradar a tão grande e bem organizado grupo arrisca-se a não ser reeleito. Sócrates, com o aumento salarial de 2,9% ao sector, demonstrou saber muito bem como as coisas funcionam.

Ler Fernando Pessoa


jorgeassuncao,

"O operário ou o empregado é considerado como um ente à parte, fora do giro económico da sociedade onde vive, misteriosamente desligado do industrial ou comerciante que o emprega, e do consumidor a quem este serve. Legisla-se em favor do operário ou empregado contra o comerciante e o industrial; e contra o consumidor; e supõe-se que sobre esse mesmo empregado ou operário não recairão nunca os efeitos da legislação.”

 

“As algemas,” Revista do Comércio e Contabilidade, n. º 2, Fevereiro de 1926

Cancro nacional


jorgeassuncao,

(fonte)

 

Medina Carreira solicitava na SIC Noticias que fosse criada uma comissão para avaliar o motivo dos investidores estrangeiros trocarem Portugal por outros países europeus. Não tenho a mínima dúvida que um desses motivos é a elevada protecção ao emprego que vigora em Portugal e não é preciso nenhuma comissão independente para descobrir isso. A OCDE, bem como outros institutos internacionais, há muito que referem o assunto em qualquer análise à economia nacional. Tenho pena que nenhum político consiga abordar o  tema com a seriedade que este exige, sendo o mesmo invariavelmente remetido para uma lógica esquerda-direita, como se, de todos os países da OCDE, só Portugal, a liderar o ranking por larga vantagem, tivesse ‘legislação laboral de esquerda’. E ficam as perguntas: se lideramos o ranking na protecção ao emprego, o que ganhamos com isso? Temos menos desemprego por causa disso? Não me parece. Temos maior estabilidade por causa disso? Não me parece. Estabilidade no emprego não é o Estado legislar de forma a garantir que o emprego que tenho é para a vida, utopia não possível de realizar, mas antes procurar soluções que permitam que uma pessoa quando vai para o desemprego possa sair dessa situação o mais rapidamente possível.

Entretanto, com a legislação que temos, a única coisa que ganhamos é menor produtividade, menor salário e menor bem-estar. Mas, para compensar, podemos aparentar orgulho por liderar um ranking da OCDE, que é motivo para tanta felicidade como a que o último classificado do campeonato nacional tem quando lidera o ranking dos golos sofridos.

Nacionalizações


jorgeassuncao,

O Público, na edição de hoje, dedica duas páginas ao tema das nacionalizações, que voltou à agenda devido ao caso do BPN, mas também porque PCP e BE estabeleceram a nacionalização de alguns sectores como proposta nos seus programas.

A propósito do tema, Louçã refere que os lucros da EDP e da Galp seriam "suficientes para equilibrar as contas públicas num país com um défice orçamental crónico". Curioso, como é que Louçã nacionalizaria as duas empresas para que os lucros desta revertessem a favor do Estado? Não teria isso impacto negativo no défice orçamental? Se calhar teria, talvez por isso o mistério, uma vez que como conta o Público, "PCP e BE são vagos quando chamados a explicar como se desenrolariam, na prática, estes processos de indemnização". O comunista Octávio Teixeira, com alguma sinceridade, admite que "numa primeira fase" o Estado teria de recorrer ao aumento da dívida pública ou financiamento bancário. Como sabemos, problemas com endividamento excessivo é coisa que o Estado português não tem. E os juros da dívida pública não teriam qualquer impacto no défice orçamental, o tal que é crónico e Louçã pretende equilibrar. Demagogia em estado puro.

O livro sobre as caricaturas de Maomé


jorgeassuncao,

Sem as caricaturas de Maomé: Yale University and Yale University Press consulted two dozen authorities, including diplomats and experts on Islam and counterterrorism, and the recommendation was unanimous: The book, The Cartoons That Shook the World, should not include the 12 Danish drawings that originally appeared in September 2005. What’s more, they suggested that the Yale press also refrain from publishing any other illustrations of the prophet that were to be included.

Optimismo vs Pessimismo


jorgeassuncao,

 

Estas duas revistas são edições do mês de Junho de 2005. O pessimismo da The Economist por contraste com o optimismo da Time. Hoje, sabemos quem tinha razão. Empresários e políticos, na altura, optaram pelo optimismo da Time. Em 2009, segundo o querido líder, os portugueses serão confrontados com a terrível escolha entre o optimismo de uns e o pessimismo de outros. Esperemos que saibam escolher o lado certo. É que o optimismo dominante, não poucas vezes, confunde realismo com pessimismo. E, dada a prevalência da cultura do Estado-empresário, o optimismo tende a prescrever doses exageradas na receita para os problemas do país.

Novo rumo


jorgeassuncao,

"Decorridos mais de 30 anos, complexos ideológicos determinam que a Constituição ainda aponte o "caminho para uma sociedade socialista" como um desígnio nacional por "decisão do povo português". Os mais variados governos têm seguido o desígnio à letra, sendo que o mais recente não foge à regra. O resultado é um Portugal cada vez mais na cauda da Europa, com a originalidade de ser a primeira economia submergente no mundo. As pessoas que se juntam em torno deste projecto, não têm todas a mesma solução para o país, não apoiam todas o mesmo partido, se é que apoiam algum partido, mas consideram que o país deve libertar-se das amarras socialistas que impedem a adopção de um Novo Rumo"

 

Mais aqui.

Blogue da semana


jorgeassuncao,

A autora do blogue em causa é uma das muitas pessoas que tenho o prazer de ter conhecido neste mundo blogosférico. É também um óptimo exemplo do porquê que sou favorável a escrever em blogues que permitam comentários, foi através destes que troquei as primeiras palavras com ela. A única dúvida que tive foi, sendo este um espaço para a nomeação de um só blogue, qual deles nomear, pois a Ana Silva Fernandes, também conhecida das caixas de comentários de alguns blogues, incluindo o nosso, por rio_sem_regresso, tem dois de que gosto igualmente. Mas a sequência de posts sobre a importância da amizade que preenche um dos blogues, facilitou-me a escolha. Está assim encontrado o blogue da semana,  o excelente Vozes Dissonantes.

Quatro notas sobre o programa (ou falta dele) do PSD


jorgeassuncao,

O nosso colega José Gomes André afirma no Jamais que "para os socialistas e todos aqueles que não se cansam de bater na tecla "o PSD está atrasado a mostrar o seu programa" só tenho duas frases a dizer. Data em que o PS apresentou o programa para eleições legislativas de 2005: 21 de Janeiro. Data da eleição: 20 de Fevereiro." Ora, este argumento usado contra os socialistas ainda é mais ou menos compreensível, sobretudo para aqueles que na altura não manifestaram qualquer reacção ao atraso do programa socialista. Mas, atendendo ao que foi o governo do partido socialista e ao que ficou por cumprir em relação ao programa apresentado, o argumento usado pelo José é óptimo para justificar o porquê que o programa do PSD já devia ser público neste momento. A transparência, dizer claramente ao que se vem, e o escrutínio, a análise se as propostas concretas são exequíveis, devem ser norma numa democracia e para a concretização destas duas vertentes o tempo entre a apresentação do programa e o dia das eleições conta. O candidato Obama, a mais de um ano de distância das eleições, já afirmava claramente o que pretendia do sistema fiscal americano e prometia um sistema nacional de saúde. Na direita portuguesa não faltou quem afirmasse que o homem não tinha ideias, com Ferreira Leite são menos exigentes. Para mais, se o PS tivesse tido outro timing em 2005, talvez a proposta da recuperação dos 150 mil empregos tivesse sido desmontada.

Também no Jamais, Pedro Picoito afirma que "Nas europeias, segundo os preocupados, Manuela Ferreira Leite não apresentou o cabeça de lista a tempo. Quando o apresentou, não era mobilizador. E o resultado seria desastroso. Agora, repete-se a angústia com o programa. Que já cá devia estar, que não vai haver tempo para o discutir, que o PS parte em vantagem. E brande-se o espectro da derrota." A táctica de Ferreira Leite pode ser a melhor para obter uma vitória em Setembro, mas é a melhor para a credibilização da democracia portuguesa? É a melhor para o pós-Setembro? Dúvido. Sem um mandato claro para mudar alguma coisa, nada mudará.

Continuando no Jamais, João Gonçalves diz que "Ferreira Leite tem todo o interesse em falar para o país – coisa diferente de o maçar com calhamaços demagógicos que ninguém lê e dos quais só se respiga o picaresco – quando o país estiver para aí virado. E só estará, pela fatalidade do calendário eleitoral, em Setembro." Bem sei que a blogosfera não é o país, mas não percebo então tanta insistência do Jamais na produção de posts nesta altura do ano. Diz ainda que "Para mais, depois do dia 27 tudo indica que ninguém vai poder aplicar o "seu" programa. Para quê perder tempo?" De facto, nunca percebi a insistência de partidos como o CDS, o BE ou o PCP em apresentarem um programa. Em todas as eleições, tudo indica que não serão capazes de aplicar o "seu" programa. Podemos estar a entrar numa nova fase da política nacional, a dos partidos sem programa, os quais merecem a confiança dos eleitores porque sim.

Para terminar, concordo com o que o nosso Pedro Correia diz no Corta-Fitas, "a oposição à construção do TGV e à terceira ligação rodoviária por auto-estrada Lisboa-Porto" para programa de governo é muito pobre. Mas mantenho o que disse aqui. Se há ponto importante a garantir nas próximas eleições é que o governo eleito não dará seguimento a qualquer política de grandes obras públicas. Entre um PS pró-obras públicas e um PS anti-obras públicas (e por obras públicas, refiro-me às grandes obras públicas que endividam o país por anos), a vitória do segundo sobre o primeiro é um imperativo nacional. O que já não estou tão certo é que exista um PS anti-obras públicas em Portugal.