Não contem comigo


jmmcc,

«Os sintrenses e as sintrenses.» «Os portuenses e as portuenses.» «Os votantes e as votantes.» «Os jovens e as jovens.» Chega. Pela minha parte, candidato que recorra a estes preciosismos baratos da imensa bacoquice que inunda a política pode esquecer o meu voto. Mesmo que o substantivo tenha género: «Os cidadãos e as cidadãs.» Também é para esquecer. Mesmo que o candidato seja educado: «As eleitoras e os eleitores.» Esqueçam. Não contem comigo.

Se odeio a parolice, abomino a carneirada. Que raio de modas! Já é insuportável ouvir permanentemente estas coisas. Acabem com isso, senhores. E senhoras.

Sócrates já nem pestaneja


jmmcc,

Para José Sócrates, é «uma grande notícia» que os irlandeses tenham maioritariamente dito ‘sim’ ao tratado pró-constitucional europeu, o chamado Tratado de Lisboa, nesta insistência do segundo referendo lançado por Dublin para o efeito. Sócrates declarou sem pestanejar que foi uma resposta «clara e livre». Se pestanejou, foi por se lembrar de que nos prometera também um referendo sobre o tratado e faltou à promessa. Os portugueses não puderam igualmente pronunciar-se de forma "clara e livre", por ele ter sonegado a oportunidade. Se pestanejou, foi por isso. Mas acho que não pestanejou: faltar a promessas tornou-se corriqueiro com o tempo.

Submarinos voadores valem ouro


jmmcc,

O caso dos dois submarinos é um nó de marinheiro. A investigação está à tona da água e aguenta-se, o con-trato foi ao fundo e desapa-receu, as comissões foram ao ar e evaporaram-se. Em tempos de crise, o investi-mento é bom: a história foi lançada no mercado a 34 milhões de euros e já vai em centenas de milhões.       

Sector da corrupção está saudável


jmmcc,

Há sectores nacionais que não têm sofrido com a crise. Um deles é o da corrupção, que continua pujante. Com efeito, os indicadores agora divulgados mostram que Portugal caiu de lugar no ranking mundial sobre a corrupção. Não que tenha caído muitos lugares, mas convinha saber por que é que isso aconteceu. Como já se adivinha que nunca se saberá oficialmente a razão, investiguei por minha conta e apurei o seguinte: o nosso país caiu poucos lugares porque os megaprojectos ainda não arrancaram.

Outra previsão


jmmcc,

Depois disto e disto, estou em condições seguras para vos dar o nome de um ministro que não será reconduzido: aquele que, a meio de um Verão fracote, apareceu a dizer que as coisas não estavam a correr mal, em matéria de incêndios. Logo no fim de Agosto, Portugal atingia o terceiro lugar dos países europeus com mais área florestal ardida, imediatamente abaixo da Grécia e de Espanha. E o Setembro ainda foi de mal a pior.

Rui Pereira sai. Para os outros, está queimado. Para ele, ardeu.

Uma história submersa


jmmcc,

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O Nautilus e o capitão Nemo

Júlio Verne foi um visionário de grande gabarito, como todos sabemos. Recordo-o aqui por me ter lembrado de uma das suas obras mais empolgantes: Sete Mil Lecas Submarinas. Actualmente, dá qualquer coisa como 34 milhões de euros.

(1 leca = 1 milhão de contos)

Judite correspondida?


jmmcc,

Soube hoje disto. Ora leiam.

Somos um País provinciano.

Estou-me nas tintas para aqueles que passam o tempo na blogosfera.

Não alimento territórios marcados por terrorismo verbal.

A blogosfera é uma estupidez.

São pensamentos profundos da Judite de Sousa, confessados em discurso directo a um periódico nacional notável: a TV Guia. E ela, se calhar, é correspondida pela blogosfera.

Marcelo: a hora do nunca


jmmcc,

Desta vez, discordando do Pedro Correia aqui em baixo, vou retomar um elemento antigo que já foi apoucado em tempos, que costuma ser desvalorizado, que pode mesmo ser desconfortável, que todos parece evitarem, mas que está sempre silenciosamente presente. Por tradição, esse elemento apenas é referido indirectamente uma única vez, na pergunta que cada um faz perante um candidato presidencial: quem é (quem será) a Primeira Dama?

Marcelo Rebelo de Sousa é um dos homens que jamais chegarão a Belém, por mais condições que possa reunir, porque nunca será Presidente da República quem não leve consigo uma Primeira Dama. Dir-me-ão: a figura institucional da Primeira Dama não existe em Portugal. Eu respondo: não está consagrada de facto, mas existe. Existe não só implicitamente, mas também explicitamente: tem instalações de trabalho, tem staff’, tem segurança, tem agenda, tem tudo o que se queira e cumpre um papel, nem sempre fácil e muitas vezes penoso.

Mesmo que assim não fosse, há um factor que um homem só não consegue contornar: o protocolo. O rigor protocolar não dispensa uma Primeira Dama em inúmeras ocasiões, pois um Presidente é recebido, designadamente, por outros Chefes de Estado e, sobretudo, também tem de receber. Tal como acontece no mundo em que o nosso país se insere há séculos, nestas coisas.

Em suma: por muitas condições que Marcelo tenha, faltar-lhe-á sempre uma. Seja qual for a hora. É pouco? Bem, se Portugal não pertence ao Terceiro Mundo, se o Chefe de Estado não recebe convidados oficiais em farda de combate, se não tem o hábito de andar pelo mundo a acampar em tendas, se o staff da Presidência não tem na lapela um emblema vermelho com o rosto do Grande Líder, então não é pouco nem é muito: é a vida.

O melhor do possível


jmmcc,

Um ligeiro e rápido exercício permite-me encontrar o lado melhor do resultado eleitoral, resumido a quatro pontos essenciais que deverão marcar o novo ciclo político.

 

1. O PS vê-se obrigado a abandonar a pose de arrogância adoptada enquanto o Parlamento andou esvaziado de funções pela maioria absoluta que foi garantindo vida fácil ao Executivo.

2. O Parlamento regressa à sua vocação como espaço de diálogo e debate e de discussão de ideias e projectos, indispensável a um regime como o nosso.

3. O PS vai reaprender a ouvir as oposições e a negociar com esta ou com aquela, de acordo com as matérias em apreço.

4. O novo Executivo é suportado por uma maioria relativa parlamentar, mas confortável q.b. para poder governar durante uma legislatura completa um país pouco mais do que ingovernável e a atravessar uma crise que só tem paralelo na Primeira República.

 

Saiba o PS reaprender a prática democrática, para responder à oportunidade que lhe foi oferecida por quem exige que se corrija. Se o fizer, talvez o que agora parece possível venha a ser desejável.

Televisões e pachorra


jmmcc,

Televisões e políticos através das televisões vão repetindo à exaustão que «o acto eleitoral tem estado a decorrer com toda a normalidade» e que «não se tem registado qualquer anomalia». Ora, se nós temos resistido estoicamente e legislatura após legislatura ao pior que a política tem para nos oferecer, agora esperavam o quê? Que fôssemos para as mesas de voto aos tiros? Não há pachorra para tanto disparate dito e redito.

Quem tem assistido à SIC-Notícias durante o dia, deve estar farto de ver e ouvir aquela jornalista do penteado tipo guarda à porta do palácio de Buckingham. É a rainha d’«osche a-reinventoresche a-da língua», que deixa o mais paciente sem pachorra para lhe escutar mais uma sílaba. Espero que a mandem descansar dentro de unsche a-momentosche a-por algunsche a-diasche. Ninguém em Carnaxide terá ficado também sem pachorra?

Momentos orgásmicos da política


jmmcc,

Hoje à tardinha, pouco antes do cair da noite, é o dia de todos eles. Comentadores, politólogos, intérpretes de sinais, todos eles vão entrar-nos em casa sem cerimónia através de tudo o que seja televisão. Canal generalista ou noticioso, pouco importa. O dia é deles.

 

Os comentadores, misto de jornalismo opinativo e de tarot, lá estarão a confirmar que tinham tudo previsto conforme antes se podia ter percebido. Ora porque realmente não disseram, ora porque já tinham dito que, se não houvesse sol ou chuva, o céu estaria seguramente enevoado. São politólogos previsíveis e intérpretes de ideias clarividentes.

 

Os politólogos, os que juntam a verdade do mundo desde que o mundo é mundo à psicanálise social, darão um toque de profundidade à realidade através da voz grave e sussurrante com que podiam estar a dizer «deite-se no psiché» ou «estenda-se no orçamento». São comentadores imaginativos e intérpretes de sinais escônsios.

 

Os intérpretes de sinais, os mais versáteis especialistas na complexidade das coisas simples, providenciarão as explicações sobre os indícios a partir de uma boca aberta que não pode ser de sono ou de um dedo enfiado acima da boca que nunca é comichão no nariz nem falta de educação. São comentadores descontrolados e politólogos incontidos.

 

Sobra um grupo, o maior: todos nós, comuns mortais apanhados do lado de cá das televisões. Sem pachorra para o déjà vu, alimentaremos durante um par de horas a ideia fixa de que haverá algo para ver, num frenesim desesperado de canal em canal. Não haverá, porque o dia é deles, o dia nacional do orgasmo político. Temos tempo pela frente. A nossa hora orgásmica há-de chegar, que o aperto excessivo do cinto já entumesce as partes baixas do limite da paciência humana.

Insuportável


jmmcc,

Ouço na SIC-Notícias: morreu uma pessoa esta tarde, infectada com a gripe A e internada num hospital. O pivot acrescenta: «Vamos continuar a acompanhar este caso.» Será vício ou tique? Vão continuar a acompanhar o quê? É insuportável ouvir estas coisas.