Grilos e companhia – 2


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Eis a casinha referida aqui, vista da rua, mais a relva, os ibiscos e a árvore, vistos do alpendre para fora.

26 comentários em “Grilos e companhia – 2”

    1. Sim, claro. A dois passos, quase em frente. Mais exactamente, sinto o cheiro a mar, porque “maresia” é o mau cheiro relacionado com o mar (algas apodrecidas e coisas assim).

  1. João, não faço ideia se gosta de poesia ou não mas, a propósito da sua terra adoptada – antes que o galo cante – gostaria de deixar, aqui, um poema de Vitorino Nemésio de uma ironia, a meu ver, deliciosa (haveria também o Emanuel Félix que gosto muito) se não achar interesse ou por qualquer outro motivo não publique, eu compreenderei.
    FIVE’O CLOCK TEA
    Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,
    Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,
    Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,
    Tão distinta, discreta, boa e doce.
    Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos
    Das pessoas que vão entrando;
    Aquela senhora de modos tão finos
    E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita
    sombra;
    Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,
    De que não me atrevo a pedir ramo algum
    Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando
    Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado
    de pedir ―
    Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,
    Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis
    e não me apetecer, francamente…
    E assim, imobilizado o meu pálido yes
    E falando francês àquela senhora inglesa,
    Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―
    Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas
    de Inglaterra,
    E pôs a barra azul na sala, por poesia,
    E escureceu os móveis numa tarde toda dourada
    Em que mais triste se sentia.
    A senhora inglesa,
    Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos
    trouxe para este dia;
    A senhora inglesa dos olhos claros;
    A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas
    correctas,
    E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia
    Só com o seu sim ou o seu não,
    O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo
    Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar
    as gengivas
    E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,
    Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em
    Inglaterra!
    O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena
    (À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus
    dedos como asas)
    O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar
    da Inglaterra,
    E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,
    Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,
    Que não existiu talvez senão para ser lembrada
    Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ―
    Que é assim a vida…
    Vitorino Nemésio

      1. Também creio que sim . Vitorino gostava de dizer que era sobretudo um poeta. Contudo a sua obra é muito diversa mas, foi com “Mau Tempo no Canal” que se universalizou. Acabei de ter acesso, através da biblioteca digital do Instituto Camões a um livro dele “O Primeiro Corso” que ainda não conhecia, já descarreguei o ficheiro e vou lê-lo. Assim termino o meu dia de reflexão.
        Boa noite.

        http:/ cvc.instituto-camoes.pt /conhecer biblioteca-digital-camoes /doc_details.html?aut=2070

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