Sim, claro. A dois passos, quase em frente. Mais exactamente, sinto o cheiro a mar, porque “maresia” é o mau cheiro relacionado com o mar (algas apodrecidas e coisas assim).
João, não faço ideia se gosta de poesia ou não mas, a propósito da sua terra adoptada – antes que o galo cante – gostaria de deixar, aqui, um poema de Vitorino Nemésio de uma ironia, a meu ver, deliciosa (haveria também o Emanuel Félix que gosto muito) se não achar interesse ou por qualquer outro motivo não publique, eu compreenderei. FIVE’O CLOCK TEA Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu, Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala, Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou, Tão distinta, discreta, boa e doce. Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos Das pessoas que vão entrando; Aquela senhora de modos tão finos E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita sombra; Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis, De que não me atrevo a pedir ramo algum Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado de pedir ― Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado, Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis e não me apetecer, francamente… E assim, imobilizado o meu pálido yes E falando francês àquela senhora inglesa, Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ― Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas de Inglaterra, E pôs a barra azul na sala, por poesia, E escureceu os móveis numa tarde toda dourada Em que mais triste se sentia. A senhora inglesa, Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos trouxe para este dia; A senhora inglesa dos olhos claros; A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas correctas, E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia Só com o seu sim ou o seu não, O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar as gengivas E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer, Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em Inglaterra! O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena (À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus dedos como asas) O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar da Inglaterra, E desta hora do chá a uma outra hora lá dela, Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida, Que não existiu talvez senão para ser lembrada Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ― Que é assim a vida… Vitorino Nemésio
Também creio que sim . Vitorino gostava de dizer que era sobretudo um poeta. Contudo a sua obra é muito diversa mas, foi com “Mau Tempo no Canal” que se universalizou. Acabei de ter acesso, através da biblioteca digital do Instituto Camões a um livro dele “O Primeiro Corso” que ainda não conhecia, já descarreguei o ficheiro e vou lê-lo. Assim termino o meu dia de reflexão. Boa noite.
Vida difícil.
Muuuuiiiito…
hibiscos
Por acaso, eu aprendi “ibisco”, mas julgo saber que também se escreve “hibisco”.
Sente a maresia?
Sim, claro. A dois passos, quase em frente. Mais exactamente, sinto o cheiro a mar, porque “maresia” é o mau cheiro relacionado com o mar (algas apodrecidas e coisas assim).
A Ana permitiu que víssemos o seu paraíso. Que inveja!
A inveja é uma coisa muito feia…
Uau! Maravilha! Que vontade de fazer já uma reserva 😀
Como sabes, é só dizeres.
Uau! que espectáculo!
Quando quiser aparecer, será um gosto.
“Ah home uisso ei que ei “quolidaide” de vuiida” à moda da Terceira:))
Não fica longe de si (não sou muito forte em estrangeiro, mas percebi). Hehehe…
Mais um uauuuu
ehehe
:))))))
Até já. Certo?
Essa arvore é um jacarandá ?
Acho que é da família: é um crocodilandá.
Quando lá estive, pareceu-me um aligatorandá…
Então deve ser. Eu sabia que é da família…
João, não faço ideia se gosta de poesia ou não mas, a propósito da sua terra adoptada – antes que o galo cante – gostaria de deixar, aqui, um poema de Vitorino Nemésio de uma ironia, a meu ver, deliciosa (haveria também o Emanuel Félix que gosto muito) se não achar interesse ou por qualquer outro motivo não publique, eu compreenderei.
FIVE’O CLOCK TEA
Eu canto o chá das cinco que minha Mulher ofereceu,
Às seis da tarde, ao longo da barra azul da sala,
Àquela senhora inglesa que o Outono nos adiantou,
Tão distinta, discreta, boa e doce.
Naquela cadeira exposta ali na sala aos destinos
Das pessoas que vão entrando;
Aquela senhora de modos tão finos
E de dentes brancos onde já um ramo de tempo deita
sombra;
Aquela senhora, ali, inglesa, no seu vestido de miosótis,
De que não me atrevo a pedir ramo algum
Enquanto bebo o meu chá, ao lado dela, pensando
Em tanto miosótis que tenho visto e me tenho acanhado
de pedir ―
Ou por não ser tempo de miosótis e ficar feio andar augado,
Ou por não haver outra coisa nos jardins senão miosótis
e não me apetecer, francamente…
E assim, imobilizado o meu pálido yes
E falando francês àquela senhora inglesa,
Eu canto o chá dourado que minha Mulher lhe oferece ―
Minha Mulher, que não é inglesa mas gosta de pessoas
de Inglaterra,
E pôs a barra azul na sala, por poesia,
E escureceu os móveis numa tarde toda dourada
Em que mais triste se sentia.
A senhora inglesa,
Que uma amiga nossa que já esteve em Inglaterra nos
trouxe para este dia;
A senhora inglesa dos olhos claros;
A senhora inglesa que só disse palavras correctas, coisas
correctas,
E insinuou, na tarde, uma sinuosidade e uma harmonia
Só com o seu sim ou o seu não,
O seu braço longo, desistido, inapetente, mas belo
Precisamente porque é já o braço para o neto esfregar
as gengivas
E roer e rir, e rir e roer, meses depois de nascer,
Como um belo guizo de oiro que só mesmo feito em
Inglaterra!
O braço que não ocupa lugar e mede pela asa da chávena
(À distância a que a senhora inglesa a põe nos seus
dedos como asas)
O abismo que vai da senhora inglesa a um lugar
da Inglaterra,
E desta hora do chá a uma outra hora lá dela,
Íntima, doce, única, rara, ampla, esquecida,
Que não existiu talvez senão para ser lembrada
Em minha casa, esta tarde, e a comer short-bread ―
Que é assim a vida…
Vitorino Nemésio
Uma delícia, Maria.
Se bem se lembra… muita gente desconhece a obra poética do bom do Nemésio.
Também creio que sim . Vitorino gostava de dizer que era sobretudo um poeta. Contudo a sua obra é muito diversa mas, foi com “Mau Tempo no Canal” que se universalizou. Acabei de ter acesso, através da biblioteca digital do Instituto Camões a um livro dele “O Primeiro Corso” que ainda não conhecia, já descarreguei o ficheiro e vou lê-lo. Assim termino o meu dia de reflexão.
Boa noite.
http:/ cvc.instituto-camoes.pt /conhecer biblioteca-digital-camoes /doc_details.html?aut=2070
Boa ideia.
Parabéns pela casinha…eu adoro hibiscos, principalmente os amarelos. Na casa da minha mãe ainda permanecem os cor de rosa da minha infância.
Aqui há (h)ibiscos cor-de-rosa e uns quantos vermelhos.