Liverpool & Beatlemania (3)


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The Ballad of John and Yoko (uma edição da Apple de 1969) acaba por ser uma ironia, quando se observa o destino que estava reservado aos ‘Fab Four’: há 40 anos, a nova relação de John Lennon com Yoko Ono (de que resultara a ruptura entre John e Cynthia Lennon) começou a minar o relacionamento entre os quatro.

A omnipresença dela constrastava com a regra que eles tinham imposto: manter espaços totalmente reservados em torno das suas criações e respectivo trabalho. Nem as pessoas que lhes eram mais próximas, nem o próprio manager, por exemplo, invadiam os estúdios em que eles estivessem a ensaiar e a gravar. Quando Yoko passou a acompanhar John a todos os lugares, o que incluiu ensaios e gravações dos Beatles – ocasiões em que até se sentia autorizada a dar "palpites" – o incómodo tornou-se óbvio e depressa deu origem a discussões cada vez mais agudas.

Activista da paz e dos direitos humanos, Yoko Ono foi um desacato e marcou irremediavelmente o que até então ainda mantinha o quarteto. Porém, antes disso, o grupo editou a Ballad of John and Yoko – um tema que se transformou realmente numa ironia.

Crianças quê?


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Espero não estragar a bem apanhada série do Pedro Correia sobre expressões intragáveis, mas não resisto a dar conta de uma que mexe comigo e que se ouve cada vez mais: «crianças institucionalizadas». Deve ser outro tique que entrou no ‘linguajar da moda’ – e, como se sabe, há palavras e expressões que, ditas hoje em dia por meia dúzia de cabecinhas com direito a tempo de antena, passam a ser ditas pela carneirada toda.

Chamar «crianças institucionalizadas» às crianças que a vida largou ao abrigo do Estado e de instituições de protecção de menores é mais do que consagrar uma chancela estúpida: é recorrer a uma definição execrável e espalhar um estigma de muito mau gosto. Ainda pior quando é usada tantas vezes por mulheres, até por mulheres que são mães e que também são responsáveis por instituições dessas. Será que estas também são "mulheres institucionalizadas"? E os velhos que acabam colocados em lares e instituições do género também são "idosos institucionalizados"? E os pobres que se lavam, se vestem, comem e dormem em instituições de apoio à pobreza chamam-se "carentes institucionalizados"?

Passo-me com esta gente, que devia ser afastada e reenviada para o anonimato. Não o dizem por mal? Então parem um momento e habituem-se a pensar, antes de abrir a boca para debitar o mesmo que ouviram aos outros geniozinhos bacocos.

Nada como um espirro dos antigos


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As autoridades de Saúde norte-americanas – ao que dizem – rejeitaram a vacina anti-gripe A que Portugal encomendou e está a aplicar. A Alemanha parece que está a fazer o mesmo que os EUA.

No hemisfério Sul, onde já é Primavera, a gripe A não teve maiores efeitos do que as gripes sazonais comuns. A OMS, porém, insiste na ideia de pandemia e corre por aí o aviso de que a gripe A pode afectar um-terço da população europeia. Talvez algo como a ainda recente "gripe das aves", que ia varrer um-quarto da população mundial?

Em Portugal, as nossas autoridades de Saúde andam a esclarecer que quaisquer eventuais efeitos provocados pela vacina são sempre preferíveis à gripe A, sem que esclareçam de facto que efeitos podem ser esses.

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Tal como há uns meses se adivinhava, a pior epidemia é a da informação e contra-informação em torno de tudo isto, é a da "guerra" entre os laboratórios multinacionais, é a da primazia das grandes distribuidoras farmacêuticas, é a dos interesses obscuros envolvidos. Isto, sim: é epidemia e gera alarme.

Há necessariamente muita coisa escondida por baixo do que vem à superfície. Nada melhor do que darmos um belo espirro dos antigos, colectivo e com a boca destapada, para ver sair da toca quem se esconde.

A ‘ménàge à trois’ parlamentar


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Portugal desceu de 41.º para 46.º lugar no Global Gender Gap Index, estudo que avalia a igualdade/desigualdade entre homens e mulheres em 134 países. Esta é a primeira vez nos últimos três anos que há uma descida na pontuação portuguesa.

No quadro geral das conclusões, o ranking – apresentado hoje em Nova Iorque durante o Fórum Económico Mundial – incide em quatro pontos essenciais. Nestes, Portugal atinge a igualdade de géneros nas profissões técnicas, também no acesso ao ensino secundário e superior e ainda na esperança média de vida; mas recuou no ponto respeitante à participação de mulheres na vida política (designadamente, na vida parlamentar).

Portanto, nesta matéria e para já, face à participação parlamentar feminina que resultou das recentes eleições, as coisas não estão brilhantes. A "lei da paridade" (eufemismo pelo qual é conhecida a lei da ménàge à trois que obriga a haver uma mulher para cada dois homens) afinal foi só fogacho. Como muito boa gente adivinhava, aliás.

Quem se vê na TV (19)


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As aflitas para ir-lá-fora

É um grupo constituído por apresentadoras de televisão. As aflitas para ir-lá-fora têm normalmente uma característica que nos permite distingui-las logo à primeira vista: os seus membros inferiores dividem-se em coxa, perna e tacão.

Os seus horários abundam incessante e repetidamente aos sábados à tarde, aos sábados à noite e aos domingos à tarde, o que só serve para tornar insuportáveis os fins-de-semana televisivos. Durante horas intermináveis, as aflitas para ir-lá-fora riem-se muito e vão abanando o palmo de evasé abaixo do cinto que lhes cobre pouco a parte superior da primeira parte dos membros inferiores, enquanto se vão equilibrando na parte de cima da parte inferior da terceira parte dos ditos cujos. De quando em quando, dão uns passinhos pelo palco, mas passam a maior parte do tempo a contorcer-se sem ocupar mais do que um metro quadrado. Um bom exemplo do grupo? A Catarina Furtado. A Sílvia Alberto anda a treinar. A Bárbara Guimarães também. A Júlia Pinheiro para lá caminha, quando tem palco em vez de poltrona.

Mesmo sem sair do sítio, as aflitas para ir-lá-fora mexem-se imenso e chega a parecer que vão partir-se. Dobram-se pelas pernas, metem os pezinhos para dentro como se tivessem um-quarto da idade que já atingiram, põem a melhor carinha de garota que conseguem e riem-se por tudo e por nada. É a escola lollipop.

Sobretudo, fazem tranças com as pernas. Entrelaçam-nas e deslaçam-nas, enroscam muito uma na outra, apertam-nas com força e tal. São precisamente estes exercícios do pernil que dão o nome ao grupo. As aflitas para ir-lá-fora apresentam programas muito longos, para nosso mal, e é por isso que se torcem tanto em cima dos saltos. Um dia destes, ainda acabam por fazer em directo pelas pernas abaixo…

A moçoila do PCP


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A jovem deputada que o Pedro Correia aqui trouxe – a que acabou de aterrar na bancada comunista e dá pelo nome de Rita Rato – parece a lufada de ar fresco que há tanto faltava ao PCP. Na verdade, tudo indica que Jerónimo de Sousa arranjou finalmente um elemento semelhante àqueles que todos os partidos normais têm: alguém que não sabe de nada, que nunca ouviu falar em nada, que possa fazer número, que vote de braço no ar sem saber em quê e que seja capaz de ficar ali a bocejar ou a meter o dedo no nariz.

A pequena foi apresentada exactamente há sete anos, num Avante! de Outubro de 2002, já ela era o que é agora: continua sem desconfiar o que o Gulag possa ter sido. Sobre as ideias que então a moviam e que ela deve manter cristalizadas, lia-se nesse número do órgão oficial do PCP: «A política está em tudo. Compramos A Bola ou o Record e está lá política.» Mas lamentava ver que «as pessoas abstraem-se da política e de pensar» e «preferem ver o Big Brother e as telenovelas». Onde, afinal, não está a política. Parece que a política está em tudo, mas não é bem em tudo: é em quase tudo, como A Bola e o Record (a que as pessoas não ligam por ter política e dar que pensar), menos no ‘Big Brother’ e nas telenovelas.

Não se pense que a Rita teve uma vida fácil até essa altura: «Quando era mais nova queria ser da JCP, mas o meu pai disse que não, que era mal visto pela sociedade.» Pior ainda é que me contaram que o pai parece que nem a deixava sair à noite quando era pequenina, não fosse ela para a JCP às escondidas..

Não irei alongar-me, mas gostava de fazer uma pergunta ao PCP, que passa o tempo a declarar que recebe enchentes de novos militantes todos os anos: não havia por lá uma moçoila mais jeitosinha? Não, não é isso – é intelectualmente.

Uma história verdadeira


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Receio já ter falado superficialmente nisto uma vez. No entanto, como não localizo, fica-me a esperança de nunca o ter feito no DO. A história é verdadeira.

Tenho uma ideia relativamente nítida do meu avô materno, que morreu de repente era eu ainda um garoto. Sei que era médico, que era muito viajado, que fez muita clínica gratuita a muita gente que não tinha meios, que possuía uma biblioteca vastíssima, que comprava livros atrás de livros e que era um humanista, no sentido de se interessar pelas coisas mais variadas, por quase tudo. Sei também que muitos diziam que era dedicadíssimo ao estudo e à actualização do seu exercício profissional e que esse exercício era tão avançado quanto possível, até muito avançado para a época.

Do seu perfil perante a vida e o mundo, sei ainda que esteve uma vez presente (por convite específico, presumo) numa sessão maçónica, mas que recusou integrar-se por detestar rituais. Contudo, era convictamente republicano e laico.

Escreveu e publicou um espesso livro de memórias e viagens; deixou outro por acabar, quando morreu. Interessava-se muito pelo conhecimento de diferentes religiões e dizia achar alguma pureza na essência do Budismo.

Pela minha avó (e pela família, talvez), casou pela Igreja. As duas filhas receberam educação católica e era normal levar a família à missa de domingo. Ficava no carro ou ia tomar um café e levava todos de volta para casa. E lembro-me de o ver na igreja, quase perfilado em sentido do princípio ao fim, sempre que ia ao casamento de alguém.

Sobre o fenómeno de Fátima – e é apenas aqui que quero chegar, para não maçar mais os leitores com estas memórias pessoais e desinteressantes – tinha uma posição muito pragmática que não escondia e que se resume assim: "Fátima não faz mal a ninguém. Como congrega valores que são genericamente os valores que todos cultivamos, Fátima até faz bem. Agora, milagres… Milagre, para mim, seria  uma pessoa não ter um braço e regressar a casa com o braço que lhe faltava."

Eis, portanto, um homem esclarecido e culto que se declarava laico e que respeitava as sensibilidades dos outros sem confrontos desnecessários e gratuitos. Um homem que seria incapaz de pensar que «a Bíblia é um manual de maus costumes» e, menos ainda, de apoucar quem acreditasse de outra maneira.

Em suma: há uns que sabem respeitar, há outros que não passam sem achincalhar. Estes são os que confundem ter o direito de com ser necessário. Porque ser crítico e ter modos não são coisas incompatíveis.