Espero não estragar a bem apanhada série do Pedro Correia sobre expressões intragáveis, mas não resisto a dar conta de uma que mexe comigo e que se ouve cada vez mais: «crianças institucionalizadas». Deve ser outro tique que entrou no ‘linguajar da moda’ – e, como se sabe, há palavras e expressões que, ditas hoje em dia por meia dúzia de cabecinhas com direito a tempo de antena, passam a ser ditas pela carneirada toda.
Chamar «crianças institucionalizadas» às crianças que a vida largou ao abrigo do Estado e de instituições de protecção de menores é mais do que consagrar uma chancela estúpida: é recorrer a uma definição execrável e espalhar um estigma de muito mau gosto. Ainda pior quando é usada tantas vezes por mulheres, até por mulheres que são mães e que também são responsáveis por instituições dessas. Será que estas também são "mulheres institucionalizadas"? E os velhos que acabam colocados em lares e instituições do género também são "idosos institucionalizados"? E os pobres que se lavam, se vestem, comem e dormem em instituições de apoio à pobreza chamam-se "carentes institucionalizados"?
Passo-me com esta gente, que devia ser afastada e reenviada para o anonimato. Não o dizem por mal? Então parem um momento e habituem-se a pensar, antes de abrir a boca para debitar o mesmo que ouviram aos outros geniozinhos bacocos.

Também ouvi essa ontem, compadre, da boca de uma deputada que até merece toda a minha consideração (e amizade). Senti um arrepio, por maus motivos. Obviamente, essa infeliz expressão também há-de aparecer na minha galeria de horrores verbais.
A expressão já andava a roer-me há um tempinho, mas foi precisamente essa deputada (que também considero) que fez transbordar o meu copo.
«há um tempinho»?
Bolas, João!
(Nem parece seu)
Ao lê-lo, lembrei-me que talvez valesse a pena copiar este link, escrever um e-mail e enviá-lo a todos os IRS, ISS, CPCJ, CAT’s e afins do país.
Sinta-se livre para isso, Teresinha. Só não sei o que é que o IRS ou qualquer outro imposto tem que ver com isto. Hehe…
A sério. Quase me apetecia enviar este texto a todas as “palarmóides” das Instituições de Reinserção Social, dos Institutos de Segurança Social, Centro de Acolhimento Temporário, etc, etc, Tudo instituições onde as crianças, não raras vezes, são mais um número (institucionalizado) que equivale a mais uma comparticipação social.
No fundo, é disso que se trata: n utentes x comparticipação = muito dinheiro. Os afectos? Isso é coisa de doidos, coisa do passado…
Com efeito, essas são as «crianças institucionalizadas»: apenas números. O pior é tanta gente dita responsável nem se inibir de vir publicamente referir-se a elas usando a «expressão institucional» que utilizam nos relatórios de serviço.
João:
Eu estou plenamente de acordo contigo, o drama é que ninguém pára para pensar, será que dá assim tanto trabalho?
Pensar tem um problema, Carlos: ou é porque dá trabalho, ou é por falta de matéria-prima…
“Linguagar da moda” – infelizmente acabam por ser as próprias pessoas a delimitar com o preconceito a sociedade em que vivemos. Acaba por ser o próprio indivíduo a marcar os outros, a marcar-se a si próprio. Haja pelo menos uma voz que se insurja – e então, outras se lhe juntarão – desta feita, com as palavras certas.
Parabéns pelo blogue.
Obrigado em nome de todos, meu caro.
Neste caso, minha cara.
(E sim, o nick leva a estes enganos.)
Continuação de bom trabalho/blogue.
Renovo os agradecimentos, cara Blue.