Contrariamente ao que se lê por ai, há inverdades sobre a Mocidade Portuguesa. E, logo a primeira, é que não era nem nunca foi de inscrição obrigatória. Mas, verdade era de facto, que estimulava a formação patriótica, a ordem, disciplina, os deveres morais, o que não me parece nada de anormal. Tudo dentro do espírito da época, como é óbvio, portanto, tudo como se deve colocar no seu tempo ou ler a História. O culto da disciplina era feita através do fomento da actividade desportiva, e foi graças a ela que pude entrar em várias actividades, participar em provas, escolher áreas onde melhor me enquadrava, treinar, participar em competições, nacionais e internacionais, deslocar-me para locais que não conhecia, ganhar medalhas, aprender com as derrotas, conhecer outros atletas, outras equipes e finalmente seleccionar a minha actividade preferida que segui até ao limite.
Foi óptimo e nunca fui obrigado a nada. A não ser a farda … Tenho belíssimas recordações!
É verdade. No teu caso, não tenho a menor dúvida. Só uma correcção: a MP era obrigatória, mas de modo ‘sui generis’, porque eu nunca pertenci, mas sei que pagava uma importância exigida pela obrigatoriedade de pertencer às fileiras. Era suposto toda a juventude pertencer e o pagamento era feito no e pelo estabelecimento de ensino.
Não é verdade. Eu nunca pertenci nem tinha que pertencer. O meu colégio era privado e não havia disso.
Andei em vários colégios privados e o que se pagava incluía uma verba para a MP. E eu também nunca pertenci.
Pois eu, nos dois em que andei, nunca soube desse pagamento. Como quem pagava eram os meus pais, devem ter querido evitar-me tal desgosto… 🙂
“actividade desportiva, e foi graças a ela que pude entrar em várias actividades, participar em provas, escolher áreas onde melhor me enquadrava, treinar, participar em competições, nacionais e internacionais, deslocar-me para locais que não conhecia, ganhar medalhas, aprender com as derrotas, conhecer outros atletas, outras equipes e finalmente seleccionar a minha actividade preferida que segui até ao limite.” Eu podia ter escrito isto. Também eu fui participei em competições e tal, cheguei a participar nos jogos da FISEC… Mas não escrevi porque atribuo a experiência interessante da prática desportiva às suas imensas potencialidades formadoras e não à MP.
A Mocidade Portuguesa era obrigatória, sim senhor. Nasci em 1945, portanto apanhei-a já numa fase decadente e havia anos mais obrigatórios do que outros. Houve alguns anos em que a fotografia oficial da escola tinha de ser feita com o uniforme da MP – e logo o fotógrafo (nessa época ia-se ao fotógrafo do bairro para fazer as fotos de passe) arranjou uma camisa e um bivaque para fotografar os clientes. Também houve uns dois ou três anos em que se tinha de ir aos sábados fazer ordem unida, e de uniforme (embora só alguns o tivessem). Todas as actividades desportivas eram, em princípio, feitas no âmbito da Mocidade Portuguesa, embora isso nem sempre fosse aparente. Os tais “valores morais” não eram ensinados pela MP, mas sim passados nas aulas de religião e moral e, no terceiro ciclo, na cadeira de “Organização Política e Administrativa da Nação”. Na MP a única coisa que fiz foi a tal ordem unida, mas sei que havia acampamentos, tipo escuteiros (a que não era obrigatório ir) e competições desportivas. Isto são factos históricos de que fui testemunha. Quanto a opiniões, na minha época era uma chatice monumental a que todos fugiam. É possível que no auge do fascismo, isto é, entre a consolidação do Estado Novo e o final da II Grande Guerra, tivesse grandes actividades desportivas. Isso está tudo documentado, aliás. Juntamente com a Legião era a organização mais fascista do Estado Novo. Não me venham cá com bons princípios, disciplina e outras secas. Nada dito tinha a ver com a MP.
Exactamente, meu caro. Excepto no desfecho do que escreve. Em anos mais recentes, pelo menos, a MP nada tinha de útil para o regime e não passava de uma alternativa do tipo escuteiros, que o Estado cobrava aos alunos. Sobretudo, não pode confundir-se com a Legião Portuguesa, que foi sempre um obscuro braço do regime.
Aliás, descortino uma resposta sua à comentadora macarvalho, no que respeita aos «bons princípios» que refere. E isso não deixo passar: eu sei do que ela está a falar e o que ela diz eu confirmo sem tirar nem pôr.
Sim, bons princípios, disciplina e formção de carácter. Devo dizer-lhe que não sou do tempo da II Grande Guerra, sou bem mais recente. Portanto, tudo o que referi era efectivamente, verdade. Sem seca. E a disciplina de Organização Política, o nosso terror da época, era evidentemente crucial para entendermos o que politicamente era o País e por que regras se regia. se bem que não o entendêssemos como tal … Acho que faria falta agora, afinal ninguém sabe a quantas anda!
Pertencer à «bufa» era um grande aborrecimento (essencialmente por causa da farda) e era difícil para um estudante liceal não fazer parte da organização. Num dia 1 de Dezembro, teria pr´aí uns 11/12 anos, era aluno do Liceu D. João de Castro (Lisboa, Alto de Santo Amaro) e fui convocado para desfilar na Avenida da Liberdade. No dia anterior, os graduados disseram que teríamos de usar sapatos pretos ou castanhos e a generalidade assim fez. Todos? Todos, não! Eu levei sapatilhas de ginástica: brancas. Claro que mal cheguei à formatura fui colocado de lado pela generalidade dos comandantes presentes. Não de reserva, mas de lado mesmo. Com um «vai-te embora ò nabo» colado na testa. Fiquei triste, porque queria mesmo ir desfilar na Avenida. Nunca o tinha feito e estava entusiasmado com tal possibilidade. E as sapatilhas brancas só tinham «aterrado» nos meus pés por extrema necessidade: os sapatos pretos (ou castanhos?), os únicos que tinha, perderam a sola quando fiquei atolado numa poça de água da chuva. Como a vida era muito difícil e para não ser punido com falta de comparência, lá fui de «pé pintado» de branco. À porta do liceu, os autocarros enchiam-se e eu, triste, via-os partir com os afortunados companheiros, que iam desfilar avenida abaixo. Mesmo com a moral destroçada não me dei por vencido e num momento de distracção de um comandante de castelo (ou seria chefe de quina?) alcei-me para dentro de um autocarro de dois andares, daqueles com porta aberta na retaguarda . Ninguém me travou, porque o autocarro já ia em andamento e eu era exímio praticante da arte de andar à pendura (eléctricos e autocarros). Chegados ao Parque Eduardo VII integrei um pelotão e – sem nenhum incómodo por parte dos graduados – comecei a marchar avenida abaixo. Na inocência dos meus 11/12 anos nem tive consciência da triste figura que terei feito. A esta distância de mais de 45 anos, imagino os comentários tecidos pelas figuras que estariam na tribuna de honra, ao ver ali em baixo um «piolho» verde, exemplar único, com sapatilhas brancas num mar de sapatos pretos e castanhos. E quando os imagino farto-me de rir, porque, por algumas horas fui «o pauzinho na engrenagem» a incomodar o sistema.
Para mim é passado passado, João, e só existe enquanto testemunho dum regime que repudio por completo.
E lá vamos cantando e rindo com os repúdios por completo…
Só na essência, Leonor, porque na realidade era ineficaz para o regime. Bem ao contrário da obscura Legião Portuguesa, por exemplo.
Ineficaz ou não é um símbolo dele, João, que eu, como outros dessa altura, abomino.
É claro. Serve apenas para as pequenas histórias de cada um. Não estou à espera que seja nostálgico. Hehe…
Contrariamente ao que se lê por ai, há inverdades sobre a Mocidade Portuguesa. E, logo a primeira, é que não era nem nunca foi de inscrição obrigatória.
Mas, verdade era de facto, que estimulava a formação patriótica, a ordem, disciplina, os deveres morais, o que não me parece nada de anormal. Tudo dentro do espírito da época, como é óbvio, portanto, tudo como se deve colocar no seu tempo ou ler a História.
O culto da disciplina era feita através do fomento da actividade desportiva, e foi graças a ela que pude entrar em várias actividades, participar em provas, escolher áreas onde melhor me enquadrava, treinar, participar em competições, nacionais e internacionais, deslocar-me para locais que não conhecia, ganhar medalhas, aprender com as derrotas, conhecer outros atletas, outras equipes e finalmente seleccionar a minha actividade preferida que segui até ao limite.
Foi óptimo e nunca fui obrigado a nada. A não ser a farda … Tenho belíssimas recordações!
É verdade. No teu caso, não tenho a menor dúvida.
Só uma correcção: a MP era obrigatória, mas de modo ‘sui generis’, porque eu nunca pertenci, mas sei que pagava uma importância exigida pela obrigatoriedade de pertencer às fileiras. Era suposto toda a juventude pertencer e o pagamento era feito no e pelo estabelecimento de ensino.
Na minha turma, só eu fazia parte. E lembro-me de fazermos “filinha” para dizermos se queríamos ou não fazer parte da MP.
Seguramente, todas pagavam como se pertencessem, ainda que não pertencessem de facto.
Não é verdade. Eu nunca pertenci nem tinha que pertencer. O meu colégio era privado e não havia disso.
Andei em vários colégios privados e o que se pagava incluía uma verba para a MP. E eu também nunca pertenci.
Pois eu, nos dois em que andei, nunca soube desse pagamento. Como quem pagava eram os meus pais, devem ter querido evitar-me tal desgosto… 🙂
“actividade desportiva, e foi graças a ela que pude entrar em várias actividades, participar em provas, escolher áreas onde melhor me enquadrava, treinar, participar em competições, nacionais e internacionais, deslocar-me para locais que não conhecia, ganhar medalhas, aprender com as derrotas, conhecer outros atletas, outras equipes e finalmente seleccionar a minha actividade preferida que segui até ao limite.”
Eu podia ter escrito isto. Também eu fui participei em competições e tal, cheguei a participar nos jogos da FISEC… Mas não escrevi porque atribuo a experiência interessante da prática desportiva às suas imensas potencialidades formadoras e não à MP.
:)))
A Mocidade Portuguesa era obrigatória, sim senhor. Nasci em 1945, portanto apanhei-a já numa fase decadente e havia anos mais obrigatórios do que outros. Houve alguns anos em que a fotografia oficial da escola tinha de ser feita com o uniforme da MP – e logo o fotógrafo (nessa época ia-se ao fotógrafo do bairro para fazer as fotos de passe) arranjou uma camisa e um bivaque para fotografar os clientes. Também houve uns dois ou três anos em que se tinha de ir aos sábados fazer ordem unida, e de uniforme (embora só alguns o tivessem).
Todas as actividades desportivas eram, em princípio, feitas no âmbito da Mocidade Portuguesa, embora isso nem sempre fosse aparente.
Os tais “valores morais” não eram ensinados pela MP, mas sim passados nas aulas de religião e moral e, no terceiro ciclo, na cadeira de “Organização Política e Administrativa da Nação”. Na MP a única coisa que fiz foi a tal ordem unida, mas sei que havia acampamentos, tipo escuteiros (a que não era obrigatório ir) e competições desportivas.
Isto são factos históricos de que fui testemunha.
Quanto a opiniões, na minha época era uma chatice monumental a que todos fugiam. É possível que no auge do fascismo, isto é, entre a consolidação do Estado Novo e o final da II Grande Guerra, tivesse grandes actividades desportivas. Isso está tudo documentado, aliás.
Juntamente com a Legião era a organização mais fascista do Estado Novo. Não me venham cá com bons princípios, disciplina e outras secas. Nada dito tinha a ver com a MP.
Exactamente, meu caro. Excepto no desfecho do que escreve. Em anos mais recentes, pelo menos, a MP nada tinha de útil para o regime e não passava de uma alternativa do tipo escuteiros, que o Estado cobrava aos alunos. Sobretudo, não pode confundir-se com a Legião Portuguesa, que foi sempre um obscuro braço do regime.
Aliás, descortino uma resposta sua à comentadora macarvalho, no que respeita aos «bons princípios» que refere. E isso não deixo passar: eu sei do que ela está a falar e o que ela diz eu confirmo sem tirar nem pôr.
Sim, bons princípios, disciplina e formção de carácter.
Devo dizer-lhe que não sou do tempo da II Grande Guerra, sou bem mais recente. Portanto, tudo o que referi era efectivamente, verdade. Sem seca.
E a disciplina de Organização Política, o nosso terror da época, era evidentemente crucial para entendermos o que politicamente era o País e por que regras se regia. se bem que não o entendêssemos como tal …
Acho que faria falta agora, afinal ninguém sabe a quantas anda!
Pertencer à «bufa» era um grande aborrecimento (essencialmente por causa da farda) e era difícil para um estudante liceal não fazer parte da organização. Num dia 1 de Dezembro, teria pr´aí uns 11/12 anos, era aluno do Liceu D. João de Castro (Lisboa, Alto de Santo Amaro) e fui convocado para desfilar na Avenida da Liberdade. No dia anterior, os graduados disseram que teríamos de usar sapatos pretos ou castanhos e a generalidade assim fez. Todos? Todos, não! Eu levei sapatilhas de ginástica: brancas. Claro que mal cheguei à formatura fui colocado de lado pela generalidade dos comandantes presentes. Não de reserva, mas de lado mesmo. Com um «vai-te embora ò nabo» colado na testa. Fiquei triste, porque queria mesmo ir desfilar na Avenida. Nunca o tinha feito e estava entusiasmado com tal possibilidade. E as sapatilhas brancas só tinham «aterrado» nos meus pés por extrema necessidade: os sapatos pretos (ou castanhos?), os únicos que tinha, perderam a sola quando fiquei atolado numa poça de água da chuva. Como a vida era muito difícil e para não ser punido com falta de comparência, lá fui de «pé pintado» de branco. À porta do liceu, os autocarros enchiam-se e eu, triste, via-os partir com os afortunados companheiros, que iam desfilar avenida abaixo. Mesmo com a moral destroçada não me dei por vencido e num momento de distracção de um comandante de castelo (ou seria chefe de quina?) alcei-me para dentro de um autocarro de dois andares, daqueles com porta aberta na retaguarda . Ninguém me travou, porque o autocarro já ia em andamento e eu era exímio praticante da arte de andar à pendura (eléctricos e autocarros). Chegados ao Parque Eduardo VII integrei um pelotão e – sem nenhum incómodo por parte dos graduados – comecei a marchar avenida abaixo. Na inocência dos meus 11/12 anos nem tive consciência da triste figura que terei feito. A esta distância de mais de 45 anos, imagino os comentários tecidos pelas figuras que estariam na tribuna de honra, ao ver ali em baixo um «piolho» verde, exemplar único, com sapatilhas brancas num mar de sapatos pretos e castanhos. E quando os imagino farto-me de rir, porque, por algumas horas fui «o pauzinho na engrenagem» a incomodar o sistema.
Hehe… Curiosas memórias. Riram-se? Que importa, se desfilou mesmo avenida abaixo, não é?