Agora que estamos na véspera da posse de um novo governo, convém lembrar que Portugal já teve as mais estapafúrdias pastas governativas nos últimos 35 anos. E basta, para tanto, determo-nos nos seis governos provisórios que se sucederam entre 15 de Maio de 1974 e 23 de Julho de 1976.
O primeiro tinha um Ministério da Coordenação Interterritorial – pasta entregue a António de Almeida Santos (hoje presidente do PS) como sucessora do defunto Ministério do Ultramar. A intenção de complicar a nomenclatura, adaptando-a aos (então) novos tempos, parecia óbvia. Não havia ministro da Economia: havia um ministro da Coordenação Económica. Não havia um ministro das Obras Públicas: havia um ministro do Equipamento Social (e Ambiente). Não havia um ministro da Saúde: havia um ministro dos Assuntos Sociais. Além de ministros da Comunicação Social e da Administração Interna, designações que pegaram de tal maneira que perduram até hoje apesar de serem tão exdrúxulas como as restantes. E – outra novidade absoluta à época – havia um ministro do Trabalho, além de três ministros sem pasta, algo agora inimaginável.
O segundo Governo, presidido pelo coronel (depois general) Vasco Gonçalves, mantinha os ministros sem pasta – que passavam a ser quatro em vez de três. E nas Secretarias de Estado incluía as do Comércio Externo, Administração Judiciária, Marinha Mercante, Emigração, Orientação Pedagógica e Abastecimento e Preços. Designações que há muito desapareceram e reflectem outro país, bem diferente do actual.
Mantendo os quatro ministros sem pasta e o chefe do Executivo, o terceiro Governo Provisório incluía a Secretaria de Estado da Cultura e Educação Permanente, confiada ao musicólogo João de Freitas Branco. Já o quarto Governo, igualmente com Vasco Gonçalves à cabeça, inovava com as Secretarias de Estado do Fomento Agrário, do Planeamento dos Recursos Humanos e da Cooperação Externa (cujo titular era Jorge Sampaio, futuro Presidente da República) e da Segurança Social (confiada a Vasco Graça Moura), além de duas Subsecretarias de Estado também dignas de menção: a da Programação Industrial e a da Administração Industrial. Isto numa altura em que grande parte da economia portuguesa estava nacionalizada.O efémero e polémico V Governo Provisório, ainda com Vasco Gonçalves ao leme, tinha Secretarias de Estado também muito originais: Descolonização, Fomento Agrário, Abastecimento (entregue a Correia de Campos, futuro ministro da Saúde de José Sócrates), Marinha Mercante e Cooperação Económica com os Países Socialistas.
A política de blocos da Guerra Fria entrava em força no organograma governativo: imagine-se hoje um secretário de Estado com estas atribuições, encarregado do nosso comércio com Cuba e Coreia do Norte. Algo ridículo, convenhamos.
Aqui para nós: já nessa altura não era para levar a sério. Isto ajuda a explicar o motivo por que o V Governo só durou 35 dias. Mais provisório não podia ser.
Tem também interesse arqueológico lembrar algumas Secretarias de Estado do VI Governo Provisório, liderado pelo vice-almirante José Baptista Pinheiro de Azevedo, que viria a celebrizar-se em Novembro de 1975 com a frase "Bardamerda pr’ó fascista", proferida da varanda do salão nobre do Palácio de São Bento: Recuperação Social (entregue ao social-democrata Menéres Pimentel, futuro Provedor de Justiça), Investimentos Públicos, Energia e Minas, Indústria Ligeira, Indústria Pesada, Fomento Agrário, Comércio Alimentar, Comércio Não Alimentar, Recursos Hídricos e Saneamento Básico e Retornados (esta a cargo de Vasco Graça Moura).Outros tempos, outros nomes. Outro país.

O país é o mesmo mudaram foram os humoristas governamentais.
Concordo, Daniel. Dantes havia mais humoristas no Governo. E não deixava de ter uma certa graça ver Graça Moura num Executivo liderado por Vasco Gonçalves…
Caro Pedro Correia, confesso que há dias foi o meu “divertimento” andar a pesquisar sobre os seis governos provisórios que tivemos a seguir ao 25 de Abril. Fiquei surpreendido com determinados factos, como governos em Mário Soares, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro eram todos ministros(imaginem-se os conselhos de ministros, por isso é que eram mesmo provisórios) e também nos nomes de ministérios e secretarias de estado, entre as mais gira, estava a ” Secretaria de Estado para a Cooperação Económica com os Países Socialistas. ” Coisas surreais sem dúvida!
Caro Alexandre, a Secretaria de Estado para a Cooperação Económica com os Países Socialistas também é a minha preferida. Ficamos assim com uma ideia do que seria hoje a orgânica governamental se o primeiro-ministro se chamasse Jerónimo de Sousa. Lá ficaria provavelmente o camarada Bernardino com a tal Secretaria de Estado, o que o levaria a fazer viagens regulares a Pyongyang.
Bem lembrado, compadre. Já no Executivo que agora se retira, a pasta mais insólita é também a que tem a designação mais simples: Ambiente.
Até o Mancha Negra teria mais visibilidade nessa pasta ministerial do que o senhor que alegadamente exerceu essa função nos últimos quatro anos.
Ahahahah!…