Ainda o mau gosto


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Fui contido, quando ontem escrevi aqui sobre o mau gosto de Saramago. O facto é que ele tem o desplante de expor que «a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana», mas confunde logo a seguir a Biblia com o desempenho da Igreja ao longo dos séculos: «as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram», e as Cruzadas foram crimes do Cristianismo que envolveram a morte de muitos milhares de pessoas, entre culpados e inocentes.

Saramago persegue a religião com tanta raiva que mistura a Bíblia com acontecimentos históricos da Igreja, dos quais só aproveita o que lhe interessa. Para ele, a Igreja é o lado negativo das Cruzadas, é a Inquisição, é o apoio às ditaduras. Para ele, a Igreja nunca arrepiou caminho, nunca reconheceu os erros gravíssimos cometidos por homens que a formam, nunca teve mártires que morreram por grandes causas da Humanidade, nunca teve gente que pagou caro por proteger os fracos dos déspotas, nunca partiu para chegar despojada a todo o mundo com a missão de ajudar, ensinar, curar, apoiar, etc., sem olhar a raças e credos.

Igreja, para Saramago, é golpe. Não o golpe que ele diz, mas um golpe publicitário. Dá-lhe jeito baralhar as coisas. Contudo, sai-se mal, porque era suposto ele mostrar-se mais esclarecido nos conhecimentos, mais claro nas ideias. E esta é a razão pela qual as suas maquinações são de tão mau gosto, além de doentias.

Um manual de mau gosto


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Há dois ou três livros cuja leitura considero ser essencial para a vida: a Bíblia e O Capital (deixo o terceiro ao juízo dos leitores) são obras indispensáveis, goste-se ou não do conteúdo e concorde-se ou não com a ideologia, para entendermos o nosso mundo.

Não é preciso ser-se crente para se perceber uma obra que encerra valores que a própria Humanidade consagra, mesmo que alguns não sejam do nosso tempo por estarem hoje consagradas normas social e genericamente dadas por adquiridas. Por isto e por todas as razões, dizer que «a Bíblia é um manual de maus costumes» e ainda acrescentar que é «um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana» é bem mais do que uma ligeireza irresponsável. Saramago é um manual de mau gosto e não é de agora.

Menos palavras e mais trabalho, ok?


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O líder federativo do PS-Porto manifestou o «apoio inequívoco» do partido aos independentes eleitos com Elisa Ferreira. Pudera. Desde o início que o PS fez tudo mal, em relação à candidatura autárquica no Porto, onde deixou a estrutura federativa e a distrital com mais outro tema de discórdia: uma a favor e outra contra a candidata portuense. Depois de tantas cenas gagas, só faltava que os independentes eleitos pelo PS não tivessem o apoio do partido.

É o costume: volta-meia-volta, há-de sempre aparecer alguém o dizer o que é óbvio só para ver o seu nome no jornal (aqui é que não vai ver, não). Aquela declaração foi tão útil como convocar uma conferência de imprensa para anunciar que hoje é domingo em todo o país. Vão mas é trabalhar, que o domingo é só para descanso dos justos.

O tamanho da coisa


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Não estava eu perto para olhar, mas ouvi um comentador na SIC-N a falar sobre o papel das empresas na saída da crise, referindo o exemplo espanhol com os seus «grandes gigantes». Esta classificação chega a ser assustadora: há grupos empresariais aos quais não lhes basta ser grandes, nem sequer gigantes; têm de ser grandes gigantes.

Por cá, ao fim de 800 anos de História, da chusma que temos de pequenos anões, raros são os que atingem o tamanho de médios medianos. É verdade que ninguém admite que cresçam muito: a inveja nacional trata logo de achincalhar e desclassificar tudo o que procura destacar-se.

Os dois únicos casos realmente dimensionados entre nós, portugueses, são ilusórios e, sobretudo, não ultrapassam as conveniências: o Adamastor, que encerra o contrasenso de ser uma ficção da História, e o ‘apêndice’ masculino, essa eterna subjectividade que pode muitas vezes não passar de publicidade enganosa. Também, se o Adamastor engrossou a História e foi apoucado, que jeito poderia dar que a outra coisa fosse um grande gigante, não é?

Para entumescer sem fanfarronice e regredir sem sumir já basta a crise que temos, de tamanho variável e um jeito de vai-vem persistente. A nossa crise não é especificamente financeira, económica, social ou laboral. É crónica.

Apanhados pela mesma objectiva


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Fico pouco espantado que Deus Pinheiro tenha sentido necessidade de vir, tarde e a más horas, dar uma desculpa qualquer sobre a sua inesperada e traiçoeira deserção. Ainda assim, a pressão porventura sentida não resultou em mais do que uma qualquer desculpa esfarrapada e sem nexo. Do que disse hoje publicamente, registo apenas dois pontos.

 

1. Diz ele que a líder do PSD precisava de um candidato com o perfil dele para cabeça-de-lista em Braga. Fica provado o grande e raro perfil que ele tem.

 

2. Diz ele que ela insistiu, que ele recusou três vezes e que só à quarta vez aceitou. Fica provado que, para ela, um Alberto João Jardim a mais ou a menos lhe era totalmente indiferente.

 

O falso candidato ficou muito mal no retrato. Mas Manuela Ferreira Leite também está na mesma fotografia.

 

(Antes que alguém menos atento venha lembrar que ele hoje manifestou motivos de doença, recordo eu que ontem, a quem lhe perguntou se estava doente, ele respondeu que não e riu-se alarvemente. Vá lá saber-se a graça que achou.)

A recuperação e a mudança


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Obama consegue primeira vitória na regulação do sistema financeiro. Neste momento em que se procuram desesperadamente alguns sinais de que a crise está a ser vencida, espera-se que a União Europeia siga finalmente as pisadas dos EUA sobre o papel dos reguladores nos Estados-membros.

Já entre nós, até ver, mantém-se outra dúvida: será que Vítor Constâncio regula bem?

O ‘trilema’ popular


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Depois de alcançar (honra lhe seja feita) uma inesperada percentagem de votos e um lugar confortável no Parlamento com um número importante de deputados, Paulo Portas deve andar com insónias: por um lado, andou sempre mortinho por integrar um governo, que é para o que está sempre disposto; por outro, angariou um leque do eleitorado a que fez uma data de promessas anti-PS e que tem tendência a engrossar à custa do PPD/PSD, assim ele não desiluda quem acreditou no CDS-PP.

Convenhamos que este dilema tira o sono a qualquer um. Ou melhor: trilema. Porque uma parte dos novos votantes foi seguramente atraída pelo trabalho vigoroso de Nuno Melo, cujo regresso seria de toda a conveniência, mas também seria uma traição.

Enquanto isso, não falta no PSD quem esteja a observar o PP, como não falta no PP quem esteja a observar o PSD, para ver quem se chega à frente na resposta ao apelo do PS. Pelo-sim-pelo-não, depois de se reunir ontem com Sócrates, Portas dirigiu um insólito discurso ao País com ar de estadista que pode servir para tudo. Até para preparar uma aproximação ao governo sem deixar muito mal os seus eleitores.

Se vier a dar jeito, aquela espantosa alocução de ontem foi o primeiro sinal para uma outra sempre possível sobre o "imperativo nacional". Onde é que eu já ouvi isto?

Se eu fosse militante do PSD…


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… apoiaria imediata e incondicionalmente a candidatura de Pedro Passos Coelho a presidente do partido. Em Portugal, existe muito a ideia de que alguém com ar limpinho e bem falante q.b. tem pinta de líder. Pouco importa o que já tenha feito na vida para o demonstrar, menos ainda se as suas palavras têm substância. Tem pinta e pronto.

Pois eu não vou muito nisso. Vejo Passos Coelho cheio de pressa para avançar – menos interessado em prosseguir o caminho em frente e mais interessado em seguir o percurso para cima – mesmo quando todos sabemos que é improvável (num quadro nacional de normalidade) que o próximo líder do PSD venha a ser candidato a primeiro-ministro.

A atitude desinteligente dos apressados não me parece um cartão de visita muito recomendável. Por isso, acho bem que Passos Coelho avance depressa, que chegue ao alto quanto antes e que caia antes de perceber o que se passou e que já todos sabiam. É bom que saia da frente, porque eu até embirro com gente excessivamente composta: falta sempre um toque negligé para dar um ar mais cosmopolita a uma figura de proa. Ainda por cima, líderes bem-vestidinhos é o que mais tem havido por cá.

A propósito: também embirro com aquelas permanentes insistências do tipo «há 15 dias atrás», «há quatro anos e meio atrás», «há um ano atrás», «há dois dias atrás». Já basta Luís Filipe Menezes para passar a vida a lembrar os acontecimentos «há tempos atrás». Quando é que o PSD começa a falar a sério do que quer para a frente? Não que eu seja parte interessada, mas não gosto de ver tanta gente a andar atrás de qualquer coisa excepto do que seria inteligente andar.

Eleições e queixinhas


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A noite dos resultados eleitorais suscitou uma série de queixas por parte de variadíssimos candidatos que culminou uma campanha que já tinha originado queixas idênticas e que, por sua vez, repisavam queixas já ouvidas à exaustão nas eleições anteriores. Resumem-se a isto: a comunicação social (as televisões em especial) não lhes deram a cobertura que acham que lhes era devida.

Esta queixa partiu da maioria dos partidos, não só dos pequenos (o que pode entender-se), mas também dos maiores (o que já tem que se lhe diga). Dou dois exemplos retirados das autárquicas após os resultados: Luís Filipe Menezes, social-democrata e vencedor, e Ana Gomes, socialista e derrotada. Esta referiu mesmo que a derrota foi por não ter contado com os media nacionais para chegar aos sintrenses.

A gente sabe dos defeitos e das fraquezas do jornalismo de sempre e reconhece que uns e outras têm vindo a agravar-se e a sofrer desvios pouco recomendáveis. Porém, era suposto que as campanhas eleitorais fossem dirigidas aos eleitores. Mesmo que tenham sido mal planeadas (e há sempre disso), é só o que faz sentido. Por muito jeito que dê a imprensa, sem comprar espaço publicitário nada pode estar garantido.

Pode ser que eu esteja enganado. Nesse caso, todas as iniciativas de campanha foram mal pensadas e os queixosos só podem queixar-se deles mesmos e dos seus conselheiros. Portanto, agora já sabem: para a próxima, poupam no custo do folclore, escolhem os media que mais lhes convém e passam a fazer uns espectáculos à porta deles. E bastam as esferográficas, porque de enfiar bonés parece que já estão fartos.

O comentário da semana


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«Belo texto! E estou em total sintonia. Achei graça à invocação d’Os Cus de Judas, lembro-me de ter acabado de sair (a 1.ª vez…) e de o ter oferecido como presente de anos a um amigo. Foi a provocação e a cobiça geral do jantar. (Já passaram 30 anos? Nããão!)

O pior dos problemas é onde arrumar tantos e tantos volume. Acabarão a invadir a cozinha e o q.b. – já me vaticinaram.

Acho que era a Françoise Sagan quem dizia que os livros eram bens transitórios, passava-os, emprestava-os sem problemas, achava ser assim que cumpriam a sua função.

Pois isto pica-me a consciência regularmente. Porque eu sou precisamente ao contrário e admiro essa atitude de extrema abnegação… Para mim os livros são os meus livros, dão corpo a conquistas, a fases da vida, a momentos, a pessoas que não figuram neles mas moram lá dentro. E são o meu pedaço, muito meu, do autor. É lamentável, eu sei, mas tenho um forte instinto de posse sobre eles, assino-os logo com medo de ser expropriada e só empresto a 4 ou 5 pessoas contadas (e mesmo assim com uma lista feita à socapa). Disgusting.

Gato escaldado…

Pior, pior é que depois também compro, compro, mesmo quando ainda tenho uma pilha no quarto que ainda não consegui abater. Hoje em dia leio mais devagar: tenho menos tempo e tornei-me numa leitora gourmet, slow food. Já não conseguiria ler o Quarteto de Alexandria numa semana, como me aconteceu… há 30 e muitos!

Às vezes penso que a minha descendência, daqui a 50 anos, pode ficar a conhecer-me como num raio X através da minha biblioteca!

P.S. – E aquelas salas giríssimas, em casas riscadas pelo arquitecto XPTO, decoradas na última vaga pela decoradora OTPX, onde não enxergamos um livro?! Ou pelo menos um livro com ar de ter sido consumido. Chega-se ao ponto de serem de gente que lê, mas esconde os livros, que o minimalismo manda sacrificar aos espaços esconsos. Nunca compreenderei, são espaços que não têm alma.»

 

Da nossa leitora Chloé. A propósito deste texto da Leonor Barros.

Culpados


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Afinal, dois dos quatro autarcas por conta própria que referi aqui foram condenados. Em Felgueiras e no Marco de Canavezes, os jurados votaram e disseram que é tempo de os pôr à sombra.

Saem de cena sem glória, pela simples razão de que nem lhes passava pela cabeça esta possibilidade. Porém, as eleições são para isto mesmo: para julgar os protagonistas. Começa a fazer-se justiça.

A casa de Elisa


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Logo depois de votar, Elisa Ferreira declarou ter «a convicção muito forte de que o amor ao Porto vai vingar». É com a partilha destes pensamentos profundos de quem se sente em casa que ela tem chegado fundo nos sentimentos mais íntimos dos tripeiros. Eu, que sou portuense, sei muito bem o que aquilo quer dizer. Trata-se de uma referência subtil aos balões de S. João: enchem-se, inflamam-se e vão-se. Uma metáfora cujo significado se resume a uma palavra: nada.