Pede o guloso para o desejoso?


jmmcc,

O Governo vai pedir amanhã autorização à Assembleia da República para ir pedir lá fora nove mil milhões de euros. Motivo? Um empréstimo para emprestar à Grécia e mais qualquer coisa como poder responder a dificuldades entre os nossos parceiros europeus, no quadro financeiro periclitante que agita a UE.

Ora, sabendo-se que a nossa contribuição para os gregos é de dois mil milhões e um tanto de euros, cheira-me que os outros parceiros beneficiários somos nós. É o que não tardará a saber-se.

A bitola do ministro


jmmcc,

Se derem atenção a este post do Paulo Gorjão mais abaixo e a estas palavras do actual ministro das Obras Públicas, hão-de reparar que ele não se limita a insistir em obras que ele devia saber que não poderão avançar. Hão-de reparar que ele não se limita a defender um aeroporto que está por estudar, porque a aviação comercial mudou completamente em dois anos. Hão-de reparar que ele não se limita a defender a projecção de Portugal na rede ferroviária transeuropeia de alta velocidade, como se o TGV atravessasse a Espanha de avião por as linhas serem diferentes do resto da Europa.

Não. Hão-de reparar que ele não se limita a isso. Há mais qualquer coisa nele que começamos a descobrir e que se relaciona com comboios. Não sei se é a bitola estreita.

Blogue da Semana


jmmcc,

Há uma boa razão para que o blogue da semana seja repetente. Continuo a ser tentado pela nostalgia e também pela amizade. Mas a razão é haver por lá belas novidades que fazem seguramente a delícia de muitos. Estou a falar dos Caminhos de Ferro Vale da Fumaça. Basta dizer-vos que o Jorge Rego tem por lá a maior maqueta do mundo (que reproduzo acima) e, sobretudo, notícia sobre o «Comboio Real Português na Holanda». Já tinham ouvido falar? Eu também não.

Novos campos de batalha


jmmcc,

A brigada anti-bomba da polícia de Nova Iorque esvaziou rapidamente a Times Square e os quarteirões circundantes para poder verificar e desactivar um carro armadilhado. Foi alvo de reconhecimento institucional pelo sucesso da operação. Está certo. Mas ninguém pode ficar mais tranquilo por isso: a operação policial não era a resposta à operação terrorista, mas apenas a acção óbvia por ter sido visto fumo suspeito a libertar-se do carro.

Não fôra o trabalho mal amanhado dos bombistas e o engenho teria deflagrado no coração de Nova Iorque, bem junto da Broadway. Ou seja: o acto terrorista apenas falhou por qualquer defeito na montagem do dispositivo, que tinha relógios e explosivos para fazer muitas vítimas. Apesar do imenso controlo das polícias de intervenção, de inspecção e de informações que mudaram por completo o nosso quotidiano, alguém pode andar mais tranquilo? Claro que não. Nem na América, nem na Europa. Quer isto dizer que continuaremos a ter pela frente as vítimas e o luto desta guerra, mesmo que não baixemos os braços e não renunciemos aos enormes inconvenientes que nos tolhem os passos e nos limitam a livre movimentação.

A nova guerra mundial não deixa de ser guerra por ser nova. Não é mais limpa, não é menos mortal e tem os seus campos de batalha.

Para o Paulo Gorjão (e não só)


jmmcc,

A frase tem uma incorrecção: não se descortina qualquer motivo para o primeiro substantivo estar no singular e o segundo no plural. Mas não comecem logo a pôr defeitos, porque a informação é tão completa que até está acompanhada por exemplares esclarecedores: um «tramoço» onde se fala num «tramoço» e um “minuim” onde se fala num número indeterminado de «minuins». Ninguém diga que não entendeu bem, só por causa daquela incorrecção.

 

Nota — A escolha desta imagem foi inspirada nos mais recentes e bem-humorados posts do Paulo Gorjão. Para mim, aquelas figurinhas que o Paulo nos tem trazido são ‘Os Minuins’.

Ninguém nos dá uma dica?


jmmcc,

Portugal fica sempre na cauda. Ninguém quer saber dos portugueses. Andamos nós para aqui a penar, às voltas com o défice e com a dívida externa, e não há meio de alguém nos acudir. Somos sempre esquecidos. Ora vejam bem.

Os carecas e os homossexuais podem acabar de um momento para o outro. O presidente boliviano Evo Morales já disse que resultam da proliferação de galináceos de aviário alimentados a hormonas femininas. Fechem os aviários que o mundo ficará mais perfeito.

Os sismos e todas as calamidades naturais que têm agitado o planeta também podem estar em vias de extinção. Um líder religioso de Teerão (que deve ser da família do vulcão da Islândia, a avaliar pelo nome) já explicou que tais catástrofes se devem às mulheres-cabriolets que não se tapam da cabeça aos pés e que não levam uma vida recatada. Enrolem a mulher num cobertor e não se deixem encornar que a natureza se encarregará de nos deixar dormir em paz.

Portanto, os problemas que restam insolúveis e crescentes continuam a ser o nosso défice e a nossa dívida externa. Não há por aí alguém que nos dê uma dica sobre a maneira de encerrar as agências de rating como quem fecha a mulher no galinheiro?

A corrida que nunca acabou


jmmcc,

1 de Maio de 1994, 14.º Grande Prémio de San Marino. Seguia na frente, a fazer o que mais gostava e a fazê-lo como só os eleitos fazem. Foi assim que partiu. Ficou a imagem do jovem afável e inteligente que falava português, cuja primeira vitória na Fórmula 1 tinha sido em 1985, no Grande Prémio de Portugal. Depois dele, muita coisa mudou e nunca mais um acidente em pista foi mortal. Ayrton Senna da Silva tinha 34 anos.

Na foto inferior, Nigel Mansell dava uma “boleia” a Ayrton Senna.

Parlamento sem tradutor


jmmcc,

Um dos convocados para hoje pela comissão de inquérito parlamentar sobre o caso PT/TVI é Zeinal Bava, o homem que tanto dá cartas no mundo da portugalização linguística como no da gestoralização empresarial.

Parece que o Parlamento ia aproveitar para testar o novo sistema de tradução simultânea, mas está em apuros: até à hora de fecho deste post, ainda não tinha encontrado um tradutor de portuguesing para língua-de-genting.

E atão?


jmmcc,

— Temos medidas focadas no corte da despesa e é nessas medidas que temos de concentrar a nossa atenção» – disse Teixeira dos Santos.

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Lembram-se daquela piada sobre o casal alentejano cuja mulher começara a usar baton?

— Atão porque é que nã ficas? – insistia o marido.

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— Atão porque é que nã concentram?

Mantenham a calma…


jmmcc,

O rating de Portugal no exterior desce de A+ para A-. Como tantos avisam há muito, a situação económico-financeira continua a deteriorar-se e o país vai perdendo crédito sucessivamente.

Tomo conhecimento da reacção de Teixeira dos Santos. O ministro das Finanças responde aos factos com frases feitas, lugares-comuns e ideias redondas, do tipo «há que executar as medidas necessárias», «o dia de amanhã vai ser a continuação do dia de hoje», «agora há que agir, há que actuar, há que tomar medidas». Ainda por cima, a resposta é em forma de comunicado escrito e, no entanto, parece-me coisa atabalhoada feita em cima do joelho. Por exemplo: «Os mercados têm revelado uma turbulência muito significativa no que se refere à dívida portuguesa e, pelo contrário, acho que uma notícia destas não vai serenar os mercados, que vão continuar a manifestar essa turbulência e esse nervosismo».

 

Não preciso de ser especialista para parar, reflectir e tentar ordenar alguns dados. Só corro o risco de pecar por omissão. Vejamos.

♦ Pior do que não haver contenção na despesa pública e começar a cortar nela, é saber que, enquanto a inflacção se tem mantido praticamente inalterável, a despesa pública até aumentou quatro por cento.

♦ Estamos a entrar no quinto mês do ano e o Orçamento do Estado (OE), apresentado e aprovado tarde e a más horas, ainda não está a ser executado.

♦ O Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), segundo os mais variados entendidos que ouço, é tímido e insuficiente na estabilidade e é nada de nada no crescimento. Além disso, o PEC também não está a ser executado.

♦ É hoje um dado adquirido que a Saúde pública, um monstro que suga o OE até ao tutano, tem 25 a 30 por cento de desperdício nos seus gastos monumentais. Só que ninguém impede que as horas extraordinárias no sector subam todos os meses, nem põe cobro à gestão desastrosa que as contas comprovam.

♦ Do trabalho do actual Executivo, que herdou do anterior uma espécie de legado atribuído a si próprio, tenho dificuldade em lembrar-me de muito mais do que da urgentíssima promoção legislativa de casamentos gay e da reabertura de um diálogo com os professores que já está inquinado. Seis meses depois de tomar posse, deve ter feito mais do que isto e estou seguramente a ser injusto, mas tenho a certeza de que nada fez do que todos queríamos: ninguém está melhor, a pobreza não está a diminuir, o país não recupera uma migalha do que anda a perder há anos.

Apesar de considerar este ponto da situação muito incompleto e imperfeito, creio que é possível tirar algumas conclusões sérias e concretas, nenhuma delas relaxante — excepto para o governo, pelos vistos.

 

A situação é favorável? Não é. É razoável e está controlada? Também não. É má? É. Estamos perigosamente parecidos com a Grécia? Não sei. Acho que estamos parecidos com o barco que se afunda e em que o comandante tranquiliza os passageiros:

— Atenção! A situação não é grave, mas é dramática. Atenção! Mantenham a calma e salve-se quem puder.