… u-ma-sal-va-de-pal-mas.
Ouvi dizer que querem acabar com este feriado pelo teu dia…
Parabéns, compadre!
Peugeot 204 Cabriolet (França, anos 60/70)*
* — O João Severino com a família e o seu 204 C, em 1973.
Era quase inevitável. O Pedro Correia já aqui se referiu a isso e muito bem, mas faltavam os partidos para marcar a agenda política. Nos tempos difíceis que correm, adivinhava-se que não iam demorar a aparecer aqueles que defendem a redução do número de deputados — e apareceram. O tema é velho e cíclico, mas qualquer discussão séria foi sempre sucessivamente adiada. Agora, em período de dramática austeridade, com visível falta de exemplos nas áreas políticas e de cortes decididos nos orçamentos institucionais, perante medidas que começaram hoje a espremer ainda mais uma fatia cada vez maior da população já seriamente afectada por este atoleiro nacional, o tema tinha de regressar. Em vão.
Ainda não é desta que o assunto segue em frente. Logo se levantaram várias opiniões contrárias. Uns, por exemplo, contrapõem que estas coisas não devem ser tratadas a quente, que não devem discutir-se e ser concluídas numa situação específica, mas antes ser abordadas em diferente época que não prejudique o debate e sem que sirvam precipitadamente apenas um dado momento. Acho isto curioso, porque se não se fala quando parece ser preciso falar-se, o certo é que os anos têm rolado sem que se falasse quando não havia urgência próxima. É a pescadinha de rabo na boca: não se discute porque a necessidade é má conselheira, mas também não se discute noutras ocasiões porque não vem a propósito.
O que mais me custa a engolir, contudo, não é bem esse motivo estafado. O que realmente mais me custa é haver quem argumente que reduzir o número de deputados durante uma legislatura tende a amputar a representação parlamentar e a perverter a proporcionalidade pluripartidária. Esta é a posição, por exemplo, dos socialistas, que andam a manifestar-se repentinamente preocupados com aquilo que entendem ser o risco de haver muitos círculos eleitorais que poderiam perder a sua representação na Assembleia da República. E foi isto sem-tirar-nem-pôr que o líder da bancada socialista teve para declarar publicamente sobre o assunto.
Ora, se não se altera a meio das legislaturas e se não se altera com a proximidade de eleições parlamentares, não há dúvida: altera-se é nunca. Mas a coisa acaba até por ser uma triste ironia. Então não se dispensam deputados por haver zonas do país que deixariam de estar representadas? Desde quando é que os deputados, em número escandalosamente significativo, são representantes de zonas que os elegeram e que mal conhecem ou onde nunca puseram os pés?
Se é assim, vou ali e já volto. Aproveitem para meter as mãozinhas nos restos de consciência que possam ter, senhores, e lembrem-se disto: a argumentação deve ser, antes de mais, inteligente. Inteligência devia também ser, por sinal, condição indispensável para se estar no Parlamento.
… fez ontem 80 anos. Esta lembrança está atrasada? Também a da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas está, que ainda só lhe deu quatro Óscares: dois de Melhor Realizador e dois de Melhor Filme, entre oito nomeações. Há-de ser sempre pouco, para este cineasta e autor cuja obra já entrou na História da Sétima Arte. Com uma carreira brilhante e multifacetada, gasta menos do que os orçamentos, filma com rapidez e perfeição e tem fama de só dizer três palavras em trabalho: okay, action e cut.
«Falando aos jornalistas antes de um almoço no Palácio de São Bento com várias associações defensoras dos direitos homossexuais e LGBT», José Sócrates disse que «a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo torna a sociedade “melhor“».
Como não consta que tenha alterado essa posição depois do almoço, pode concluir-se que os homossexuais estão duplamente com sorte. É que saber governar, resolver e ultrapassar os problemas em que o País está metido até ao pescoço também torna a sociedade melhor e, no entanto, a vida continua a piorar para a maioria dos portugueses e nem por isso estes são convidados pelo primeiro-ministro para almoçar.
A crise, porém, foi abordada. Sócrates disse também isto: “Eu sei que o País tem outros problemas e estamos empenhados neles, mas não vejo razão nenhuma para que, no meio de tudo isso, não encontremos espaço para não fazer aquilo que devemos, que é promover uma sociedade mais justa e sem discriminação.“
Atentem bem no desnorte: “não vejo razão nenhuma para que não encontremos espaço para não fazer“. Foi antes de almoço, sim, só que falou em ‘teixeira-santês’ técnico.
Agora que a selecção nacional vai emigrar para África e que Scolari não está cá, é tempo de promover o optimismo lusitano através das palavras patrióticas deste «ferveroso adepto de futebol». É portista, mas isso agora não interessa. Só interessa que é um «ferveroso adepto de futebol» e, sobretudo, um «ferdvrsadete de futebol». Aqui.*
* — Ninguém é obrigado a ouvir mais do que os primeiros 16 segundos.
Sexta-feira, 28, ao nascer do sol. Estou na gare das Lages.
— A que horas é o próximo TGV para Lisboa?
— Hoje não vai haver — responde-me o funcionário. — Se fosse amanhã…
— Aos sábados há? — indago.
— Não tem havido, mas nunca se sabe. O futuro a Deus pertence.
Saio da estação chateado. «Seis séculos depois de Gonçalo Velho Cabral e de Cristóvão Colombo, isto está tudo na mesma.» Atravesso a rua e entro na agência de viagens. «Avião para Lisboa?» Dizem-me que vai haver um.
— Tem algum tour a propor-me para uma ida-e-volta rápida? Queria ir hoje e voltar amanhã.
— Assim por tão pouco tempo… Deixe-me ver o que é que se arranja… Tenho aqui qualquer coisa… Olhe, só se for um encontro com um blogue, que inclui um jantar com vista nocturna para o Tejo, um belo quarto na avenida de Roma e um lauto almoço amanhã no Campo Pequeno.
— Parece tentador — respondo. — Esse serve-me.
Sigo para para o aeroporto.
Lisboa, início da tarde. Desço do aeroplano. Olho em volta e parece-me tudo novo, mas mal amanhado. «Será Alcochete?» Não é. No terminal 1, alguém chama por mim. «Pedro?» Era mesmo ele, o meu compadre, sempre pontual.
Seguimos para casa. Ele vai trabalhar e eu deixo-me ficar preguiçosamente no sofá. Pego no livro que o Pedro Correia acaba de me oferecer e leio três contos do avô dele. Depois vou à janela e o sol chama por mim. Pego no telefone e ligo para o ‘Pau Para Toda a Obra’.
— João?
— João?!? Mas…?
— Vamos beber um copo?
— ‘Bora já — responde-me o Severino, ainda incrédulo.
Perto das 20 estou no DN. Seguimos, o Pedro e eu, para o Museu do Oriente. Sob o olhar protector de uma divindade indiana, os primeiros dois a chegar já nos esperam. Subimos os quatro até uma mesa imensa virada ao rio. Vão chegando os outros.
— Bebem alguma coisa antes? — pergunta um empregado.
— Um gin tónico — peço.
Ele desaparece e volta. «Gin tónico não está incluído.» Pergunto então o que está incluído e peço um Martini seco com limão.
Já chegaram quase todos. Ninguém acredita que um gajo voou dos Açores só para estar ali e regressar no dia seguinte. Sempre julguei que fossem mais inteligentes, mas percebo que é só fama: pois se eu voei dos Açores só para estar ali e regressar no dia seguinte, não acreditam porquê? Mas sei como resolver o caso: dedais variados de louça regional-autonómica sugestivamente decorados, para “todos e todas” como diria o Louçã, não só não distinguem géneros como é quanto basta para acreditarem, «cambada de materialistas».
Ao meu lado, o único lugar vazio. O «tinto ou branco», ambos muito decentes, vem ao nosso encontro e nós levantamo-nos para ir ao encontro do buffet. Se quiserem a companhia do rio, do sol a pôr-se sem pressas, da noite intimista a marcar o tempo e das luzes a tomar conta da ponte (da “primeira travessia”, está claro, porque a “segunda” é longe e as luzes da “terceira” parecem uma árvore de Natal sempre a piscar: aparecem e desaparecem conforme o ministro que abre a boca), então o restaurante do Museu do Oriente é muito recomendável.
Se, pelo contrário, estão à espera de encontrar um serviço de cozinha de luxo asiático, esqueçam: o buffet é modesto e sem qualquer toque de exotismo ou esforço estético que o torne atraente aos olhos-que-também-comem. Só que tudo isto é compensado pelo ambiente, serviço de mesa e justiça na conta final. Assim, o saldo é positivo.
A notável animação dos primeiros momentos não esmorece com o desenrolar da festa. A mesa é comprida, mas também é larga, o que favorece muito os diálogos que se cruzam e até possibilita que algumas conversas consigam ser comuns aos 16 delituosos. Mais perto de mim, a frescura da Ana Cláudia Vicente impõe-se sem dificuldade. Mais longe, a Ana Margarida Craveiro espalha alegria pelos olhos. Lá ao fundo, a Ana Sofia Couto representa a serenidade, atravessada de quando em quando por surpreendente determinação. Organizadora do “evento”, a competência da Ana Vidal só peca pelo esquecimento imperdoável (roam-se as cuscas todas) do fotógrafo. Por fim, aparece tarde e a más horas (por razões tão válidas quanto os atrasos permanentes de Sócrates) o André Couto, que rompe a noite e logo se integra com a mesma animação que já nos contagia há muito. A meio de um dos lados, o António Manuel Venda espelha um discreto e permanente sorriso enigmático, talvez fruto da experiência próxima com o seu javali. A boa onda ao vivo está acolá no homem que toca a quatro mãos, o Zé Bandeira, sobre o qual nunca consigo concluir se escreve bem como desenha ou se desenha bem como escreve. Sem estar sentado com um compêndio à frente, o José Gomes André é a enciclopédia ambulatória de serviço. O mais sóbrio é o João Campos (John, o benjamim do grupo), que conhece a Europa a palmo e não é capaz de trocar este repasto por nova-partida-nova-viagem. A Leonor Barros, vestida de negro a preceito, podia ser a fadista da noite, porque quando abre a boca parece logo que é para cantar, mas tinha de ser o fado-corrido, porque é incansável a dar atenção a tudo. Polémico q.b., o Luís M. Jorge larga ideias inovadoras e bem recebidas. O Paulo Gorjão é a alma poética do fingidor, austero na escrita e efusivo na oralidade. O Pedro Correia é o dono, o patrão, o padrinho perante quem todos se calam quando abre a boca, mesmo que seja para meter uma garfada. Sempre cavalheiro e discretíssimo, o Sérgio de Almeida Correia dá nas vistas por deixar o Algarve para estar presente em todas. Se fosse preciso atear o fogo (que não era) a todas aquelas almas, encarregava-se a Teresa Ribeiro, risonha esfusiante e saltitante imparável em torno de todas as coisas.
Olho atentamente para o gang delituoso e pergunto-me: «Que faço eu aqui, além de me babar todo?» Cheio de Anas, de abraços e de carinhos por todos os lados, entre tantas beldades talentosas e tantos gurus de primeira água, sinto que este meu primeiro encontro com a quadrilha me tolhe a lucidez. Não me atreverei a estar no próximo jantar. Como? Depois do Verão, os jantares passarão a ser mais regulares? Nunca mais faltarei.
Quando as luzes se apagam, a Ana Vidal reúne alguns guarda-costas noctívagos e resistentes e ainda vamos ver se as docas continuam no sítio. À frente do último copo, apuram-se alguns pontos da agenda de trabalho que tinha estado basicamente em cima da mesa, parte dos quais estamos certos de que serão em breve janelas de oportunidade para os nossos estimadíssimos comentadores e leitores habituais, muito lembrados ao longo da noite.
Com falta marcada ficam quatro: o Adolfo Mesquita Nunes (falta justificada por ausência em terras nórdicas, lá para os lados onde nascem as nuvens que levam as companhias aéreas à falência), a Cristina Fereira de Almeida (falta injustificada, com os voos já normalizados), o J.M. Coutinho Ribeiro (falta injustificada, com quase três autoestradas Porto-Lisboa) e a Marta Caires (falta justificada, com o meu voto de vencido e a Madeira ali tão perto).
Têm razão os autores dos nossos blogues de estimação: roam-se de inveja, que o DELITO DE OPINIÃO é o máximo. Nem seria de esperar que não fosse, uma vez que o DO está no pelotão da frente quanto à lei da paridade. As nossas inspiradas meninas têm o duplo dom de ser também o motivo da nossa inspiração colectiva. Se as vissem melhor, iam perceber.
… mas não fui o único espiado. Foi o DO inteirinho. Aqui.
«Torna-se difícil não saltar com osche-ããã chutos*.»
(Repórter no Rock in Rio, SIC-N)
* — Xutos, talvez…
… aquilo que se vê sob a asa mais próxima deste B-52 Stratofortress da Força Aérea dos Estados Unidos é um pequeno avião supersónico não-tripulado que tem estado a ser ensaiado? É, sim, e os testes acabam de confirmar que consegue voar a velocidade hipersónica nunca antes registada. Lançado deste B-52 militar, o pequeno X-51A Waverider voou durante três minutos à velocidade de Mach 6 (seis vezes a velocidade do som) e aguentou-se 200 segundos em modo autónomo até começar a perder velocidade e o teste ser dado por concluído.
Anteriormente, o melhor ensaio de um hipersónico não-tripulado tinha-se ficado pelos doze segundos. O mundo está realmente em mudança acelerada. Só falta ultrapassar a crise. Por cá, como os voos são rasteiros, pensamos que estabilizamos mais depressa, só que nunca conseguimos vencê-la.
São os três portuenses e param ali pela Rotunda da Boavista. O homem nada tem de especial, mas um dos outros é um tipo estranho: ou o frango ou o leitão, um deles quer passar por ser o outro. Um dia destes ainda acabaremos por encontrar na Bairrada um leitão tipo frango. O mundo está a mudar rapidamente. Às vezes já muda em três semanas.
No dia em que o actual governo completa sete meses desde que foi empossado, aqui fica o símbolo da única promessa cumprida, que corresponde ao trabalho que já conseguiu desenvolver.
Daí para cá tem dedicado o tempo a ver em quantas semanas o mundo pode mudar, tem ensaiado várias fórmulas para tentar dizer a mesma coisa dois dias seguidos e tem anunciado tempos austeros para fazer pontes, estradas, linhas de comboios e aeroportos. Uma canseira.
A Assembleia da República fez saber que algumas despesas aprovadas para este ano são agora menores do que foram no ano passado e que já tratou de reduzir uns oito vírgula qualquer coisa por cento ao que previa gastar. Fico comovido com a poupança.
A ministra da Educação anunciou que vai ver onde pode cortar gastos sem prejuízo do ensino (que talvez não seja possível prejudicar mais). Estou emocionado com a disponibilidade para ver se consegue poupar algum.
A ministra da Saúde garantiu que irá evitar despesas obrigando as farmácias a indicar nas receitas aviadas os preços de medicamentos alternativos e que as horas extraordinárias nos hospitais terão de descer cinco por cento. Sinto os soluços que me embargam a voz perante esta determinação.
Os tribunais vão deixar de comprar água engarrafada. Escorrem-me as lágrimas por este gesto de bondade.
Tenho a certeza de que o silêncio de todos os outros sobre cortes orçamentais e almoços, limousines e motoristas, fundações e institutos, empresas municipais e prémios de gestão, conselheiros e sobrinhos, governos civis e adjudicações directas, etc., só não divulgam as suas medidas de austeridade por modéstia. Rompo em pranto face a tamanhos sacrifícios.
Contudo, apelo à calma de todos antes de aplicarem medidas tão duras. A austeridade só começa a 1 de Julho. Ou 1 de Junho. Ou 1 de Janeiro passado. Ou 1 de Janeiro futuro. Calma, portanto. Até porque Portugal costuma ser o primeiro a sair das crises.
Acho insuportável continuar diariamente a ouvir o primeiro-ministro, o ministro das Finanças, o ministro das Obras Públicas, o secretário de Estado das Obras Públicas, o secretário de Estado dos Transportes e sei lá quem mais, todos a falar dos mesmos assuntos como se vivessem em planetas diferentes, perdidos em declarações e despachos, em pontes que aparecem, desaparecem e voltam a aparecer, em impostos que são a partir de 1 de Julho, ou de 1 de Junho, ou de Janeiro passado, ou de Janeiro futuro, e também em transportes públicos que sobem de preço por ser preciso rever a política de apoios aos transportes, que depois descem de preço ou ficam na mesma porque rever a política de apoios não tem quaisquer consequências e que finalmente vão subir de preços porque tem de ser. In-su-por-tá-vel.
Já não tenho saco para estas cenas. É defeito meu ou há mais alguém assim?
Tancící dum
(Dancing House),
em Praga
(República Checa)
A Tancící dum — ou Dancing House — é o nome de um edifício no centro de Praga, junto do Rio Vltava, projectado em 1992 pelo arquitecto checo Vlado Milunic e pelo celebrado arquitecto canadiano Frank O. Gehry.
Foi Gehry a baptizar inicialmente o prédio como Astaire & Rogers Building e ainda hoje muitos lhe chamam o Fred and Ginger, em memória da famosa dupla Fred Astaire e Ginger Rogers. Isto por se destacarem no edifício duas torres arredondadas que podem sugerir (com algum esforço) a metáfora: uma torre-macho, de ar elástico e encimada por um efeito de cabelo imaginário, e uma torre-fêmea (de vidro), magra e mais ondulante, que formam como que um par de dançarinos.
Os interiores são maioritariamente da arquitecta britânica de origem checa Eva Jiøièná e a obra foi inaugurada em 1996.
É preciso que se diga que a construção não sacrificou qualquer edifício histórico. O casarão pós-renascentista de finais do século XIX que ali existiu fôra destruído durante o bombardeamento de Praga por aviões dos EUA, a 14 de Fevereiro de 1945. Em 1992, o terreno ainda devoluto foi comprado pela companhia de seguros holandesa Nationale Nederlanden, que seleccionou o trabalho do arquitecto checo e para o qual foi pedida a colaboração de Frank Gehry, cuja intervenção incluiu as torres-dançantes.
A Dancing House é um edifício de escritórios, caro e apetecível, com um café e snack-bar e, na cobertura, um dos mais apreciados restaurantes da capital checa, o Celeste Restaurant, com a sua cozinha francesa e um terraço de onde se desfruta uma bela vista do rio, da cidade e do magnífico Castelo de Praga.
Há que reconhecer que o prédio tem a seu favor a volumetria, que não choca com as construções antigas que o envolvem. As pessoas já se habituaram à sua presença e os visitantes olham-no com um misto de estranheza e apreço. Não foi por acaso que a revista Time lhe dedicou o prémio da categoria de design em 1996. Contudo, durante a construção, gerou uma enorme polémica que varreu tudo quanto é comunicação social.
Não devemos esquecer-nos de que Praga — conhecida como a “cidade das cem cúpulas” e famosa pelo seu vasto património histórico e vida cultural a emoldurar as margens do sinuoso Vltava e das suas muitas e antigas pontes — tem um centro histórico classificado como Património da Humanidade pela UNESCO em 1992, precisamente quando o Fred and Ginger começava a sair do lápis para emparceirar com uma vizinhança conservadora. Por isso, a discussão foi longa e acesa, mesmo depois da inauguração e de ter sido cunhada uma moeda de ouro alusiva à obra.
Ainda hoje há quem insista em trocar-lhe o nome de Dancing House por Drunken House, designação pouco edificante que pegou e não descola…
Sem querer, dou por mim a trautear e a parafrasear: “Venha ao Prós e Contras de Janeiro a Janeiro…” Vai tratar-se de concertação social. Fico curioso. Quem irá estar presente pelo Ministério do Trabalho? De repente, digo para mim mesmo, sempre a cantarolar: “Prós e Contras, venha cá.” E veio: entra-me em casa a ministra do Trabalho, reaparecida em cena — ao contrário de tantos outros que andam sumidos — e eu vejo que a senhora está na mesma. O tempo não lhe tem pesado desde aquela vez que a vi, já nem sei quando.
Helena André é a primeira a ser convidada a falar. A pergunta aponta os países que estão a tomar sérias medidas de austeridade através de cortes radicais na despesa, antecipadamente e por iniciativa própria, como a França, Alemanha, Reino Unido e Irlanda. A pergunta aborda também o caso espanhol, com o seu desemprego impressionante e a pressão de Bruxelas para que Madrid altere profundamente as políticas do trabalho. E por cá, como é?
A resposta da ministra começa assim: «Portugal antecipou-se.» Já não preciso de ouvir mais. Fiquei esclarecido. A ministra pode voltar para o sítio de onde saiu. Concluo que a maioria dos ministros se afastaram para aprender a cartilha do primeiro-ministro. Estamos bem entregues.