Quem merece este caganer é o ministro Rui Pereira. Perder o director da “secreta” precisamente nestes dias em que mais precisava de um Sherlock Holmes deve ser um aperto…
Quem quer um caganer? (4)
jmmcc,
Um ex-responsável do património cultural da China foi executado hoje, por ter roubado e vendido relíquias pertencentes a um antigo jardim imperial. No tempo dos imperadores, a China não teria feito melhor. Pior do que dente-por-dente é o sistema judicial de Pequim: morte por roubo.
Atrasado por manifesta falta de tempo (desculpem-me, sim?), colo-me aqui ao Pedro Correia, porque já foi no dia 7 que a nossa sempre amiga Ariel (Cirandando) também nos dedicou um Prémio Dardos.
Aqui ficam agora os dez blogues que premeio (por ordem alfabética), todos eles merecedores desta prestigiada distinção, a meu ver.
E as Fadas… Também se Enganam no Caminho?
Assim atribuídos os prémios, siga a corrente blogosférica.
«É notável a presença da polícia.»
(Repórter sobre a segurança no aeroporto de Lisboa, SIC-N)
O ministro Mendonça disse ontem na Assembleia da República que reavaliar não é parar, referindo-se aos grandes projectos e reforçando a afirmação de que o TGV vai avançar no início de 2011. Mal passadas 24 horas, o ministro Teixeira dos Santos disse hoje no mesmo Parlamento que o acordo com o PSD vai ser respeitado, no que se refere aos grandes projectos, o que implica o congelamento do TGV até que seja feita uma reavaliação por uma comissão independente.
Todos sabemos que isto é uma anedota. Mas não haverá alguém que lhes faça um desenho para perceberem que a piada já está estafada?
«A demissão de Silva Carvalho está a provocar um terramoto na inteligência.»
(DN ‘online’ sobre a demissão do director do SIED)
Com os novos caganers Angela Merkel e Sarkozy, o famigerado eixo franco-alemão vai ficar muito bem representado este ano nos presépios da Catalunha e de Valência. Vamos a Espanha buscar ao menos um? Ter um caganer destes pendurado à porta sempre é uma vingançazinha. Sim, que o mau cheiro deles, de qualquer maneira, já cá chegou e está a empestar o nosso futuro próximo.
Segundo a Lusa, o ministro Mendonça disse no Parlamento que «há interpretações que reavaliar é parar tudo o que está em curso e, de facto, não é essa a interpretação». Isto tem também duas interpretações, a primeira das quais é que a construção da frase é completamente estapafúrdia. A segunda é que há montes de razões para ninguém querer saber o que diz o ministro Mendonça mai-las suas interpretações.
«Portugal tem “um padrão atípico” de perturbações psiquiátricas na população»
Título do Público “Última Hora”
«Cento e dez mil euros. Foi esta a indemnização recebida pelo motorista do presidente da Empresa Portuguesa de Águas Livres (EPAL), um valor mais de três vezes superior ao previsto na legislação do trabalho. O trabalhador, há 26 anos na empresa pública, é apontado como militante socialista e casado com uma funcionária da Federação da Área Urbana de Lisboa do PS — avança o Correio da Manhã.» A explicação da EPAL é interessante: «A rescisão surge no seguimento de “uma política de racionalização e renovação dos trabalhadores da EPAL.” A parte mais interessante é a da “racionalização”, como está bom de ver.
Já agora, como a EPAL pertence às Aguas de Portugal, como se trata de um motorista e como estamos a 15 de Novembro, que é feito disto?
“Portugal precisa de ser salvo dos seus salvadores.”
Francisco Louçã
Com a discussão na especialidade, o País terá em breve o seu Orçamento para 2011. Afinal, o que significa realmente o ruidoso acordo que permitirá a sua aprovação? Não faltaram palpites sobre isso, mas creio que ficou por salientar um enorme logro, o monstruoso engano que continua a empurrar-nos para o abismo já ali adiante: o nonsense de manter na gestão orçamental os comprovadamente maus gestores que nos arrastaram até aqui.
Se a manutenção dos talvez piores executivos de sempre à frente da próxima execução orçamental é o que achamos que nos permitirá respirar por mais um tempinho, então podemos ir comprando garrafas de oxigénio. O ar será cada vez mais irrespirável, governados por um executivo que nunca cumpriu os orçamentos e os PEC que ele próprio apresentou e que, ainda por cima, é mantido a governar sem programa de governo: o seu programa deixou de existir quando, logo depois das eleições e da aprovação do dito cujo, foi conhecida a realidade das contas públicas, escondidas durante a campanha eleitoral.
Portugal vive um dos seus momentos mais dramáticos do modo mais inexplicável e inesperado, ou seja, na mais complexa e insólita contradição. É como se tivéssemos um TGV estacionado no Poceirão a ver passar os ministros de avião para a Europa.
O INE descobriu que a economia portuguesa subiu 0,4 por cento no terceiro trimestre do ano e explicou, feliz, que foi por via do «aumento expressivo das exportações». Essa felicidade é ainda maior porquanto a previsão oscilava entre uma contracção de 0,5 por cento e um crescimento de 0,3 por cento, afinal “expressivamente” ultrapassada em 0,1 por cento (pelas minhas contas).
Acontece que eu não tinha má impressão sobre o INE. Mas agora, com esta surpreendente tendência para adjectivar os números e empolar as insignificâncias, fico com a ideia de que o INE está a meio caminho de se tornar mais um “expressivo” porta-voz do primeiro-ministro.
Nada disto é novo. Com Vítor Constâncio, o distanciamento objectivo do Banco de Portugal perdeu-se frequentemente em exercícios de apoio ao Governo. Pelos vistos, fez escola: o INE parece interessado em ser outro eco do discurso governamental.
Algumas câmaras municipais já começaram a dizer que vão poupar nas habituais iluminações de Natal, como Arganil, Mealhada, Tondela, Guarda e Figueira da Foz. Porém, em Góis, a autarquia anunciou que «as pessoas já estão tão deprimidas que, se formos cortar as iluminações de Natal, que ainda dão alguma auto-estima, estamos a contribuir para esta depressão geral», pelo que o corte será feito na iluminação pública normal. E não só: «Tínhamos essa intenção de trocar o carro [da presidência da câmara], mas não o vamos fazer.»
Acho isto um espanto, o presidente de uma autarquia alimentar a intenção de mandar que lhe troquem o carro e divulgar que acabou por desistir dela. O que devia ser hoje uma norma naturalíssima é uma coisa tão extraordinária que vira notícia. A imagem do Portugal que temos está mais parecida com uma caricatura do que com um retrato.
Nos primórdios do século XX, muita gente ainda pensava que os automóveis jamais passariam de fantasias malucas e até perigosas para gente rica. Foi o que pensou um excêntrico milionário britânico, que vivia na Índia e decidiu ir a Inglaterra em 1909 satisfazer o seu sonho de garoto: encomendou à Brooke Co. um carro em forma de cisne, antes que os novos motores de combustão ficassem fora de moda. Em 1910 — faz precisamente agora um século — recebia o seu extraordinário Brooke 25/30hp Swan Car.
O modelo veio a ser reencontrado várias décadas depois, abandonado e bastante estragado, foi restaurado e pertence a uma colecção particular desde 1991. Se a Cinderela fosse do século XX não teria desdenhado este carro-cisne, em lugar de uma abóbora com rodas (e a carruagem rococó do príncipe não era melhor). Acho que teria até deitado o outro sapato pela janela fora, para pisar melhor o acelerador. Quem é que se lembraria de conduzir 25 ou 30 cavalos de potência com sapatinhos de cristal um número acima?
Brooke 25/30hp Swan Car (GB, 1910)
Cinderella Christmas Exhibit, em Minden, Louisiana (EUA)
Vão ser leiloadas obras de arte no Centro LGBT, que faz 13 anos e que a ILGA qualifica como «um espaço cultural e comunitário para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgénero e para a sociedade em geral», referindo-o como «o único em Portugal com estas características». Trata-se de uma confusão qualquer. Há montes de espaços culturais e comunitários por aí fora. Nem todos para “lésbicas, gays, bissexuais e transgénero e para a sociedade em geral”, é certo, mas quase todos para “a sociedade em geral”, que é muito mais simples e igualmente abrangente.
O leilão, que é no sábado, «visa angariar fundos para as obras de requalificação do Centro LGBT de forma a dar continuidade às suas actividades». Pelo-sim-pelo-não e embora seja incerto que tais actividades tenham lugar no próprio sábado, é melhor não levar lá menores que pode gerar-se alguma confusão.
Sobre as obras em causa, a ILGA divulga um naipe de autores, «entre outras e outros artistas». Deve ser outra confusão. A expressão “outras e outros” não discrimina apenas os géneros, mas também deixa de fora quem estiver a meio de um transcaminho. Na nossa língua, a forma “outros” é indiferenciada e inclusiva, porque diz tudo. Depois queixem-se de discriminação.
UM SÉCULO DE SOLIDARIEDADE
FRACASSADO SEM DIGNIDADE
O século XX destacou-se pelas grandes reformas sociais impulsionadas pela implantação de novos regimes em muitas nações, que influenciaram decisivamente muitas outras. Essas profundas reformas geraram movimentos sociais com diversas motivações, que se estabeleceram ao longo do século e ganharam espaço acrescido a partir do pós-Guerra, na segunda metade de Novecentos.
Ora inspirados pelas novas políticas – com crescentes preocupações de natureza social – ora organizados no seio das próprias sociedades por iniciativas independentes dos centros de decisão – e até capazes de inspirar, consolidar e fazer avançar aquelas políticas sociais – muitos desses movimentos se foram unindo por um objectivo comum: a inclusão social.
Desigualdade de oportunidades
A inclusão social é obtida por um princípio político basilar: a igualdade de oportunidades dirigida a todos. Inversamente, a exclusão social reflecte a incapacidade ou impossibilidade para aplicar ou concretizar universalmente esse princípio. Portanto, a exclusão social configura a desigualdade, no sentido da falta de igualdade de oportunidades ou de acesso às oportunidades que deviam destinar-se a todos os cidadãos.
A desigualdade é determinada por faltas diversas, como sejam as de recursos, de formação, de apoios, de incentivos, de acompanhamento, de integração, etc., que implicam a persistência de diferentes vertentes da exclusão, como a pobreza, o analfabetismo, a desqualificação, a doença, as incapacidades e tantas outras.
Mais conhecimento e menos inclusão
O desenvolvimento e o conhecimento têm, afinal, determinado mais desigualdade, quando a inclusão devia estar a dar sinais positivos perante o decréscimo das formas mais tradicionais de exclusão que se previa. O normal seria esperar-se que os apoios às carências se atenuassem com o passar do tempo, à medida que a inclusão fosse crescendo, mas a verdade é que nada disso se verificou: a exclusão ganhou novas formas e os apoios foram-se multiplicando numa espiral impressionante que só não parece imparável por já ser insustentável. Ou seja: as políticas sociais não cumpriram objectivos e estão a falir após alguns êxitos fugazes e de insustentabilidade continuamente escamoteada.
Nas décadas mais recentes, o desenvolvimento e o conhecimento caminharam mais velozes do que as medidas de combate à exclusão, o que tendeu a agravar o fosso entre incluídos e excluídos. Este facto acentua-se ainda pela falta de meios: uma crise financeira prolongada, seja ela de âmbito nacional ou à escala mundial, leva inevitavelmente a uma crise económica e esta tem uma crise social como consequência imediata. Em suma: mais desigualdade, nenhuma dignidade.