‘Artitectura’: os mal-amados (19)


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Jardine House, em Hong Kong

A Jardine House (ou Connaught Centre, ou Cheung Kong Center) é uma torre de escritórios na ilha de Hong Kong, no número 1 da Connaught Place, em Central, bem junto das águas do enorme porto de águas profundas. O projecto foi da Palmer & Turner, encomendado pela Hongkong Land Ltd., subsidiária do Grupo Jardines.

Trata-se da multinacional Jardine Matheson Holdings, com sede em Hong Kong, que opera nas Bermudas, está cotada em Singapura e em Londres e se movimenta em muitos pontos do mundo sob várias designações e marcas, um gigante do mercado que serviu de fundo ao filme Nobel House (realizado por Gary Nelson em 1988, baseado no romance com o mesmo título de James Clavell e com Pierce Brosnan no papel de tai pan, o grande patrão estrangeiro).

O edifício — que substituiu um prédio de 1948 com 16 andares da mesma empresa, mas situado noutra área — construído em 16 meses num aterro conquistado ao mar, com 52 andares e uma altura de 178,5 metros até ao topo, marcou o início da modernidade arquitectónica em Hong Kong: foi concluído em 1972 e inaugurado em 1973; até 1980, era o mais alto da Ásia. Foi também pioneiro de uma técnica que passou a tornar-se comum desde então na zona Central de Hong Kong, que consiste em acessos interligados entre as inúmeras torres aí erguidas. Com as vias quase exclusivamente destinadas ao trânsito frenético, poucos locais para estacionamento no espaço público e raros passeios para peões, o processo permite que as pessoas circulem de edifício em edifício (centros comerciais, hotéis, etc.) através de escadas e passadeiras rolantes, sempre no conforto do ar-condicionado.

Pelo lobby, no piso térreo, percebe-se que a frieza do ambiente corresponde à utilização de materiais de grande resistência e limpeza fácil, onde se encontram os elevadores (da Otis) e a respectiva caixa de escadas (da Schindler).

Nestas décadas recentes, os espantosos exemplos da paisagem urbana de Hong Kong, a par de Manhattan (Nova Iorque), são estudados em todos os cursos de arquitectura e têm feito muitas capas das melhores revistas da especialidade em todo o mundo.

Hoje em dia, a Jardine House está completamente diluída na mancha imensa e arrojada das enormes construções naquele território chinês “fundado” pelos britânicos e desenvolvido pelo comércio norte-americano internacionalizado. O edifício confunde-se e quase desaparece entre os monstros que o rodeiam, é certo, mas não era assim nos anos 70.

Portanto, não pode dizer-se que passava indiferente quando surgiu aos olhos admirados da população, com as suas janelas redondas (diz-se que são 1700 vigias) incapazes de disfarçar a massa cinza metálica que o sustenta. Essa admiração, na altura, oscilou entre um certo orgulho pela grandeza e alguma desconfiança pela ostentação.

Na sua primeira década, a Jardine House dos postigos redondos foi realmente um mal-amado, logo baptizado pela vox populi com um nome que me parece que só um chinês, com as suas metáforas e alegorias muito próprias, se lembraria de chamar-lhe (e que me dispenso de traduzir): The Building of 1000 Assholes…

De Bruxelas, com amor


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Reunidos em Bruxelas, «os 16 ministros das Finanças da zona euro acabam de aprovar um auxílio financeiro de 85 mil milhões à Irlanda.» Parece que Teixeira dos Santos até quis doar logo uma nota de dez euros que levava na carteira para demonstrar aos mercados que a situação de Portugal nada tem que ver com a da Irlanda. Um gesto de amor que foi impedido de fazer por estar sujeito a um Orçamento de austeridade e não ser abrangido pelo regime de excepção (vulgo de adaptação) aos cortes salariais.

Quem enfraquece o quê


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«Santos Silva diz que Passos Coelho enfraquece posição de Portugal.» Visto que o ministro da Defesa não é ministro dos Negócios Estrangeiros, nem das Finanças, nem da Economia ou sequer líder parlamentar e muito menos primeiro-ministro, trata-se de uma mera opinião que carece de razão de ser. Se o País ainda tivesse falta de analistas políticos, não seria de certeza Santos Silva a minorar tal falta.

Afinal, por pouco feliz que pudesse ter sido Passos Coelho, Santos Silva foi muito mais infeliz. Porquê? Porque essa irresistível vontade de se pôr em bicos-de-pés permanentemente manifestada pelo ministro da Defesa acaba sempre por parecer uma tentativa para dar a entender que nas Forças Armadas está tudo-como-dantes-quartel-general-em-Abrantes e ainda lhe sobra tempo, o que toda a gente sabe que é absurdo.

Não é que o Governo possa ficar pior do que está, mas Santos Silva enfraquece a posição do Governo.

Excepto uma excepção – dia dois


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Jorge Lacão disse-o ontem muitas vezes, mas parece que ninguém lhe ligou. Vai daí, Teixeira dos Santos teve de vir hoje dizer mais uma vez que não há qualquer regime de excepção nos cortes salariais nas empresas públicas: «Adaptação não é sinónimo de excepção.» E acrescentou que os cortes salariais nas empresas públicas serão «da forma que as administrações entenderem», mas que não irá autorizar «nada diferente» do corte de cinco por cento nas remunerações em todo o sector público, «caso contrário, a aplicação da regra dos cinco por cento criaria dificuldades».

Entenderam? Eu explico: não foi aprovado um regime de excepção nos cortes salariais. Com uma excepção: as empresas públicas. Entenderam agora? 

Eles ‘andem’ aí


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«O Governo português desmente categoricamente a notícia de que estaria a ser alvo de pressões por parte de vários países da zona euro para pedir ajuda financeira externa.» O que quer dizer, em linguagem governamental, que o Governo português está a ser alvo de pressões por parte de vários países da zona euro para pedir ajuda financeira.

Portanto, temos o FMI a rondar-nos. Há-de chegar a Lisboa no primeiro trimestre de 2011, quando Teixeira dos Santos estiver a explicar que a próxima derrapagem se deve a não ter sido ainda implementado o “corajoso conjunto das medidas previstas para vencer a crise internacional, uma crise que é uma crise severa, e para vencer o nervosismo dos mercados, que é um nervosismo que se tem verificado nos mercados”.

Números


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O ministro das Finanças declarou que o Orçamento do Estado que apresentou era melhor antes de introduzidas as alterações negociadas com o PSD. É natural: o OE compete à Assembleia da República, mas parece aceitável que seja o Governo a apresentar o projecto de receitas e despesas que pode e quer cumprir. Só fica uma dúvida: por que raio é que este Governo nunca cumpriu um OE nem um PEC?

Mais logo — com o OE já aprovado — quando os repórteres andarem atrás de Teixeira dos Santos para lhe ouvir qualquer coisita, talvez fosse bom limitarem-se a perguntar-lhe que horas são. Não que a resposta seja muito interessante, mas é mais provável que seja à volta de números muito aproximados, o que sempre será uma novidade.

Sindicatos inadaptados


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Claro que há muitos casos dramáticos que as esgotadas políticas sociais abandonam e é evidente que muitos desses casos começarão a tornar-se trágicos em breve. Por isto e por muitos outros motivos já mais que diagnosticados, parece muito provável que os números das greves e das manifestações de protesto venham a ser cada vez mais baixos. Porém, alguém acha realmente que as pessoas não abominam este Governo, desçam elas à rua ou não?

O mundo mudou. Os partidos é que nem por isso: têm-se oposto genericamente às reformas e agudizam fórmulas obsoletas de actuação. Só os partidos? Não: os sindicatos também cristalizaram. Os velhos líderes sindicais não têm imaginação para encontrar modelos de actuação ajustados às novas realidades. Nem sequer conseguem repensar os padrões ultrapassados por que se regem.

No entanto, mesmo sem imaginação e incapazes de pensar no actual mundo reinvindicativo e de debate de soluções, nas expectativas de bem-estar geral e nos objectivos que deviam ser as grandes causas da actualidade, os sindicatos — ainda tão agarrados à velha luta de classes como a extrema esquerda ao sonho da caduca luta armada — mesmo assim, podiam sacudir o pó e refrescar uma ou duas ideias.

Mal vão as sociedades se os dinossauros sindicais continuarem apostados na defesa inglória (porque a economia não se contorna) dos postos de trabalho e permanecerem cegos para os que querem trabalhar e não conseguem, para os que foram despedidos e nunca mais arranjarão trabalho e para a mancha indigna de tudo o que constitui a nova exclusão social.

Hoje, em Portugal, se a finalidade sindical comezinha é ter gente nas ruas para ganhar guerras de números com significado duvidoso, o mínimo é abrir o cofre das colectas, arregaçar as mangas, pegar em caixinhas tipo take-away e distribuir arroz de frango. Muitos terão já dificuldade em sair do seu refúgio incerto, mas não faltarão multidões a arrastar-se penosamente para arranjar a refeição do dia.

Se os sindicatos vivem dos números que trazem à rua, uma comidinha resolve isso e ajuda a matar alguma fome a muitos esqueletos adiados. Mas aproveitem para pensar na readaptação que tarda, porque deve haver um modo de contrariar o distanciamento crescente entre o trabalho e o sindicalismo. Sob pena de os próprios sindicatos também se transformarem rapidamente em esqueletos do passado.

Sem excepções excepto uma


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«Não foi aprovado qualquer regime de excepção» aos cortes salariais nas empresas públicas, segundo o ministro dos Assuntos Parlamentares, até porque, «se isso acontecesse, seria ao contrário das disposições normativas agora apresentadas». O que se fez, ainda segundo Jorge Lacão, foi «adaptar às especificidades das empresas» os cortes salariais.

Entenderam? Eu explico: não foi aprovado um regime de excepção nos cortes salariais. Com uma excepção: as empresas públicas. Entenderam agora?

 

ADENDA: “O CDS-PP anunciou hoje que vai pedir esclarecimentos ao ministro das Finanças sobre a alteração à norma dos cortes salariais nas empresas públicas.“

Sabia que… (59)


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… o velho comboio Foguete que andou tantos anos a fazer Porto-Lisboa está estacionado no Entroncamento? Pois é que está mesmo e também está em pleno processo de transformação: era uma composição com história e agora já é um monte de sucata em adiantado estado de decomposição.

Pode ser que o ministro Mendonça queira olhar para trás e sinta dó do histórico Foguete, já que olhar para o futuro não parece ser o seu forte. Pelo menos, sempre servia para ele se entreter às terças, quintas e sábados, que são os dias em que o projecto do TGV costuma ser suspenso. Com o que vai ter de gastar (parafraseando a fonte original*) em lixa, citofer e zarcão, sempre poupará em palitos, guardanapos e croquetes.

Não sendo ainda uma relíquia, este comboio é já um fantasma medonho no Entroncamento.

              

* — Fotos de Manuel Luna roubadas aqui.

Vícios


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«Sócrates recusa falar para já de uma eventual remodelação no Governo», o que só evidencia a própria evidência: sendo absurdo remodelar o Governo sem substituir Teixeira dos Santos, quem é que estaria disposto a pegar na pasta das Finanças neste estado de coisas? Sim, que o resto não passa de peanuts. Se for para substituir o ministro Mendonça e outros marcianos nem vale a pena, porque a gente já se habituou a não ligar.

Não há dúvida de que o ainda primeiro-ministro está perante um dilema: não remodelar, ou retocar e mentir que remodelou. Não tem solução. Mas palpita-me que optará pela mentira. Ele há vícios que não descolam.

Frases do ano (87)


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“Nós começámos a mudar as coisas em Lisboa.”

José Sócrates a responder a Nuno Rogeiro sobre a necessidade de a NATO alterar a imagem de agressividade nos palcos de guerra onde chega (Sociedade das Nações, SIC-N)

Quem quer um caganer? (6)


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Um caganer para o Diabo. O ministro Mendonça e aquele secretário de Estado Paulo Campos que-fala-de-si-próprio-na-terceira-pessoa-do-singular-como-se-fosse-um-jogador-de-futebol estiveram no mesmo dia no mesmo congresso e leram o mesmo discurso. Não sei se Paulo Campos disse que “o Paulo Campos tem o mesmo discurso do senhor ministro”, mas creio que é a primeira vez que o ministro Mendonça não é contrariado por outro membro do governo. Nas Obras Públicas, isto só pode ser obra do Diabo, porque normalmente a obra que sai dali é essa que os leitores estão a pensar…

PCP, o “voyeurista” do mundo


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Sempre me fez confusão o chamado Complexo de PCP, que consiste na felicidade de descobrir aqui e ali uma erva daninha no mundo livre, mas negar a tenebrosa floresta chinesa, norte-coreana, birmanesa, cubana, etc. Afinal, é idêntico à síndrome da avestruz, que esconde a cabeça para espreitar a privacidade dos outros, mas recusa ver a promiscuidade escandalosa que anda por aí.

Em suma: o PCP não passa de um “voyeurista” da política internacional.

O sono e a dívida


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Primeiro, o embaixador de Portugal em Timor-Leste dorme o sono dos justos. Segundo, o Presidente Ramos Horta fotografa o embaixador. Terceiro, dizem as más-línguas que a foto chegou a Lisboa com um bilhetinho: Eu estava a dizer-lhe que queria comprar dívida pública, mas ele não me ligou nenhuma…

(Imagens e informação roubadas aqui)