Claro que há muitos casos dramáticos que as esgotadas políticas sociais abandonam e é evidente que muitos desses casos começarão a tornar-se trágicos em breve. Por isto e por muitos outros motivos já mais que diagnosticados, parece muito provável que os números das greves e das manifestações de protesto venham a ser cada vez mais baixos. Porém, alguém acha realmente que as pessoas não abominam este Governo, desçam elas à rua ou não?
O mundo mudou. Os partidos é que nem por isso: têm-se oposto genericamente às reformas e agudizam fórmulas obsoletas de actuação. Só os partidos? Não: os sindicatos também cristalizaram. Os velhos líderes sindicais não têm imaginação para encontrar modelos de actuação ajustados às novas realidades. Nem sequer conseguem repensar os padrões ultrapassados por que se regem.
No entanto, mesmo sem imaginação e incapazes de pensar no actual mundo reinvindicativo e de debate de soluções, nas expectativas de bem-estar geral e nos objectivos que deviam ser as grandes causas da actualidade, os sindicatos — ainda tão agarrados à velha luta de classes como a extrema esquerda ao sonho da caduca luta armada — mesmo assim, podiam sacudir o pó e refrescar uma ou duas ideias.
Mal vão as sociedades se os dinossauros sindicais continuarem apostados na defesa inglória (porque a economia não se contorna) dos postos de trabalho e permanecerem cegos para os que querem trabalhar e não conseguem, para os que foram despedidos e nunca mais arranjarão trabalho e para a mancha indigna de tudo o que constitui a nova exclusão social.
Hoje, em Portugal, se a finalidade sindical comezinha é ter gente nas ruas para ganhar guerras de números com significado duvidoso, o mínimo é abrir o cofre das colectas, arregaçar as mangas, pegar em caixinhas tipo take-away e distribuir arroz de frango. Muitos terão já dificuldade em sair do seu refúgio incerto, mas não faltarão multidões a arrastar-se penosamente para arranjar a refeição do dia.
Se os sindicatos vivem dos números que trazem à rua, uma comidinha resolve isso e ajuda a matar alguma fome a muitos esqueletos adiados. Mas aproveitem para pensar na readaptação que tarda, porque deve haver um modo de contrariar o distanciamento crescente entre o trabalho e o sindicalismo. Sob pena de os próprios sindicatos também se transformarem rapidamente em esqueletos do passado.


No alvo, João. Continuamos amarrados a um modelo de sociedade que herdámos da revolução industrial. E que já não serve.
É que é isso mesmo, Rui. O que apenas serve uma minoria dinossáurica inamovível que se rege pela lei do menor esforço.
Já há muito que, por falta de tempo, não tenho vindo até ao “Delito”, mas, hoje ao dar uma rápida espreitadela… ao ler este texto quase fiquei comovida.
É um “retrato” perfeito, de todo um país, cujos sindicatos estão ultrapassados e completamente “démodés”.
Estamos de acordo. E ainda bem que voltaste.
Esta sua análise tem a especial virtude de se aplicar à generalidade das instituições. É mesmo isto, João. Para novas lutas exigem-se novas formas de luta. E cidadãos. É urgente reinventar a cidadania, porque é sempre ela que nos defende das ditaduras.
Na verdade, Nicolina, é um país mais ou menos inteiro que se recusa a perceber que o regime já leva mais de três décadas e que o mundo está mudado.
Portugal ficou cristalizado, dinossaurizou-se e, como nada fica parado sem declínio, foram-se acentuando os vícios, a decomposição em lugar da construção.
As virtudes, que deviam acompanhar as mudanças, ficaram a bocejar no passado. Por isso, a modernidade em que estamos encurralados é toda ela defeituosa. Uma modernidade passadista, afinal.
Ganda posta João!!!
Obrigado, Pedro.