25 de Novembro


Sérgio de Almeida Correia,

 

Tem sido pouco falada, e ainda menos comentada, a entrevista que Otelo Saraiva de Carvalho deu à TSF/DN. Com a simplicidade, ingenuidade, mas também a frontalidade que sempre o caracterizaram, Otelo veio com essa entrevista prestar uma homenagem aos dois vinte cincos que caracterizam a nossa história recente: ao 25 de Abril e ao 25 de Novembro.

É claro que nem tudo o que ele disse foi simpático, fosse para os seus camaradas de armas, fosse para os partidos políticos, mas continua a ser possível descortinar nas suas palavras um sonho que está cada vez mais afastado daquele que foi o seu nos tempos do Copcon. A realidade não se compadece com a diletância.

Afinal, o que Otelo fez foi apenas recordar que por trás de qualquer revolução, golpe ou movimento social, está uma grande vontade de mudança, por um lado, e de perenidade das novas instituições que garanta a coesão do tecido social, sem grandes convulsões, numa situação que permita o desenvolvimento da nação em democracia e com justiça.

A situação que hoje atravessamos tem muito pouco que ver com os ideais de Abril, mas mais com toda a catrefa de sortilégios desencadeados pelos actores, todos sem excepção e muitos de forma involuntária, que saíram vitoriosos do 25 de Novembro de 1975. 

Aquilo que Otelo diz quanto à forma como a partidocracia se impôs e a oposição comodamente se instalou, dissociando os portugueses da participação e da realização das aspirações colectivas, pode parecer um sacrilégio dito por ele. Mas é hoje uma verdade incontornável. Custa ouvi-lo da boca de Otelo. Não deixará por isso de ser menos verdadeiro.

Como já alguém disse, a greve geral de ontem começou e terminou ontem mesmo. Não acrescentou rigorosamente nada às prioridades do País e só no umbigo dos dirigentes sindicais é que ela teve a dimensão desejada. Pelas circunstâncias em que ocorreu convirá dizer que a data de 24 de Novembro foi muito bem escolhida, já que os seus frutos não serão muito diferentes daqueles que as anteriores trouxeram aos trabalhadores portugueses.

Hoje é 25 de Novembro. Há 35 anos ficou definitivamente enterrado o PREC que contra todas as evidências há quem persista em desenterrar. E se por alguma razão se duvidasse da utilidade do 25 de Novembro de 1975, o simples facto de Otelo Saraiva de Carvalho ter dado a entrevista que deu já seria motivo de satisfação.

Qualquer homem inteligente e de boa fé, seja ele de esquerda ou de direita, por maiores e mais fundas que sejam as suas convicções, não tem medo de pensar, de reflectir e, quando necessário, de ter a humildade de confessar que se enganou. Dizê-lo em voz alta torna-se por isso mesmo mais difícil. E continuará a ser traumático sempre que se recordarem as vítimas inocentes do desvario de 1975 ou das FP-25.

Quando olho para o que se passou em 25 de Novembro de 1975, quando comparo com o que ontem aconteceu, 24 de Novembro de 2010, por mais que procure, há uma frase que não me deixa fugir de mim: não precisávamos de ter chegado até aqui para estarmos como estamos. 

Somos todos responsáveis. Espero que a História não nos absolva.                

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