UM SÉCULO DE SOLIDARIEDADE
FRACASSADO SEM DIGNIDADE
O século XX destacou-se pelas grandes reformas sociais impulsionadas pela implantação de novos regimes em muitas nações, que influenciaram decisivamente muitas outras. Essas profundas reformas geraram movimentos sociais com diversas motivações, que se estabeleceram ao longo do século e ganharam espaço acrescido a partir do pós-Guerra, na segunda metade de Novecentos.
Ora inspirados pelas novas políticas – com crescentes preocupações de natureza social – ora organizados no seio das próprias sociedades por iniciativas independentes dos centros de decisão – e até capazes de inspirar, consolidar e fazer avançar aquelas políticas sociais – muitos desses movimentos se foram unindo por um objectivo comum: a inclusão social.
Desigualdade de oportunidades
A inclusão social é obtida por um princípio político basilar: a igualdade de oportunidades dirigida a todos. Inversamente, a exclusão social reflecte a incapacidade ou impossibilidade para aplicar ou concretizar universalmente esse princípio. Portanto, a exclusão social configura a desigualdade, no sentido da falta de igualdade de oportunidades ou de acesso às oportunidades que deviam destinar-se a todos os cidadãos.
A desigualdade é determinada por faltas diversas, como sejam as de recursos, de formação, de apoios, de incentivos, de acompanhamento, de integração, etc., que implicam a persistência de diferentes vertentes da exclusão, como a pobreza, o analfabetismo, a desqualificação, a doença, as incapacidades e tantas outras.
Mais conhecimento e menos inclusão
O desenvolvimento e o conhecimento têm, afinal, determinado mais desigualdade, quando a inclusão devia estar a dar sinais positivos perante o decréscimo das formas mais tradicionais de exclusão que se previa. O normal seria esperar-se que os apoios às carências se atenuassem com o passar do tempo, à medida que a inclusão fosse crescendo, mas a verdade é que nada disso se verificou: a exclusão ganhou novas formas e os apoios foram-se multiplicando numa espiral impressionante que só não parece imparável por já ser insustentável. Ou seja: as políticas sociais não cumpriram objectivos e estão a falir após alguns êxitos fugazes e de insustentabilidade continuamente escamoteada.
Nas décadas mais recentes, o desenvolvimento e o conhecimento caminharam mais velozes do que as medidas de combate à exclusão, o que tendeu a agravar o fosso entre incluídos e excluídos. Este facto acentua-se ainda pela falta de meios: uma crise financeira prolongada, seja ela de âmbito nacional ou à escala mundial, leva inevitavelmente a uma crise económica e esta tem uma crise social como consequência imediata. Em suma: mais desigualdade, nenhuma dignidade.



Não basta ter razão
Ainda digo mais: não basta ter razão.
Há qualquer coisa profundamente errada num mundo em que 2/3 da população morre de fome e 1/3 morre de excesso. Há qualquer coisa profundamente errada num mundo em que uma marca de alto luxo – a Luis Vuitton – tem de reduzir o horário das suas lojas porque não tem produção suficiente para responder à procura, numa altura de crise económica generalizada. Há qualquer coisa profundamente errada num mundo em que medicamentos deitados para o lixo por estarem fora de prazo poderiam ter salvo vidas se tivessem sido encaminhados para onde há carência deles, a tempo e horas.
Podia continuar, mas não vale a pena. É utópico, eu sei, mas o mundo tem de ser repensado.
Sem qualquer dúvida. O mundo não ficará perfeito, mas tem de ficar muito menos imperfeito.
Aquelas que foram as grandes conquistas, e as grandes ilusões, do século XX parece estarem agora em causa João.
A iamgem é chocante.
Chegámos a isto, mas não por falta de sinais atempados, Pedro.