O COMBATE QUE A UE
PERDEU ESTE ANO
As novas formas de exclusão social são muitas e nem todas estão ainda devidamente avaliadas. Emigração/imigração, injustiça, desemprego, abandono familiar/social e pobreza envergonhada/escondida são apenas algumas. Pairam sobre elas grandes dramas, como a falta de expectativas de vida, a fome, o desânimo e a indiferença, entre outros, que conduzem à marginalidade, ao roubo/crime, ao mercado negro/paralelo e assim por diante.
Neste final de 2010, que a União Europeia declarou como Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social, o que se verifica é o crescimento das novas formas de exclusão social na Europa, além do agravamento das suas formas tradicionais por via da crise financeira, económica e social que afecta o mundo em geral.
Os países emergentes vs. a Europa
Todo o mundo? Talvez não: os países ditos emergentes, como a China, a Índia e o Brasil, têm demonstrado avanços consideráveis, uma vez que estão a aplicar – pela primeira vez, com algum desafogo – métodos de combate à exclusão. Por se tratar de nações que representam uma grande percentagem da população mundial, constituem até faróis de esperança. Só que os problemas da natalidade e do envelhecimento hão-de surgir rapidamente nos países com elevados índices de crescimento, onde as exigências de maior bem-estar já se fazem sentir.
Entretanto, as sociedades ditas mais desenvolvidas, aquelas em que os programas de inclusão social já fazem parte da prática política comum há várias gerações, estão a recuar por falta de meios, para o que concorre também o envelhecimento das suas populações, quer pela indesejável diminuição da natalidade, quer pelo desejável aumento da expectativa de vida.
Portugal segue de mal a pior
O certo é que, ainda antes da crise global, pelo menos um em cada três europeus vivia em situação de pobreza e um em cada dez sofria de pobreza extrema; uma em cada cinco crianças estava em risco de pobreza e uma em cada dez vivia em agregados onde ninguém trabalhava.
É muito provável, para não afirmar que é garantido, que essa realidade europeia tenha sido seriamente agravada, com Portugal muito abaixo da média obtida nos Estados-membros da UE, em vista do cenário de aflição que nos afecta e que projecta um futuro bem negro.
“Estado social” é quase residual
Estamos a falar da UE, a mesma UE que deixa estragar alimentos destinados a ajuda humanitária, depois de passar anos a deitar fora tudo o que não tinha a cor, a dimensão e o peso decididos por uma cambada de burocratas convencidos e pagos a peso de ouro para inventar directivas sem qualquer sentido. Este Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social não fica apenas na História da UE como mais uma infeliz inutilidade: é uma triste ironia que já devia chegar e sobrar para substituirmos sem demoras as lideranças políticas dos últimos tempos.
Mais do que nunca, o chamado “Estado social” requer fórmulas institucionais repensadas de inclusão que comecem a atenuar este flagelo – um quadro em que Portugal continua a ruir inexoravelmente, enquanto as políticas sociais passam a residuais. Toda esta situação dramática corre o risco de conduzir a uma regressão civilizacional. No caso português, acrescente-se o problema da comprovada incompetência dos líderes.



Excelente reflexão, compadre. O estado social resultou de 30 anos ininterruptos de crescimento económico numa Europa que produzia muito, escoava produtos para todo o mundo e mantinha altos índices de natalidade. O choque petrolífero de 1973 foi o primeiro aviso sério de que não era possível manter este figurino inalterado. Infelizmente, os avisos de várias vozes lúcidas não foram escutados em devido tempo. E, como sublinhas, a “comprovada incompetência dos líderes” só desajudou. No caso português isso foi – e é – notório.
Outro enorme problema é esse mesmo, compadre: então como ainda hoje, a incompetência da liderança continua a fazer orelhas moucas aos avisos lúcidos. Nunca mais aprendem, o que só reforça o traço dos incompetentes.