O INE descobriu que a economia portuguesa subiu 0,4 por cento no terceiro trimestre do ano e explicou, feliz, que foi por via do «aumento expressivo das exportações». Essa felicidade é ainda maior porquanto a previsão oscilava entre uma contracção de 0,5 por cento e um crescimento de 0,3 por cento, afinal “expressivamente” ultrapassada em 0,1 por cento (pelas minhas contas).
Acontece que eu não tinha má impressão sobre o INE. Mas agora, com esta surpreendente tendência para adjectivar os números e empolar as insignificâncias, fico com a ideia de que o INE está a meio caminho de se tornar mais um “expressivo” porta-voz do primeiro-ministro.
Nada disto é novo. Com Vítor Constâncio, o distanciamento objectivo do Banco de Portugal perdeu-se frequentemente em exercícios de apoio ao Governo. Pelos vistos, fez escola: o INE parece interessado em ser outro eco do discurso governamental.

Eu por acaso tinha lido que se previa estagnação. Depois de ler isto:
http://economiafinancas.com/2010/11/pib-c resce-surpreendentemente-15-no-3%c2%ba-t rimestre-em-termos-homologos/
e aliás isto:
http://economiafinancas.com/2010/11/expo rtacoes-mantem-se-firmes-importacoes-des aceleram-significativamente/
especialmente este bocado:
“…as exportações aumentaram 14,6% no trimestre terminado em Setembro face a igual trimestre do ano anterior (haviam crescido 14,9% em termos homólogos no trimestre de Junho a Agosto). As importações que haviam crescido 11,4% em termos homólogos no trimestre Junho-Agosto, registam agora um crescimento bem mais modesto: 4,0%”
acho que se justifica alguma…hmm… felicidade não sei, mas talvez…satisfação? 😉
Satisfação? Tudo se passa de modo incipiente, sem estratégia, sem planeamento, sem sustentação. E sem futuro. Acredite. Qualquer 0,001 de qualquer coisa serve para se porem logo em bicos-de-pé. Não há pachorra.
Completamente de acordo.
E o facto do 3º trimestre ser aquele em que o país mais turistas recebe, e mais emprego sazonal cria, não terá dado uma ajudinha?
Ainda vamos ouvir que a crise acabou.
Nem duvide. Para o Manuel Pinho já acabou há anos. Em casa dele, naturalmente.
Será que os mariolas do nosso (des)governo vão dizer, ufanos, que a economia cresceu 33% mais do que as melhores previsões?
No mínimo, é isso que costumam dizer.
Menciona 0.1% quando podia usar com a mesma precisão e legitimidade 0.9% de crescimento acima do esperado [0.4-(-0.5)=0.9].
Depois critica a adjectivação do INE sem que mostre os números que contextualizam (e justificam) essa adjectivação.
Politicamente o João tornou-se numa pessoa azeda, o que lhe tira objectividade, infelizmente.
Pois é: falta-me objectividade, talvez porque não sou um INE. Azedo também, nem preciso de dizer porquê.
Já quanto aos números e adjectivação, eles estão aí em cima e são do INE (fiz o ‘link’ da notícia, como deve ter reparado). Mas resta-me uma coisa que aliás V. refere sem lhe dar importância: o direito à crítica. E à indignação que me azeda.
O João “linka” ao que entender, claro. Mas eu, pessoalmente, acharia preferível “linkar” directamente à notícia do INE, que aliás está aqui:
http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=83099207&DESTAQUESmodo=2
principalmente porque lhes critica a adjectivação. Que lá está, é um facto, mas tão perdida no meio dos números e dum texto tão neutro que tive que ler duas vezes para a encontrar (uma vez, e perfaitamente justificada).
Não estará a sua irritação com os jornais em que “eles” se põem em bicos de pés a afectar o seu juízo sobre o INE e os seus números?
E isso de lhe chamar insignificâncias… O Eurostat é muito útil para para se ter uma visão de conjunto:
http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/I TY_PUBLIC/2-12112010-BP/EN/2-12112010-BP-E N.PDF
Pode dizer que não chega para sairmos do buraco (concordo), pode dizer que foi um golpe de sorte (duvido), que outros fazem muito melhor (é um facto; outros pior, outro facto), que esperem-lhe pela pancada (sem dúvida), mas insignificância propriamente não me parece.
Acho que há suficientes críticas justíssimas a fazer a este governo, e em particular ao vendedor de banha da cobra que o chefia, para ser preciso criticar coisas que deviam antes ser aplaudidas. O facto de um mentiroso embandeirar em arco com elas não as transforma em mentiras nem em insignificâncias…
E já agora:
“Tudo se passa de modo incipiente, sem estratégia, sem planeamento, sem sustentação. E sem futuro. Acredite”
Não, por acaso não acredito 🙂
Se se der ao trabalho de ver as estatísticas sobre o perfil das nossas exportações ao longo do tempo, por exemplo, talvez chegue como eu à conclusão de que se calhar até houve estratégia e planeamento. Houve também seguramente um imenso desperdício (por corrupção ou mera incompetência), e se calhar muito foi feito com dinheiro que não tínhamos e que vamos ter de pagar agora com língua de palmo. Mas não foi por acaso.
Ainda falando do INE, eles fazem de há 3 ou 4 anos a esta parte uma publicação muito interessante em parceria com o INE espanhol, com estatísticas comparadas (e comparáveis). Foi, como se costuma dizer, um “eye-opener”. Mas os espanhóis dançam o flamenco e nós cantamos o fado…
Está no site do INE em português e espanhol, leia e depois diga-me o que acha 😉
Como disse antes, eu tinha boa impressão do INE. A adjectivação é que vejo como um suicídio injustificável. O mau jornalismo também existe, contudo. Espero sinceramente conservar a ideia positiva que tinha sobre o INE.
Já quanto a estratégias e essas coisas todas, nem pouco mais ou menos: um dia eram as tecnologias avançadas, outro eram os serviços especializados, depois já eram as energias alternativas, a seguir eram as tecnologias outra vez, mais adiante eram os produtos turísticos, depois eram os transportes transeuropeus, etc. Não há mercado que resista e aquilo que ainda mexeu foi a iniciativa privada por sua conta e risco e ignorando completamente o discurso oficial.
Além da corrupção, do desperdício, da justiça ineficaz e por aí fora, esse discurso oficial foi sempre um espelho da imensa incompetência política. E foi precisamente o nosso tecido empresarial que sempre se queixou, com inteira razão, da falta de estratégia nacional e da incompetência.
Eu, como acredito mais nas manchas de óleo que nos planos quinquenais…
De qualquer modo, vamos todos pagar para ver 😉
Isso sim, sem dúvida.
João tenho que discordar consigo, uma subida é sempre uma subida (não há volta a dar).
Concordo que não se deve empolar nada, mas confesso com toda a sinceridade, foi com satisfação e agrado que registei uma ” coizita ” boa nesta semana negra, foi uma brisa ou um raiozito de sol, nas notícias infernais que nos caem em cima de meia em meia hora…
eu entendo que não dá para nada, mas imagine um miolito de pão para um esfomeado? 3 golitos de água para um sedento? deve contar alguma coisa não?
ou quem sabe, seja apenas uma ideia romântica minha…
um fim de semana (sem alerta amarelo)…eh eh eh
Entendo o que quer dizer, mas deixe-me sugerir-lhe que leia o meu comentário acima do seu. As raras notícias sobre o miolito e a gotinha de água tornam-nos cada vez menos exigentes: julgamos ver logo um bolo-rei e um garrafão de champanhe.
Bom fim-de-semana para si também. Sem alertas mais amarelos do que os inevitáveis…
Por que motivo cortou o comentário em que eu discordava de se escrever “tenho que discordar consigo”?
Olhe, não só, no caso, não se deve escrever “tenho que”, mas sim “tenho de”, como é evidente que se discorda de e se concorda com…
Ou não concorda comigo?
Como vê, não cortei nem teria motivo para cortar. Apenas acontece que ontem tive de andar afastado daqui.
“tenho que discordar consigo”
Eheheheheh!!!
Concorda-se com e discorda-se de.
Entendeu ou quer um desenho?
Faça o favor de ser um cavalheiro quando se dirige a uma senhora, A-Pau. E temos de ser justos: “ter que” não chega a ser um erro, mas sim um francesismo muito comum.
Eu sabia lá que era uma senhora…
Sendo assim, beijo-lhe a mão (a ela, claro…).
Só lhe fica bem. O que lhe fica mal é pensar que eu teria cortado um comentário seu. Mau-mau. Desta vez ainda passa…
Epá João o que para aqui vai, á conta do meu ” tenho que discordar consigo…”
sorry, sorry…
Na verdade não me sinto uma pessoa perfeita, pelo que pode acontecer, escrever com algum erro de que não me dê conta.
Peço desculpa aos eruditos frequentadores deste bloggue, neste caso ao Apau, mas olhe acontece…
Gostei do seu ar de cavalheiro, coisa já em extinção.
;o)
Pode contar comigo, já sabe. Especialmente quando não estiver por perto e eu estiver.
;o)
João, deu um tiro no pé. O aumento das exportações terá sido certamente expressivo. O que não significa que o crescimento do PIB o tenha sido. As exportações, recordo, são apenas uma das componentes do PIB.
Há muito por onde criticar a independência do INE. Mas não neste caso.
Já agora, penso que esta é a primeira vez que vejo alguém apontar o dedo ao Governo por falta de intervenção e planeamento…
Sou tentado a dizer-lhe que tenho uma característica invulgar: um pé com costas largas, veja lá. Entendo o que diz e até vou mais longe, como já expliquei acima: espero não ter motivo para mudar a opinião genericamente favorável que dispenso ao INE.
Quanto à falta de planeamento estratégico, não me parece que seja novidade apontá-la. Mas fica-se sem saber se V. tem alguma opinião sobre isso ou se apenas veio aqui (o que é legítimo e respeitável) manifestar a sua posição sobre o INE e as exportações.
Diria mesmo expressivo, João.
Realmente….expressivo.
Uma espécie de inexpressão expressiva, Pedro.