Olhem que não, olhem que não


Pedro Correia,

 

Como na altura assinalei, o discurso apaziguador de Manuela Ferreira Leite no recente debate do orçamento serviu de mote àqueles que querem apear José Sócrates sem abrirem caminho a Passos Coelho. O primeiro-ministro elogiou o discurso de Ferreira Leite, não percebendo que o futuro bloco central que muitos pretendem, no PS e no PSD, não o inclui a ele. Pacheco Pereira, ainda confinado ao papel de intérprete da ex-ministra das Finanças, deixou tudo mais claro na emissão de ontem da Quadratura do Círculo. “É necessário encontrar uma solução de estabilidade política até às próximas eleições para que as medidas do orçamento sejam aplicadas”, declarou este antigo combatente contra o bloco central, recém-convertido aos consensos do centrão, a pretexto da “emergência” financeira.

Claro que essas eleições devem decorrer o mais tarde possível, sustenta Pacheco, com idêntica clareza: “É um crime, nesta altura, estar a pensar em eleições.” Até porque “o País precisa de um certo abaixamento da conflitualidade política.”

Invoca-se, para o efeito, o “interesse nacional”. Mas o que está em causa é despejar Sócrates impedindo em simultâneo que Pedro Passos Coelho ascenda à chefia do Governo. Em óbvia sintonia com o Presidente da República, outro antigo combatente da guerra ao bloco central que hoje sonha ver transportado para Portugal o governo de ‘grande coligação’ existente na Áustria, a que daria a sua bênção iluminada e providencial. Sem Sócrates e também sem Passos.

Quadratura do círculo? Olhem que não, olhem que não.

21 comentários em “Olhem que não, olhem que não”

  1. Pacheco Pereira e demais nóbeis querem a todo o custo antecipar a presença de Ferreira Leite em futuras novas governanças (ou melhor, projectos de governação). Pessoalmente, só voltarei a votar no PSD, com Passos Coelho à frente, sem todos aqueles políticos que fizeram parte dos últimos executivos, com especial incidência para o de Santana Lopes – Marques Mendes, Paula Teixeira da Cruz etc. –
    Até lá, a minha preferência continua a ser em José Sócrates…

      1. É que a figura central deste executivo – e do anterior –
        é o JS, digamos que ele é uma espécie de segunda via de Cavaco Silva, tendo ido inclusivamente mais além. Olhe que eu não sou socialista…, sou uma eleitora do centro; por isso é que Pacheco Pereira não quer eleições para já – privilegiando a fastigiosa solução do bloco central (sem o JS, está claro!) – tem muito medo desta nova liderança do PSD e é contra a “reforma antecipada”.

  2. Subscrevo tudo o que disse, e confesso que o pântano inerente a uma conjugação das forças do centro, agora às claras, é o inverso da forma como vejo a Democracia, com debate de ideias, com alternativas, com escolhas claras, com opções.
    Mas pergunto-lhe, que soluções alternativas de governo, e principalemnte de governabilidade, que permitam dar um rumo ao país, é que poderemos ter pela frente?

    1. Solução? Nada de ‘uniões nacionais’. Tivemos disso durante meio século. A solução óbvia em democracia: se um governo minoritário não funciona, sobretudo em época de crise, e se este PM é incapaz de conseguir uma solução parlamentar estável, devolva-se a palavra aos eleitores assim que for possível de acordo com os inadmissíveis prazos constitucionais ainda em vigor.

      1. Muito bem, concordo… em teoria…
        Que cenários poderão surgir das eleições?:
        Quer ganhe o PS (com ou sem Sócrates), quer ganhe o PSD de Passos Coelho, tudo aponta para que seja em maioria relativa. Claro que antes do voto contado, não o podemos garantir, mas os responsáveis políticos não podem deixar de ponderar todos os cenários.
        Neste contexto, o que é que podemos esperar no que diz respeito a “governabilidade”? Mais do que temos tido no último ano? Ou, no caso do PSD vencer, uma possível coligação com o PP de Portas (isto se somados o possibilitar)?
        Para além disso, tudo aponta para que, fruto da mais do que compreensível insatisfação geral, os partidos das pontas cresçam mais um pouco. Ora, naturalmente, isto tirará uma pouco mais de legitimidade social a qualquer solução governativa minoritária.
        Portanto, a não ser que por algum assombro inexplicável Passos Coelho surja aos olhos dos portugueses como mais um D. Sebastião e “arranque” uma Maioria Absoluta para o PSD, os próximos episódios da governaçãõ assemelhar-se-ão a um novelo muito complexo de se desenrolar.
        Em sintese, em teoria estou plenamente de acordo consigo (aliás, consta que a Angela da Alemanha também apelou aos nossos homens de Estado para que assim fosse), mas, na situação em concreto, não estou a ver que solução governativa para uma legislatura possa sair daí… e penso que não estou eu, não está o Presidente e não estará o país inteiro…

        1. Meu caro, assentemos neste princípio geral: em democracia, é inaceitável que um partido chegue ao poder sem ter sido sufragado. Isto aplica-se, naturalmente, aos dois maiores partidos do sistema, PS e PSD. O PSD só pode e sobretudo só deve chegar ao poder se vencer as eleições. Qualquer outra solução seria fraudulenta.

          1. Desculpe, mas não posso estar mais em desacordo. Se levar esse argumento ao limite, nunca nenhum partido que não seja o mais votado poderia chegar a um Governo de coligação, por falta de legitimidade.
            Do ponto de vista democratico e constitucional existe hoje a mesma legitimade para um governo de bloco central como havia, há um ano, um de coligação com o CDS ou com qualquer um dos outros da Esquerda.
            A visão da Democracia que propõe sugere a sua preferência por um regime muito menos proporcional que o português, talvez mais semelhante ao Inglês ou ao Norte-Americano, onde quem ganha, nem que seja por 1 voto, tem a total obrigação e dever de governar.
            Se assumir isto, então é concordo plenamente consigo…

          2. Essa agora, Pedro Ulrich! Então o PS faz campanha activamente contra o PSD, em momento algum dessa campanha ou do seu programa menciona a hipótese um bloco central, e o PSD faz campanha activa contra o PS, dizendo cobras e lagartos dos socialistas e depois, à revelia do que propuseram aos eleitores, fazem um arranjinho? Isso é a perversão máxima das regras democráticas.

          3. Não respondeu ao essencial: assim sendo, qualquer governo de coligação é ilegítimo e fraudulento, uma vez que apenas um dos partidos venceu as eleições? É isto?… Quer-me bem parecer que não… E, se, por algum motivo, em 2009, Manuela Ferreira Leite tivesse aceite o “convite” de José Sócrates para uma coligação em nome da estabilidade?

  3. O Pedro esquece-se de enfrentar os argumentos de Pacheco Pereira, que me parecem verdadeiros:

    (1) O país precisa de estabilidade política, para que as dificeis decisões que terão que ser tomadas – e postas em prática – não envolvam tanta complicação como o atual orçamento.

    (2) A conflitualidade política e o seu auge em eleições farão tudo menos bem, na situação difícil em que o país está.

    Também não nos explica por que é que algo que já foi feito recentemente na Alemanha, e atualmente na Áustria, não poderá também ser feito em Portugal. Por incompatibilidade cultural?

    1. “Imaturidade”
      Imaturidade ‘cultural’, psicológica, política?
      Bem patente, desde as vésperas do governo Sócrates II.

  4. Invoca-se, para o efeito, o “interesse nacional”.
    Ou
    o “interesse colectivo/consciência colectiva”:
    “O código cósmico” (a física quântica como linguagem da natureza)
    «Se é que existe uma tal consciência colectiva, não faço a menor ideia de como comprovar a sua existência. Aqueles que apelam para uma consciência colectiva como «a vontade do povo» fazem-no geralmente para servir os seus interesses ou as suas opiniões políticas ou sociais»
    Heinz R. Pagels, Gradiva (Lisboa)

  5. O mesmo programa onde se defendia uma coligação alargada PS/PSD/CDS, não era Pedro?
    Devia dar um resultadão!
    Que tal juntar também o PCP, os Verdes e o Bloco?
    É o passeio dos alegres!!!

    1. E juntavam-se também Cavaco, Nobre, Defensor e Chico Portanto Lopes. Mais o proto-candidato Coelho da Madeira e o inefável Manuel João Vieira. Além de Alegre, claro. Um verdadeiro passeio dos alegres. Rumo a lado nenhum.

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