Vai Hollande fazer o contrário do que prometeu em campanha ou, contra todas as esperanças dos optimistas, estamos mesmo f*****s?
Dúvida
escafandro,
Vai Hollande fazer o contrário do que prometeu em campanha ou, contra todas as esperanças dos optimistas, estamos mesmo f*****s?
Nunca usei outro perfume a não ser o que foi criado para mim a pedido de Guillaume nessa viagem a Paris. Substituiu o Bounce, fala por mim e recorda-me de que existo. Uma das minhas companheiras de apartamento passou vários anos a estudar teologia, arqueologia e astronomia, para perceber quem foi o nosso criador, quem somos, por que motivo existimos. Todas as noites, chegava a casa não com respostas mas com novas questões. Eu nunca me questionei sobre coisa alguma a não ser sobre o momento em que poderia morrer. Deveria ter escolhido esse momento antes da chegada dos meus filhos, pois desde então perdi a opção de morrer. O cheiro acre dos seus cabelos ao sol, o cheiro a transpiração nas suas costas à noite ao acordarem depois de um pesadelo, o cheiro poeirento das suas mãos quando voltam da escola obrigaram-me e obrigam-me a viver, a ficar deslumbrada com a sombra das suas pestanas, comovida com um floco de neve, transtornada com uma lágrima nas suas faces. Os meus filhos deram-me o poder exclusivo de soprar numa ferida para tirar a dor, de perceber palavras não pronunciadas, de ser dona da verdade universal, de ser uma fada. Uma fada apaixonada pelos seus cheiros.
Kim Thúy, Ru.
Edição Alfaguara, tradução de Paula Centeno.
No Dia da Mãe do ano passado, pouco tempo antes de ser convidado a colaborar no Delito, coloquei este excerto no meu blogue. Mas penso que merece uma audiência superior. Tal como o livro.
Num dos separadores da Praça da Galiza, no Porto, aguardando que o semáforo passe a verde, sob chuva a enfraquecer mas vento forte, sem a protecção de qualquer guarda-chuva (o vento também não facilitaria o seu uso), um homem e uma mulher de aproximadamente trinta anos de idade beijam-se enquanto os carros lhes passam à frente e atrás. Quando o semáforo muda, separam as cabeças e avançam, de mãos dadas. Cruzo-me com eles na passadeira. Chegado ao passeio do lado oposto, junto à Escola Secundária Gomes Teixeira, olho para trás. Forçados pelo último semáforo a parar novamente, estão mais uma vez a beijar-se. Sorrio para dentro e penso que a paixão deles (ou, para ser mais exacto, a demonstração desta) funciona como os sistemas stop/start dos automóveis modernos, só que ao contrário: liga-se quando eles param no semáforo, desliga-se quando arrancam. E, claro, o objectivo é tudo menos poupança de energia. Depois apercebo-me de que estas elucubrações servem apenas para evitar a constatação de que existe melancolia (e uma pitada de inveja) misturada no meu divertimento: assim de repente, não me lembro da última vez em que consegui atingir tamanho grau de abandono. Se é que algum dia fui capaz disso.
Gostas muuiiiiito da tua mãe? Então diz-lhe com um presente no Dia da Mãe!
E o coraçãozinho a transformar-se numa carteira. Lindo. Só um mau filho poderá resistir.
Proibir o Banco Central Europeu de financiar directamente os Estados tinha um objectivo: obrigá-los a, como qualquer empresa ou cidadão, fazer contas. Impedir a irresponsabilidade – ou aceitar as consequências. Não resultou. Pelo contrário: endividámo-nos na mesma, a juros mais elevados. Agora muitos recusam admitir o erro. Falam em «ditadura da dívida». Não deixa de ter piada. A dívida nasceu de actos livres. É como se uma família, ao descobrir não ter afinal dinheiro para pagar as prestações da casa, do carro, do colégio dos filhos, do acesso à net e à SportTv, dos iPhones e iPads e iOutrasCoisas acusasse os bancos e a escola e a Zon e a Worten de lhe extorquirem dinheiro indevidamente – e exigisse o pagamento aos vizinhos. Há apenas um ponto em que quem assim fala tem alguma razão: a lógica do sistema fez com que os bancos achassem que podiam ganhar muito dinheiro sem risco – os Estados pagariam sempre. Mas não foram os bancos que lançaram emissão de dívida pública atrás de emissão de dívida pública. Foram os Estados. Os governos, em nome de todos os cidadãos – mesmo daqueles que se opunham ao aumento do endividamento. A solução, agora? Parece que há três (mais as suas combinações): corrigir, cortando severamente nos gastos; convencer os países em melhor situação a assumirem parte das dívidas dos restantes enquanto tal lhes for possível (eurobonds); conseguir que o BCE faça agora o que se procurou evitar que fizesse antes: financiar a irresponsabilidade (algo que, no fundo, já está a fazer, ao emprestar aos bancos para estes continuarem a comprar dívida pública). Cortar gastos não é user friendly, já o sabemos. Arranjar quem nos pague as contas poderia não durar muito – pouca gente gosta de andar a pagar contas alheias, ainda por cima tendo que se endividar para o fazer (a certa altura, pode mesmo acabar-se-lhe o crédito). E, quanto à hipótese de colocar o BCE a imprimir notas frescas e a emprestá-las aos governos a juros simpáticos, convém começar por reconhecer que a desvalorização do euro que previsivelmente se seguiria não ajudaria por aí além a nossa competitividade: apesar de se verificar uma saudável tendência para a diversificação de mercados, setenta por cento das exportações portuguesas ainda vão para a zona euro; uma subida da inflação (um euro mais fraco representaria custos acrescidos em todos os bens e materiais importados) faria diminuir o poder de compra de todos os cidadãos dos países do euro, prejudicando, pelo menos a curto prazo, a fatia maioritária das nossas exportações. Se a inflação não lhes destruísse o crescimento (grande «se»), talvez os países fortemente exportadores – como a Alemanha – ganhassem. Nós, na melhor das hipóteses, apenas mais tarde. Ou antes: nós ganharíamos, de imediato, de outra forma. A do costume: com dinheiro barato a entrar, poderíamos voltar a alargar o cinto durante uns tempos. Semanas, meses, um par de anos. Contudo, até as pessoas que acreditam que a inflação não dispararia (é curioso verificar como a evolução da inflação se tornou numa questão de fé) têm de reconhecer que o BCE não poderia continuar indefinidamente a “salvar” os países em dificuldades orçamentais. Pelo que a pergunta crucial é: acreditamos mesmo (lá continuamos nas questões de fé) que, com o dinheiro do BCE (ou com os eurobonds), conseguiríamos crescer o suficiente para compensar os efeitos negativos das políticas públicas «expansionistas»? A juros ligeiramente mais elevados, é certo, essa foi a via que tentámos em 2008 e 2009 (e escrevo «ligeiramente» porque, até à Primavera de 2010, o diferencial entre a nossa taxa de juro e a alemã manteve-se quase sempre abaixo dos 100 pontos base – ver aqui, no gráfico 7, página 18 –, ou seja, não muito acima da taxa a que seriam transaccionados os eurobonds e cerca de dois por cento acima da taxa directora actual do BCE). Por outras palavras: essa foi a via que nos trouxe onde estamos. Mas talvez sejamos afinal um povo de permanentes optimistas. E, se a coisa corresse mal (precisamos sempre de arranjar uma consolação, não é?), ao menos teríamos a certeza de ver a Alemanha naufragar ao nosso lado.
Hollande: «A economia francesa devia estar a crescer tanto como a alemã. Temos que convencer os alemães de que estão errados.»
Até consegue fazer com que Sarkozy pareça um tipo sensato.
O texto do Arrastão a que o José Gomes André fez referência deixou-me preocupado, a pensar no post que publiquei à hora de almoço (sobre como adquiri vinte e três livros numa única semana de Feira do Livro). Poderia o meu comportamento configurar um caso de consumismo excessivo em época de baixa de preços? Creio que só pode, não é? Coro de vergonha, acreditem. Mas resta-me uma esperança: que, de alguma forma, as pessoas que compram demasiados livros com desconto escapem à classificação de «zombies estúpidos»; que «zombies estúpidos» sejam apenas as que aproveitam promoções para comprar comida e fraldas para os filhos.
No final da década de oitenta e início da de noventa, a Feira do Livro de Coimbra era uma coisa relativamente pequena, organizada na Praça da República. Mais relevante para o que se segue, à época eu era forçado a contar os escudos com uma atenção que nem Scrooge nem o Tio Patinhas desdenhariam: todos os que não iam para comida e outras despesas correntes, tinham de ser divididos entre livros, filmes e discos (é verdade, tirando uma ou outra cassete gravada a partir de discos alheios – ah, a saudosa TDK SA –, a música pagava-se). Assim sendo, creio nunca ter comprado mais do que dois ou três livros numa Feira do Livro de Coimbra.
Em Março de 1996 vim para o Porto. E em Maio estava em Lisboa, numa formação de várias semanas. A Feira do Livro foi no Terreiro do Paço e eu, passe o trocadilho, passei-me. Fui lá quase todas as tardes, maravilhado com tantos expositores, tantos livros, tantas pechinchas. Espantei Mário de Carvalho, em pleno rescaldo do sucesso de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde e Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto, quando, ao estender-lhe para rubricar um exemplar de A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho, lhe coloquei a inteligentíssima pergunta: «É por uma estratégia anti-marketing que escolhe sempre títulos tão compridos para os seus livros?» (Ele tartamudeou que não, que até já tinha escrito um chamado Os Alferes, que é dos títulos mais curtos que se podem arranjar, mas decorrida meia hora ainda se notava que ficara a pensar no assunto.) Fui comprando livros (as pechinchas, caramba) e no final da semana enfrentava um problema logístico: vinte e três livros para transportar no Alfa de Lisboa para o Porto e apenas uma pequena mala, já quase totalmente preenchida com roupa suja, onde o fazer. Foi uma obra de engenharia de precisão de que ainda me orgulho, seleccionar os livros que viajariam na mala, em função do tamanho, peso e potencial para resistirem a danos. Estou até convencido de que é graças a esse esforço – e a um outro de que talvez um dia ainda aqui fale –, realizado naquele acanhado quarto de hotel lisboeta – ouço dizer que há quem realize outro tipo de esforços nos quartos de hotel mas a mim calha-me sempre o de enfiar objectos em malas –, que sou tão bom a empilhar louça num escorredor. E depois lá fui até Santa Apolónia arrastando uma mala estupidamente gorda e pesada e procurando evitar que os três sacos plásticos em que me vira forçado a transportar os restantes livros me fugissem das mãos ou embatessem com demasiada força nas malas das outras pessoas (ou nas próprias pessoas mas nas próprias pessoas é menos grave porque, tirando um ou outro caso de ossos especialmente salientes, o corpo humano possui uma capacidade de amortecimento superior à das malas). Não foi fácil mas tive imenso cuidado e todos os livros chegaram incólumes a casa. Um par de semanas mais tarde realizou-se a Feira do Livro do Porto.
Houve uma vez um homem chamado Johann Friedich Struensee. O início não é este mas podia ser. O verdadeiro início é:
Johann Friedich Struensee foi nomeado médico real do rei dinamarquês Christian VII no dia 5 de Abril de 1768; quatro anos mais tarde foi executado.
Começa, pois, com a eliminação de todas as esperanças. Claro que o relato é histórico (há páginas na Wikipedia sobre as personagens) mas é também pouco conhecido – e o leitor poderia esperar um final feliz. Enquist, escritor sueco nascido em 1934 e – como podemos andar tão distraídos? – quase desconhecido em Portugal, faz questão de esclarecer imediatamente que tal não sucederá.
Ao assumir o trono dinamarquês, Christian VII é um miúdo de dezasseis anos saído de uma educação severa. Está assustado, tem períodos de demência, provavelmente é esquizofrénico. Sente atracção pelas ideias iluministas e chega a corresponder-se com Voltaire, dando esperanças ao francês de que a mudança possa começar naquele pequeno e atrasado país da Escandinávia. Mas Christian é demasiado inconstante e demasiado fraco. Os seus períodos de lucidez são raros. Aceita casar com a prima Caroline Matilda (ou Mathilde, como ficou conhecida na Dinamarca), irmão do rei inglês George III (ou Mad King George). Ela tem quinze anos e um espírito forte. O casamento é uma série de mal-entendidos. Por desinteresse e medo de Christian, só é consumado ao fim de vários meses. Mesmo depois, Christian anda mergulhado numa melancolia feroz. Numa tentativa para que lhe passe, levam-lhe uma prostituta, Anna Catharine Beuthaken, conhecida como Bottine Caterine por ter como padrasto um sapateiro. Christian apaixona-se. Isso é inaceitável e ela é forçada a afastar-se de Copenhaga. Numa tentativa atabalhoada para a encontrar, Christian parte em viagem por vários países europeus. Em Londres tenta assistir a uma representação de Hamlet mas tal é evitado pois seria demasiado arriscado confrontá-lo com um príncipe dinamarquês tombando na loucura (acaba por ver Richard III). Em Paris encontra-se com Diderot mas não com Voltaire. É nesta viagem que Struensee está pela primeira vez ao seu lado. Diderot explica a Struensee que talvez o rei não seja louco mas, se o for, então a doença deixa um vazio no centro do poder. Quem quer que ali entre tem uma oportunidade maravilhosa. Struensee sabe que as palavras lhe são dirigidas. Que é ele quem pode «entrar».
Médico, iluminista, viera para ser o médico do rei. Acaba a controlá-lo. Torna-se seu primeiro conselheiro. Redige decreto após decreto que o rei assina quase sempre sem ler. Envolve-se com a rainha. São dois seres inteligentes e fortes, perdidos numa corte hostil. As cenas de sexo são – bom, nos livros as cenas sexo são sempre ridículas, não é verdade?
Ele deixou-se ficar imóvel dentro dela, esperando pelo bater da sua pulsação.
Pouco a pouco começara a perceber que o prazer mais intenso era encontrado quando esperava pelo bater da pulsação nas profundezas dela, quando as membranas de ambos respiravam e se moviam ao mesmo tempo, suaves, pulsantes. Era maravilhoso. Ele gostara de aprender a esperar por ela. Ela nunca precisara de dizer nada, ele aprendera isso quase de imediato. Podia ficar deitado quase imóvel, durante muito tempo, com o seu membro profundamente dentro dela, ouvindo as suas membranas, como se os corpos de ambos tivessem desaparecido e apenas permanecessem os sexos. […]
Ele dormira com muitas mulheres, e ela não era a mais bela. Mas nenhuma o ensinara a esperar pelo ritmo das membranas e pelas pulsações mais íntimas do corpo.
Ou talvez não, talvez nem sempre sejam ridículas. Numa entrevista, Enquist garantiu que, ao escrever as cenas de sexo, estava tão bem informado que era como se partilhasse o quarto com eles. Talvez sim, talvez não. O que importa?
Struensee avança mas sabe que está perdido. Avança certo de que o farão parar. É em parte por isso que não avança para a reforma mais importante: a que aboliria a servidão. Legisla a abolição da lei contra o adultério, a abolição da pena de morte para crimes de roubo, a proibição da tortura, a criação de um fundo de protecção para filhos ilegítimos, a redução das pensões supérfluas dos funcionários públicos («supérfluas» está no livro), a transferência das tarifas de Øresund do Tesouro Real para o Estado. Redige e faz o rei assinar centenas de decretos – mas não o mais importante de todos. Ainda assim, sabe que está perdido. Não só por questionar os poderes instituídos mas também porque aqueles que pensa estar a defender não o compreendem. E, na verdade, Struensee age como um déspota – um déspota iluminado mas um déspota. Seria possível de outra forma, vários anos antes da Independência Americana, vinte anos antes da Revolução Francesa?
Guldberg é a quarta personagem principal. Pequeno, pouco atraente, filho de um cangalheiro, julga-se guardião da pureza numa corte atolada em deboche. Imagina relatos históricos começados com a frase “Houve uma vez um homem chamado Guldberg”, ao jeito das sagas islandesas, onde a grandeza de um homem não é avaliada pela sua aparência. Detesta a rainha. Detesta-a particularmente desde o dia em que ela, casada mas ainda à espera da visita do marido, dando crédito a um rumor antigo segundo o qual Guldberg fora castrado em criança, o questionou sobre como era viver sem desejos. O rumor é falso. Perante a jovem rainha de ombros nus e «seios quase expostos», Guldberg sente-se humilhado. Ela julga-o um ser incompleto. Guldberg não lhe perdoará. Nem a Struensee, que ela aceita na cama. E que condena, ao fazê-lo. Porque é mais fácil eliminar Struensee por manter relações sexuais com a rainha do que por causa das reformas políticas. A História é quase sempre o resultado de lutas menores – pelo poder individual, pela paixão, pelo prazer da vingança, pela vaidade. Guldberg sabe-o. Enquist também. É por isso que este livro, sendo um romance histórico, é acima de tudo um romance. Centrado nestas quatro pessoas. Tudo o resto vem por acréscimo. Um romance em que o conhecimento da maioria dos factos (repito-o: estão disponíveis na net e Enquist não os esconde logo de início) em nada diminui o prazer que se obtém ao lê-lo.
Pensei em terminar com uma piada, escrevendo que, duzentos anos depois de Shakespeare escrever Hamlet, algo continuava podre no reino da Dinamarca. Mas seria patético, uma forçada tentativa de humor. Parece-me mais significativo mencionar algo que Enquist refere cedo: que ainda hoje, duzentos e quarenta anos decorridos sobre os acontecimentos, não existe nenhum monumento dedicado a Struensee na Dinamarca.
Per Olov Enquist, A Visita do Médico Real. Edição Ahab (em português pré-AO), tradução de Mário Semião e Maria João Freire de Andrade.
O 25 de Abril também permitiu a liberdade de não ter que se estar onde não se deseja estar.
A primeira vez no deserto foi uma epifania. Não me interpretem mal. Só o conhecia do cinema e dos livros e humildemente admito sempre o ter encarado com prudente relutância.
“O deserto é como o esqueleto do ser, frugal, rarificado, austero, absolutamente bom para nada.” (1)
Tinha apontado religiosamente esta frase no bloco de notas antes de mergulhar no inevitável. “Absolutamente bom para nada”, pois. Mas há sempre uma primeira vez e devo confessar que tive sorte, muita sorte. Não é por acaso que as associações entre as areias e os mares são recorrentes. No “mar” de areia, o oásis é uma “ilha” e foi por aí mesmo que comecei. Pelo fragmento de deserto que é o seu contrário, o que não foi feito pela mãe Natureza mas pelo esforço dos homens. Habituámo-nos, todos, a imaginar os oásis como pequenos lagos arredondados protegidos por palmeiras. Devem existir oásis assim, mas não conheço nenhum. O da minha primeira vez foi uma preguiça estendida ao longo de trezentos quilómetros, entre maciços montanhosos. Nem redondo nem palmar. Apenas deslumbrante. Permitam, então, que vos conte.
Partimos de Aden, no Sul do Iémen, em dois Toyotas. Rumámos na direcção do Oriente. A estrada comportava-se bem, seguindo paralela à costa, até começar a desaparecer diante dos nossos olhos, submersa por ventos de areia que insistiam em mergulhar no Índico. Perto de um porto abandonado, imitámo-las. Creio que o fizemos como viemos ao mundo, ante o olhar complacente e distraído de uns quantos camelos. Refrescados, retomámos a rota, agora para Nordeste, em direcção das montanhas. Os jipes subiram durante uma boa hora. Tínhamos a estrada e a paisagem só para nós, quando um deles começou a ficar, a pouco e pouco, para trás. Naquela montanha careca e pedregosa, sem vivalma, o atrasado quase não subia e o dianteiro prometia vertigens na descida, o que viria a acontecer quando os seus travões se decidiram por uma greve de zelo. Lembrei-me logo de outra frase de bolso, que parecia feita de encomenda para a situação:
“Na cidade, a aventura é um evento excepcional num cenário normal; no deserto, é um acontecimento normal num fundo excepcional.” (2)
Numa curva larga da ascensão, o condutor da frente encostou e decidiu esperar pelos atrasados. Enquanto não chegavam, abriu a sua porta, desceu pela encosta umas dezenas de metros, procurou uma pedra lisa e em cima dela colocou uma lata de Coca-Cola. Depois regressou ao jipe e dele retirou a sua kalaschnikov e ainda uma pistola de fabrico soviético que guardava no porta-luvas. Acto contínuo, entregou-ma. Será que quer um duelo ao sol? Cogitei comigo mesmo. Não, apenas queria divertir-se à nossa custa. Em rigor, à minha custa. Tinha acabado de lhe colocar umas questões incómodas sobre a poligamia entre os árabes e agora era a sua vez.
Num lugar de nenhures, um tipo não se arma em pacifista. Oferece o peito ao destino, respira fundo e pede secretamente ao Altíssimo que o ajude. Ele deve ter-me inspirado porque ao primeiro tiro a lata voou com graça pelo ar. Inchado, passeei ao vento a minha altivez, tomada de empréstimo a Peter O’Toole em Lawrence da Arábia. Os árabes da expedição devem ter apreciado o estilo porque, a partir daí, me trataram como um senhor. Estava apto a entrar no deserto e a enfrentar o desconhecido.
Miguel Portas, in Périplo, páginas 67 e 68; Almedina, 2009.
(1) Edward Abbey, in Désert Solitaire, 1968, citado em Désirs de Desert; Autrement, hors série, 2000.
(2) Alain Laurent, in Désirs de Desert, pág. 22; Autrement, 2000.
Os sorrisos falsos provocam muito mais dores nos músculos faciais do que os verdadeiros.
1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS
10
FRAGMENTOS DE HISTÓRIA
– Entre, por favor. Sente-se.
João Cosme puxou uma cadeira para a inspectora enquanto Eduardo continuava a tentar lembrar-se de onde é que a conhecia. Acabou por decidir que tinha de ser da televisão. Devia lembrar-lhe Catarina Furtado naquela série policial da RTP.
– A que devemos a sua presença? – perguntou. Estava satisfeito por ter chegado a uma conclusão e ligeiramente excitado pela descoberta de que também na vida real há mulheres-polícia atraentes.
Helena Portas ignorou a cadeira e olhou em volta, avaliando o grupo.
– Moram todos aqui? – perguntou.
– Não – respondeu o professor José Augusto. – Nem eu nem a menina Stella aqui residimos.
A inspectora pareceu hesitar. Eduardo insistiu:
– A que devemos a visita da Judiciária?
– Estamos a investigar um assassínio.
No silêncio que se seguiu, o ruído de Valerya pousando a cafeteira sobre o fogão pareceu excessivo.
– Quem é que foi morto? – perguntou Eduardo.
Mas Helena Portas observava as costas de Valerya. Quando falou, fez à pergunta de Eduardo o que fizera à cadeira de João Cosme – ignorou-a.
– Segundo creio, várias das pessoas aqui presentes têm ligações à propriedade conhecida por Os Freixos, não é verdade? Algumas até lá moravam na altura em que foi destruída por um incêndio…
O olhar de João Cosme cruzou-se com o de Eduardo. Perguntou, brusco: – E o que é que isso tem a ver com o assassinato? Descobriram lá algum cadáver? Toda a gente sabe que na altura…
– Toma café, senhora inspectora? – perguntou Valerya.
A intervenção pareceu sobressaltar Helena Portas. – Não, obrigada. – Voltou a prestar atenção a João Cosme: – Dizia…
Mas Stella antecipou-se a Cosme:
– Senhora inspectora, eu não tenho nada a ver com este assunto. Posso ir-me embora?
– Deixe-se estar. Talvez ainda possa ajudar.
– Não, eu…
– Deixe-se estar.
Stella fez beicinho mas remeteu-se ao silêncio. De súbito, a inspectora reparou no livro, pousado em cima da mesa.
– Posso? – Sem esperar resposta, pegou-lhe e abriu-o. Houve um lampejo de reconhecimento nos seus olhos. – De quem é este livro?
– Apareceu cá em casa – explicou João Cosme. – O professor diz que deve ter pertencido a Calouste Gulbenkian.
– Não sabem quem o trouxe?
– Não – respondeu Cosme, enquanto Valerya se voltava de novo para o fogão.
Helena Portas mordeu o lábio inferior, levando Eduardo a pensar que talvez não fosse por causa das parecenças com Catarina Furtado que ele julgava conhecê-la.
– Como deverão saber, Calouste Gulbenkian era arménio. Já ouviram falar no genocídio arménio, ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial?
Só o professor José Augusto reagiu de forma clara:
– Com certeza. Mas o que é isso tem a ver connosco?
– Talvez nada. Mas o corpo que descobrimos… enfim, parece ser estrangeiro. E há histórias dessa época muito interessantes. Por exemplo, sabiam que quando Ataturk subiu ao poder na Turquia, em 1922, o último sultão do império otomano, Mehmet Sexto, fugiu para Malta levando com ele uma rapariga de dezoito anos? Ele já tinha mais de sessenta. Fê-lo contra a vontade dela, contra a vontade do pai dela, que fora jardineiro no palácio, e contra a vontade do noivo dela, um capitão da marinha.
João Cosme estava impaciente. Repetiu a pergunta do professor:
– Mas o que é que isso tem a ver connosco?
Helena Portas esboçou um sorriso.
– Nada, certamente. É apenas uma história curiosa. – Voltou a baixar os olhos para o livro. – Como curiosa é esta data: 1942.
– Porquê? – admirou-se o professor José Augusto. – Foi o ano em que Gulbenkian chegou a Portugal.
– É verdade. Em que alegadamente ficou doente e teve de permanecer cá mais tempo do que o previsto.
– Alegadamente? – estranhou Eduardo.
Helena Portas ignorou-o.
– Não é tanto a data em si que é curiosa mas o facto de estar neste livro. A primeira edição de Wise Blood ocorreu na década de cinquenta. – Rodou, ficando de frente para as costas de Valerya. – Diga-me uma coisa, por favor: em que ano nasceu?
(Este é o décimo capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Gomes André.)
Por questões de justiça e equidade, leis exigem progressões de carreira e aumentos salariais no sector público, independentemente da evolução da economia.
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A economia não cresce o suficiente e as receitas do Estado deixam de cobrir as despesas.
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O Estado aumenta impostos e taxas.
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A economia definha; empresas fecham e o desemprego aumenta.
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No limiar da bancarrota, o Estado corta salários aos seus funcionários.
Vivam as boas intenções.
Para proteger os mais fracos, leis proíbem o aumento de rendas e dificultam o despejo de inquilinos.
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Sem rentabilidade, os senhorios deixam de fazer obras nos prédios.
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Os prédios degradam-se.
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Os mais fracos vivem cada vez em piores condições.
Vivam as boas intenções.
Porque os direitos adquiridos devem ser intocáveis numa sociedade que se respeita, leis proíbem cortes nas pensões.
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Factores como o aumento do desemprego e da esperança média de vida desequilibram as contas do sistema de segurança social.
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O Estado sobe a idade da reforma e corta radicalmente nas pensões dos futuros beneficiários.
Vivam as boas intenções.
Sendo pouco todo o cuidado quando se trata dos direitos dos cidadãos, leis garantem mil e uma salvaguardas no sistema de Justiça.
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A complexidade torna-se gigantesca e a resolução dos processos demora eternidades.
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O sistema acaba dominado por quem tem dinheiro para contratar advogados que aprenderam a usá-lo a seu favor.
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O cidadão comum treme perante a hipótese de se ver envolvido num processo e desiste de tentar ver reconhecidos direitos que, em teoria, possui.
Vivam as boas intenções.
E por aí fora, da educação aos «estímulos» à economia. Nota final: que uma das leis em causa seja a Constituição só torna praticamente impossível efectuar correcções de trajecto.