Semáforos


escafandro,

Num dos separadores da Praça da Galiza, no Porto, aguardando que o semáforo passe a verde, sob chuva a enfraquecer mas vento forte, sem a protecção de qualquer guarda-chuva (o vento também não facilitaria o seu uso), um homem e uma mulher de aproximadamente trinta anos de idade beijam-se enquanto os carros lhes passam à frente e atrás. Quando o semáforo muda, separam as cabeças e avançam, de mãos dadas. Cruzo-me com eles na passadeira. Chegado ao passeio do lado oposto, junto à Escola Secundária Gomes Teixeira, olho para trás. Forçados pelo último semáforo a parar novamente, estão mais uma vez a beijar-se. Sorrio para dentro e penso que a paixão deles (ou, para ser mais exacto, a demonstração desta) funciona como os sistemas stop/start dos automóveis modernos, só que ao contrário: liga-se quando eles param no semáforo, desliga-se quando arrancam. E, claro, o objectivo é tudo menos poupança de energia. Depois apercebo-me de que estas elucubrações servem apenas para evitar a constatação de que existe melancolia (e uma pitada de inveja) misturada no meu divertimento: assim de repente, não me lembro da última vez em que consegui atingir tamanho grau de abandono. Se é que algum dia fui capaz disso.

5 comentários em “Semáforos”

    1. Obrigado, miminhoscruzados. Mas, quanto aos semáforos, é melhor não ver neles muito mais do que o habitual, até porque é preciso cuidado com o trânsito. Aliás, já lá aconteceu carros derrubarem semáforos – o que talvez desse para mais umas quantas considerações mas por hoje basta-me.

      1. Claro que sim, nem que seja a dos próprios. Como diz o meu amigo Sabina, que sabe do assunto: “El amor, quando no muere, mata. Los amores que matan, nunca mueren”.

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