Perder a opção de morrer


escafandro,

Nunca usei outro perfume a não ser o que foi criado para mim a pedido de Guillaume nessa viagem a Paris. Substituiu o Bounce, fala por mim e recorda-me de que existo. Uma das minhas companheiras de apartamento passou vários anos a estudar teologia, arqueologia e astronomia, para perceber quem foi o nosso criador, quem somos, por que motivo existimos. Todas as noites, chegava a casa não com respostas mas com novas questões. Eu nunca me questionei sobre coisa alguma a não ser sobre o momento em que poderia morrer. Deveria ter escolhido esse momento antes da chegada dos meus filhos, pois desde então perdi a opção de morrer. O cheiro acre dos seus cabelos ao sol, o cheiro a transpiração nas suas costas à noite ao acordarem depois de um pesadelo, o cheiro poeirento das suas mãos quando voltam da escola obrigaram-me e obrigam-me a viver, a ficar deslumbrada com a sombra das suas pestanas, comovida com um floco de neve, transtornada com uma lágrima nas suas faces. Os meus filhos deram-me o poder exclusivo de soprar numa ferida para tirar a dor, de perceber palavras não pronunciadas, de ser dona da verdade universal, de ser uma fada. Uma fada apaixonada pelos seus cheiros.

Kim Thúy, Ru.

Edição Alfaguara, tradução de Paula Centeno.

 

No Dia da Mãe do ano passado, pouco tempo antes de ser convidado a colaborar no Delito, coloquei este excerto no meu blogue. Mas penso que merece uma audiência superior. Tal como o livro.

4 comentários em “Perder a opção de morrer”

  1. A avaliar por este parágrafo belíssimo, merece mesmo.
    Vou procurar o livro.

    Ela tem razão: uma mulher tem a consciência plena do seu poder e da sua fragilidade quando é mãe. É uma coisa animal, por isso os cheiros são tão importantes.

  2. Bela escolha! É um poder imenso e que nos muda para sempre. Maior do que nós? Seja como for, mesmo com as dores todas que não deixamos ninguém viver por nós, é um delicioso poder-dever 🙂

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