Sem demagogia nem bluffs, ok?


escafandro,

Quem acha inaceitáveis as políticas de austeridade deste governo – e, em benefício daqueles que de mim tenham construído uma imagem de excessivo masoquismo, esclareço que também não gosto de ficar sem salários – devia apresentar alternativas credíveis (saliento a parte do «credíveis»; eu próprio tenho várias alternativas mas parecem-me quase todas imbuídas de inconstitucionalidade suficiente para causar apoplexias nos juízes do Palácio Ratton – o que, vendo bem as coisas, pode justificar que se tente implementá-las) ou deixar claro encontrar-se disposto a aceitar que, no limite, Portugal saia do euro. Só assim poderá ser levado a sério.

Improvisações para violino e piano preparado


escafandro,

Do álbum Silfra, de Hilary Hahn, uma das melhores jovens violinistas da actualidade, mais conhecida por interpretações de peças de Bach, Mozart e Schönberg do que por experiências destas (em 2007, tocou o Concerto nº 3 de Mozart na comemoração do octogésimo aniversário do Papa Bento XVI), e Hauschka (nome artístico do alemão Volker Bertelmann), pianista especializado em improvisação. No final do primeiro vídeo há um link para um curto making of do mesmo. E aqui pode ser visto um making of do álbum (tem uma certa piada ver bolas de ping pong a saltar nas cordas de um piano).

Os bem-vistos


escafandro,

Há um par de meses assisti a uma reportagem num noticiário da RTP1. Após vários minutos dedicados a alertas sobre como, para muitas corporações de bombeiros, a situação financeira se encontra à beira da insustentabilidade e a outras tantas queixas acerca da falta de apoio governamental, a reportagem terminava com uma tirada em voz off na qual se dizia que estas questões poderiam colocar em causa a acção dos bombeiros no ataque aos incêndios e no socorro às populações durante o Verão que se iniciava. Chamo-lho reportagem por não saber que outra coisa lhe chamar. A jornalista, do tal canal de serviço público, não questionou a informação, muito menos procurou saber se, no todo ou em parte, as dificuldades de algumas corporações de bombeiros não se devem aos seus próprios actos. Se o dinheiro que, apesar de tudo, receberam, não foi gasto em veículos de utilidade discutível (por exemplo: jipes e pick-ups para o «comando», autocarros para transporte de charangas) ou a fornecer emprego a cidadãos locais. Nada disso interessou à jornalista, à RTP1 e, presumo, à maioria dos telespectadores. Os bombeiros são «bons» e não se questionam.

 

Umas semanas antes ouvira, na rádio (já não me recordo se na TSF, se na Antena 1), outra reportagem: Luís Miguel Cintra avisava, em tom escandalizado, que, sem os apoios do Estado, poderia ter de dispensar pessoas ou mesmo fechar a companhia teatral que dirige. Eu, achando embora que as artes devem receber apoio público (algumas desapareceriam sem ele), estando certo de que Luís Miguel Cintra é um grande actor e encenador, fiquei a pensar nas centenas de milhares de pessoas, nos mais diversos sectores de actividade, correndo o mesmo risco de desemprego, sem voz célebre para exigir subsídios aos restantes cidadãos. Terão as pessoas ligadas às artes um direito especial? E tê-lo-ão todas? Ou apenas as que trabalham com Luís Miguel Cintra?

 

Fast forward até ao mês passado e ao rumor de que a Fundação Paula Rego estaria entre as que o governo pretende encerrar (a propósito: para quando os anúncios, Gaspar?). Embora decorresse Agosto e quase toda a gente estivesse esparramada na praia, seguiu-se um par de dias de comoção. Do coro de vozes ultrajadas salientaram-se as de Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, garantindo que nenhuma das três fundações de Cascais seria encerrada (é sempre assim: poupem mas noutro lado) e a de António Capucho, ex-presidente da Câmara de Cascais, apelidando a medida de «selvajaria». Eu confesso que gosto da arte de Paula Rego e que não sei se a fundação em causa deve fechar. Mas sei que algumas fundações devem fechar. Através de subsídios e de isenções fiscais, custam demasiado. O problema é que quase todas, mesmo aquelas que se dedicam a estudos políticos vagos e organização de conferências irrelevantes, parecem ter objectivos dignos dos maiores encómios – e, por conseguinte, fechá-las (ou cortar-lhes os benefícios) surge como uma tremenda maldade. Isto aplica-se às fundações como também a entidades operando no sector social. Há um mês e meio, Luís Naves escrevia no Forte Apache, a propósito das declarações do bispo Torgal Ferreira: Estamos a falar de centenas de milhões de euros por ano, bastando somar os orçamentos das centenas de organismos que se dedicam à actividade social e que são dirigidas por sacerdotes. Muitas destas entidades trabalham no fio da navalha e desempenham um papel relevante na nossa sociedade, mas também há ineficiência, resistência ao controlo do dinheiro dos contribuintes, certamente desperdícios. Era disto que falava Torgal Ferreira, naquele tom indignado e retórico: não mexam no nosso dinheirinho. Bingo. Evidentemente, para além das organizações ligadas à igreja, há milhares de outras. Quase todas na mesma situação. Repletas de gente que custa dinheiro ao erário público e pensa estar a fazer um trabalho meritório (muitas vezes está; resta saber a que preço).

 

Poderia arranjar outros casos (no limite, todos aqueles políticos que gastam dinheiro que não têm em actos que a população aprecia poderiam ser aqui incluídos – a Câmara falida de Luís Filipe Menezes, por exemplo, oferece manuais escolares a todas as crianças do ensino básico residentes no concelho) mas julgo que estes são suficientes. Até porque escrever isto demorou mais do que eu previa e necessito de dez minutos (desde Sócrates, bastam) para ir ao Portal da Empresa criar uma companhia teatral que me garanta rendimentos no futuro.

Podemos consultá-la descansados; a Wikipedia defende a credibilidade do seu conteúdo com unhas e dentes


escafandro,

Philip Roth detectou um erro na entrada da Wikipedia sobre o seu livro A Mancha Humana: na enciclopédia é referido que ele se inspirou na vida de uma determinada pessoa para escrever o livro quando na realidade se inspirou na vida de outra. Pediu a correcção do erro. A Wikipedia respondeu que ele não é uma fonte suficientemente credível e exige corroboração. Tudo numa carta aberta de Roth à Wikipedia.

A diferença


escafandro,

De forma consciente ou inconsciente (provavelmente de ambas, dependendo de quem o faz) encontra-se em marcha uma tentativa para recuperar a imagem de José Sócrates, pretendendo que Passos Coelho está a revelar-se ainda pior. Eu, que escrevi isto em Abril (não, não tenho t-shirts com fotografias de Passos Coelho ou de Vítor Gaspar gravadas na zona do peito), acho que existe uma diferença fundamental: Sócrates teve oportunidade para mudar de rota mas escolheu ignorar todos os alertas; mais corte na despesa, menos aumento de impostos, Passos Coelho, manietado pelos objectivos do memorando, não dispõe de verdadeiras alternativas – como a retórica vazia de António José Seguro bem demonstra. No fundo, fãs de Sócrates e socialistas em geral podem agradecer Passos Coelho ao próprio Sócrates.

Transferência


escafandro,

Os seus pais recordam-lhe uma coisa que uma vez o poeta Gil de Biedma lhe disse no pub Tuset, de Barcelona. Uma relação íntima entre duas pessoas é um instrumento de tortura entre elas, quer sejam pessoas de sexo diferente ou do mesmo. Todo o ser humano tem dentro de si uma certa quantidade de ódio para consigo mesmo, e esse ódio, esse não conseguir aguentar-se a si mesmo, é algo que tem de ser transferido para outra pessoa, e a pessoa que se ama é aquela para quem melhor se pode transferir.

Enrique Vila-Matas, Dublinesca.

Edição Teorema, tradução de Jorge Fallorca. 

Sobre as medidas


escafandro,

Pontos negativos:

– É um aumento de impostos, o que significa açambarcar ainda mais recursos para salvar ineficiências do Estado (que, já o devíamos ter percebido, não tem forma de nos tirar da crise);

– As medidas compensatórias para quem ganha pouco não ficaram claras;

– Não fará descer a taxa de desemprego;

– Apesar de diminuir o desequilíbrio entre o esforço realizado pelos trabalhadores do sector privado e pelos do sector público (muito mais do que se pensa, pois, em média, aqueles ganham menos), com o Tribunal Constitucional (e a Constituição) que temos, a probabilidade de as medidas serem consideradas inconstitucionais é significativa;

– É uma jogada de elevado risco político (permite ao PS descolar do consenso e, se falhar, os portugueses não perdoarão).

 

Pontos positivos:

– É um aumento de impostos bastante mais reduzido do que se esperava;

– Pode ajudar a conter o aumento de desemprego (se a retracção do consumo não se intensificar, agora que os trabalhadores do privado também vão perder rendimento);

– É uma aposta interessante na competitividade externa, cumprindo um desejo de primeira hora do FMI.

 

Globalmente, atendendo aos constrangimentos existentes, trata-se de uma solução razoável. Contudo, o governo precisa de mostrar que está a conseguir reduzir o nível de despesa nos dossiers que a opinião pública encara como simbólicos* ou arrisca-se a ver qualquer réstia de capital de boa vontade que ainda possua esgotar-se definitivamente – para mais tendo o PS decidido mergulhar na hipocrisia ou na ilusão de que faria as coisas de forma muito diferente.

 


* Também nos outros mas, quando medidas nesse sentido saídas dos Ministérios da Saúde, da Educação ou da Segurança Social tendem a ser vistas como insensíveis e injustas, apenas resultados nos temas mais consensuais – rendas das PPP, institutos públicos e fundações, gastos do poder local e das empresas públicas, etc. – podem apresentar efeitos mediáticos positivos.

Matizes de democracia


escafandro,

Não se estranhando em Cavaco Silva, eterno opositor dos referendos, ou em António José Seguro, de quem não recordo qualquer posição sobre o assunto (mas, com excepção da voz sacerdotal, admito ter dificuldade em recordar o que quer que seja que lhe diga respeito, por vezes até a própria aparência física), é curioso como tantas pessoas que, ao longo dos anos, acusaram (bem, na minha opinião) o processo de integração europeia de falta de democracia por, sempre que possível, fugir ao escrutínio popular, estão agora não apenas dispostas a aceitar mas exigindo que o BCE, um organismo liderado por burocratas não eleitos (do calibre de um Vítor Constâncio, no less), tente resolver problemas de origem política à revelia da opinião que parece imperar em vários países.

Dos comentários a uma nova teoria do oásis


escafandro,

Em Dublinesca, de Enrique Vila-Matas, o editor que serve de personagem principal coloca um comentário agressivo no blogue de um barcelonês que não gostou do livro de Paul Auster que levou consigo numa viagem ao Japão. O editor apenas publicou um livro de Auster e não foi aquele (que nem leu) mas, apreciando Auster (sempre irónico, Vila-Matas não nos informa se o editor também aprecia a obra de Auster), sente-se pessoalmente incomodado. Por isso, ataca o blogger na caixa de comentários. Quando termina de o insultar sente-se mais descansado do que nunca. Ultimamente, anda tão susceptível e com a moral tão em baixo, que considera que, se tivesse deixado passar por alto esta injusta opinião sobre o livro de Auster, teria ficado ainda mais deprimido do que estava. (Da edição da Teorema, com tradução de Jorge Fallorca.) Devíamos lembrar-nos disto, ao ler as caixas de comentários de alguns blogues e, em particular, das edições online dos jornais. E depois devíamos ser magnânimos. Afinal, muitas pessoas nem conhecerão aquilo sobre que escrevem. Como o editor, nunca terão lido Brooklyn Follies, o tal livro de Auster. Mas precisam de desabafar. Se não o fizessem, ficariam ainda mais deprimidas. E convenhamos que já andamos todos demasiado deprimidos. Preparava-me assim para terminar este post com «Estejam à vontade: a caixa de comentários é vossa» quando me lembrei de que os comentadores do Delito são inusitadamente ponderados. Se calhar, ao contrário dos dos outros blogues – vá-se lá saber porquê: será o efeito Rui Rocha? –, não andam deprimidos.

Egoísmos e lições inúteis vindas do frio


escafandro,

As causas.

Bancos subprovisionados e, em boa medida devido à existência de incentivos fiscais, concedendo demasiado crédito (a taxa de crescimento atingiu quase 50% em 1988); boom no sector imobiliário; queda nas exportações (em parte resultado da desintegração da União Soviética, em parte de uma moeda excessivamente forte); resistência à implementação de reformas.

 

Os efeitos.

Em 1991, o PIB caiu 6,5% e, entre 1991 e 1993, mais de 10%. Cortes na despesa (dos sectores privado e público) fizeram subir a taxa de desemprego para quase 18%. Os bancos foram salvos pelo governo, o que representou um custo fiscal líquido (isto é, já consideradas as receitas da venda das participações) de 5,3% (em relação ao PIB de 1997). O crédito tornou-se muito mais difícil (em dois anos consecutivos, a queda no montante concedido foi na ordem dos 10%) e, no final da década, após as reprivatizações, o sistema bancário encontrava-se substancialmente alterado: os bancos de poupança haviam desaparecido, dois grandes bancos comerciais tinham-se unido e sessenta por cento das instituições financeiras eram controladas por capital estrangeiro.

 

O local.

A Finlândia, essa terra de gente egoísta que não quer ajudar a pagar as nossas dívidas. De gente que se meteu no buraco sozinha e se extraiu dele sem o nosso dinheiro (o qual, nem se questiona, teríamos tido todo o prazer em emprestar). Que – quão estranho! – parece ter aprendido com os erros.

 

A aprendizagem.

Em 2008, ano do início da crise do subprime, a Finlândia tinha um excedente orçamental de 5,3%. Em 2009, ainda tinha um excedente de 4,3%. Em 2010 e 2011, quando o défice português rondava os 10% (após décadas sem passar para o lado positivo da escala), teve défices de 2,5%. Este ano, deverá apresentar um défice de 0,5%.

Em 2009, a Finlândia tinha uma dívida pública de 33,9% do PIB, a qual subiu para 43,5% em 2010 e para 48,4% em 2011, prevendo-se que fique este ano por valores similares. A nossa era de 71,6% em 2009, de 83,1% em 2010 e aproxima-se alegremente dos 110%.

(Antes que alguém mencione a Nokia, refira-se que, embora o crescimento da empresa tenha ajudado a Finlândia a sair da crise, vão longe os tempos em que ela representava 4% do PIB; hoje não chega a 1%.)

 

Os egoísmos.

Depois de passarem por estas dificuldades (relembre-se: eles sabem o que é uma taxa de desemprego de 18% e uma queda no PIB de 6,5%), tendo compreendido (pelo menos até ver) os benefícios da disciplina orçamental (Portugal encontra-se sob intervenção externa pela terceira vez em pouco mais de três décadas mas muitos portugueses, incluindo quase todos os políticos, continuam a recusá-los), estando conscientes de um grave problema de envelhecimento da população, o qual vai exigir recursos significativos a curto/médio prazo, é assim tão estranho que aos finlandeses não agrade a hipótese de terem de pagar os défices dos países do Sul? Claro que sim. Para gregos, portugueses, espanhóis, italianos, tudo isto é irrelevante. Importa apenas o curto prazo; a circunstância de existirem países com alguma margem orçamental e países à beira da falência onde se deseja evitar a austeridade. Fala-se, pois, em egoísmo – dos primeiros. Por exemplo, fala em egoísmo o Presidente da República Portuguesa, no meio de um apelo ao BCE para que ignore as opiniões dos recalcitrantes e avance para decisões por maioria. Tão fácil, dispor do dinheiro alheio. Mas talvez Cavaco venha a obter mais do que deseja. Talvez um destes dias constate, e todos nós com ele, que a maioria pró-intervenção no BCE se transformou em unanimidade. Acontecerá logo após a Finlândia, a Alemanha, a Holanda, a Áustria, o Luxemburgo – enfim, os «minoritários» – abandonarem o euro. O que, no fundo, constituirá um alívio: quem gosta da companhia de egoístas?

 

(Dados retirados daqui e daqui.)