Egoísmos e lições inúteis vindas do frio


escafandro,

As causas.

Bancos subprovisionados e, em boa medida devido à existência de incentivos fiscais, concedendo demasiado crédito (a taxa de crescimento atingiu quase 50% em 1988); boom no sector imobiliário; queda nas exportações (em parte resultado da desintegração da União Soviética, em parte de uma moeda excessivamente forte); resistência à implementação de reformas.

 

Os efeitos.

Em 1991, o PIB caiu 6,5% e, entre 1991 e 1993, mais de 10%. Cortes na despesa (dos sectores privado e público) fizeram subir a taxa de desemprego para quase 18%. Os bancos foram salvos pelo governo, o que representou um custo fiscal líquido (isto é, já consideradas as receitas da venda das participações) de 5,3% (em relação ao PIB de 1997). O crédito tornou-se muito mais difícil (em dois anos consecutivos, a queda no montante concedido foi na ordem dos 10%) e, no final da década, após as reprivatizações, o sistema bancário encontrava-se substancialmente alterado: os bancos de poupança haviam desaparecido, dois grandes bancos comerciais tinham-se unido e sessenta por cento das instituições financeiras eram controladas por capital estrangeiro.

 

O local.

A Finlândia, essa terra de gente egoísta que não quer ajudar a pagar as nossas dívidas. De gente que se meteu no buraco sozinha e se extraiu dele sem o nosso dinheiro (o qual, nem se questiona, teríamos tido todo o prazer em emprestar). Que – quão estranho! – parece ter aprendido com os erros.

 

A aprendizagem.

Em 2008, ano do início da crise do subprime, a Finlândia tinha um excedente orçamental de 5,3%. Em 2009, ainda tinha um excedente de 4,3%. Em 2010 e 2011, quando o défice português rondava os 10% (após décadas sem passar para o lado positivo da escala), teve défices de 2,5%. Este ano, deverá apresentar um défice de 0,5%.

Em 2009, a Finlândia tinha uma dívida pública de 33,9% do PIB, a qual subiu para 43,5% em 2010 e para 48,4% em 2011, prevendo-se que fique este ano por valores similares. A nossa era de 71,6% em 2009, de 83,1% em 2010 e aproxima-se alegremente dos 110%.

(Antes que alguém mencione a Nokia, refira-se que, embora o crescimento da empresa tenha ajudado a Finlândia a sair da crise, vão longe os tempos em que ela representava 4% do PIB; hoje não chega a 1%.)

 

Os egoísmos.

Depois de passarem por estas dificuldades (relembre-se: eles sabem o que é uma taxa de desemprego de 18% e uma queda no PIB de 6,5%), tendo compreendido (pelo menos até ver) os benefícios da disciplina orçamental (Portugal encontra-se sob intervenção externa pela terceira vez em pouco mais de três décadas mas muitos portugueses, incluindo quase todos os políticos, continuam a recusá-los), estando conscientes de um grave problema de envelhecimento da população, o qual vai exigir recursos significativos a curto/médio prazo, é assim tão estranho que aos finlandeses não agrade a hipótese de terem de pagar os défices dos países do Sul? Claro que sim. Para gregos, portugueses, espanhóis, italianos, tudo isto é irrelevante. Importa apenas o curto prazo; a circunstância de existirem países com alguma margem orçamental e países à beira da falência onde se deseja evitar a austeridade. Fala-se, pois, em egoísmo – dos primeiros. Por exemplo, fala em egoísmo o Presidente da República Portuguesa, no meio de um apelo ao BCE para que ignore as opiniões dos recalcitrantes e avance para decisões por maioria. Tão fácil, dispor do dinheiro alheio. Mas talvez Cavaco venha a obter mais do que deseja. Talvez um destes dias constate, e todos nós com ele, que a maioria pró-intervenção no BCE se transformou em unanimidade. Acontecerá logo após a Finlândia, a Alemanha, a Holanda, a Áustria, o Luxemburgo – enfim, os «minoritários» – abandonarem o euro. O que, no fundo, constituirá um alívio: quem gosta da companhia de egoístas?

 

(Dados retirados daqui e daqui.)

14 comentários em “Egoísmos e lições inúteis vindas do frio”

  1. Mt Bom.
    Provavelmente será preciso bater ainda mais no fundo para que o eleitorado português entenda.

    Como bem escreve JAA , quando: “…enfim, os «minoritários» – abandonarem o euro….” indiferentes aos professorais ensinamentos, e palpites morais, do personagem em apreço.

    Ao contrário do que acontece em Portugal, o eleitorado Alemão até tem o poder deliberativo do voto.

    1. Cavaco é uma tristeza, JS. Uma figura vazia que gosta de se imaginar importante. Alguém que envia recados à distância mas, como se viu no caso da visita à República Checa, fica em silêncio quando confrontado directamente.

      1. A verdade é que toda a classe política dos últimos 30 anos sofre de um mal muito feio: falta de representatividade.

        Os militantes dos dois partidos do poder PS e PSD (cerca 30.000X2 ), escolhem one of us ” -potencial chefe do Executivo- que obviamente representa, depende, desse grupito (como se vê todos os dias).

        Por sua vez essa ínfima parcela de cidadãos/eleitorado cozinha e ocupa uma AR, o poder Legislativo, que obviamente de representação, em relação ao universo eleitoral, não tem nada.

        Cereja em cima do bolo os Presidentes, para serem eleitos e reeleitos … precisam do apoio dos respectivos partidos. Independentes!?. É esticar demais a realidade.

        Com este sistema cria-se/aumenta-se impostos, sem representatividade alguma. Não há fiscalização possível. Muito feio (falando em termos morais) e pernicioso.

        Valha-nos a Troika.

        Embora outros, precedentes, PMs também tenham endividado o País além do plausível, pedir “uma governação de estrangeiros”, sem eufemismos, teria sido a desonrosa profissional, para estes políticos.
        Mas não, sem consequências. Não os envergonha muito, como se vê.

        Até admira que só tenha acontecido com três
        Afinal até estamos com sorte. 🙂

  2. Muito bom, repete-se.

    Na altura, aqui na burgessolândia andava-se de jeep urbano, a troco de subsídio ao kiwi. Era a cavacolândia. Midas e o asfalto.

    Mas aqui, há pouco tempo, os TUGAS andavam a gozar com os finlandeses…até um autarca “chique” veio defender o “clip”.

    Não mudamos muito, só o tempo.

    1. Eh, essa do subsídio ao kiwi é boa (e exacta). Os finlandeses tiveram duas ajudas para sair da crise: o crescimento da economia mundial na segunda metade da década de 90 e a desvalorização da moeda. Mas, se o segundo factor acelerou a recuperação, também ajudou a que a queda do PIB fosse muito superior à que se prevê para Portugal (mas enfim: eu aceitaria que Cavaco defendesse a saída do euro; querer as partes boas sem as más é que me parece demasiado cómodo) e, acima de tudo, souberam manter as contas equilibradas depois disso. Nós tivemos hipóteses de equilibrar o orçamento e nunca o fizemos.

  3. JAA,
    Poderá o amigo dedicar este post ao seu colega de blogue André Couto? Digo isto por que ele, ao eleger a Islândia como modelo, no post que escreveu com o título “Onde param os ‘stores?”, não deve saber a história da Finlândia. Penso eu.

    1. Como já se deve ter apercebido, este é um blogue plural, Tiro ao Alvo. E, naturalmente, eu não me vou meter nas suas discussões com o André.

      (Mas você já sabia que eu não ia responder mais do que isto, não sabia? O importante era deixar o remoque. 😉 )

  4. Agora é Finlândia o bom exemplo.

    Já foi a Irlanda, já foi a Espanha, já foram os USA, já foi a Grã-Bertanha, já foram os tigres asiáticos, tudo muito bem explicado com razões de sobra.

    Não tenho pachorra para exemplos destes.

    1. Sim, essa é uma doença bastante generalizada.

      Os países nórdicos são citados como exemplo há muito tempo, especialmente pela esquerda. Mas nem é tanto a questão de serem ou não exemplos a seguir: é a questão de, sem sequer conhecermos as dificuldades e as decisões difíceis que eles enfrentaram para chegar à situação em que se encontram, bem como os desafios que ainda enfrentam, lhes andarmos exigir dinheiro e de os acusarmos de egoísmo quando, atendendo ao nosso currículo, se mostram recalcitrantes em no-lo enviar. Começando por Cavaco, que, como presidente de Portugal, devia apresentar ideias sobre o que Portugal deve fazer e não andar a chamar egoístas a outros povos.

      1. …mas Sr. . JAA , “eles”, não dão nada, certo ? Eles vendem dinheiro, e a bom preço, ao que consta!
        Além de todos os nossos mal, porque é que Deus (ou quem de direito) nos havia de dar esta mania da autoflagelação ?!
        Também havia Grécia, e a Irlanda, e a Espanha e mais quem…? Porque é que nos andam sempre apontar exemplos? Porque é que não podemos ser “só” portugueses?
        E já agora: “nós” não temos lições para dar a ninguém?Ninguém tem nada aprender connosco ? Já “andamos” por cá há tanto tempo…(as fronteiras mais velhas da Europa, .)? Não devemos ser assim tão maus, uma vez que nos temos conseguido aguentar. Somos como a Mercedes-Benz
        E desculpe, mas isto faz lembrar o “orgulhosamente sós”, de má memória!!

        1. rosa: normalmente, ninguém dá nada a ninguém. Mas aquilo por que muita gente anda a clamar é, basicamente, uma transferência de recursos – se alguns países aceitarem garantir as nossas dívidas (através de eurobonds, por exemplo) ou aceitarem a possibilidade de, por acção do BCE, o euro desvalorizar (ainda mais) e a inflação subir, então, no fundo, estarão a assumir a hipótese de terem de pagar parte do esforço. Para nós, claro, dava jeito – mas que o nosso Presidente os chame egoístas por terem reticências (com a situação actual das contas públicas e o currículo de alguns países do Sul, eu também teria) parece-me quase grotesco.

          Nós podemos ser “só” portugueses. Por exemplo, podemos decidir que não queremos jogar este jogo e sair do euro. Mas, se decidimos jogar, temos que respeitar as posições alheias. Especialmente quando, arranjem-se as desculpas que se arranjarem, foi o Estado português que, ao não conseguir manter défice e dívida sob controlo, deixou de ter acesso a financiamento.

          Finalmente, lamento mas, hoje em dia, não temos grandes lições a dar a quem quer que seja, pelo menos no campo económico-financeiro. Acaba de sair o último relatório sobre a competitividade mundial (veja o link abaixo). Estamos bem classificados em estradas (quarto lugar!) e em segurança. Em tudo o resto, os resultados não são brilhantes. Os finlandeses, que usei como exemplo no post e que cometeram erros parecidos com os nossos na década de noventa, têm – coitados – menos de 800 km de auto-estradas…

          http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=576567

  5. As vezes chego a pensar que não somos capazes de viver numa Democracia livre e que só mesmo uma ditadura com mão pesada para manter isto em cima de eixos.
    Em Portugal não se faz investigação nem planeamento, é tudo feito em cima do joelho e os governos não fogem à regra.
    Lembro-me que uma vez li o resultado de um estudo sobre a capacidade de “desenrasque”, feito a vários povos, salvo erro, apenas europeus. Os portugueses lideravam em primeiro.
    Isto é como todo o artista, sempre chega ao dia em que se f.d todo. Quando isto acontece quase todos pensam: Isso ainda é pouco, tens a mania que és xico esperto, agora mama isso. A pior disto é a moral “tuguesa”, porque segundo esta, quem paga as favas são sempre os mais fracos, porque somos de brandos costumes, dizem.
    Embora já muito coce muito na testa, vai valendo que os cornos ainda não aparecem, se eles aparecessem…

    1. portugues acoriano: percebo a sensação mas não posso endossar a sua primeira frase; as ditaduras geram sempre mais problemas do que aqueles que (eventualmente) resolvem; nenhuma, até hoje, conseguiu providenciar igualdade – e, evidentemente, nenhuma garante liberdade.

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