RTP (2)


escafandro,

1. Ajudada pela restante comunicação social, pouco interessada no aumento da concorrência, e pelo Partido Socialista (já lá vamos), a RTP tem-se esforçado por passar a ideia de que dá lucro. Não dá. A RTP, cuja situação financeira na última década melhorou muito mais à custa de transferências obscenas de dinheiro público do que por mérito próprio (ainda que algum seja de admitir), exige anual e directamente (isto é, sem as transferências do orçamento do Estado) 140 milhões de euros aos contribuintes. Uma empresa que necessita de injecções anuais de dinheiro dos accionistas não dá lucro. Aliás, seguindo esta lógica, seria sempre possível fazer com que a RTP desse lucro: bastaria ir ajustando a taxa do audiovisual na proporção adequada.

 

2. Politicamente, a actuação do governo tem sido desastrosa: hesitante, incoerente, fazendo avançar quem se devia manter em silêncio e recuar quem devia dar a cara; já a actuação do PS tem sido simplesmente vergonhosa: sabemos que as promessas são baratas e que o povo costuma apreciá-las, mas contestar soluções como se os problemas não existissem é a táctica mais básica que um partido pode utilizar. A parte positiva é nem valer a pena perder muito tempo com as intenções de Seguro e companheiros: tão cedo não haverá dinheiro para repor o que quer que seja.

 

3. A RTP é um luxo demasiado caro para um país falido, mesmo no cenário cor-de-rosa (perdão: cor-de-laranja) de «só» lhe custar 140 milhões de euros por ano. Mas, ainda que os portugueses aceitassem continuar a pagá-los para receber parte daquilo que a RTP hoje lhes fornece (e apenas parte, visto o cenário do «equilíbrio» pressupor apenas um canal), o risco de derrapagens futuras, que, seja qual for o modelo escolhido (de concessão a privados ou de empresa pública), o contribuinte acabaria pagando, é demasiado real. Também por isso se torna crucial diminuir o nível de custos.

 

4. A Constituição Portuguesa, esse texto pejado de incongruências que, nas actuais circunstâncias, o PS, necessitado de parecer um partido de esquerda, nunca aceitará rever, obriga a que exista um serviço público televisivo. Fica assim estabelecido um custo para os contribuintes. Resta saber o que é isso de «serviço público», para depois se poder avaliar quanto dinheiro é preciso. Constituirá a informação serviço público quando ela está disponível noutros canais e é cada vez mais obtida por outros meios? E as novelas? Os concursos? Os programas humorísticos? As transmissões de jogos de futebol (e de tudo o que os antecede e das intermináveis análises que se lhes seguem)? Programas de música como o Top Mais? E, permitam-me uma pergunta de algibeira, que canal associariam mais depressa a documentários de qualidade, a RTP1 ou a SIC? No fundo, da programação actual da RTP1, o que não se obtém noutros canais de sinal aberto? O Prós e Contras? OK, salvemos a Fatinha. Constatada esta realidade, torna-se muito mais fácil chegar aos únicos modelos simultaneamente lógicos e que permitem poupar dinheiro aos contribuintes.

 

5. Com esse ou outro nome, a RTP2 permanece um canal público, dedicando-se essencialmente a conteúdos alternativos: filmes antigos e/ou pouco comerciais, teatro (por que desapareceu dos ecrãs?), música, documentários, debates, magazines de divulgação cultural, desporto amador, etc. Talvez um par de espaços informativos por dia mas com imagens que poderiam muito bem ser fornecidas pelos operadores privados (por acordo entre estes, concurso público, whatever). Custando actualmente a RTP2 cerca de 40 milhões de euros, não há razões para o novo canal custar muito mais (até porque, não concorrendo verdadeiramente com os privados, deveria estar livre para recolher algumas receitas publicitárias). Mas, considerando ainda outros custos (por exemplo, a questão da manutenção do arquivo da RTP), admitamos como razoável um orçamento de 60 a 70 milhões de euros. Este valor permitiria não só evitar transferências do orçamento de Estado como reduzir para metade a taxa do audiovisual, o que, para um governo que começou por alardear convicções liberais, devia constituir um incentivo (antes) e um motivo de orgulho (depois).

 

6. Resta a questão da RTP1, para a qual há duas soluções: privatização ou fecho. Pessoalmente, gostaria de ver o mercado funcionar; se o Estado conseguisse uma oferta razoável, excelente (não estamos em tempo de desperdiçar dinheiro). Mas, claro, isso exigiria aceitar a hipótese de um canal televisivo de acesso geral vir a ser controlado por estrangeiros (sejamos directos: por angolanos) e de o mercado publicitário não chegar para todos os players (é assim que se diz, não é?). Como, por cá, preferimos «almofadar» as decisões e não chatear empresários instalados, talvez a melhor opção seja partir desde já para o encerramento. Necessitando o novo canal público de muito menos gente, de muito menos equipamento e de instalações muito mais modestas (boa parte dos conteúdos deveria ser contratada a empresas externas, de modo a permitir ajustar mais facilmente os gastos ao orçamento disponível), as indemnizações aos funcionários da RTP seriam compensadas pela venda do edifício e do equipamento da RTP.

 

 7. Nah, por agora chega.

RTP


escafandro,

A forma interessa-me pouco. De resto, que a hipótese tenha sido avançada por António Borges parece-me mais um modo (tristemente infantil mas também tristemente comum) de a testar do que um verdadeiro anúncio. O conteúdo, esse interessa-me bastante mais. Não sendo contra o princípio da concessão do serviço público, tenho uma dúvida: extinta a RTP 2 (que custa 40 milhões por ano mas, apesar de inúmeras falhas, ainda se percebe ter uma programação alternativa), o que constituiu afinal o serviço público de televisão? Por outras palavras: os portugueses vão entregar os 150 milhões de euros da taxa do audiovisual à Ongoing (perdão: ao consórcio vencedor) para garantir exactamente o quê?

Adulação


escafandro,

O caso de Virgília tinha alguma gravidade mais. Ela era menos escrupulosa que o marido: manifestava claramente as esperanças que trazia no legado, cumulava o parente de todas as cortesias, atenções e afagos que poderiam render, pelo menos, um codicilo. Propriamente, adulava-o; mas eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma cousa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se com a afeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza física dão à ação lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto legítimo. Não importa a idade do adulado; a mulher há de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã, – ou ainda de enfermeira, outro ofício feminil, em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um quid, um fluido, alguma cousa.

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

Será precisamente pela superior garantia de «servilidade» que muitos homens até preferem a adulação de outros homens. Por isso e por tradicionalmente constituir uma demonstração mais evidente de poder. Quanto à adulação feminina, consegue, de facto, ser parecida com afecto: resta saber se por exclusiva responsabilidade das mulheres, se por leituras enviesadas e quase sempre de índole sexual (aliás, muito pouco coadunáveis com a imagem de uma mãe ou de uma irmã) dos homens. Ainda assim, é importante manter presente que vivemos tempos muito diferentes dos de Machado de Assis. Tempos em que as mulheres agem frequentemente de formas muito parecidas com as dos homens e em que os homens dão excelentes enfermeiros.

De que «português» estarão a falar? E who cares?


escafandro,

É impressionante a quantidade de embalagens de filmes e séries apresentando erros ortográficos (sendo que muitas edições são portuguesas, não vêm de Espanha como o exemplo acima). Parece, aliás, que o número tem vindo a aumentar, tal como, sei lá, o dos erros nos rodapés dos noticiários televisivos. A circunstância incomodou-me durante algum tempo, confesso. Depois percebi que, atendendo à nossa indiferença pela língua, que a fácil implantação do Acordo Ortográfico deixou patente (muito embora, no caso daquela gente ansiosa por se sentir progressista, «indiferença» seja a palavra errada; tratou-se antes de um entusiasmo próprio de novos-ricos) e ao efeito potenciador desse mesmo Acordo na existência de diversas variantes aparentemente aceitáveis (as antigas, as novas, as que parecem novas), depressa muitos destes erros deixarão de o ser. Na verdade, com a regra do primado da fonética a ganhar terreno, «navegasão» já nem sequer constitui erro grave; apenaz um atu de vanguardizmu.

Sobre Chesterton


escafandro,

A inclusão de Chesterton na lista do Pedro Correia sobre autores que mereciam o Nobel mas não o obtiveram, e a reacção à frase que ele escolheu para ilustrar o post, fez-me pensar num texto de Jorge Luís Borges intitulado, precisamente, “Sobre Chesterton”. Não é segredo que Chesterton levava o seu catolicismo muito a sério nem que, apesar disso, o temperava com excelentes tiradas humorísticas. Como nos casos de Graham Greene, Evelyn Waugh, Flannery O’Connor e de muitos outros escritores católicos do século XX (o século em que a crença religiosa passou a constituir um anátema para os intelectuais), a relação de Chesterton com a fé não estava isenta de dúvida; era antes uma busca constante por sinais de que ela tinha razão de ser, no pressuposto de que era necessária. No tal texto, incluído em Outras Inquirições, Borges refere como os crimes que o padre Padre Brown investiga parecem, de início, admitir apenas explicações sobrenaturais mas acabam sempre por revelar-se actos de responsabilidade cem por cento humana. Aliás, que o Padre Brown seja padre é já um indício dos dilemas de Chesterton: que melhor ligação entre o mundo humano e o mundo transcendental, entre o crime (ou o pecado) e a capacidade para o deslindar (ou compreender) do que um detective que é padre? Nas investigações do Padre Brown ou até nesse fantástico O Homem Que Era Quinta-Feira, Chesterton parece sempre convocar o extraordinário (não apenas de índole católica; Chesterton sentiu-se atraído pelo oculto e pelo divino muito antes de, em 1922, se converter ao catolicismo – de resto, tanto O Homem que Era Quinta-Feira como muitas histórias do Padre Brown são anteriores à conversão) para, no último instante, recuar, aceitando que o transcendente poucas vezes mostra necessidade de desafiar as convenções humanas. Recorrendo a Kafka e a Bunyan, Borges explica-o melhor do que ninguém na parte final do seu texto:

 

É isso tudo, salvo que a razão a que Chesterton submeteu as suas imaginações não era precisamente a razão, mas sim a fé católica, ou seja, um conjunto de imaginações judaicas submetidas a Platão e Aristóteles.

Recordo duas parábolas que se opõem. A primeira consta no primeiro tomo das obras de Kafka. É a história do homem que pede para ser admitido na lei. O guarda da primeira porta diz-lhe que lá dentro há muitas outras e que não há sala que não esteja custodiada por um guarda, cada um mais forte que o anterior. O homem senta-se a esperar. Passam os dias e os anos e o homem morre. Na agonia pergunta: «Será possível que em todos estes anos que estive à espera ninguém tenha querido entrar senão eu?» O guarda responde-lhe: «Ninguém quis entrar porque só para ti estava destinada esta porta. Agora vou fechá-la.» (Kafka comenta esta parábola, complicando-a ainda mais, no capítulo nove d’O Processo.) A outra parábola está no Pilgrim’s Progress, de Bunyan. A multidão fita cobiçosa um castelo guardado por muitos guerreiros; na porta está um guarda com um livro para escrever o nome daquele que for digno de entrar. Um homem intrépido aproxima-se desse guarda e diz-lhe: «Anote o meu nome, senhor.» A seguir saca da espada e lança-se sobre os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas, até abrir caminho por entre o fragor e entrar no castelo.

Chesterton dedicou a sua vida a escrever a segunda das parábolas, mas algo nele propendou sempre para escrever a primeira.

(Obras Completas de Jorge Luís Borges, Vol. II, Editora Teorema (1998), tradução de José Colaço Barreiros.)

 

Devo confessar que me lembrei deste texto por causa dos últimos dois parágrafos – dos quais, aliás, me lembro frequentemente. Aplicando-se na perfeição à vida de Chesterton, aplicam-se também à da maioria das pessoas, dediquem-se à escrita de romances ou de e-mails, sejam crentes ou agnósticas. Passamos a vida procurando viver (ou procurando convencer-nos de que vivemos) a segunda parábola mas, na verdade, poucos de nós conseguem deixar de viver a primeira. E talvez duas das melhores formas de encaixar a percepção dessa incapacidade passem por aceitar a existência de desígnios superiores, os quais é mais produtivo aceitar do que combater, e por usar o humor, esse excelente método de controlar ilusões e megalomanias. Chesterton usava ambas. Serão mais perigosas (para os outros e para si próprias) as pessoas incapazes de usar qualquer delas.

De volta à rotina ou welcome back, Rui Santos


escafandro,

E agora, durante quatro anos, dezenas de modalidades desportivas ficam novamente remetidas à obscuridade. Sendo que se alguma coisa os Jogos Olímpicos demonstram é que, em termos de espectacularidade, o futebol está longe de justificar a hegemonia de que goza na maior parte do planeta. Como os norte-americanos costumam referir, trata-se de uma modalidade em que nada acontece durante a maior parte do tempo e é também das poucas onde se pode verdadeiramente jogar para o empate – com frequência, a zero.

Carne


escafandro,

Ele era médico legista e ela não conseguia deixar de pensar nisso enquanto faziam amor. Ele tocava-lhe de uma forma tão precisa, tão leve, tão cirúrgica que ela se sentia mais exposta do que alguma vez no passado. Sabia que ele conhecia em pormenor todos os músculos, todos os tendões, todas as artérias e todas as veias do seu corpo. Sentia-lhe os dedos deslizando pelos braços, em redor do peito, através do abdómen e não conseguia evitar um arrepio de temor. Como se, a qualquer instante, com um gesto suave e preciso, usando uma unha como bisturi, ele pudesse abrir-lhe um golpe na carne e entrar-lhe verdadeiramente no corpo. Estava consciente de que era uma estupidez pensar tal coisa: ele era amável, atencioso, até um pouco tímido (e trazia sempre as unhas bem curtas). Mas não conseguia evitá-lo. Na realidade, era forçada a admitir que não desejava evitá-lo. Que procurava a sensação. Que a transformara numa parte essencial do acto amoroso. As capacidades dele para ler o corpo humano, para identificar zonas frágeis, para o desmembrar, se fosse preciso, haviam-se tornado num elemento de excitação adicional.

Meses depois do início da relação abordou finalmente o assunto. Perguntou-lhe: «O meu corpo é muito diferente dos corpos com que lidas no trabalho?» Os olhos dele arregalaram-se de surpresa. Ela ponderou se teria sido a primeira mulher a colocar-lhe a pergunta. Depois pensou que talvez a surpresa dele resultasse não de ser a primeira vez que lhe faziam a pergunta mas de, tanto tempo decorrido após o início da relação, já não a esperar. Antes de ele responder, acrescentou: «O que quero dizer é: quando acaricias o meu corpo notas as semelhanças com os corpos que autopsias? No fundo, é só carne, não é?» As palavras soaram-lhe inadequadas e brutais e ela arrependeu-se de ter iniciado aquele diálogo. Mas ele recuperara a expressão de beatitude. Quase sorria, na verdade. Disse: «Não, não noto as semelhanças. Noto as diferenças.»

Foi nesse momento que a relação deles entrou numa nova fase.

 

(Também aqui.)

Pedagogia


escafandro,

«Sempre pela passadeira, sempre pela passadeira, ouviste?», dizia o homem de sessenta e tal anos para o miúdo de seis ou sete que agarrava pela mão ao subirem para o passeio após atravessarem a rua do Campo Alegre, no Porto, com o semáforo vermelho.

Da crítica ao elogio


escafandro,

Se, como parece, a privatização da RTP passa por vender a RTP2 e manter a RTP1 em moldes próximos dos actuais, mais valia o governo estar quieto. O Estado não precisa de um canal generalista com novelas, concursos e programas de entretenimento similares aos dos canais privados que, a prazo, acabará custando o mesmo ou (o que sucederá à publicidade?) ainda mais do que a RTP tem custado. Mas percebe-se que não é fácil largar um certo controlo (ou, no mínimo, uma certa sensação de controlo) sobre a informação. Atendendo à arrastada e, desde o início, pouco ambiciosa reforma do mapa autárquico, as – difíceis, sem dúvida – reformas nas mãos de Miguel Relvas anunciam-se cortinas de fumo.

 

Comecemos com um exemplo: há cerca de uma dúzia de anos, usando dezasseis milhões de euros gentilmente cedidos pelos contribuintes, a Fundação PortoGaia (detida, na altura da criação, a 51% pelo Futebol Clube do Porto, tendo ainda participações da Câmara de Vila Nova de Gaia, da empresa Águas de Gaia e das freguesias de Crestuma e Olival) construiu o Centro de Estágios do FCP. Pelo usufruto deste, o clube, que detém os direitos de superfície por um período de 50 anos, paga à PortoGaia uma renda mensal de quinhentos euros (assegurando também – Pinto da Costa está a ficar soft – a manutenção das instalações). Como quinhentos euros por mês são insuficientes para uma fundação digna desse nome sobreviver, só entre 2008 e 2010 a PortoGaia recebeu ainda 4,234 milhões de euros de fundos públicos.

O exemplo serve para que se perceba a utilidade do relatório sobre as fundações, apresentado na passada Sexta-Feira. Há nos critérios de avaliação pontos discutíveis, porque altamente subjectivos («Fundamentos para a manutenção dos apoios públicos concedidos», por exemplo) mas o trabalho é, ainda assim, de elogiar. Falta agora o mais importante: anunciar cortes e encerramentos. Sem favorecer colegas de partido, amigos da escola ou aqueles vultos da sociedade que, por um motivo ou por outro, se revelam sempre intocáveis.

 

Na sequência do cancelamento do financiamento público à sua atrasada fábrica de produção de painéis solares, Alexandre Alves, o Sr. Fnac (a dos anos oitenta e noventa, fabricante de aparelhos de ar condicionado, não a francesa dos livros e discos), garante que o projecto vai avançar e que não convidará o governo para a inauguração. Tudo digno de elogios: que a empresa avance, que Alves não convide o governo – e que este não meta fundos públicos no projecto.

Realismo paralelo


escafandro,

Jardim do Éden – A Descoberta da Gravidade.

Pastel sobre papel Hahnemühle Velour.

(Obra informalmente conhecida como Pandora.)

 

«Podemos começar já pela questão do prémio…»

«Como preferir.»

«Ficou satisfeito?»

«Seria hipocrisia dizer que me é indiferente. Mas não é fundamental. Não pinto para receber prémios.»

«Então por que o faz?»

«Porque sinto que tenho de o fazer. Porque tenho uma visão a transmitir.»

«Uma visão no mínimo polémica.»

«Espero bem que sim. É bom que a arte incomode.»

«Há mesmo quem acuse o que faz de não passar de um truque.»

«Inveja. Repare: toda a arte parte de uma visão do mundo. E a minha visão é diferente. É natural que haja quem não goste. Quem não consiga perceber.»

«A sua visão parte do facto de ser daltónico…»

«Sim, mas vai muito para além disso.»

«E de colorir o que pinta com cores aleatórias.»

«Não, não, não, não! Aleatórias, não. Eu pinto como imagino. Acrescento à realidade incompleta que me chega os elementos que lhe imagino adequados. E repare que não distingo a cor das tintas que uso. É um trabalho cem por cento mental, de nuances, da interpretação da adequação das possibilidades disponíveis à realidade desconhecida. Se bem que não devêssemos chamar-lhe realidade. É apenas a forma como a maioria das pessoas vê. Não é a realidade para um cão ou para um gato, por exemplo…»

«Não distingue mesmo qualquer cor?»

«Não. Tenho o que se chama ‘visão acromática’. É uma condição bastante rara.»

«Parece quase orgulhoso disso.»

«Não devemos envergonhar-nos das diferenças. Devemos potenciá-las. Costumo dizer, correndo talvez o risco da imagem excessivamente doce, que a minha vida é como um sonho que vou colorindo com as cores adequadas a cada momento.»

«É uma ideia interessante. Mas não acha que é demasiado fácil delinear uma cena (e muitos dizem que o faz de modo básico) e depois colori-la com cores que parecem aleatórias? Céu verde, água vermelha, erva roxa… Não é quase como aqueles livros para crianças?»

«Já vi esses livros. Alguns têm muito potencial. Mas é totalmente diferente. As crianças subvertem o sentido das figuras quando lhes acrescentam cores diferentes daquelas que têm na realidade. A minha intenção, embora aceitando o lado polémico do que faço, não é subverter. É criar uma realidade minha, que faz sentido para mim e que, na minha cabeça, é a realidade.»

«É por isso que insiste em chamar-lhe ‘realismo alternativo’?»

«Realismo paralelo.»

«Peço desculpa. Realismo paralelo.»

«Porque não a vejo como uma alternativa. É um mundo paralelo. A alternativa é a monocromia.»

«Criou até uma associação com o nome ‘Realismo Paralelo’.»

«Não fui apenas eu. Mas é verdade que fui um dos principais impulsionadores do projecto e desempenho actualmente o cargo de presidente.»

«A associação tem membros com outras, er, características, não apenas daltónicos…»

«Com certeza. Há imensas pessoas que, podendo até nem ter consciência disso, são realistas paralelos. Criam a sua própria realidade.»

«Políticos, por exemplo?»

«Desculpe?»

«Era uma tentativa de humor.»

«Ah. O humor é uma forma de evitar encarar as inseguranças. Nenhum verdadeiro artista se pode permitir fazê-lo.»

«Não há humor no seu trabalho?»

«Depende do ponto de vista. Quando um quadro está completo, a interpretação – e, portanto, as inseguranças – são as de quem observa. Mas o artista tem de as enfrentar enquanto o cria. E esse é um processo doloroso. O humor é uma saída demasiado fácil.»

«Não acha que há humor na sua obra ‘Jardim do Éden – A Descoberta da Gravidade’?»

«Presumo que possa lá ser encontrado algum humor.»

«Não era sua intenção criá-lo?»

«O quadro é uma sobreposição espaço-temporal de vários mitos da ciência e da religião. Coloca questões. As respostas são livres.»

«Sabe que desde o filme Avatar lhe chamam ‘Pandora’?»

«Prefiro não falar disso.»

«Muito bem. Voltemos à questão do que é ser realista paralelo, de que nos desviámos com a minha infeliz piada sobre os políticos. Será que podia explicar um pouco melhor em que se baseia o conceito?»

«Já lhe disse: na possibilidade de criar uma realidade paralela. Verdadeiramente paralela. Que nasça de características verdadeiramente diferentes das da maioria. Repare: quando um surdo compõe música, o resultado tem de ser diferente do que seria se fosse uma pessoa com audição a criá-la. Ele está a gerar algo paralelo à realidade da maioria das pessoas. Embora, claro, essa música, ou um quadro meu, entre na realidade das pessoas ditas normais e acabe portanto por fazer parte dela.»

«Hmmm, sim. Beethoven era um ‘realista paralelo’?»

«Beethoven perdeu a capacidade para ouvir mas não deixou de ser influenciado por ela. A sua obra reflecte esse facto. A nona sinfonia mantém muitos elementos do Beethoven com audição. Apenas é mais ruidosa.»

«Hmmm, estou a ver. É, de facto, uma visão polémica. Há, aliás, quem o acuse de radicalismo; de ostracizar tudo o que não encaixa na sua forma de encarar as questões.»

«De modo nenhum. Eu não ostracizo. Eu sou ostracizado. Mas não pode esperar que eu aprecie críticas de gente que não tem obra feita, ou que produz obras que nada trazem de novo.»

«Como é que sabe, se não as vê na sua plenitude?»

«É verdade, mas não preciso de ver as cores para perceber que nada têm de novo. Torna-se imediatamente óbvio que (usando um dos exemplos que deu há pouco) o céu é azul, como tem sido quase sempre ao longo dos séculos. Eu crio um céu diferente.»

«Cria até vários. Há pinturas suas com céus das mais variadas cores.»

«Com certeza. Na realidade paralela, o céu tem que combinar com todos os restantes elementos. Repare: você diz-me que o céu é azul e a erva é verde, certo? É essa a combinação que as pessoas conhecem e que tem sido pintada ao longo dos séculos. Muito bem, faz sentido, apesar de ser monótona. Mas se eu crio um céu castanho, não posso combiná-lo com erva verde. Seria ficar por uma realidade enviesada e não paralela. A cor da erva deve reflectir a cor do céu.»

«Mas a cor do céu também não é sempre a mesma, nas suas obras…»

«Evidentemente. Porque o céu está na minha cabeça. Ou, para ser mais preciso, a realidade cromática do céu está na minha cabeça. E a minha cabeça pode decidir atribuir-lhe uma cor por dia. É isto que me distingue das pessoas, enfim, não queria chamar-lhes ‘normais’ mas serve como ideia. Eu vejo realidades onde elas vêem apenas uma realidade.»

«Algumas pessoas poderiam dizer que há uma definição médica para isso.»

«Por favor. Está aqui para entrevistar-me ou para insultar-me?»

«Peço desculpa. Mas, nessa linha, quantas mais, enfim, digamos ‘deficiências’, tiver uma pessoa, melhor artista será.»

«Melhor artista poderá ser. Em teoria. Na prática, as características diferenciadoras a que chama deficiências só são úteis se a) não forem tão excessivas que prejudiquem a qualidade da obra e b) o artista as utilizar de forma adequada. Deixe-me dar-lhe um exemplo: é difícil para uma pessoa sem braços pintar quadros (alínea a); e, infelizmente, quando resolve essa questão usando a boca ou os pés, tende a desperdiçar todo o potencial em cartões de Natal sem qualquer interesse artístico (alínea b).»

«Sim, estou a ver. E é sempre o público que define quem tem qualidade?»

«O público, não diria. Pelo menos, o grande público. É muito difícil dizer quem define. Mas as coisas acabam por se impor.»

«Também por causa da polémica…»

«A polémica é já um reflexo da qualidade. Da capacidade de provocar emoções.»

«E talvez também dos apoios que alguns artistas recebem e outros não. O que diz às pessoas que contestam os subsídios públicos que tem recebido?»

«É mesquinho e ridículo. Eu não vejo a cor do dinheiro. É-me indiferente se é público, se privado. Para mim, é todo… cor-de-rosa.»

«Cor-de-rosa?»

«Por exemplo. Foi a cor que me pareceu mais adequada. Mas também pode ser cor-de-laranja. Ou azul. Ou vermelho. Ou até, como dizem que ele é, verde. A minha arte baseia-se precisamente nisso: na infinidade de possibilidades. As coisas mudam e eu adapto-me. O que me interessa é a Arte. Com maiúscula»

«Com certeza. O prémio vai mudar alguma coisa na sua vida?»

«Nada. Apenas dar-me um pouco mais de exposição. Talvez possibilitar-me vender mais algumas obras.»

«O que até poderá permitir-lhe dispensar os tais subsídios públicos…»

«Pensar assim é um erro. Os subsídios artísticos devem ser dados não somente em função das necessidades (repare que toda a gente considera ter algo a exprimir e, portanto, achar-se-ia com direito a subsídios) mas em função da obra, do valor acrescentado para o acervo cultural do país.»

«Mas isso deixaria de fora os jovens, pouco conhecidos.»

«Não se forem bons.»

«Voltamos então à questão de saber quem define o valor da obra…»

«Para a atribuição de subsídios, o Estado tem que chamar a si a questão, claro. E depois, porque é preciso que ela seja tomada por quem perceba do assunto, delegá-la.»

«Em quem?»

«Em valores firmados.»

«Mas isso não cria uma espécie de clube restrito e conservador, que decide muitas vezes em função do interesse e dos gostos dos seus membros, e que só apoia jovens com gostos similares ou, enfim, com cunhas?»

«É por interpretações como essas que o grande público tem uma visão distorcida do mundo dos criadores de Arte. O mundo da Arte não funciona dessa forma, não se baseia nessas realidades mesquinhas…»

«Baseia-se em realidades paralelas? É isso que lhe confere autoridade para falar em nome do ‘mundo da Arte’?»

«A verdadeira Arte é sempre paralela. E fiquemo-nos por aqui.»

«Porque aceitou fazer parte do júri do prémio do próximo ano?»

«Convidaram-me e achei que não podia recusar. A Arte também é interacção, cooperação, amizade, apreço.»

«Mas como poderá avaliar obras alheias sem lhes conhecer a cor?»

«De forma muito mais livre e descomprometida. Mas pensei que esta entrevista era sobre a minha obra…»

«E é, claro. Está a trabalhar em alguma coisa nova?»

«Sempre. E posso garantir-lhe que vai ser uma surpresa.»

«Diferente da série anterior, então, com os legumes com cores trocadas?»

«Não estavam ‘trocadas’. Receio que não tenha percebido nada do que lhe estive a dizer.»

«Peço desculpa. Mas o próximo projecto não vai ter nada a ver com isso, então?»

«Não. Terminei a série dos legumes. Um artista não pode repetir-se.»

«E não pode dar-nos uma pista?»

«Bom, só uma: fruta.»

«Fruta com cores, er, paralelas?»

«Fruta ainda nas árvores. Uma coisa mais campestre. Talvez sendo apanhada por pessoas de todas as cores (a Arte deve recusar a xenofobia e incentivar a igualdade). Mas já estou a falar demais…»

«Ficamos ansiosos.»

«Obrigado.»

«Terminámos. Agradeço-lhe imenso ter-me concedido a entrevista.»

«De nada. Estou sempre disponível. Já agora, vai para o centro?»

«Vou.»

«Dá-me boleia?»

«Claro. Tenho o carro mesmo aqui à porta. Nem queria acreditar na sorte…»

«Aqui costuma haver lugares. É o vermelho?»

«É. Espere lá: como percebeu a cor do carro?»

«Prática.»

«Mas isso não elimina tudo o que me esteve a dizer? Se afinal reconhece as cores…»

«Reconheço-as porque sou um ser inteligente, capaz de estabelecer associações. Ao longo dos anos fui aprendendo que certas tonalidades correspondem a certas cores. Mas eu não vejo essas cores. Eu não sei o que significa ‘vermelho’. É apenas uma palavra. A minha visão do Mundo, fisiologicamente alterada como lhe expliquei, não inclui o verdadeiro vermelho. Mas também faz com tudo me seja possível, incluindo o realismo mais básico que acaba por ser essencial para sobreviver no mundo prosaico do dia-a-dia. Posso assim chamar ‘vermelho’ ao que me dizem ser vermelho. Foi o que acabei de fazer e isso não invalida o que lhe estive a tentar explicar. No limite, porque sou livre de fazer as correspondências entre cores e terminologia que bem entender, posso dizer que, quando pinto um céu que sei ser azul, de vermelho, estou na verdade a pintá-lo de azul. Do meu azul. A Arte é uma expressão pessoal, e na verdadeira Arte tudo é possível desde que exista capacidade, visão e ousadia. É, na realidade – qualquer que ela seja –, muito simples.»

«Er… pois, deve ser. Vamos, então.»

 

(Republicado com ligeiras alterações.)