A(s) beleza(s) dos Jogos Olímpicos


escafandro,

Uma mulher enviou-me por correio electrónico uma foto com nadadores olímpicos australianos:

 

Encolhi os ombros (afinal, estão apenas um bocadinho mais em forma do que eu) e respondi com uma dose dupla de voleibolistas norte-americanas:

Aguardo nova cartada mas considero-me a ganhar por 7-4 (com vantagem em caso de empate final, uma vez que os nadadores mantêm alguma roupa vestida). Não quero ser demasiado optimista (é preciso respeitar o adversário, as hipóteses são de 50% para cada lado, o jogo só acaba quando o árbitro apita, etc.) mas estou confiante: tenho vários trunfos na manga, incluindo a outra e, na vertente feminina, quase obscena variante do voleibol: o de praia. Entretanto pus-me a pensar que brincadeiras destas são como fazer parte de uma equipa mas preferir o estilo de jogo da equipa rival. No fundo, está-se a dizer: não, não, vocês é que são melhores. Pus-me a pensar nisso e também que, lá em Londres, alguém devia apresentar os nadadores australianos às voleibolistas norte-americanas. É que, apesar dos corpos tonificados, talvez por não conseguirem tirar o Lochte e o Phelps da cabeça, eles parecem tão tristonhos. Poderiam é necessitar de reforços: são só quatro, coitaditos, e não conseguindo deixar de pensar no Lochte e no Phelps…

 

(As fotos das voleibolistas são da ESPN. A dos nadadores não faço ideia.)

Gore Vidal


escafandro,

Com atraso (sem férias mas com inércia adequada a elas, a minha vida fica estranha nos meses quentes), uns quantos excertos, meio ao calhas, de Navegação Ponto por Ponto, de Gore Vidal (edição Casa das Letras, com tradução – não propriamente brilhante – de José Luís Luna):

 

Saul Bellow aparecia de vez em quando em Roma, normalmente sozinho. Teve cinco mulheres, mas como eram todas tão parecidas nunca memorizei os nomes.

 

Nesses tempos, os editores estavam quase tão perplexos como hoje quanto ao modo de atrair leitores numa época do cinema e da arrivista televisão. Resolvi-lhes o problema completamente por acaso. Como ainda me interessava por política, tinha continuado a ir à televisão sempre que possível para falar do estado do país, o que agradava a Carson e a poucos mais – muito poucos – convidados. Um deles era Hugh Downs, a discreta estrela do programa Today. Nesses tempos sem pressas, ele e eu sentávamo-nos a uma mesa com o New York Times entre os dois e conversávamos – muito moderadamente – acerca das notícias do dia, com intervalos para a publicidade, meteorologia e o noticiário. Quando a editora de Juliano, Little Brown, me pediu para ir à livraria dela, em Houston, promover o livro, disse que me parecia inútil mas que, se eles insistissem, iria. Deram-me uma data que tentei cancelar porque entrava em conflito com uma entrevista no programa Today de Hugh Downs. «Por que não fazer ambas as coisas?, perguntou o meu editor. «E dizer umas palavras acerca do livro no programa.» Expliquei-lhe que falávamos sobretudo de política. «Então faça uma excepção», disse-me. E foi o que fiz. Falei brevemente do livro enquanto Downs o segurava de braço estendido no ar como se fosse o Santo Graal. A seguir, saí do estúdio e apanhei o avião para Houston onde Ted Brown da livraria epónima me disse: «Não só esse programa de televisão vendeu todos os exemplares que tínhamos em stock como també, segundo parece, todos os exemplares que existiam em Houston. Tudo isso numa só manhã.» Juliano tornou-se rapidamente o sucesso literário número um da lista do Herald Tribune (o New York Times – sempre consistente – listou-o mais abaixo, mas, uns anos depois, puseram milagrosamente o meu Lincoln em segundo lugar durante dois anos, quando ocupava o primeiro na Publishers Weekly). De qualquer modo, o resto pertence à história da edição quando os editores empurraram os seus escritores para os programas de televisão, todos contentes por conseguirem tanta publicidade gratuitamente. Com o tempo, claro está, e embora os poderes inventivos dos romancistas fossem realmente extraordinários, os espectadores cansaram-se de vê-los a dizer que absolutamente tudo nos seus romances era absolutamente verdade e tinha-lhes realmente acontecido como descreviam. Capote até chegou a declarar ter inventado um romance não fictício (sic) acerca de um assassinato verdadeiro.

 

Vladimir Nabokov (o qual nunca encontrei) e eu gostamos de trocar insultos elaborados através da imprensa. Nabokov disse numa entrevista que a conversão de Graham Greene ao catolicismo lhe parecia completamente falsa, mas que sabia, através de fontes seguras, que eu tinha ido a Roma. Estas farpas, como Vera Nabokov lhes chamava, terminaram quando eu comentei numa entrevista ser bastante estranho que os dois maiores escritores russos tivessem ascendência africana. Antes de ele ter ter tempo para responder, a morte pôs termo a estas joviais trocas de palavras.

 

Em 1976, fui eleito para a Academia Norte-Americana de Artes e Letras, uma augusta assembleia à qual William James, mas não o irmão, Henry, recusou pertencer. Também recusei a minha eleição. Quando uma pessoa interessada me perguntou porquê, citei William James, que tinha dito que não gostava de muitas das inclusões assim como das exclusões. Como insistissem, acrescentei que «já fazia parte do Diner’s Club». Isso foi citado aqui e ali e, embora os revisionistas da academia gostassem de dizer que eu não escrevera isso na minha carta de rejeição, disse-o realmente a um funcionário desta congregação de imortais americanos. Um quarto de século mais tarde, quando o nosso milénio se aproximava do fim, o presidente da academia (um primo devido a um casamento que deixou de ser meu primo devido a um subsequente divórcio e novo casamento em que fui substituído, nesse grau de parentesco, por Jackie Kennedy), esse velho amigo e estimado colega romancista-historiador, Louis Auchincloss, disse que tinha chegado a altura de eu me portar de forma responsável e de aceitar a antiga nomeação de boa vontade, pois, uma vez que se é eleito, é-se instalado para sempre, quer se queira quer não, no Parnasso. Fui, assim, devidamente instalado e, a seguir, foi servido um lauto jantar. Umas duas dúzias de académicos e os seus amigos, muitos dos quais não via há anos, encheram um enorme salão ao lado da sala de jantar com as suas cadeiras de rodas, o que me fez pensar nos carros eléctricos do parque de diversões Glen Echo, perto de Washington DC.

 

Li algures como era estranho o facto de eu me ter candidatado por duas vezes a um cargo público e nunca ter escrito acerca disso nem porquê. Bem, parte desse porquê, em 1960, foi porque Jack Kennedy se tinha casado com Jackie cuja mãe tinha tomado o lugar da minha como Sra. Hugh Dudley Auchincloss. Depois de a minha mãe e eu termos saído da casa de Auchincloss em Virgínia, a mãe e a irmã de Jackie mudaram-se para lá e o meu meio-irmão e a minha meia-irmã tornaram-se irmãos putativos de Jackie. Tantos divórcios e novos casamentos na nossa interligada família criaram numerosas ligações esquisitas bem como nenhumas ligações. Tenho quatro irmãos putativos, filhos do último marido da minha mãe, o general Olds: não só nunca os conheci como também não sei os seus nomes. Oh, que teia emaranhada é tecida quando as divorciadas concebem.

 

Num momento de distracção, aceitei ser presidente do júri do Festival de Cinema de Veneza. Evito habitualmente festivais, entrega de prémios e toda a espécie de burocracia que envolva até mesmo as artes. Não posso imaginar porque é que disse que sim. Disseram-me – avisaram-me! – que havia um júri feminista. Por que não?, pensei. Tinha participado, ou lançado, em dois torneios desse género, do lado das senhoras.

Na primeira votação, um filme realmente horrível realizado por uma dinamarquesa – Syrup (refiro-me ao filme e não à dinamarquesa) – ganhou o prémio atribuído ao melhor argumento.

 

Quando alguém me enviou uma grande lata de caviar, Howard decidiu fazer uma pequena festa só para nós, os Shaw e Greta Garbo. Ao último minuto, Irwin telefonou a perguntar se podia trazer a jornalista Martha Gellhorn. Sempre gostei do que ela escrevia e simpatizava com todas as mulheres que se tinham casado com Hemingway. A pequena festa correu lindamente. Garbo chegou cedo e vestiu imediatamente o blazer de Howard. Gostava de se vestir com roupa de homem e costumava referir-se a si mesmo em termos masculinos. «Onde é que é a casa de banho dos rapazinhos?» era uma das suas expressões favoritas. Foi Ina Claire, a delicada comediante da Broadway, que foi à casa de banho dos rapazinhos logo depois de Garbo sair de lá e, de facto, o assento da sanita estava levantado.

 

Assim que resolvi deixar de me interessar por obituários, o Papa e Saul Bellow morreram.

 

Nos últimos anos, raramente vi Saul. Julgo que a última vez que nos vimos foi quando ele veio visitar-me ao nosso apartamento do Largo Argentina, em Roma. Como ele gostava de Alberto Moravia (cujo nome próprio sempre pronunciava em três sílabas deliberadamente lentas: Al-Bare-Toe), levava-os a um restaurante gerido por uma ordem laica de belas freiras do Terceiro Mundo. Temia que os dois lúbricos velhos mestres cobiçassem estas núbeis cantoras de salmos, mas, afinal de contas, passámos uma noite bastante alegre. A dada altura, falámos da morte e de como esperávamos morrer. Saul mostrou-se muito positivo. «Apenas espero desgastar-me.» E foi o que aconteceu. Era um filósofo utilitário.

 

Quando agora me movo, graciosamente, espero, em direcção da porta marcada Saída, ocorre-me que a única coisa que eu gostava de fazer era ir ao cinema.

 

Boas sessões aí onde estiveres, Gore. Não sejas demasiado duro com Deus.

 

 

Foto obtida aqui.

Alerta de tsunami


escafandro,

Telma Monteiro perdeu, esboroando-se assim uma das raras hipóteses de atletas portugueses (e não de Portugal) chegarem a uma medalha nestes Jogos Olímpicos. Aguarda-se enxurrada de críticas por parte de gente que nunca esteve em posição de conseguir o que quer que fosse por nem sequer alguma vez se ter aplicado a fundo a tentar consegui-lo.

Choque eléctrico (e, acima de tudo, ruivo)


escafandro,

O tema já tem dois anos e, OK, a letra não é Shakespeare mas quem se importa?  De resto, estamos no Verão, época adequada a musiquinhas alegres e despretensiosas. Já agora, a frase na t-shirt é I’ll do your homework; e sim, fiz pausa para a ler: leitura de t-shirts é um dos meus vícios, sendo que já cheguei a duas conclusão: muita gente não sabe o que traz escrito na roupa e algumas mulheres – desconfiadas, caramba – parecem achar que o meu objectivo é outro.

Ra(n)ting


escafandro,

Parte 1

Sobre a lógica da decisão da Moody’s

 

1. A decisão da Moody’s de colocar a dívida alemã (juntamente com a holandesa e luxemburguesa) sob vigilância, com perspectiva negativa, não é surpreendente, apenas lógica. A dívida pública alemã encontra-se acima dos 80% e, de uma forma ou de outra (isto é, quer o euro sobreviva, quer não), a Alemanha enfrentará sérias dificuldades nos próximos tempos.

 

2. Tal como a situação se apresenta (países em dificuldades sem capacidade para implementar verdadeiras reformas – e não apenas aumentos de impostos e cortes de salários – e clima pouco propício a ajuda incondicional nos países ainda em situação razoável), não há razão para estar optimista. Se o euro se dividir em duas ou mais moedas, a valorização da nova moeda alemã e o colapso dos mercados nos países do Sul farão com que a economia alemã tenha uma contracção significativa. Apesar de a nova moeda tornar a dívida mais barata, a diminuição de receitas e o aumento de despesas (com subsídios de desemprego, por exemplo) agravará o défice. O que agravará a dívida. Etc.

 

3. Mas ainda que, mal saídos do esforço (longe de consensual) da reunificação, os alemães ficassem subitamente dispostos a apoiar sem reservas os países do Sul, dificilmente a Alemanha teria capacidade para salvar Espanha e Itália.

3.1. Bom, mas talvez não fosse preciso dinheiro real, talvez bastassem garantias de que os alemães estavam dispostos a isso para que os investidores voltassem a acorrer aos leilões de dívida pública dos países do Sul, baixando o nível das taxas de juro. A Alemanha (e os outros países recalcitrantes) apenas teriam, por exemplo, de fazer do BCE um lender of last resort. Pois, talvez chegasse. Ou talvez não. Por um lado, pedir emprestado a dois ou três por cento ainda seria aumentar a dívida acima do crescimento económico previsível nos próximos tempos. Por outro, para funcionar, qualquer garantia precisa de ser credível. E os mercados costumam fazer o teste.

3.2. Se/quando os investidores não acorressem em massa, o BCE teria então de começar a imprimir montes de dinheiro fresco, emprestando-o baratinho aos países em dificuldades. O resultado prático disso seria fazer crescer o esquema de Ponzi em que a economia europeia está transformada (se companhia na desgraça serve de consolo a alguém, várias outras estão em situação parecida). Não há, nos países europeus em dificuldades, forma de extrair crescimento sustentável desse dinheiro: apoiar sectores que cresceram artificialmente (como a construção e o imobiliário) através de incentivos à construção ou à compra de imóveis seria deitar o dinheiro fora; teimar no investimento público quando o nível de infra-estruturas já é excelente, não seria muito melhor (parece, aliás, que Hollande, esse Messias da Europa, começa a percebê-lo – mas felizmente conhece outros métodos infalíveis para vencer a crise, como proibir empresas privadas com prejuízos de despedir trabalhadores); aproveitar o dinheiro para manter satisfeitos os funcionários de sectores públicos pesados e ineficientes geraria apenas o que tem gerado: dívida pública e sectores públicos ainda mais pesados, ineficientes – e difíceis de reformar. Etc., etc., etc. Entretanto, o nível de consumo recuperaria alguma coisa, com efeito positivo na receita pública mas efeito negativo na balança comercial dos países que costumam tê-la precisamente assim: negativa (por exemplo, Portugal, Espanha e França; cliquem no nome do país e depois no indicador balance of trade). E teríamos ainda os riscos de inflação que, mais cedo ou mais tarde, haviam de passar a realidade, levando à perda do poder de compra de todos os cidadãos da zona euro. É verdade que as exportações para fora da zona euro ficariam mais competitivas, o que provavelmente faria a economia alemã sobreaquecer, tornando real o maior pesadelo dos ministros das finanças por lá (na verdade, a cotação actual do euro até já é demasiado baixa para a economia alemã actual). Mas, no fundo, tanta conversa é desnecessária: todos sabemos que os esquemas de Ponzi têm um final desagradável – e tanto mais desagradável quanto mais tempo duram.

 

Parte 2

Sobre outros pontos relacionados com as agências de rating

 

1. As agências de rating seriam irrelevantes se os Estados não estivessem tão dependentes de dinheiro emprestado. Mas que governo faz contas enquanto o rating permanece Triplo A?

 

2. Como ficou evidente na questão do subprime, a verdadeira falha das agências é demorarem demasiado tempo a baixar os ratings. Mas que as acusemos de algo num caso e queiramos o contrário no outro é apenas natural: agora somos accionistas.

 

3. Há quem defenda a criação de novas agências e quem defenda regulação das actuais. Nada tenho contra a primeira hipótese, excepto se estivermos a falar de usar dinheiro público: uma agência ligada a um governo ou a um bloco económico terá tanta credibilidade como uma declaração de Durão Barroso ou Jean-Claude Juncker. Será mais dinheiro deitado fora. A questão da regulação passa por saber quem regularia e com base em que critérios. Mas convém estar ciente de que, se estes fossem objectivos (o défice, a dívida, as perspectivas de crescimento económico, …), os ratings dos países europeus seriam neste momento… mais ou menos os mesmos. Em alguns casos, piores.

 

4. E daí talvez eu esteja enganado. Talvez outras agências que não as três do costume possam ser mais fiáveis. Relembre-se o que a chinesa Dagong (existirão mecanismos de controlo estatal na China?) fez aos ratings europeus há já dois anos.

 

5. Em teoria, desejamos independência e objectividade; na prática, clamamos por controlo governamental de tudo e de todos. As agências podem parecer servir interesses especulativos e até funcionar mal – mas seria melhor um sistema em que os endividados se auto-avaliassem? E veja-se o caso do BCE. A independência e os objectivos do BCE destinam-se a manter condições estáveis, conhecidas por todos. Para o BCE, não é nem deve ser relevante se existem diferenças de rendimento entre países da zona euro. Essa é uma questão para os governos, que devem enfrentá-la com os instrumentos de que dispõem (subindo ou baixando impostos, aumentando ou diminuindo o peso do Estado, criando ou eliminando mecanismos de protecção social, etc.). E, no entanto, o BCE é criticado diariamente por não ajudar a resolver as dificuldades de alguns países (sendo que, de formas ínvias, até o tem vindo a tentar fazer). Percebe-se: acusar o BCE (ou a chanceler Merkel) é mais fácil para os políticos. Esconde-lhes as incapacidades. E como toda a gente está mais do que disposta a pensar mal dos banqueiros… Ou seja: na verdade, não desejamos mecanismos independentes, para as agências de rating ou para o que quer que seja. Desejamos que nos façam a vontade, em função do que, em cada momento e numa perspectiva de curto prazo, nos parece ser o caminho mais fácil.

Indo


escafandro,

Ouço a pergunta: «Então, Sr. Tó, como vai a vida?» e a resposta: «Ah, lá vai indo.»

E penso: tal como existe invariavelmente um ponto de redenção nas nossas desgraças (podia ter sido pior), há sempre uma pitada de fatalismo no nosso bem-estar. Ainda que a resposta, tão portuguesa, pretenda dar a entender que tudo está bem ou pelo menos normal, ver a vida «ir», em especial quando o Sr. Tó é um idoso que parece já mal conseguir mexer-se, constitui uma formulação incrivelmente dura – porque incrivelmente exacta.

Coisas sérias como o défice público, o ministro Relvas ou o bispo Torgal


escafandro,

Em tempos não muito distantes, à rapariga aplicar-se-iam expressões como «abundante de carnes» ou «cheiinha», usadas num tom onde se detectaria mais apreço do que crítica. Noutros, mais recuados, seria pulposa e levaria pintores a proporem-se pintá-la nua, com o argumento de ser perfeita para representar Vénus saindo do mar ou recostada num canapé. Tem pele branca que, ao ser atingida pelo sol, irradia luz como a face de Greta Garbo nos velhos filmes a preto e branco. (É provável que não se lembrem mas, logo na minha primeira colaboração com o Delito, deixei claro que pele branca está longe de me ser desagradável.) Segue pelo passeio à minha frente, segurando o telemóvel junto à orelha direita com a mão do mesmo lado enquanto, com a esquerda, vai puxando o vestido para cima. O vestido, aliás, merece uma palavra. É branco, largo (esvoaçante, mesmo) e não tem alças. Parece segurar-se apenas por acção de uma tira elástica, franzida, de uns cinco centímetros de largura, que cruza as omoplatas e passa por baixo dos braços e por cima das mamas (que eu, da posição em que me encontro, não consigo ver). Há outra tira elástica, estreitinha, na zona da cintura mas dá ideia de nem estar a fazer pressão sobre esta, destinando-se apenas a efeitos estéticos. O vestido é curto, muito curto, deixando pelo menos metade das coxas (brancas, muito brancas) a descoberto, mais até quando a rapariga, a cada trinta ou quarenta metros, puxa a tira elástica para junto da axila, a mão esquerda fechando um triângulo isósceles em que os outros lados são o braço e o antebraço. Atrás dela, vou-me perguntando se o fará por excesso de precaução ou se existirá mesmo risco de o vestido lhe deslizar suavemente pelo corpo abaixo. O meu lado malévolo deseja-o, claro, e até o imagina (mas vocês, que nem sequer viram a rapariga, parem com isso). Quanto ao meu lado simpático e prestável, esse sente vontade de ajudar: de lhe colocar uma mão de cada lado do corpo, mesmo por baixo dos braços, e de dar um bom puxão (para cima!) no vestido. Depois digo-me que provavelmente ela reagiria de forma pouco simpática, o que só demonstra que as boas acções são muitas vezes incompreendidas ou que o bem e o mal se encontram frequentemente misturados (mas a sério, foi um impulso caridoso). Continuo apenas atrás dela, sorrindo perante os seus esforços (por que raio escolheu aquele vestido se lhe dá tanto trabalho?) e pensando que talvez lhe pudesse antes segurar o telemóvel junto ao ouvido, de forma a permitir-lhe usar ambas as mãos para colocar o vestido no sítio. E então, subitamente, caio em mim. Que diabo estou a fazer, observando o comportamento de raparigas de vinte e poucos anos, ou talvez nem tanto (de costas é difícil ter a certeza), em vez de pensar em assuntos sérios como o défice público, a licenciatura do ministro Relvas, as visões infernais do bispo Torgal, as pulsões revolucionárias do octogenário Soares ou, já agora, o meu trabalho? Aproveito a circunstância de a rapariga entrar num café para, sem mesmo olhar lá para dentro, seguir caminho, decidido a passar o resto do dia concentrado nos tais assuntos realmente importantes. Em passo rápido, indiferente ao calor, recusando novas distracções, demoro poucos minutos a chegar aqui, junto ao computador, onde passo a hora seguinte a escrever isto.

 

P.S.: O corrector ortográfico do Word assinala «pulposa» e «pulsões» como sendo erros. É um corrector tão politicamente correcto…

A normalidade


escafandro,

Surpresa geral: o processo Freeport vai acabar sem condenações. Crentes no princípio de que todos são inocentes até prova em contrário, lá teremos de admitir que tudo não passava de fumo sem fogo. Tão ou mais interessante é constatar que o Ministério Público chega ao fim a pedir a absolvição dos acusados e o senhor Procurador Geral da República a considerar tal circunstância «normal», acrescentando ainda que há milhares de casos similares e que só a exposição mediática justifica os comentários que se fazem sobre este. Bom, a exposição mediática deste teve pelo menos um ponto positivo: permitiu-nos ouvir da boca do senhor Procurador Geral da República que há milhares de casos similares, isto é, casos em que a investigação do Ministério Público revela ter tanta qualidade que, antes do julgamento acabar, os próprios elementos do Ministério Público já estão convencidos de que se enganaram e passaram para o lado da defesa, e ainda constatar que, em vez de lamentar o dinheiro desperdiçado nas milhentas investigações e os anos de tensão e vergonha a que os milhares de arguidos foram sujeitos, o senhor Procurador Geral da República acha isso normal. O que não nos permite saber é se os procuradores que investigam com tanta qualidade sofrem penalizações na carreira ou continuam a investigar «normalmente» mas, ajudados pela displicência com que o senhor Procurador Geral da República menciona o facto e pela sobranceria com sacode a água do capote sempre que a imprensa «inventa» mais um caso, desconfiamos conhecer a resposta. Afinal, todas as aberrações são normais na Justiça portuguesa.