Força de vontade e uns quantos recordes


escafandro,

Décima sétima vitória em torneios do Grand Slam (recorde masculino absoluto; Pete Sampras, o segundo na lista, venceu catorze). Sétima vitória em Wimbledon (recorde de Pete Sampras e de William Renshaw* igualado). Recuperação do primeiro lugar no ranking ATP e garantia de igualar o recorde de número de semanas nesse posto (faltava-lhe apenas uma para atingir as 286 de Sampras), devendo mesmo ultrapassá-lo (não se prevê que venha a ser destronado pelo menos até aos Jogos Olímpicos). Trinta anos de idade (trinta e um dentro de um mês), mais cinco que os principais adversários. Casado, pai de duas gémeas de três anos. Nos últimos dois anos e meio, um período em que não conseguiu vencer qualquer Grand Slam (então escrevi isto e continua a aplicar-se) muitos deram-no como acabado. Not quite. É que nem pouco mais ou menos.

 

* Mas as vitórias de Renshaw foram na década de oitenta do século dezanove, altura em que o vencedor de um ano tinha entrada automática para a final do ano seguinte; só em 1922 todos os participantes começaram a ter de passar pelo quadro geral.

 

Adenda (Segunda-Feira, dia 9, 8:45h)

1. Ontem fazia tenções de o referir e depois esqueci-me: este foi o torneio dos atletas com trinta anos, uma vez que Serena Williams, também com essa idade, venceu no quadro feminino.

2. É um excelente momento para ler (ou reler) o artigo que, em 2006, David Foster Wallace escreveu sobre Federer (e o ténis em geral).

 

(Foto retirada daqui.)

Amor e malas de senhora


escafandro,

«Quando começou?»

«Há quase um ano.»

«O que é que o levou a isto?»

«Não vai acreditar no que lhe vou dizer.»

«Por que diz isso?»

«Porque não vai.»

«Não tenho razão para duvidar do que me vai dizer. Aceitou falar comigo, dar a entrevista, tenho que assumir que vai dizer a verdade.»

«…»

«Ponha-me à prova. Diga lá: o que é que o levou a roubar carteiras de esticão?»

«O amor à minha mulher.»

«…»

«Está a ver? Não acredita.»

«Não. Acredito. Só fiquei surpreendido. Há-de admitir que não é uma justificação habitual.»

«Talvez…»

«Gostava que desenvolvesse a ideia. De que modo é que o amor à sua mulher o levou a roubar carteiras?»

«Como todas as mulheres, ela gosta de carteiras mas não temos dinheiro para as comprar. Então decidi roubar umas para lhe oferecer.»

«Estou a ver… É uma ideia interessante. E como é que ela reagiu?»

«Primeiro ficou assustada. Mas depois gostou. Percebeu que eu o fazia por ela.»

«Há quanto tempo estão casados?»

«Quase dois anos.»

«E, diga-me lá outra vez, quando é que começou?»

«Há uns dez, onze meses. Foi quando tive a ideia. Antes só assaltava automóveis. Agora faço as duas coisas. Uma por necessidade, a outra por prazer. Quer dizer, pelo prazer de lhas dar.»

«Quantas já roubou?»

«Tem piada que pergunte porque realmente contamo-las, sabe? Até brincamos com aquela mulher do gajo que era ditador das Filipinas, não era?, que tinha dois ou três mil pares de sapatos. A gente ri-se e diz que a minha mulher há-de ter tantas malas como ela tinha sapatos.»

«Quantas já roubou até agora?»

«Noventa e três.»

«Noventa e três?»

«Sim.»

«A sua mulher precisa assim de tantas?»

«Precisar, não precisa. Mas tornou-se uma espécie de passatempo. E gosto de ver a cara dela quando lhas ofereço. É das poucas alturas em que fica mesmo feliz.»

«Ela não es…»

«E depois não é tão fácil como se pensa, sabe? Ela gostava de ter uma Guess. Então eu jurei que lhe ia dar uma. Sabe quantas tive de roubar até conseguir uma genuína? Doze. As primeiras onze eram todas falsificações. Já andava farto das Guess e quase a desistir. E com as Louis Vuitton não foi muito melhor: só consegui à oitava tentativa. E digo-lhe que ainda tenho dúvidas de que a última seja mesmo verdadeira.»

«Nunca foi apanhado pela polícia?»

«Nã. Eu tenho cuidado. Mas é verdade que nessas semanas em que andei atrás das Guess já andava tão desesperado que me distraí e ia sendo apanhado a forçar a porta dum Ford. É muito fácil entrar nos Fords, sabe?»

«Não, não sabia. Eu tenho um Ford.»

«Então já fica a saber. Não precisa de ficar admirado se chegar ao pé dele e alguém o tiver assaltado.»

«Err, obrigado. Voltemos às malas. Costuma devolver os documentos?»

«Ainda pensei nisso, a sério que pensei. Mas não. Não ia mandar-lhes uma carta, não é? E tenho medo de deixar impressões digitais ou uma coisa assim. Também é só ir à loja do cidadão e arranjam-lhes logo outros.»

«As mulheres a quem as rouba não oferecem resistência?»

«Não lhes dou hipótese. Quer dizer, já houve umas quantas que conseguiram agarrar-se à carteira antes de eu lha ter arrancado das mãos.»

«E o que aconteceu?»

«Foram parar ao chão. Não sou de desistir quando começo um trabalho.»

«Magoaram-se?»

«Não sei. Não fico a ver. Devem ter esfolado os joelhos.»

«E não se sente mal por causa disso?»

«Não é um problema meu, pois não? A minha mulher anda na rua e corre o mesmo risco.»

«E tem medo, ela?»

«Um bocado. Agarra-as com uma força que só visto. Eu já lhe disse que se algum filho da puta lhe tentar roubar uma, que a deve deixar ir. Havemos de arranjar outra. Se calhar até aquela outra vez. Mas ela diz que nem pensar. Fui eu que lhas dei e ela não as quer perder.»

«Como é que escolhe as que rouba?»

«Antes era um bocado ao calhas mas agora já sei do que ela gosta.»

«E do que é?»

«Coisas bonitas, com pêlo e letras e fivelas. E de cores diferentes. Uma preta, uma castanha, uma vermelha, uma roxa, uma verde, uma cinzenta,…»

«Estou a ver. E ela só gosta de carteiras?»

«Não, claro que não. É mulher, não é? Também gosta de outras coisas.»

«Mas compra-as?»

«Poucas. Não temos dinheiro. Recebemos o rendimento mínimo mas é uma miséria, não chega para nada.»

«Para ela, você só rouba carteiras?»

«Ouça, eu também roubava sapatos se pudesse. Mas não é assim tão fácil, pois não? Tinha que deitar as mulheres no chão e tirar-lhos dos pés. Era demasiado perigoso.»

«Devia ser, devia.»

«Mas olhe que bem gostava. Por que é chato, está a ver? Agora a minha mulher tem dezenas de malas espectaculares mas não tem roupa à altura nem sapatos a condizer.»

«É chato, de facto. Bom, acabámos. Foi interessante falar com alguém com um amor tão evidente pela mulher.»

«Obrigado. Pode não acreditar e até achar que é piroso mas ela é a única coisa que me interessa. Sou capaz de fazer tudo por ela.»

«Não acho nada piroso, acho bonito.»

«Sabe o que é que vou fazer com o cheque que vocês me prometeram?»

«Não. O quê?»

«Vou à Fáxion Clinic – onde os futebolistas vão às compras, sabe? É uma loja do caraças; até já pensei em assaltá-la mas não é a minha especialidade – vou lá comprar-lhe uns sapatos da Prada que na semana passada ela viu na montra e adorou. Vai ficar tão contente quando lhos der…»

 

(Republicado.)

Ao contrário (e um conselho gratuito)


escafandro,
Pode ser a minha ingenuidade congénita, que montanhas de comprimidos azuis – não, de um tom de azul completamente diferente – têm sido incapazes de debelar, mas dá-me ideia que, de forma geral, uma carreira académica prestigiante precede uma carreira política. Afinal, os Kennedy andaram por Harvard e a classe política britânica está tão ligada a Eton e Oxford (ou Cambridge) que as acusações de elitismo são mais frequentes do que turistas olhando para a esquerda nas ruas de Londres, apesar da profusão de avisos para Look Right. Das duas, uma: ou eu estava enganado e estes são exemplos não representativos ou – e parece-me mais provável (vai-se a ver e os comprimidos começam a fazer efeito) – por cá resolvemos fazer ao contrário: primeiro entra-se num partido (onde deve ser preciso estudar menos do que numa universidade a sério) e faz-se a carreira política; depois leva-se o cartão partidário a uma universidade (e talvez um certificado de passagem pelo governo ou, pelo menos, de acesso directo a governantes) e obtém-se automaticamente a licenciatura. Não é caso único (fazemos muitas coisas ao contrário dos outros) e até podia constituir uma inovação simpática, não fosse o pormenor de, pelo vistos, a carreira partidária só dar direito a cursos em universidades de segunda ou mesmo terceira linha. Aliás, deve ser por isso que, quando os eleitores lhes propiciam uma merecida pausa, alguns destes licenciados vão para conceituadas universidades estrangeiras melhorar o currículo. Ao ministro Relvas aconselha-se Berkeley, na Califórnia, considerada das melhores nos campos da etologia, da antropologia e da sociologia.

Urgências


escafandro,

É um contra-senso: as urgências de um centro de saúde ou de um hospital, em especial durante a noite, em especial no interior do país, são locais não de movimento e urgência mas de espera, monotonia e burocracia atrozes; de desamparo, resignação e indiferença. O objectivo de quem ali trabalha – em particular do pessoal clínico, quase todo «desterrado» contra vontade – parece ser despachar quem ali chega tão depressa quanto possível, após realização dos testes mais básicos, ainda que isso signifique combater apenas os sintomas e não as causas, ainda que isso signifique abrir a porta a nova visita do mesmo paciente dias – ou horas – mais tarde. Não por maldade – pelo, menos não explícita (de resto, na maioria das vezes o que é a maldade senão uma lógica inflexível?) – mas por uma inércia muito característica, por um cansaço desconfiado feito de desilusão e agressividade, e também por regras que a crise, para além de impor, ajuda a utilizar como desculpa. E nas feias salas de espera, a que cartazes ensinando a lavar as mãos ou a espirrar para o braço acrescentam um enjoativo toque de boas intenções, acompanhantes (quase sempre familiares) arrancados à normalidade por um grito, pelo ruído de uma queda ou por um telefonema e metidos à força no enredo de O Castelo, de Kafka (num mundo de mil e uma regras com uma lógica difícil de contestar, regras que dão ideia de terem sido elaboradas para que ninguém fora do sistema as possa usar a seu favor: a burocracia – e recordemos o pormenor de Kafka a conhecer bem, funcionário que era de uma Companhia de Seguros – é a mais subtil representação e também a melhor forma de preservação do totalitarismo, seja ele evidente e sanguinário, seja na versão bufa, assente na diferença de poder e de conhecimento – no respeitinho, em suma – que impera nos mais variados sítios), nas tais salas de espera esses acompanhantes imaginam cartas de reclamação que são levadas a sério e acabam em castigos ou despedimentos e processos legais (como os que se vêem nos filmes e nas séries de televisão norte-americanas) que acabam em pesadas indemnizações, apenas para esbarrarem, até mesmo dentro da fantasia, nas realidades não menos kafkianas de como as castas se auto-protegem e de como a Justiça portuguesa não funciona. E então pensam em denúncias à TVI, que as coisas só se resolvem quando aparecem na televisão, mas rapidamente percebem que apenas se o familiar morrer o caso terá interesse para as televisões e acabam por limitar-se a levá-lo para casa (de resto, é o que ele, humilhado e a transbordar de analgésicos, deseja) e a tentar dormir umas horas. Até o grito ou o ruído da queda ou o telefonema os retirar novamente da rotina e todo o processo se repetir.

 

Adenda: Se puderem, evitem as urgências do hospital da Guarda.

Crescimento


escafandro,

Inventou-se demasiado dinheiro. Ou, pelo menos, é o que se lê e ouve com frequência: que os fluxos financeiros a nível mundial ultrapassam várias vezes o valor de coisas reais que é suposto representarem. Culpam-se – com razão mas deixando frequentemente de fora outros responsáveis, entre os quais governos e «parceiros sociais» – os bancos, a falta de regulação e os especuladores. E fazem-se proclamações sobre como é preciso limitar a especulação financeira sem se perceber que corrigir o diferencial significa reavaliar para baixo. Pelo contrário: como antes, deseja-se continuar a inventar dinheiro, para gerar «crescimento». A questão é: cresceríamos como?

 

Tomemos um exemplo: segundo o The Economist de há um par de semanas, o valor das habitações caiu 50% na Irlanda desde o início da crise enquanto em Espanha, que teve uma bolha imobiliária pelo menos tão bonita como a irlandesa, ainda só caiu 20%. Explicação? Os bancos espanhóis, com os balanços atafulhados de casas por vender, têm-se recusado a aceitar a desvalorização porque isso também significa encaixar um buraco monumental nas contas (e parece que só dão crédito a quem comprar uma das suas próprias casas). Em Espanha, portanto, os sectores do imobiliário, da construção civil e dos serviços com eles relacionados (incluindo financiamento) ainda tem de cair, não de crescer. Como, em menor escala, sucede por cá (a este propósito, as notícias dos últimos dias segundo as quais é no imobiliário que mais falências se registam servem de bom indicador do que está a acontecer). Inevitavelmente, a quebra nestes sectores arrasta o resto da economia. Mas qual a alternativa? Alguém acredita que será possível gerar crescimento sustentável construindo mais habitações desnecessárias?

 

Claro, há outra via. Vejam-se as duas principais medidas saídas da cimeira europeia da semana passada (a tal em que Angela Merkel, essa inflexível, parece ter cedido outra vez): por um lado, a mutualização das dívidas (isto é, pôr os contribuintes dos países em melhor situação a garantir – e eventualmente pagar – as dívidas não só dos governos mas também já directamente dos bancos dos países em maiores dificuldades); por outro, e mais relevante para o tema deste post, o famoso pacote de estímulo ao crescimento, tão desejado por Hollande, Monti, Rajoy e provavelmente Passos Coelho, o qual prevê 120 mil milhões de euros para, entre outras coisas, a realização de grandes projectos de infra-estruturas. Bingo. Em países com infra-estruturas mais do que suficientes, vai continuar a apostar-se no investimento público em construção. Com sorte, o TGV recomeça dentro de momentos, o aeroporto é só mais um instante e talvez até a terceira auto-estrada Lisboa-Porto ainda venha a ser uma realidade. E há as renováveis mais a sua excelente relação custo-benefício que, até prova em contrário, representam taxas e impostos futuros, à semelhança das SCUT que o Eng. Cravinho garantia (garante?) pagarem-se a si próprias. Apertem os cintos. Vai ser um período de estonteante crescimento. Quer dizer: o crescimento, a existir, até será lento; estonteante (assim tipo montanha russa) vai ser a descida.

 

Adenda 1: A propósito dos custos relacionados com as questões da energia (e das dificuldades que, por histeria política e uma opinião pública impressionável e incapaz de fazer contas, a Alemanha tem pela frente, mesmo sem as «ajudas» dos países do Sul), leiam este post de Victor Tavares Morais no Cachimbo de Magritte. O ponto positivo é algumas empresas portuguesas poderem lucrar; o negativo é que os alemães ficarão cada vez menos propensos a emprestar dinheiro a outrem.

 

Adenda 2: No Jornal de Negócios da passada Sexta-Feira, Pedro Santos Guerreiro avançava a hipótese de a Alemanha estar seriamente a planear a saída do euro. Talvez não de imediato (se nos primeiros anos da moeda única a Alemanha sofreu com a maior rentabilidade que os capitais obtinham no países do Sul, está agora a ganhar por se ter transformado em refúgio) mas num futuro próximo, antes de Espanha e Itália a arrastarem para o fundo, seria um acto de inteligência. Resta saber se haverá coragem política para um tal passo (mas, ei, assim como assim, os alemães já são mal vistos por quase toda a gente). E talvez, como também escreve Santos Guerreiro, a Finlândia dê uma ajuda. Há sinais nesse sentido.

E quem acha piada ao nonsense de alguns «especialistas» é de direita ou de esquerda?


escafandro,

O que é que a forma como nos rimos diz de nós?

Vários estudos provam que o riso espelha a nossa personalidade, como uma impressão digital. Os mais extrovertidos, sociáveis e emocionais tendem a ter um riso mais desinibido, enquanto os mais introvertidos e individualistas são mais discretos. Por exemplo, piadas sobre loiras ou muitos outros estereótipos têm tipicamente uma punchline (conclusão) inesperada. Quem gosta deste tipo de piadas tem geralmente uma ideologia de direita, prefere a simplicidade e vê o mundo a preto e branco. São pessoas que detestam o caos e fazem tudo para que a ordem impere.

E quem não gosta deste tipo de humor?

Por exemplo, se for fã dos Monty Python ou de Gary Larson, estamos perante uma pessoa que prefere o nonsense. Gostar de piadas absurdas implica que se aceite que a realidade é distorcida. Os fãs deste tipo de humor são, normalmente, pessoas mais de esquerda, de mente aberta. Terminei recentemente um estudo sobre preferências musicais e humor e concluí que quem gosta dos Monty Python prefere música clássica e jazz. Os amantes de piadas sobre loiras optam normalmente por música pop mais simplista e previsível. Ou seja, as piadas acabam por ser uma resposta às exigências das pessoas. E isto estende-se à música, pintura e literatura.

Da entrevista de Ana Catarina André a Willibald Ruch, psicólogo austríaco, «um dos maiores especialistas do mundo em riso», na Sábado desta semana.

 

A ver se percebi: como o pessoal de direita gosta de ordem e de simplicidade, aprecia anedotas de louras, enquanto o de esquerda, mais dado à mudança, prefere os Monty Python (és de esquerda, Rui Rocha, e eu também); por outro lado, quem gosta de Monty Python também gosta de jazz e de clássica enquanto quem gosta de anedotas de louras prefere música pop/rock. Ou seja: direita = organização e simplicidade = pop/rock; esquerda = rebeldia = jazz e clássica. É capaz de ter lógica. Afinal, a velha expressão Sex, Drugs and Wagner’s Meistersingers sempre foi conotada com a esquerda. Resta-me apenas uma dúvida: de que quadrante político será uma pessoa que (e isto mesmo aceitando que a Sábado lhe possa ter simplificado as respostas), pesquisa temas tão subtis, fluidos, passíveis de mudanças e de evoluções, como gostos e sentido de humor e depois encaixa as respostas em categorias simplistas e organizadinhas?

Atenção ao hipnotismo dos checos, rapazes…


escafandro,

Nunca se sabe quando poderá resultar. Por via das dúvidas, mantenham os olhos bem fechados durante todo o encontro, ok?

 

My grandfather again, not to fall short of the standard set by Great-grandfather Luke, was a hypnotist who did is act in small circuses, and the whole town saw in his hypnotism nothing more nor less than an ambitious bid to stroll his way through life as idly as possible. But when the Germans crossed our frontier in March to occupy the whole country, and were advancing in the direction of Prague, our grandfather was the only one who went out to meet them, nobody else but our grandfather, and he set out to defy those Germans by means of his hypnotic powers, to hold back the advancing tanks by the force of suggestion. He went striding along highroad with his eyes fixes on the leading tank, the spearhead of that entire motorized army. In this tank, waist-deep in the cabin, stood an officer of the Reich, with a black beret with the death’s-head badge and the crossed bones on his head, and my grandfather kept on going steadily forward, straight towards this tank, with his hands stretched out, and his eyes spraying towards the Germans the thought: ‘Turn round and go back!’

And really, the first tank halted. The whole army stood still. Grandfather touched the leading tank with his outstretched fingers, and kept pouring out towards it the same suggestion: ‘Turn round and go back, turn round and…’ And the lieutenant gave a signal with his pennant, and the tank changed his mind and moved forward, but Grandfather never budged, and the tank ran over him and crushed his head, and after that there was nothing standing in the way of the German army.

Afterwards Dad went out looking for Grandfather’s head. That leading tank was standing motionless outside Prague, waiting for a crane to come and release it, because Grandfather’s head was stuck between the tracks. And the tracks being turned just the way they were, Dad begged to be allowed to free Grandfather’s head and bury it with his body, as was only right for a Christian.

After that there were arguments raging about it all round our district. Some were shouting that Grandfather was a fool, but others retorted that he wasn’t quite such a fool, for if everybody’d taken a stand against the Germans like Grandfather, they said, only with weapons in their hands, who could say how it would have turned out for the Germans?

Bohumil Hrabal, Closely Observed Trains.

(Da edição inglesa da Abacus, com tradução de Edith Pargeter.)

 

P.S.1: Desculpem estar em inglês mas é a única edição que possuo (o livro foi editado em Portugal mas encontra-se esgotado há muito) e não disponho de tempo nem de competência suficientes para me aventurar a traduzir. De qualquer modo, seria pior em checo, não?

 

P.S.2: Para quem tende a preferir versões cinematográficas, há um filme dos anos sessenta baseado neste livro de Hrabal que, para variar, é quase tão bom como o livro. Mas acho que não se encontra disponível cá e a versão existente na Amazon também só tem legendas em inglês.

O essencial, sem rodeios


escafandro,
Devo abordar o essencial. A sociedade contemporânea, aliás, não aceita outra coisa. Nada de dispersão, nada de acessório, apenas e sempre o essencial, qualquer que ele seja a cada instante. Por estes dias, como de resto sucede frequentemente, o essencial é o futebol e, mais especificamente, o campeonato da Europa de futebol (parece que no fim-de-semana passado também ocorreu qualquer coisa importante na Grécia mas, como tende a suceder neste mundo em que apenas o essencial é essencial e poucas coisas são essenciais durante longos períodos, depressa perdeu relevância, podendo ser ignorado até conseguir reunir argumentos para aspirar à essencialidade durante mais algum tempo). Ora sendo o essencial o futebol, eu ainda não escrevi sobre o tema. Na verdade, escrevo até muito pouco sobre futebol. Não pode ser. É preciso que quem escreve em blogues, e especialmente em blogues colectivos, tenha noção de que os interesses das pessoas que lêem blogues, e especialmente blogues colectivos, não são assim tão distintos dos dos cidadãos normais, aqueles que andam demasiado ocupados para ler o que quer que seja a não ser rodapés de noticiários televisivos e etiquetas com indicação de descontos em promoções de hipermercados, e, por conseguinte, também desejam textos sobre os temas essenciais do momento. De resto, torna-se necessário reconhecer que não escrever sobre futebol numa época em que ele é essencial coloca um problema sério a qualquer leitor de blogues: como pode usar a caixa de comentários para elogiar ou criticar as opiniões e previsões de quem escreve (acto absolutamente essencial na blogosfera) se elas não existem (será possível não ter opiniões sobre futebol?) ou não são explicitadas (um perfeito acto de cobardia)? Afinal, até onde julgo poder ir a selecção portuguesa? Considero provável que Ronaldo volte a marcar? Se o fizer, deverá chuchar outra vez no dedo, arriscando o lançamento de uma moda que talvez ainda nos permita ver advogados imitando-lhe o gesto após a absolvição dos seus clientes ou Vítor Gaspar fazendo o mesmo depois da aprovação de mais um pacote de austeridade? Acho que Postiga devia ceder o lugar a Nelson Oliveira – ou deveria perdê-lo para Manoel de Oliveira? Considero as declarações de Manuel José e Carlos Queiroz motivadas por inveja do lugar ocupado por Paulo Bento ou pela capacidade de expressão deste? Prefiro o 4-4-2, o 4-3-3 ou o 4,5-π-(10-4,5-π)? Gostaria que fosse dada oportunidade a Ronaldo para mudar de penteado também durante os encontros e não apenas ao intervalo? É essencial opinar sobre estes assuntos, entrar nas polémicas de peito feito e sorriso franco, à Rui Santos menos os fatos Boss (lamento desiludir-vos, mas encontram-se um tudo-nada acima do meu orçamento), em vez de assobiar para o lado e me limitar a publicar fotografias insossas (já viram a de hoje?) e contos nojentos (leram o da semana passada?). Pois bem, assim farei e é já, a vinte e quatro horas do Portugal – República Checa, tempo suficiente para que se gere discussão inflamada em torno das minhas afirmações (certamente polémicas, ainda que não venham a passar de frases feitas – ou talvez especialmente nesse caso) e abrindo a possibilidade para que, depois do jogo, dezenas de pessoas me possam vir pedir satisfações pelos erros improváveis mas – sou ainda mais humano do que vocês – sempre possíveis. De modo nenhum me deixarei distrair, pondo-me, por exemplo, a imaginar outros confrontos entre portugueses e checos, como Lobo Antunes contra Kafka, Saramago contra Hrabal, Mário de Carvalho contra Hašek ou M. Tavares contra Kundera (teria também usado escritoras mas acabei de perceber com, juro!, genuíno horror que desconheço escritoras checas) quando o verdadeiro e único confronto que interessa é entre Cristiano Ronaldo e Milan Baros. Seria até ridículo fazê-lo, como o são todos os desvios, todos os rodeios, todas as circunvoluções, tendência e defeito apontado muitas vezes aos portugueses mas de forma ó quão injusta, que afinal conseguimos concentrar-nos no essencial tão bem como qualquer outro povo, em particular quando o essencial é o futebol, o que, de resto, já o escrevi mais acima, ocorre muitas vezes, circunstância que já devia ter feito desaparecer o lugar-comum mas convenhamos, num único aparte essencial, que um dos problemas dos lugares-comuns é mesmo esse, demorarem a passar ainda que já não façam sentido. Seja como for, a verdade é que quando o assunto é o essencial e o essencial é o futebol ninguém nos ultrapassa na concentração, ninguém nos faz cair em divagações irrelevantes. Quando o assunto é o essencial, somos campeões – campeões! – muito à frente de quaisquer outros. Por exemplo, considerem a Rússia. A mesma Rússia que entrou neste campeonato cheia de força, ganhando  à República Checa (que, para nossa sorte, já não pode contar com a distribuição de jogo do saudoso Vaclav Havel) por uma cabazada a quase nada e depois se distraiu e acabou de regresso a casa onde, felizmente, o Gulag passou de moda. Estranho? Claro que não. Vêm de longe, as distracções e divagações russas. Lembro-me – e rio-me de comiseração – do livro Almas Mortas, de Gogol, onde a certa altura é organizada uma assembleia para discutir os actos de Chichikov, o tal que anda pelas redondezas a comprar almas mortas (isto é, direitos sobre servos já falecidos). São aventadas diversas hipóteses para tal comportamento mas nenhuma parece satisfatória. De súbito, o director dos Correios, «que até então se mantivera mergulhado não se sabe em que profundos pensamentos», declara que Chichikov só pode ser o capitão Kopeikine. «Sim, nem mais nem menos, o capitão Kopeikine!» Os restantes perguntam: mas quem é o capitão Kopeikine? Chocado por ninguém conhecer o capitão Kopeikine, o director dos Correios ocupa várias páginas a explicar quem é o capitão Kopeikine. Trata-se de um soldado que perdeu um braço e uma perna na campanha de 1812 e que, não conseguindo arranjar emprego nem tendo o pai meios para o sustentar, vai a São Petersburgo pedir ao Czar uma pensão por invalidez. Passadas as dificuldades da viagem, enfrentados os problemas que uma cidade grande e impessoal coloca a um inválido, o capitão Kopeikine lá consegue, após longa espera, uma audiência com um ministro. Este diz-lhe que vai tratar do assunto e pede-lhe para voltar dentro de dias. O capitão Kopeikine fica tão aliviado que vai jantar uma costeleta com molho de alcaparras e um frango à jardineira, acompanhados por uma boa garrafa de vinho, após o que se desloca ao teatro. Dias mais tarde volta a procurar o ministro, que lhe diz não ter ainda uma resposta para ele. Das vezes seguintes, nem sequer consegue falar com o ministro, pois logo à entrada dizem-lhe que nesse dia não há audiências. A situação começa a ficar desesperada e o capitão Kopeikine usa um estratagema para entrar (finge que é acompanhante de um general) e perguntar ao ministro pelo sua pensão. O ministro diz-lhe que nada está decidido e, quando o capitão Kopeikine perde a cabeça e afirma que não sai dali sem uma resposta, o ministro diz-lhe, com inesperada gentileza, que pois muito bem, lhe vai arranjar alojamento. Surge então um homem enorme, com cerca de um metro e noventa de altura, que agarra no capitão Kopeikine e o mete dentro de uma carroça, não se sabe para onde. Sabe-se é que meses mais tarde aparece um bando de salteadores cujo líder não é outro senão… Neste ponto do relato, o chefe da polícia interrompe o director dos Correios. É que, afirmara-o o director dos Correios, o capitão Kopeikine perdera um braço e uma perna; ora Chichikov… O director dos Correios solta um grito, dá uma grande palmada na testa e desfaz-se em desculpas. Claro que Chichikov não pode ser o capitão Kopeikine. Como é possível que o pormenor do braço e da perna a mais lhe tivesse passado despercebido? Enfim: patético, não é? Como são volúveis, os russos, sempre predispostos para a dispersão, nunca centrados no essencial. Nós não. E eu muito menos. É por isso que abordarei sem delongas nem tergiversações o tema do futebol e, mais especificamente, o da participação portuguesa no Euro.

Há-de correr bem.

Otorrino


escafandro,

Isto é capaz de ser um bocadinho comprido para o Delito mas, ei, estamos no fim-de-semana. E, modéstia à parte, é uma história tão bonita…

 

«Pára com isso.»

«Não consigo. É uma sensação horrível. É como borbulhas, aquelas que ficam com crostas e dão vontade de arrancar, sabes?»

E Manuel escarafunchava o interior do nariz com a ponta do dedo mindinho e tirava de lá pedaços de muco seco que rodava entre a ponta do indicador e do polegar até formar bolinhas e depois atirava para o chão, a menos que estivesse em casa e Filomena, a mulher, andasse por perto, caso em que as ia pôr no balde do lixo ou colocava em pedaços de papel que dobrava cuidadosamente e deixava em cima da mesinha em frente ao televisor, de onde por vezes se esquecia de os retirar, tendo que ser Filomena a fazê-lo. Para além de remexer no interior do nariz, Manuel também se esforçava por retirar cera dos ouvidos com a ponta dos indicadores ou dos mindinhos mas menos amiúde e quase sempre com fracos resultados. Tanto fazia estas coisas distraidamente, sentado dentro do seu velho Fiat Uno ou no sofá a ver o Benfica, como outras pessoas acariciam o lóbulo da orelha ou fazem rodar os polegares um em torno do outro, como de modo consciente, mergulhado numa mistura de desespero (por a sensação se lhe ter tornado intolerável) e irritação (por não ter forças suficientes para o evitar). Filomena detestava vê-lo de dedo enfiado no nariz e fartava-se de lhe pedir para se controlar. «Nem à frente dos meus pais páras com isso e sabes como o meu pai fica…» Ele respondia que lhe era impossível, que o impulso depressa se tornava insuportável. «Quando tento controlar-me não fico bem. Fico com uma impressão horrível. Uma comichão no nariz, a sensação de que lá tenho uma coisa estranha, às vezes até parece viva.» Filomena comprou-lhe lenços de papel e cotonetes mas, por muitos esforços que Manuel fizesse para os usar, voltava sempre ao uso dos dedos. «O hábito vem-me desde criança», justificava-se. «Não consigo parar.» Filomena amava-o e ia aguentando. Tentava nem reparar mas quanto mais esforços fazia para não reparar, mais impressão aquilo lhe fazia também a ela. Curiosamente, os períodos em que Manuel estava constipado eram os melhores pois o ranho ficava demasiado líquido para, por um lado, provocar a tal sensação que tanto o incomodava, e por outro, permitir o uso da ponta dos dedos. Quando estava constipado, Manuel era mesmo forçado a utilizar os lenços de papel, que se amontoavam então na mesinha em frente do televisor até Filomena os levar para o lixo.

Estavam casados há três anos e meio e – mais um factor que não ajudava a que o pai dela encarasse Manuel com bons olhos – ainda não tinham filhos quando Manuel perdeu quatro dedos da mão direita na prensa de fabrico de tabuleiros metálicos que operava no emprego. Ele tinha que colocar a chapa na prensa, carregar num pedal para fazer descer a parte móvel e, depois de ela subir novamente, retirar a chapa já com o formato do tabuleiro. Era um trabalho perigoso que Manuel fazia há anos, sempre com imenso cuidado. Prometera a Filomena nunca facilitar. Mas naquele dia distraiu-se e carregou no pedal cedo demais. Da mão direita, só lhe restou o polegar.

Nem assim o hábito desapareceu mas, durante uns tempos, foi-lhe mais difícil extrair cera da orelha direita. Até ao acidente, apenas usava a mão esquerda na orelha do mesmo lado e, se não teve dificuldades em habituar-se a usá-la também no nariz, empregá-la na orelha direita constituiu um desafio muito maior. Porém, não havia escolha: o polegar, único dedo que lhe restava na mão direita, era demasiado grosso para o canal auditivo. Com esforço e perseverança (duas das suas melhores qualidades, todos o reconheciam), lá conseguiu habituar-se. Filomena, que parecera ficar mais perturbada com o acidente do que ele, dizia: «Nem assim deixas de fazer isso…» Mas dizia-o com resignação, não de forma agressiva. Como se, depois do acidente, aquele acto tivesse passado a ser uma coisa sem grande importância. Já o sogro de Manuel, dono de uma pequena e escura oficina de automóveis, passara a encará-lo ainda com mais desprezo: para além de ser pobre, ter aquele hábito asqueroso e não lhe dar um neto, Manuel nem sequer era capaz de evitar perder os dedos numa máquina que, sendo perigosa, era tão fácil de operar.

Regressou ao trabalho dois meses após o acidente, a mão direita transformada num coto espalmado e arredondado, a que o polegar, espetado na parte lateral, parecia nem pertencer. Filomena não queria que ele voltasse a trabalhar na prensa mas Manuel explicou-lhe que, depois da Inspecção do Trabalho e da Seguradora terem levantado imensos problemas ao patrão por causa das questões de falta de segurança (parece que a lei não permitia que as prensas fossem accionadas por pedal sem que existissem meios de protecção da zona perigosa), todas as prensas da empresa haviam sido modificadas e agora eram comandadas através de dois botões que tinham de ser premidos em simultâneo. «Chama-se comando bimanual», explicou Manuel a Filomena. E havia ainda uma barreira fotoeléctrica para garantir que as mãos do operador não estavam na zona perigosa «Se estiverem, a prensa não fecha». As explicações não sossegaram Filomena mas o que podia ela fazer? Os empregos eram escassos e necessitavam do dinheiro do salário dele, uma vez que o dela, funcionária no refeitório da escola secundária da vila, mal chegava para pagar o empréstimo do apartamento.

Passou-se cerca de um ano. Manuel habituou-se a colocar e a retirar a chapa com a mão esquerda e a premir o botão direito do comando bimanual com o polegar. A princípio, o patrão, um homem gorducho de cinquenta e tal anos que também era dono de um dos quatro cafés e do único talho da vila, não gostara da solução dos dois botões porque a cadência de produção revelava-se ligeiramente mais baixa do que com o pedal. Ainda por cima, do acidente resultara uma multa para a empresa e isso trazia-o irritado. Fora uma batelada de dinheiro, «um roubo», queixava-se a quem encontrava pela frente. Fazia até questão de o dizer repetidamente ao próprio Manuel, dando a entender que Manuel estava obrigado a compensá-lo. Uma vez perguntou-lhe: «Então agora como é que fazes para tirar macacos do nariz, Manel? Usas o dedo mindinho da mão esquerda para os dois buracos? Aposto que também demoras mais…» E riu-se com gosto, enquanto Manuel permanecia em silêncio. Todavia, decorrido um par de meses as coisas voltaram a entrar na rotina.

E então, um dia depois da prensa ter estado desligada para operações de manutenção, Manuel ficou sem quatro dedos e meio da mão esquerda: os quatro correspondentes aos que perdera na mão direita e ainda a extremidade do polegar. Como fora possível, quis saber Filomena depois de ele sair do tratamento. A máquina não era segura? Não parava se a mão estivesse lá dentro? Manuel explicou-lhe que os colegas da manutenção tinham deixado os sistemas desactivados. Um esquecimento ou talvez preguiça de ligar tudo outra vez. «Devíamos arranjar um advogado», disse Filomena. Mas não o fizeram. Não tinham dinheiro para isso e o patrão nunca perdoaria a Manuel se o fizesse. Far-lhe-ia a vida negra.

Apesar das perguntas e das referências ao advogado, Filomena encaixou o acontecido como se já o esperasse. Tornou-se mais calada, mais triste, mais resignada. Manuel detestava vê-la assim mas não sabia o que fazer para a animar. Poucos dias depois de sair do hospital percebeu que ela tinha ainda mais razões do que ele pensava para estar assustada, quando se sentou no sofá ao lado dele e, sem rodeios, lhe comunicou que estava grávida. Então Manuel ficou pelo menos tão assustado como ela.

Mas, inesperadamente, o acidente acabou por ter consequências positivas. Manuel, que, na sequência do primeiro, já recebia uma pequena pensão por incapacidade, foi considerado inapto para o trabalho (o que lhe permitiu evitar o ex-patrão, outra vez às voltas com a Inspecção e mais irritado do que nunca) e passou a receber uma pensão quase igual ao salário. Apesar disso, ainda tentou arranjar outro emprego, de modo a aumentar o rendimento agora que a família ia crescer, mas ninguém se dispôs a aceitar um trabalhador com apenas um polegar e meio no conjunto das duas mãos. Assim, ficava em casa, sentado a ver televisão enquanto Filomena ia para o emprego. O sogro não gostava de o saber inactivo enquanto a filha, grávida, continuava a trabalhar («Lá por não ter dedos, não quer dizer que não possa fazer qualquer coisa; prefere é ficar de papo para o ar a coçar os tomates», ouviu-o dizer uma vez) mas, de forma geral, a gravidez da filha deixara-o menos agressivo. Pelo que o maior problema de Manuel, o problema que lhe ocupava os dias e o desesperava, era ser-lhe agora quase impossível escarafunchar nariz e ouvidos. De facto, sem acessórios era mesmo totalmente impossível. E as cotonetes, que já antes não resultavam, haviam-se tornado ainda mais inúteis, devido à dificuldade que ele tinha em manejá-las. Experimentou segurá-las de todas as maneiras possíveis (entre o polegar direito e palma da mão direita, entre o polegar direito e o coto do polegar esquerdo, entre o polegar direito e a palma da mão esquerda, entre o coto do polegar esquerdo e a palma da mão direita com o polegar direito arqueado por cima do coto do polegar esquerdo de modo a providenciar um acréscimo de estabilidade, entre ambas as palmas) mas nenhuma resultava. Quando, no final do dia, Filomena chegava, cansada, corada e cada vez mais redonda, Manuel encontrava-se sempre à beira do desespero. E então, porque o amava e não suportava vê-lo sofrer, Filomena sentava-se junto dele e, com os seus dedos finos terminados em unhas que fazia questão de arranjar pelo menos todos os domingos à noite, antes da hora de dormir, passava vários minutos a extrair-lhe burriés do nariz e cera dos ouvidos. Depois ia lavar as mãos e fazer o jantar.

 

(Também aqui.)

Dívidas e democracia


escafandro,

A frase de Rui Rio segundo a qual as câmaras endividadas não deviam ter eleições, que, muito justamente, o Pedro Correia já colocou nas frases do ano, parte de um pressuposto correcto e é útil para lançar o debate mas aponta uma má solução. Diz Rio que o excessivo endividamento limita as opções de qualquer executivo saído de eleições, o qual não poderá aplicar o programa em que acredita, pelo que mais valia ser nomeada uma «comissão administrativa para a gestão corrente», encarregue de colocar as contas em ordem, após o que se realizariam então as eleições. À primeira vista (e talvez à segunda e à terceira), esta parece uma solução pouco democrática. Mas convenhamos que, na situação actual, a democracia também não vai muito para além de um acto formal sem grandes resultados práticos, uma vez que, como diz Rio, as dificuldades financeiras acabam por impor determinadas políticas, deixando pouca margem para escolhas. Quem vem a seguir, limita-se a (tentar) arrumar a casa, muitas vezes sob vigilância superior. Ou seja: a democracia, enquanto possibilidade de mudança, já está a ser destruída – por quem gera a dívida. (Obviamente, isto não se aplica apenas ao nível local mas também ao regional e nacional.) Ainda assim, tendo Rui Rio razão no diagnóstico, talvez exista uma solução preferível àquela que propôs: a perda de mandato automática e a proibição de recandidatura nas eleições seguintes para quem permitir que seja ultrapassado um determinado nível de endividamento (ou, para as Câmaras já acima desse limite no momento de início de mandato, que gere ainda mais dívida em vez de a diminuir). Tratar-se-ia de um método simples e claro, conhecido à partida por todos, eleitos e eleitores. A dificuldade seria fazer aprovar a lei (provavelmente exigiria uma revisão constitucional) e o risco, claro, podermos ficar rapidamente com quase todos os políticos actuais impedidos de concorrer a eleições. O que, bem vistas as coisas, talvez não fosse negativo.

 

Adenda

Gostaria ainda de salientar outra posição de Rui Rio, com a qual estou cem por cento de acordo: nenhum líder que tenha aumentado a dívida da sua autarquia devia ser autorizado pelo seu partido (seu, dele, líder autárquico) a candidatar-se de novo, à mesma ou a qualquer outra autarquia. Mas para isso era preciso que os partidos se preocupassem mais com o país do que com os jogos de poder. Não vou, pois, reter o fôlego à espera de que tal aconteça. Como, estou certo, não o fará Rio.

Inquérito aos clientes


escafandro,

O Portugal – Dinamarca terminou há um par de minutos (3-2! Yes!) e impõe-se uma pergunta às oitenta pessoas que aqui vieram na última hora (quase todas a partir de locais em Portugal). Fizeram-no porque:

1. Detestam mesmo futebol;

2. Vivem cá mas não são portugueses (nem dinamarqueses);

3. Têm o televisor avariado e não têm cafés, familiares ou amigos por perto;

4. A PT cortou outra vez o acesso à Televisão Digital na vossa zona;

5. Outra; por favor, especifiquem.

Muito obrigado. O nosso objectivo é providenciar um serviço cada vez melhor.