Urgências


escafandro,

É um contra-senso: as urgências de um centro de saúde ou de um hospital, em especial durante a noite, em especial no interior do país, são locais não de movimento e urgência mas de espera, monotonia e burocracia atrozes; de desamparo, resignação e indiferença. O objectivo de quem ali trabalha – em particular do pessoal clínico, quase todo «desterrado» contra vontade – parece ser despachar quem ali chega tão depressa quanto possível, após realização dos testes mais básicos, ainda que isso signifique combater apenas os sintomas e não as causas, ainda que isso signifique abrir a porta a nova visita do mesmo paciente dias – ou horas – mais tarde. Não por maldade – pelo, menos não explícita (de resto, na maioria das vezes o que é a maldade senão uma lógica inflexível?) – mas por uma inércia muito característica, por um cansaço desconfiado feito de desilusão e agressividade, e também por regras que a crise, para além de impor, ajuda a utilizar como desculpa. E nas feias salas de espera, a que cartazes ensinando a lavar as mãos ou a espirrar para o braço acrescentam um enjoativo toque de boas intenções, acompanhantes (quase sempre familiares) arrancados à normalidade por um grito, pelo ruído de uma queda ou por um telefonema e metidos à força no enredo de O Castelo, de Kafka (num mundo de mil e uma regras com uma lógica difícil de contestar, regras que dão ideia de terem sido elaboradas para que ninguém fora do sistema as possa usar a seu favor: a burocracia – e recordemos o pormenor de Kafka a conhecer bem, funcionário que era de uma Companhia de Seguros – é a mais subtil representação e também a melhor forma de preservação do totalitarismo, seja ele evidente e sanguinário, seja na versão bufa, assente na diferença de poder e de conhecimento – no respeitinho, em suma – que impera nos mais variados sítios), nas tais salas de espera esses acompanhantes imaginam cartas de reclamação que são levadas a sério e acabam em castigos ou despedimentos e processos legais (como os que se vêem nos filmes e nas séries de televisão norte-americanas) que acabam em pesadas indemnizações, apenas para esbarrarem, até mesmo dentro da fantasia, nas realidades não menos kafkianas de como as castas se auto-protegem e de como a Justiça portuguesa não funciona. E então pensam em denúncias à TVI, que as coisas só se resolvem quando aparecem na televisão, mas rapidamente percebem que apenas se o familiar morrer o caso terá interesse para as televisões e acabam por limitar-se a levá-lo para casa (de resto, é o que ele, humilhado e a transbordar de analgésicos, deseja) e a tentar dormir umas horas. Até o grito ou o ruído da queda ou o telefonema os retirar novamente da rotina e todo o processo se repetir.

 

Adenda: Se puderem, evitem as urgências do hospital da Guarda.

15 comentários em “Urgências”

  1. Receita para privatisar:

    1) desinvestir num serviço e criar regras para o seu acesso, até que aquele se torne ineficiente e inacessível.

    2)Publicar opinião salientando a ineficiência do serviço.

    3)Fechar o serviço.

    4)Abrir o mesmo, ou outro novo, agora sob gestão privada “para servir as populações”.

    1. Meu caro: este post foi escrito por experiências pessoais (mas por que muita gente passa) e não me apetece entrar em polémicas. Um destes dias ainda hei-de escrever sobre o sistema de saúde numa perspectiva política – mas não hoje. Hoje, digamos apenas que, por várias razões (mas acima de tudo para conter os excessos que sempre ocorrem quando os privados são deixados demasiado à solta, em especial quando a concorrência é reduzida), defendo um sistema público forte – mas não vejo por que há-de este ser mais caro e/ou prestar pior serviço do que qualquer sistema privado.

  2. Há uns anos levei com uns amigos outro amigo que tinha levado com uma tampa de porta bagagem ao fechar na cabeça por acidente às urgências Hospital de Santa Maria. De maus modos e mesmo depois de explicarmos o que aconteceu a recepcionista colocou como causa : violência. O meu amigo que é preto ficou como um caso de violência na base de dados do Hospital…também não estava ninguém muito preocupado que ele estivesse a sangrar da cabeça.

  3. Belo texto, triste, tão triste como real, palavras de quem já por lá passou e voltará a passar, sem alternativa.

    E ao longo dos anos, especialmente no passado recente tem definhado – demasiadas histórias neste Portugal real, demasiadas…

    Fique bem.

  4. Tudo tão tristemente verdadeiro…
    A sala de espera das urgências de um hospital é quase sempre, tens razão, um quadro kafkiano. Mas talvez o que mais me dê a volta ao estômago, mais do que a agressividade explícita (essa pode e deve ser respondida à letra) é aquela mania portuguesa de tratar os doentes como se fossem crianças retardadas. Além da dor, do medo e do desconforto, ainda têm de levar com a humilhação. E o pior é que têm de engolir os intermináveis diminutivozinhos sem apelo nem agravo, porque tudo isso é feito com a melhor das intenções.

    1. Na maior parte das vezes a agressividade não é explícita, Ana. É mais apatia ou indiferença. E tens razão, essa tendência para tratar os doentes como retardados é extremamente irritante. Ainda por cima quando muitos – em especial os mais idosos – ainda encaram o pessoal médico com um respeito tremendo e são incapazes de marcar uma posição. E claro que isso é aproveitado. Muitas vezes as coisas apenas mexem quando um acompanhante começa a exigir explicações e se percebe que talvez ele possa arranjar problemas.

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