Ra(n)ting


escafandro,

Parte 1

Sobre a lógica da decisão da Moody’s

 

1. A decisão da Moody’s de colocar a dívida alemã (juntamente com a holandesa e luxemburguesa) sob vigilância, com perspectiva negativa, não é surpreendente, apenas lógica. A dívida pública alemã encontra-se acima dos 80% e, de uma forma ou de outra (isto é, quer o euro sobreviva, quer não), a Alemanha enfrentará sérias dificuldades nos próximos tempos.

 

2. Tal como a situação se apresenta (países em dificuldades sem capacidade para implementar verdadeiras reformas – e não apenas aumentos de impostos e cortes de salários – e clima pouco propício a ajuda incondicional nos países ainda em situação razoável), não há razão para estar optimista. Se o euro se dividir em duas ou mais moedas, a valorização da nova moeda alemã e o colapso dos mercados nos países do Sul farão com que a economia alemã tenha uma contracção significativa. Apesar de a nova moeda tornar a dívida mais barata, a diminuição de receitas e o aumento de despesas (com subsídios de desemprego, por exemplo) agravará o défice. O que agravará a dívida. Etc.

 

3. Mas ainda que, mal saídos do esforço (longe de consensual) da reunificação, os alemães ficassem subitamente dispostos a apoiar sem reservas os países do Sul, dificilmente a Alemanha teria capacidade para salvar Espanha e Itália.

3.1. Bom, mas talvez não fosse preciso dinheiro real, talvez bastassem garantias de que os alemães estavam dispostos a isso para que os investidores voltassem a acorrer aos leilões de dívida pública dos países do Sul, baixando o nível das taxas de juro. A Alemanha (e os outros países recalcitrantes) apenas teriam, por exemplo, de fazer do BCE um lender of last resort. Pois, talvez chegasse. Ou talvez não. Por um lado, pedir emprestado a dois ou três por cento ainda seria aumentar a dívida acima do crescimento económico previsível nos próximos tempos. Por outro, para funcionar, qualquer garantia precisa de ser credível. E os mercados costumam fazer o teste.

3.2. Se/quando os investidores não acorressem em massa, o BCE teria então de começar a imprimir montes de dinheiro fresco, emprestando-o baratinho aos países em dificuldades. O resultado prático disso seria fazer crescer o esquema de Ponzi em que a economia europeia está transformada (se companhia na desgraça serve de consolo a alguém, várias outras estão em situação parecida). Não há, nos países europeus em dificuldades, forma de extrair crescimento sustentável desse dinheiro: apoiar sectores que cresceram artificialmente (como a construção e o imobiliário) através de incentivos à construção ou à compra de imóveis seria deitar o dinheiro fora; teimar no investimento público quando o nível de infra-estruturas já é excelente, não seria muito melhor (parece, aliás, que Hollande, esse Messias da Europa, começa a percebê-lo – mas felizmente conhece outros métodos infalíveis para vencer a crise, como proibir empresas privadas com prejuízos de despedir trabalhadores); aproveitar o dinheiro para manter satisfeitos os funcionários de sectores públicos pesados e ineficientes geraria apenas o que tem gerado: dívida pública e sectores públicos ainda mais pesados, ineficientes – e difíceis de reformar. Etc., etc., etc. Entretanto, o nível de consumo recuperaria alguma coisa, com efeito positivo na receita pública mas efeito negativo na balança comercial dos países que costumam tê-la precisamente assim: negativa (por exemplo, Portugal, Espanha e França; cliquem no nome do país e depois no indicador balance of trade). E teríamos ainda os riscos de inflação que, mais cedo ou mais tarde, haviam de passar a realidade, levando à perda do poder de compra de todos os cidadãos da zona euro. É verdade que as exportações para fora da zona euro ficariam mais competitivas, o que provavelmente faria a economia alemã sobreaquecer, tornando real o maior pesadelo dos ministros das finanças por lá (na verdade, a cotação actual do euro até já é demasiado baixa para a economia alemã actual). Mas, no fundo, tanta conversa é desnecessária: todos sabemos que os esquemas de Ponzi têm um final desagradável – e tanto mais desagradável quanto mais tempo duram.

 

Parte 2

Sobre outros pontos relacionados com as agências de rating

 

1. As agências de rating seriam irrelevantes se os Estados não estivessem tão dependentes de dinheiro emprestado. Mas que governo faz contas enquanto o rating permanece Triplo A?

 

2. Como ficou evidente na questão do subprime, a verdadeira falha das agências é demorarem demasiado tempo a baixar os ratings. Mas que as acusemos de algo num caso e queiramos o contrário no outro é apenas natural: agora somos accionistas.

 

3. Há quem defenda a criação de novas agências e quem defenda regulação das actuais. Nada tenho contra a primeira hipótese, excepto se estivermos a falar de usar dinheiro público: uma agência ligada a um governo ou a um bloco económico terá tanta credibilidade como uma declaração de Durão Barroso ou Jean-Claude Juncker. Será mais dinheiro deitado fora. A questão da regulação passa por saber quem regularia e com base em que critérios. Mas convém estar ciente de que, se estes fossem objectivos (o défice, a dívida, as perspectivas de crescimento económico, …), os ratings dos países europeus seriam neste momento… mais ou menos os mesmos. Em alguns casos, piores.

 

4. E daí talvez eu esteja enganado. Talvez outras agências que não as três do costume possam ser mais fiáveis. Relembre-se o que a chinesa Dagong (existirão mecanismos de controlo estatal na China?) fez aos ratings europeus há já dois anos.

 

5. Em teoria, desejamos independência e objectividade; na prática, clamamos por controlo governamental de tudo e de todos. As agências podem parecer servir interesses especulativos e até funcionar mal – mas seria melhor um sistema em que os endividados se auto-avaliassem? E veja-se o caso do BCE. A independência e os objectivos do BCE destinam-se a manter condições estáveis, conhecidas por todos. Para o BCE, não é nem deve ser relevante se existem diferenças de rendimento entre países da zona euro. Essa é uma questão para os governos, que devem enfrentá-la com os instrumentos de que dispõem (subindo ou baixando impostos, aumentando ou diminuindo o peso do Estado, criando ou eliminando mecanismos de protecção social, etc.). E, no entanto, o BCE é criticado diariamente por não ajudar a resolver as dificuldades de alguns países (sendo que, de formas ínvias, até o tem vindo a tentar fazer). Percebe-se: acusar o BCE (ou a chanceler Merkel) é mais fácil para os políticos. Esconde-lhes as incapacidades. E como toda a gente está mais do que disposta a pensar mal dos banqueiros… Ou seja: na verdade, não desejamos mecanismos independentes, para as agências de rating ou para o que quer que seja. Desejamos que nos façam a vontade, em função do que, em cada momento e numa perspectiva de curto prazo, nos parece ser o caminho mais fácil.

10 comentários em “Ra(n)ting”

  1. A questão, de facto, não são as agências de rating, embora haja muito que dizer relativamente a elas, até pelo facto de serem quase todas americanas e propriedade de gente com importantes e específicos interesses no mundo das finanças e dos negócios. Ou seja, não valem unicamente por si e pelo papel que supostamente desempenham.
    As pessoas pensam mal dos banqueiros por muitas e boas razões… A começar por aquela coisa do subprime, lembra-se?, que originou toda esta chatice em que o mundo está mergulhado. Passando por muitos outros empréstimos e investimentos mal feitos. Mais do que isso, propositadamente mal feitos, apenas com o intuito dos lucros imediatos. Verdadeiros negócios “à cigano”, no sentido em que os seus autores os fizeram apesar de saberem que inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo, seriam desmascarados. Obviamente, por estarem convencidos de que “o crime compensa”. E não tem compensado? Agora, com o argumento de que os bancos não podem falir, o desgraçado do contribuinte vê serem desviadas de áreas essenciais verbas astronómicas para os refinanciar, sem que no entanto os possa obrigar a mudar de rumo.
    Quanto aos EUA, são “só” de, longe, o país com a maior dívida do mundo. Portanto, quanto àquela conversa com que nós, portugueses, somos constantemente bombardeados pelas nossas “melhores cabeças”, a de que andámos a viver acima das nossas possibilidades, estamos conversados. Eu não andei, seguramente. E se tivesse andado, as dívidas eram minhas. As que ando a pagar não fui eu que as fiz, nem autorizei ninguém a fazê-las por mim.
    O deficit de Portugal, bem como o dos outros países europeus, é o superavit da Alemanha. Os alemães não podem ter o melhor de dois mundos: por um lado invadir a Europa com os seus produtos, e por outro querer que estes equilibrem a sua balança de pagamentos.
    O capitalismo triunfante não foi, como se comprova, o fim da história. A economia de mercado é o caminho, mas tem que haver regulação. Os governos têm que desempenhar o seu papel e os agentes económicos não podem ser deixados entregues a si próprios. A distribuição da riqueza tem que ser mais justa. Este aparente retrocesso civilizacional a que assistimos não nos levará seguramente a bom porto…

    1. “As que ando a pagar não fui eu que as fiz, nem autorizei ninguém a fazê-las por mim.”

      Esteve e está contra o défice?
      Autorizou pois a Constituição Portuguesa “caminho para o socialismo” dá todo o poder sobre a dívida e o défice aos políticos eleitos. A Democracia não tem o contraponto da Republica a limitar a Dívida e o Défice acima de determinado valor.
      O Estado Português e os seus representantes políticos são livres de endividar os portugueses como quiserem.
      Têm mandato político. Apesar de terem assinado os acordos de Maastrich a comprometerem-se que o défice max é de 3% e a dívida max 60% nenhum juiz do constitucional se preocupou…

      E como a população é ignorante fruto do Ensino Publico- quantos vão ver o valor da dívida a crescer ao site do http://www.igcp.pt/gca/index.php?id=1173?
      Nem sequer faz parte dos temas das eleições…

      De qualquer modo estranho a sua posição de estar contra o défice uma vez que é de esquerda.
      O Défice paga 20% dos gastos do Estado -quando défice é de 10% do PIB – uma vez que o Estado gasta 50% do PIB por isso se não quer nova dívida e acho muito bem que não queira então tem cortar 20% de gastos do estado: Pensões, Ordenados de Funcionários Públicos, Orçamento dos Ministérios , e todos os outros gastos. Tudo cortado em 1/5 depois como tem menos dinheiro no país uma vez que não há dinheiro da dívida deve contar ainda com uma contracção da economia. E aí chegou ao nível básico de sustentabilidade onde não terá os altos e baixos da especulação do Estado Socialista.

      Ou seja um recuo da prosperidade dos portugueses aos anos 90 – sem contar com a evolução tecnológica ou seja ficaremos sempre melhor que os anos 90.
      Isto se não fizerem nada estúpido.

      1. Acha estranha a minha posição de estar contra o défice por ser de esquerda?
        Essa é boa!
        A França foi durante uma data de anos governada pela direita. A Alemanha também. A Itália também. A Grécia também. O Japão também. Todos estes países têm dívidas enormes. Sim, incluindo a Alemanha. Os EUA têm a maior dívida do mundo e nem sabem o que significa “esquerda”.
        O crescimento baseado no consumo desenfreado foi uma invenção do capitalismo, na sua versão neoliberalista. As PPP foram inventadas pela Tatcher. Os bancos provocaram o subprime. Em Portugal, a democracia de sucesso baseada na venda de electrodomésticos foi uma invenção do Cavaco. Durante anos, as casas dos portugueses foram invadidas com publicidade enganosa dos bancos a apelar ao consumo. O que é que tudo isto que acabei de referir tem que ver com a esquerda? Agora cortam no SNS e na Educação, que eram das poucas coisas que funcionavam bem neste País, mas a raiz do nosso problema é outra.
        Os nossos governantes, com Cavaco à cabeça, destruíram o nosso tecido produtivo em troca dos milhões da Europa, que serviram para investir em imobiliário, com muita especulação à mistura, autoestradas e muitos artigos de luxo. Desde a nossa entrada na CEE passámos a importar muito mais e a produzir cada vez menos.
        Eu não defendo que as pessoas vivam “à mama” do Estado, quer sejam os que não querem trabalhar (ex.: RSI), quer sejam os grandes empresários (ex.: PPP ou BPN).
        Agora, é preciso ter uma grande lata para acusar a esquerda de ter provocado este caos no Mundo.
        Tudo isto é a consequência inevitável da desregulação quase total do sistema capitalista triunfante da guerra fria. Eu defendo a economia de mercado, mas com regulação.
        Foi a industrialização que permitiu o extraordinário desenvolvimento do mundo ocidental e é a desindustrialização que está a provocar a sua queda. Porquê? Por causa da ganância dos empresários, que deslocalizaram as suas empresas para a China, a fim de beneficiarem de uma mão-de-obra abundante e quase escrava. Hipócritas, como quase sempre são os homens de negócios, estiveram-se lixando para o facto de aquilo ser uma ditadura, ainda por cima COMUNISTA. Agora, estamos TODOS a pagar o preço dessa ganância de ALGUNS. Repito: o que é que tudo isto tem que ver com a esquerda?

    2. O mundo está mergulhado? Os Piigs – com a Irlanda já a sair – estão mergulhados.
      Nunca ouvi falar em crise na Dinamarca ou na Suécia, na Alemanha ou em Singapura.

  2. “Como ficou evidente na questão do subprime, a verdadeira falha das agências é demorarem demasiado tempo a baixar os ratings.”

    Óbvio. Especialmente as agências beneficiadas pela regulação.
    Veja-se como elas não descobriram a tempo o subprime tuga, ou grego, ou espanhol. Mas aí já não há queixas…

    “Pois, talvez chegasse. Ou talvez não.”
    Nem pensar.

    A Especulação Financeira dos Estados, impressão de moeda, QE etc – estranho como os jornalistas já não chamam Especulação Financeira quando é feita pelos Políticos não é? – não resolverá alguma coisa pois o problema vai muito além da dívida.
    A dívida é só um sintoma do aproximar do fim do sistema político socialista-social democrata que temos: Onde X vota em A para tirar a Y. De 80 para cá o Estado na maior parte do Ocidente passou de 30% para mais de 50%.
    Os Estados Ocidentais são na sua maioria insustentáveis.
    Isto é só foi possível porque o Poder Político Democrático pode tirar sem limite aos cidadãos que criam riqueza quer directamente: via impostos quer em diferido via dívida: futuros impostos.

    Pois no nosso sistema só existe Democracia Económica, a Republica está só reservada para alguns direitos e liberdades não existe Republica Económica.
    Ou seja temos Republicas só com uma perna.

    Só com Republica Económica que limite o que o Estado pode intervir na economia das pessoas é que o jogo de compra de votos com o dinheiro dos outros terá um limite.

    Mas como se vê pela maior parte dos textos e comentários nunca lá chegaremos num tempo próximo. Logo tudo ficará muito pior durante bastante tempo.

    Em 2013 teremos os EUA a começarem a bater na parede…demonstrando a falha dos Founding Fathers quando desenharam a Republica. Só tem uma perna.

  3. O problema então não tem solução.
    Será correcto dizer que o ciclo de desenvolvimento e prosperidade que vivemos até há pouco tempo atrás, ciclo esse, que ainda muitos acreditam, de não se tratar de um ciclo, (crêem que é movimento infinito e irreversível) esta chegando ao fim?

  4. Na parte 2, falta acrescentar que, se aquelas três agências de rating — porque há muitas outras no mundo — têm tanta importância, isso é em parte porque foram colocadas no pedestal pelos reguladores (dos fundos de pensões, etc), que estatutariamente exigem que certos investimentos tenham um rating na agência Y de pelo menos X. Um tal tipo de regulação coloca automaticamente a agência Y como particularmente importante.
    Ou seja, são os próprios reguladores quem decidiu tornar aquelas três agências peculiarmente importantes.

    1. Sim. E por isso deram montes AAA por aí.
      E quando as Dívidas Publicas começaram a ser maiores que 60% do PIB que devemos lembrar os países da UE se comprometeram a respeitar as 3 agências em vez de baixarem os ratings dos países continuaram a olhar para o lado a esta quebra de confiança grave.
      Só acordaram quando chegou aos 80 e 90%.

      Ouvir a esquerda é de fartar a rir.
      A esquerda não teve nenhum problema quando as agências de rating nada disseram quando as dívidas ultrapassaram o valor dos compromissos.
      O subprime agora é mau mas a esquerda fez tudo para que acontecesse, se os bancos não dessem crédito a todos era discriminação.
      Os bancos claro na sua maioria claro esfregaram as mãos de contentes num sistema que está desenhado para viver para o presente: mais crédito> mais negócios> mais lucros.
      Nos EUA as empresas semi-publicas de estímulo do mercado de habitação -Fannie Mae e Freddie Mac- compravam uma boa parte das hipotecas servindo elas de estímulo à bolha, mais uma vez com o apoio da esquerda e neste caso também da direita que ainda assim alguns membros avisaram para o que vinha.
      Agora a esquerda apunhala nas costas as agências de rating que a ajudaram tanto a ter défices cada vez maiores e a expandir o crédito.

      O consenso generalizado entre a esquerda e direita para a facilitação do crédito criou a bolha.
      Os únicos gritos contra vinham dos liberais tendência austríaca e de um ou outro mais circunspecto. Não têm voz nenhuma relevante no mundo monocultural dos media. Os media estão mais preocupados com o aquecimento global e apoiar qualquer outra ideia que implique controlar a vida das pessoas.

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