RTP (2)


escafandro,

1. Ajudada pela restante comunicação social, pouco interessada no aumento da concorrência, e pelo Partido Socialista (já lá vamos), a RTP tem-se esforçado por passar a ideia de que dá lucro. Não dá. A RTP, cuja situação financeira na última década melhorou muito mais à custa de transferências obscenas de dinheiro público do que por mérito próprio (ainda que algum seja de admitir), exige anual e directamente (isto é, sem as transferências do orçamento do Estado) 140 milhões de euros aos contribuintes. Uma empresa que necessita de injecções anuais de dinheiro dos accionistas não dá lucro. Aliás, seguindo esta lógica, seria sempre possível fazer com que a RTP desse lucro: bastaria ir ajustando a taxa do audiovisual na proporção adequada.

 

2. Politicamente, a actuação do governo tem sido desastrosa: hesitante, incoerente, fazendo avançar quem se devia manter em silêncio e recuar quem devia dar a cara; já a actuação do PS tem sido simplesmente vergonhosa: sabemos que as promessas são baratas e que o povo costuma apreciá-las, mas contestar soluções como se os problemas não existissem é a táctica mais básica que um partido pode utilizar. A parte positiva é nem valer a pena perder muito tempo com as intenções de Seguro e companheiros: tão cedo não haverá dinheiro para repor o que quer que seja.

 

3. A RTP é um luxo demasiado caro para um país falido, mesmo no cenário cor-de-rosa (perdão: cor-de-laranja) de «só» lhe custar 140 milhões de euros por ano. Mas, ainda que os portugueses aceitassem continuar a pagá-los para receber parte daquilo que a RTP hoje lhes fornece (e apenas parte, visto o cenário do «equilíbrio» pressupor apenas um canal), o risco de derrapagens futuras, que, seja qual for o modelo escolhido (de concessão a privados ou de empresa pública), o contribuinte acabaria pagando, é demasiado real. Também por isso se torna crucial diminuir o nível de custos.

 

4. A Constituição Portuguesa, esse texto pejado de incongruências que, nas actuais circunstâncias, o PS, necessitado de parecer um partido de esquerda, nunca aceitará rever, obriga a que exista um serviço público televisivo. Fica assim estabelecido um custo para os contribuintes. Resta saber o que é isso de «serviço público», para depois se poder avaliar quanto dinheiro é preciso. Constituirá a informação serviço público quando ela está disponível noutros canais e é cada vez mais obtida por outros meios? E as novelas? Os concursos? Os programas humorísticos? As transmissões de jogos de futebol (e de tudo o que os antecede e das intermináveis análises que se lhes seguem)? Programas de música como o Top Mais? E, permitam-me uma pergunta de algibeira, que canal associariam mais depressa a documentários de qualidade, a RTP1 ou a SIC? No fundo, da programação actual da RTP1, o que não se obtém noutros canais de sinal aberto? O Prós e Contras? OK, salvemos a Fatinha. Constatada esta realidade, torna-se muito mais fácil chegar aos únicos modelos simultaneamente lógicos e que permitem poupar dinheiro aos contribuintes.

 

5. Com esse ou outro nome, a RTP2 permanece um canal público, dedicando-se essencialmente a conteúdos alternativos: filmes antigos e/ou pouco comerciais, teatro (por que desapareceu dos ecrãs?), música, documentários, debates, magazines de divulgação cultural, desporto amador, etc. Talvez um par de espaços informativos por dia mas com imagens que poderiam muito bem ser fornecidas pelos operadores privados (por acordo entre estes, concurso público, whatever). Custando actualmente a RTP2 cerca de 40 milhões de euros, não há razões para o novo canal custar muito mais (até porque, não concorrendo verdadeiramente com os privados, deveria estar livre para recolher algumas receitas publicitárias). Mas, considerando ainda outros custos (por exemplo, a questão da manutenção do arquivo da RTP), admitamos como razoável um orçamento de 60 a 70 milhões de euros. Este valor permitiria não só evitar transferências do orçamento de Estado como reduzir para metade a taxa do audiovisual, o que, para um governo que começou por alardear convicções liberais, devia constituir um incentivo (antes) e um motivo de orgulho (depois).

 

6. Resta a questão da RTP1, para a qual há duas soluções: privatização ou fecho. Pessoalmente, gostaria de ver o mercado funcionar; se o Estado conseguisse uma oferta razoável, excelente (não estamos em tempo de desperdiçar dinheiro). Mas, claro, isso exigiria aceitar a hipótese de um canal televisivo de acesso geral vir a ser controlado por estrangeiros (sejamos directos: por angolanos) e de o mercado publicitário não chegar para todos os players (é assim que se diz, não é?). Como, por cá, preferimos «almofadar» as decisões e não chatear empresários instalados, talvez a melhor opção seja partir desde já para o encerramento. Necessitando o novo canal público de muito menos gente, de muito menos equipamento e de instalações muito mais modestas (boa parte dos conteúdos deveria ser contratada a empresas externas, de modo a permitir ajustar mais facilmente os gastos ao orçamento disponível), as indemnizações aos funcionários da RTP seriam compensadas pela venda do edifício e do equipamento da RTP.

 

 7. Nah, por agora chega.

35 comentários em “RTP (2)”

  1. Esta do Canal Parlamento em sinal aberto…
    estou cá com um pressentimento de que está para breve a saída de um coelho da cartola. Vamos ver se este domingo temos um “show” de magia, daqueles de cair o queixo.

  2. O que o Conselho de Administração veio dizer foi que a avaliar pela evolução das contas da RTP a sustentabilidade da empresa seria viável a prazo. O governo é que veio falar de 20 milhões de lucro. Ora se o governo avança com esse argumento é legítimo perguntarmo-nos então porquê privatizar, sabendo que a entrada de mais um canal no mercado irá agravar a crise que já afecta o sector da comunicação social.
    Quanto ao resto, do ponto 3 ao ponto 5 esperneaste, mas depois chegaste lá: é possível ter um canal de serviço público (que dê acesso à sociedade civil e bailado e ópera e teatro e ciclos de cinema clássico e visibilidade a iniciativas culturais e outras para que os canais comerciais se estão positivamente nas tintas) baratinho. Boa!

    1. Quem falou em 20 milhões de lucro foi o EXpreso …da SIC!

      Serviços Publicos:

      TVI transmite missa dominical
      Futebol
      Fatima
      Novelas
      Touradas
      SIC
      Debates
      documentários dos melhores
      Etc
      Que diferenças?
      Diga-nos

      1. É isso mesmo. O serviço, dito público, facultado pela RTP é parco para custos tão escandalosamente avultados. Há, no entanto, algumas rubricas interessantes na RTP 2, que tenho seguido, e muito poucas na 1.

    2. “O que o Conselho de Administração veio dizer foi que a avaliar pela evolução das contas da RTP a sustentabilidade da empresa seria viável a prazo.”

      A RTP é viável com 300-400 milhões de Euros dos contribuintes via impostos todos os anos e dados pelos políticos para manterem a RTP em rédea curta e os mais de 100 milhões de contribuição audiovisual. Quer contribuir para esse bolo, faça favor. Quem não quer também deve ter o direito de não contribuir.

  3. Dúvidas sobre o serviço público?? Ler e seguir estas sugestões. Além do mais não tenho que pagar a privados por isso.

    1. Pelo menos o homem é de uma candura desarmante, M. Martins. Obrigado pela parte que me toca. Já agora, eu não tenho nada contra modelos de concessão nem contra privados mas penso que uma empresa pública pequena que subcontrate muitos dos conteúdos (de forma a manter-se pequena e a gerir disponibilidades financeiras) pode sair mais barata do que um serviço genérico atribuído a uma estação privada em troca de um montante previamente acordado.

  4. Concordo com o seu ponto 5, mas como sabe não é essa a intenção deste governo…
    Aponta-se muito o foco na informação, quando se fala de serviço público, quando o canal 2, hoje em dia, é o melhor exemplo do que é serviço público em televisão. A informação está lá, mas acima de tudo temos tempo disponível dedicado às minorias, sejam eles políticas, sociais ou mesmo desportivas (que outro canal dedica tanto tempo às ditas modalidades amadoras?) O tratamento dado às minorias, sem espaço em televisões comercias, é o serviço público puro. Fala e bem na questão do arquivo, da sua manutenção, assunto que não vejo abordado por ninguém ligado ao governo quando falam da questão da RTP.Este arquivo, a sua preservação como bem público é também serviço público. A RTP 1 não passa de uma estação comercial igual à SIC e TVI. Pior, tem um espaço informativo, o Prós e Contras, que é o maior desperdício, por tão mal conduzido e moderado, de tempo dedicado ao debate, e chama-lhe serviço público, só denegrindo o conceito. Poderá o formato da RTP1 ser considerado serviço público, como ferramenta de ligação às comunidades portuguesas no estrangeiro, como eventual elo entre a língua portuguesa e os descendentes dos nossos emigrantes. Mas o grupo RTP engloba ainda as Rádios. E aqui também temos, provavelmente mais vincado ainda, serviço público. Basta ouvir por exemplo num sábado à tarde a Antena 1, o acompanhamento por todo o país dos diversos campeonatos das divisões inferiores. A ligação entre a Antena 1 e as rádios locais é exemplo de serviço público. Mas como afirmou o nosso PM, a questão vai ser debatida sem tabus, logo sem quaisquer regras. Basicamente fica com tudo quem der mais, seja ele quem for e queira ele fazer o que quiser. A ideia de ter uma estação privada responsável pelo serviço público demonstra o total desinteresse, e também desconhecimento, sobre o serviço público deste governo.

    1. Tiago: acho que nem o governo sabe bem qual é a intenção do governo. A ligação às comunidades pode ser feita com conteúdos de outros canais (incluindo do futuro canal sobrevivente da RTP) e não me parece que sejam precisos dois canais internacionais (Internacional + África). Quanto às rádios, é discutível que a Antena 3 seja fundamental. A Antena 2 é única no panorama nacional e, como refere, a Antena 1 também apresenta algumas características que será importante manter (para além de, no campo das notícias, ser a única alternativa à TSF). De qualquer modo, confesso que conheço pior a situação delas (incluindo a financeira), pelo que não me atrevo a fazer grandes análises.

  5. A RTP 2 é a maior responsável pelo atraso (léguas) do estado em que estamos relacionados com os programas portugueses de animação…

    A ” porca inteligente” senhora que dirige a programação infantil, nunca … nunca… nunca… deu a menor chance aos criadores portugueses para se desenvolverem… O argumento era sempre o mesmo: os v/programas são caros! Nós com meia duzia de tostões ( alguns para minha empresa) pomos um tipos a
    dobrar… e os putos que se lixem! Que comam monstros dinossáuros etc… Que se fo… (m)
    as histórias portugueses!

    A proposito ( mau ou bom) quem cumpriu serviço publico nacional : TVI : Morangos com Acuçar/ Sic os programas a Aventura…

    Não precisamos da merda da RTP para nada!

    1. artur: genericamente dou-lhe razão – o serviço público devia incluir programas infantis e animação nacionais; no tema dos custos não entro (mas é sempre – e mais ainda quando a RTP gastou rios de dinheiro na última década e tal – uma questão de opções).

  6. é assim, agora que já estamos mais ou menos entendidos no que diz respeito ao modelo de privatização da RTP, passamos à fase seguinte: definir serviço público.
    Na minha opinião, este deve consistir em mais um pouco do que o canal canal 2 já faz. Adicionando um noticiário mais pormenorizado em termos de conteúdo , uns programas de cultura regional nacional, bem como do resto do mundo, um tempo dedicado à economia à ciência e as novas tecnologias e creio que ficamos com um bom canal.
    Sujestões?

  7. Não há razão nenhuma para não se chamar “público” ao privado, desde que seja público e não reservado.

    Chamemos as coisas pelo nome e sem preconceitos: serviços prestados por privados e serviços prestados pelo estado.

    Não é correcto confundir estatal com público, aquilo que vejo, nestes debates são preconceitos ideológicos, e o primeiro é que “privado é direita” (excepto o Nazismo) e “estatal é esquerda” (talvez nos actuais e ex países comunistas).

    Já repararam que a corrida pelas audiências é o melhor iniciador do serviço público? Deixem a privada prestar serviços públicos (e ganhar dinheiro, não é pecado), ela, mais do que o estado, sabe bem o que é. Aliás é bem democrático fazer o que o consumidor (vulgarmente chama-se “povo”) quer.

    Quando se pretende que a TV2 dá bons programas, reparem que é para uma minoria. No fundo, no fundo, de democrático tem pouco. E, no fundo, no fundo, é bem elitista (ou pseudo elitista).

    Dos sectores que devem ser liberalizados, este, da TV, não me mete medo nenhum. Desde que o estado (o contribuinte, não esqueçam) não lhes dê dinheiro. Mas também não vejo porque havemos de pagar (nós contribuintes) para ter um serviço estatal de “canal aberto de televisão”.

    Bem, pela experiência que vou tendo, estas empresas estatais servem para dar dinheiro a amigos, promover ainda mais a corrupção que é “normal” em Portugal e meter mais uns boy’s (por vezes da oposição, há sempre favores a pagar).

      1. Por vezes parece privado e bem privado. Até há quem se julgue dono dele.

        O conceito de democracia que acredito é que é o “poder popular” ou, pelo menos, o melhor caminho para o atingir. Não admito elitismos.

        É claro que o estado é público, contesto apenas que um privado não esteja também a fazer serviço público. Considero até que se fabricam sapatos porque há quem os queira comprar. Ponha, por hipótese, que até sou liberal, ie, defendo uma economia de mercado livre.

        Também considero caricato que em Portugal se ataque tanto a privada quando tem sido o estado (e os seus representantes) o nosso principal inimigo. Nas negociatas que todos nós condenamos, eu vejo privados a negociar bem (para eles, é o seu papel) e o estado a negociar mal (para ele, quer dizer, nós).

        Dentro de toda esta trapalhada em que governos anteriores nos meteram (e seguramente este também), só aderiria a um movimento que pretenda condenar alguns governantes por gestão danosa.

        1. Parece-me que vivemos num país moderno de aspecto mas, antiquado de essência. Males como a inveja e a ganância são próprios do ser humano mas, quando conjugados com a ideia de que a herança é por si só um estatuto, criam neste caso, o povo português.
          Sim, também contesto a ideia de um privado fazer um serviço publico, é muito poder nas mãos de uma pessoa, que ainda por cima, é paga por clientes sem direito a escolha, é realmente um ataque à Democracia.
          Quanto à corrupção, é um problema daqueles muito complexos, é necessário e urgente encarar o “bicho”. Todos nós temos uma cota parte desse problema, claro que, uns mais que outros, é muito difícil de sequer amenizar, só pela educação, com esperança e muitos anos, para mudar as mentalidades, contudo, acredito que o exemplo tem de vir de cima, daqueles que elegemos para agir no sentido de transformar a sociedade para melhor, mais equilibrada e justa. Só assim se consegue a união, factor principal e comum a todos os sentidos e objectivos. No nosso caso, o de: vencer crises.

          1. Depois de reler o que escrevi, senti que devia deixar mais claro o ponto que creio ser incontituçional:
            Num estado democrático, as pessoas são livres de escolher onde deixam o seu dinheiro.
            Quando o estado detêm um serviço público é perfeitamente natural que todos o paguem. Quando esse passa para as mãos de um privado, essa obrigação acaba, porque há mais variedade e mais empresas no mesmo mercado.
            Por outro lado, mesmo imaginando o cenário mais consensual, o de acabar com a “mamadeira” da RTP e repartir a taxa por todos os canais em sinal aberto, corremos o risco destes esquecerem o serviço publico naquilo que ele deve consistir: divulgação da cultura em toda a sua expansão, É EDUCAÇÃO, todos sabemos que a televisão é um forte agente educativo. Não é com novelas e concursos banais que se trata de cultura, isso é apenas um negocio de aproveitamento das fraquezas das pessoas, o que, só as torna viciadas em porcarias sem sentido.

    1. Não é para uma minoria, José: é para quem quiser assistir. Acha que a transmissão de uma peça de teatro com o José Pedro Gomes não teria algum público? E, de resto, a questão do serviço público não é fornecer os programas para uma maioria: na minha opinião, é precisamente fornecer aquilo que o mercado não fornece. Claro que podemos defender que o Estado não deve fornecer esses conteúdos, como não deve manter dois teatros nacionais, um teatro de ópera, não sei quantos museus, etc, etc. Mas como, infelizmente, há certas coisas que dificilmente são lucrativas, estaremos a assumir o seu fim. Eu, que gostaria bem de ver o Estado retirar-se de um monte de áreas, aceito, por não ver grandes alternativas, que se mantenha nestas. Mas dentro de certos limites de gastos – os de um país mais pobre que rico e, actualmente, à beira da falência.

  8. Não precisamos de nenhum “Canal de TV” do Estado, da mesma forma como não precisamos, nem temos nenhum jornal do Estado!

    1. am, sendo assim, duas perguntas:
      – Para quê, as taxas que pagamos?
      – Se deixar-mos de ter Radio Televisão Portuguesa detida pelo estado, passa-lhe pela cabeça que as taxas deixem de existir?

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