
Jardim do Éden – A Descoberta da Gravidade.
Pastel sobre papel Hahnemühle Velour.
(Obra informalmente conhecida como Pandora.)
«Podemos começar já pela questão do prémio…»
«Como preferir.»
«Ficou satisfeito?»
«Seria hipocrisia dizer que me é indiferente. Mas não é fundamental. Não pinto para receber prémios.»
«Então por que o faz?»
«Porque sinto que tenho de o fazer. Porque tenho uma visão a transmitir.»
«Uma visão no mínimo polémica.»
«Espero bem que sim. É bom que a arte incomode.»
«Há mesmo quem acuse o que faz de não passar de um truque.»
«Inveja. Repare: toda a arte parte de uma visão do mundo. E a minha visão é diferente. É natural que haja quem não goste. Quem não consiga perceber.»
«A sua visão parte do facto de ser daltónico…»
«Sim, mas vai muito para além disso.»
«E de colorir o que pinta com cores aleatórias.»
«Não, não, não, não! Aleatórias, não. Eu pinto como imagino. Acrescento à realidade incompleta que me chega os elementos que lhe imagino adequados. E repare que não distingo a cor das tintas que uso. É um trabalho cem por cento mental, de nuances, da interpretação da adequação das possibilidades disponíveis à realidade desconhecida. Se bem que não devêssemos chamar-lhe realidade. É apenas a forma como a maioria das pessoas vê. Não é a realidade para um cão ou para um gato, por exemplo…»
«Não distingue mesmo qualquer cor?»
«Não. Tenho o que se chama ‘visão acromática’. É uma condição bastante rara.»
«Parece quase orgulhoso disso.»
«Não devemos envergonhar-nos das diferenças. Devemos potenciá-las. Costumo dizer, correndo talvez o risco da imagem excessivamente doce, que a minha vida é como um sonho que vou colorindo com as cores adequadas a cada momento.»
«É uma ideia interessante. Mas não acha que é demasiado fácil delinear uma cena (e muitos dizem que o faz de modo básico) e depois colori-la com cores que parecem aleatórias? Céu verde, água vermelha, erva roxa… Não é quase como aqueles livros para crianças?»
«Já vi esses livros. Alguns têm muito potencial. Mas é totalmente diferente. As crianças subvertem o sentido das figuras quando lhes acrescentam cores diferentes daquelas que têm na realidade. A minha intenção, embora aceitando o lado polémico do que faço, não é subverter. É criar uma realidade minha, que faz sentido para mim e que, na minha cabeça, é a realidade.»
«É por isso que insiste em chamar-lhe ‘realismo alternativo’?»
«Realismo paralelo.»
«Peço desculpa. Realismo paralelo.»
«Porque não a vejo como uma alternativa. É um mundo paralelo. A alternativa é a monocromia.»
«Criou até uma associação com o nome ‘Realismo Paralelo’.»
«Não fui apenas eu. Mas é verdade que fui um dos principais impulsionadores do projecto e desempenho actualmente o cargo de presidente.»
«A associação tem membros com outras, er, características, não apenas daltónicos…»
«Com certeza. Há imensas pessoas que, podendo até nem ter consciência disso, são realistas paralelos. Criam a sua própria realidade.»
«Políticos, por exemplo?»
«Desculpe?»
«Era uma tentativa de humor.»
«Ah. O humor é uma forma de evitar encarar as inseguranças. Nenhum verdadeiro artista se pode permitir fazê-lo.»
«Não há humor no seu trabalho?»
«Depende do ponto de vista. Quando um quadro está completo, a interpretação – e, portanto, as inseguranças – são as de quem observa. Mas o artista tem de as enfrentar enquanto o cria. E esse é um processo doloroso. O humor é uma saída demasiado fácil.»
«Não acha que há humor na sua obra ‘Jardim do Éden – A Descoberta da Gravidade’?»
«Presumo que possa lá ser encontrado algum humor.»
«Não era sua intenção criá-lo?»
«O quadro é uma sobreposição espaço-temporal de vários mitos da ciência e da religião. Coloca questões. As respostas são livres.»
«Sabe que desde o filme Avatar lhe chamam ‘Pandora’?»
«Prefiro não falar disso.»
«Muito bem. Voltemos à questão do que é ser realista paralelo, de que nos desviámos com a minha infeliz piada sobre os políticos. Será que podia explicar um pouco melhor em que se baseia o conceito?»
«Já lhe disse: na possibilidade de criar uma realidade paralela. Verdadeiramente paralela. Que nasça de características verdadeiramente diferentes das da maioria. Repare: quando um surdo compõe música, o resultado tem de ser diferente do que seria se fosse uma pessoa com audição a criá-la. Ele está a gerar algo paralelo à realidade da maioria das pessoas. Embora, claro, essa música, ou um quadro meu, entre na realidade das pessoas ditas normais e acabe portanto por fazer parte dela.»
«Hmmm, sim. Beethoven era um ‘realista paralelo’?»
«Beethoven perdeu a capacidade para ouvir mas não deixou de ser influenciado por ela. A sua obra reflecte esse facto. A nona sinfonia mantém muitos elementos do Beethoven com audição. Apenas é mais ruidosa.»
«Hmmm, estou a ver. É, de facto, uma visão polémica. Há, aliás, quem o acuse de radicalismo; de ostracizar tudo o que não encaixa na sua forma de encarar as questões.»
«De modo nenhum. Eu não ostracizo. Eu sou ostracizado. Mas não pode esperar que eu aprecie críticas de gente que não tem obra feita, ou que produz obras que nada trazem de novo.»
«Como é que sabe, se não as vê na sua plenitude?»
«É verdade, mas não preciso de ver as cores para perceber que nada têm de novo. Torna-se imediatamente óbvio que (usando um dos exemplos que deu há pouco) o céu é azul, como tem sido quase sempre ao longo dos séculos. Eu crio um céu diferente.»
«Cria até vários. Há pinturas suas com céus das mais variadas cores.»
«Com certeza. Na realidade paralela, o céu tem que combinar com todos os restantes elementos. Repare: você diz-me que o céu é azul e a erva é verde, certo? É essa a combinação que as pessoas conhecem e que tem sido pintada ao longo dos séculos. Muito bem, faz sentido, apesar de ser monótona. Mas se eu crio um céu castanho, não posso combiná-lo com erva verde. Seria ficar por uma realidade enviesada e não paralela. A cor da erva deve reflectir a cor do céu.»
«Mas a cor do céu também não é sempre a mesma, nas suas obras…»
«Evidentemente. Porque o céu está na minha cabeça. Ou, para ser mais preciso, a realidade cromática do céu está na minha cabeça. E a minha cabeça pode decidir atribuir-lhe uma cor por dia. É isto que me distingue das pessoas, enfim, não queria chamar-lhes ‘normais’ mas serve como ideia. Eu vejo realidades onde elas vêem apenas uma realidade.»
«Algumas pessoas poderiam dizer que há uma definição médica para isso.»
«Por favor. Está aqui para entrevistar-me ou para insultar-me?»
«Peço desculpa. Mas, nessa linha, quantas mais, enfim, digamos ‘deficiências’, tiver uma pessoa, melhor artista será.»
«Melhor artista poderá ser. Em teoria. Na prática, as características diferenciadoras a que chama deficiências só são úteis se a) não forem tão excessivas que prejudiquem a qualidade da obra e b) o artista as utilizar de forma adequada. Deixe-me dar-lhe um exemplo: é difícil para uma pessoa sem braços pintar quadros (alínea a); e, infelizmente, quando resolve essa questão usando a boca ou os pés, tende a desperdiçar todo o potencial em cartões de Natal sem qualquer interesse artístico (alínea b).»
«Sim, estou a ver. E é sempre o público que define quem tem qualidade?»
«O público, não diria. Pelo menos, o grande público. É muito difícil dizer quem define. Mas as coisas acabam por se impor.»
«Também por causa da polémica…»
«A polémica é já um reflexo da qualidade. Da capacidade de provocar emoções.»
«E talvez também dos apoios que alguns artistas recebem e outros não. O que diz às pessoas que contestam os subsídios públicos que tem recebido?»
«É mesquinho e ridículo. Eu não vejo a cor do dinheiro. É-me indiferente se é público, se privado. Para mim, é todo… cor-de-rosa.»
«Cor-de-rosa?»
«Por exemplo. Foi a cor que me pareceu mais adequada. Mas também pode ser cor-de-laranja. Ou azul. Ou vermelho. Ou até, como dizem que ele é, verde. A minha arte baseia-se precisamente nisso: na infinidade de possibilidades. As coisas mudam e eu adapto-me. O que me interessa é a Arte. Com maiúscula»
«Com certeza. O prémio vai mudar alguma coisa na sua vida?»
«Nada. Apenas dar-me um pouco mais de exposição. Talvez possibilitar-me vender mais algumas obras.»
«O que até poderá permitir-lhe dispensar os tais subsídios públicos…»
«Pensar assim é um erro. Os subsídios artísticos devem ser dados não somente em função das necessidades (repare que toda a gente considera ter algo a exprimir e, portanto, achar-se-ia com direito a subsídios) mas em função da obra, do valor acrescentado para o acervo cultural do país.»
«Mas isso deixaria de fora os jovens, pouco conhecidos.»
«Não se forem bons.»
«Voltamos então à questão de saber quem define o valor da obra…»
«Para a atribuição de subsídios, o Estado tem que chamar a si a questão, claro. E depois, porque é preciso que ela seja tomada por quem perceba do assunto, delegá-la.»
«Em quem?»
«Em valores firmados.»
«Mas isso não cria uma espécie de clube restrito e conservador, que decide muitas vezes em função do interesse e dos gostos dos seus membros, e que só apoia jovens com gostos similares ou, enfim, com cunhas?»
«É por interpretações como essas que o grande público tem uma visão distorcida do mundo dos criadores de Arte. O mundo da Arte não funciona dessa forma, não se baseia nessas realidades mesquinhas…»
«Baseia-se em realidades paralelas? É isso que lhe confere autoridade para falar em nome do ‘mundo da Arte’?»
«A verdadeira Arte é sempre paralela. E fiquemo-nos por aqui.»
«Porque aceitou fazer parte do júri do prémio do próximo ano?»
«Convidaram-me e achei que não podia recusar. A Arte também é interacção, cooperação, amizade, apreço.»
«Mas como poderá avaliar obras alheias sem lhes conhecer a cor?»
«De forma muito mais livre e descomprometida. Mas pensei que esta entrevista era sobre a minha obra…»
«E é, claro. Está a trabalhar em alguma coisa nova?»
«Sempre. E posso garantir-lhe que vai ser uma surpresa.»
«Diferente da série anterior, então, com os legumes com cores trocadas?»
«Não estavam ‘trocadas’. Receio que não tenha percebido nada do que lhe estive a dizer.»
«Peço desculpa. Mas o próximo projecto não vai ter nada a ver com isso, então?»
«Não. Terminei a série dos legumes. Um artista não pode repetir-se.»
«E não pode dar-nos uma pista?»
«Bom, só uma: fruta.»
«Fruta com cores, er, paralelas?»
«Fruta ainda nas árvores. Uma coisa mais campestre. Talvez sendo apanhada por pessoas de todas as cores (a Arte deve recusar a xenofobia e incentivar a igualdade). Mas já estou a falar demais…»
«Ficamos ansiosos.»
«Obrigado.»
«Terminámos. Agradeço-lhe imenso ter-me concedido a entrevista.»
«De nada. Estou sempre disponível. Já agora, vai para o centro?»
«Vou.»
«Dá-me boleia?»
«Claro. Tenho o carro mesmo aqui à porta. Nem queria acreditar na sorte…»
«Aqui costuma haver lugares. É o vermelho?»
«É. Espere lá: como percebeu a cor do carro?»
«Prática.»
«Mas isso não elimina tudo o que me esteve a dizer? Se afinal reconhece as cores…»
«Reconheço-as porque sou um ser inteligente, capaz de estabelecer associações. Ao longo dos anos fui aprendendo que certas tonalidades correspondem a certas cores. Mas eu não vejo essas cores. Eu não sei o que significa ‘vermelho’. É apenas uma palavra. A minha visão do Mundo, fisiologicamente alterada como lhe expliquei, não inclui o verdadeiro vermelho. Mas também faz com tudo me seja possível, incluindo o realismo mais básico que acaba por ser essencial para sobreviver no mundo prosaico do dia-a-dia. Posso assim chamar ‘vermelho’ ao que me dizem ser vermelho. Foi o que acabei de fazer e isso não invalida o que lhe estive a tentar explicar. No limite, porque sou livre de fazer as correspondências entre cores e terminologia que bem entender, posso dizer que, quando pinto um céu que sei ser azul, de vermelho, estou na verdade a pintá-lo de azul. Do meu azul. A Arte é uma expressão pessoal, e na verdadeira Arte tudo é possível desde que exista capacidade, visão e ousadia. É, na realidade – qualquer que ela seja –, muito simples.»
«Er… pois, deve ser. Vamos, então.»
(Republicado com ligeiras alterações.)

Gosto muito de diálogos, jaa, e este é óptimo.
Muito simples… Parabéns, Jaa, sabendo eu que não é nada simples:) beijo e bom resto de domingo