Revolução


escafandro,

É preciso uma nova revolução, garante Otelo. OK, pá. Mas, considerando que desta feita a questão da liberdade não se põe (a menos que a ideia seja acabar com ela e implementar a versão de esquerda dos famosos seis meses sem liberdade de Manuela Ferreira Leite; e, claro, quem diz seis meses, diz seis anos) e que até já cá temos o FMI (da outra vez só o chamámos ao fim de quatro anos), é preciso uma revolução para quê?

Substitutos


escafandro,

 

Desconheço se ela cantou isto no concerto do mês passado em Lisboa. Fica aqui com uma dedicatória às raparigas desiludidas com os homens e em busca de alternativas. Mas atenção: alguns babam-se, outros largam muito pêlo e quase todos acabam por constituir excelentes pretextos para os homens meterem conversa.

 

Adenda 1: O “quase todos” exclui chihuahuas, que qualquer homem digno do termo (instintivamente sei o que é mas não me peçam para explicar) despreza, bem como pitbulls, dobermans e rottweilers, que qualquer homem sensato receia.

 

Adenda 2: Por outro lado, uma mulher a passear um rottweiler tem de ser especial…

 

Adenda 3: Mas não. Há riscos que não compensam.

 

Adenda 4: Hmmmmm…

 

Adenda 5: Bom, se a situação se apresentar logo se vê.

Açores e comentadores


escafandro,

Os resultados das eleições nos Açores eram tão previsíveis como hoje nos parece a salivação dos cães de Pavlov. Não me merecem, por isso, grandes comentários. Prefiro centrar-me no que os comentadores nos dizem sobre eles.

 

Dizem muitos, em jeito de descoberta transcendental, que os resultados são um aviso ao governo de Passos Coelho e, considerando a proximidade das autárquicas, ao PSD. O meu coração enche-se de ternura ao ver tanta gente preocupada com os autarcas sociais-democratas. Mas vejamos: o que deveria o governo fazer para ajudar essa excelsa turba a conseguir manter os empregos (tão frágeis nos dias que correm)? Recuar no aumento de impostos? Recuar na dispensa de funcionários públicos? Recuar nos cortes das pensões e dos subsídios? Recuar nos cortes nas empresas públicas? Recuar nos cortes na Saúde? Recuar apenas em algumas dessas medidas mas agravar as restantes? Ou talvez iniciar um braço de ferro com a Troika e dizer-lhe que preferimos não receber o dinheiro, ver os juros da dívida voltar a disparar, as empresas nacionais sem esperança de financiamento, os bancos ainda mais estrangulados e, no limite, sair do euro? Honestamente, eu só gostava que as pessoas fossem claras. Por mim, estou-me nas tintas para os autarcas do PSD. Primeiro, não são substancialmente diferentes dos do PS. Depois – e cá temos um ponto em que o governo devia estar a receber avisos de que não tem feito o suficiente –, acho até que o número de autarcas devia ser muito menor.

 

Uma nota também sobre Carlos César. Ouvi e li opiniões segundo as quais ainda o veremos a desempenhar um papel importante na política de âmbito nacional. Acho muito provável. Apesar de Carlos César não passar de um Alberto João Jardim ligeiramente mais polido, a verdade é que continuamos a preferir a imagem associada aos políticos que “fazem obra”, distribuem benesses e contraem dívidas à daqueles obrigados a corrigir desequilíbrios. As eleições dos Açores – como as da Madeira há um ano – também mostram isso. Mas se os comentadores o notaram, poucos ou nenhum o referiram.

Artificialidade – história em duas partes


escafandro,

Parte I

Não gostava das mamas. Achava-as demasiado pequenas. Sentia-se tão insegura acerca delas que lhe perguntava repetidamente se não preferiria que fossem maiores. Ele respondia que não, que nem sequer gostava de mamas demasiado volumosas e que as dela não eram pequenas, eram perfeitas, mas ela não acreditava. Menos de um ano após o casamento decidiu colocar implantes. Ele resmungou. Não era necessário e, para mais, era caro. Mas ela estava determinada e ele acabou por ceder. Com as mamas novas, ela passou a comprar blusas e vestidos mais provocantes. Mas havia um problema: tinha uma cintura ligeiramente gorda. «Preciso de fazer uma lipoaspiração», declarou uma noite, cerca de seis meses depois da colocação dos implantes mamários. Ele argumentou que não tinham dinheiro suficiente, que andavam a adiar a compra de um carro desde o casamento, que o apartamento ainda quase não tinha móveis, que os juros do empréstimo podiam subir, mas foi inútil. Após a lipoaspiração, ela sentiu-se melhor durante uns tempos. Depois decidiu arranjar os dentes. «Mas o que têm os teus dentes de mal?», perguntou ele. «São tortos, e amarelos. Já viste os actores e os apresentadores de televisão americanos? Têm todos dentes fantásticos! Por que é que não hei-de ter uns assim?» Milhares de euros depois, ela tinha dentes falsos tão belos que sorria mesmo ao receber más notícias. Progressivamente tirou todos os sinais do corpo, alisou a pele do pescoço, injectou botox nos lábios e em torno do olhos, colocou umas maçãs do rosto mais salientes, corrigiu a ligeira (ele nem a conseguia ver) proeminência das orelhas, fez uma rinoplastia para cortar dois milímetros ao nariz e instalou seis piercings, um dos quais o fazia perder a erecção durante o acto sexual, por receio de lesões graves. Por fim, ele fartou-se. Depois de anos a visitá-la em clínicas e hospitais, anunciou-lhe que a ia deixar. «Vais pedir o divórcio?», perguntou ela por entre os lábios inchados após mais um injecção de botox. «Não», respondeu ele, «não estou a pensar no divórcio.» Apesar dos anos já decorridos, requereu e conseguiu a anulação do casamento, alegando que aquela não era mais a mulher com quem casara, nem sequer uma verdadeira mulher, mas um ser artificial, quase totalmente sintético. À porta do tribunal, as últimas palavras que lhe dirigiu foram: «Lamento, mas eu preciso de verdadeiro contacto humano.»

 

Parte II

Livre para viver sem ser obrigado a levar em consideração desejos alheios, com o salário à disposição (ela não ganhava mal, mas ele ganhava melhor), ele instalou-se num apartamento e começou a mobilá-lo com os objectos que sempre sonhara ter. Na sala colocou um televisor de cinquenta e cinco polegadas, ligado a um leitor de blu-ray, às três principais consolas de jogos e a um sistema de som surround com sete canais principais mais subwoofer. No quarto instalou um televisor mais pequeno e um sistema de som ligeiramente menos potente. Para a cozinha escolheu um combinado com ecrã de televisão e sintetizador de voz, capaz de cuspir cubos de gelo, gerir stocks e recomendar o consumo dos produtos mais saudáveis, e um microondas com sensores de humidade que adequavam tempo e potência da cozedura aos alimentos colocados no interior e um pequeno ecrã colorido onde surgiam gráficos, animações e a indicação dos parâmetros utilizados nos últimos cinquenta pratos cozinhados. Na casa-de-banho instalou uma banheira de hidromassagem com dezenas de jactos, programação digital e mais um ecrã de televisão. Passou a lavar os dentes com uma escova eléctrica e a barbear-se com uma máquina eléctrica de cabeça oscilante, que tinha um ecrã pequenino onde surgia a indicação de carga e do desgaste das lâminas. Comprou ainda uns auscultadores sem fios e outros com fio, um telemóvel novo, topo de gama, um computador, um iPod, um iPad, duas máquinas fotográficas e várias objectivas, uma câmara de vídeo e uma impressora de qualidade fotográfica. Adquiriu também um aspirador que trabalhava sozinho e uma passadeira de exercício possuidora do seu próprio ecrã de televisão, com dúzias de programas distintos simulando a corrida em sítios tão exóticos como a Quinta Avenida e a Passagem de San Bernardino. Instalou sensores de presença ligados às luzes e um sofisticado sistema de comando que lhe permitia controlar quase todo o equipamento a partir do telemóvel. Por fim comprou um carro com caixa automática, chave inteligente, sensores de luz e de chuva, alerta de mudança de faixa, sistema de navegação e de telefone com reconhecimento de voz, e capacidade para estacionar sem intervenção humana. Depois de tudo isto sentiu-se finalmente feliz. Quando pensava na mulher de quem se separara, abanava a cabeça, incapaz de entender como pudera aguentar tamanha artificialidade durante tanto tempo.

 

(Republicado.)

Da inutilidade dos livros


escafandro,

Numa espécie de resposta à pergunta deixada pelo Rui Rocha:

 

Duas raparigas de mini-saia sentam-se entre espelhos e sorrisos, de unhas pintadas de cinco cores diferentes, embora iguais nas mãos e nos pés, expostos, como gemas polidas, nas sandálias com um palmo de salto. Encomendam saladas e desembainham os smartphones. Não trocam palavra. Teclam em silêncio, nos seus iPhones, não se sabe o quê. Mensagens, números?

A chegada da comida desperta-lhes sorrisos. Debicam com pauzinhos, mergulham de novo nos telemóveis. Uma delas sabe inglês suficiente para perceber a pergunta – Já leram Mo Yan, que acaba de ganhar o Nobel da Literatura?

“Quem? Yang? Shang? Ichan? Não sei o que é. Um escritor?” O café fica no interior do Centro Comercial KK, que ocupa cinco andares de um edifício de 100, todo em vidro e luzes que acendem e apagam formando as palavras e números de anúncios de empresas e produtos, ao longo dos 442 metros de altura da frontaria.

“Shong? Bem, nós não costumamos ler livros”, explica Liu, aka Jane, falando pelas duas. Ou mais. O café está cheio de jovens com roupas estudadamente modernas e caras, agarrados aos telemóveis ou tablets. “Quando andava a estudar só tinha tempo para ler os livros da escola. Agora que já trabalhamos, usamos os tempos livres para vir ao centro comercial, ou jogar no telemóvel”, continua Jane (na China, os jovens que aprendem inglês adoptam um nome inglês).

Liu (jane) e Song, de 22 e 21 anos, trabalham num SPA. Vieram para Shenzhen há dois anos. Na aldeia-natal de cada uma, nas províncias de Hunan e Hubei, os pais dedicam-se à agricultura. Nos primeiros tempos na grande cidade, as duas raparigas trabalharam numa fábrica. Depois subiram na escala social. Agora têm dinheiro para estar no centro comercial. Um nome. Só um nome de um escritor chinês: “Não sei. Mao Zedong?”

Amy, 25 anos, Relações Públicas numa grande empresa de telemóveis, a Huawei, tem a mesma dificuldade em nomear um escritor. “É mais fácil jogar jogos. Os livros são muito complicados”.

Zheng, 24 anos, finalista de Medicina em Nanjin, também nunca ouviu falar do nome. Nem num nem no outro. “Prémio quê? Não sei o que é”. Tirando os compêndios clínicos, Zheng orgulha-se de nunca ter lido um livro.

Shenzhen é uma cidade recente. Há 30 anos um pequena aldeia, hoje tem 14 milhões de habitantes, graças às reformas de Deng Xiaoping e à criação de uma Zona Económica Exclusiva. Representa a nova China, eufórica com o desenvolvimento. Em toda a cidade, é possível visitar centenas de centros comerciais, e milhares de lojas de telemóveis baratos, mas não assistir a um concerto ou peça de teatro. Shenzhen não parece precisar de vida cultural.

“Mo Yan? Conheço sim. Escreveu livros sobre o período da guerra com os japoneses”. Yang Woo, 59 anos, é oriundo de Guangzhou, a antiga Cantão, e proprietário, em Shenzhen, de um restaurante de peixe na Avenida Huaqiang, a Meca da electrónica. Admite sem problemas que deve o seu êxito empresarial muito ao facto de ser membro do Partido Comunista. “Mo Yan é um escritor muito interessante, que promove os valores da harmonia. Se o Nobel é importante? Não. A China não precisa disso”.

Reportagem de Paulo Moura, no Público de ontem.

 

Ou, em meia dúzia de palavras: capacidade de concentração, de elaborar raciocínios ponderados, de enfrentar o silêncio e a solidão. No fundo, de desacelerar e pensar. Consigam lá isto com a internet.

Prazeres e obrigações


escafandro,

Há rotinas que nos são impostas e rotinas que impomos a nós mesmos e aos que nos são próximos. Marcamos datas no calendário (cada vez mais datas) e definimos os comportamentos adequados a cada uma delas: felicitar, presentear, namorar, evocar pai ou mãe, fazer uma festa, jantar fora, estar com a família. E, invariavelmente, mostrar alegria. É possível que seja uma tentativa, ingénua ou  desesperada, para nos assegurarmos da existência de dias alegres. Contudo, a alegria não se conquista programando avisos no telemóvel. A proliferação de datas (felizmente os telemóveis possuem memórias cada vez maiores) e as obrigações associadas a cada uma delas tornam-se cansativas. Com frequência mostramos e exigimos alegria escorraçando um sentimento de inadequação: como pedir alegria a alguém que se sente no final da vida ou que perdeu há pouco tempo um familiar próximo ou que – e nunca nos lembramos disto como um direito – quer apenas estar triste? Mas insistimos porque não vemos outra maneira de agir. Não telefonar ou enviar uma sms a dar os parabéns? Não fazer a festinha? Não comprar o postal? Impensável. E é impensável: as datas programadas são também formas de garantirmos que os outros se lembram de nós. Defraudar-lhes as expectativas significa arriscar que defraudem as nossas. Num jogo de afectos condicionados por actos menores (como praticamente tudo na vida), no aniversário quase toda a gente separa aqueles que telefonaram daqueles que não o fizeram – ainda que tente convencer-se do contrário. Fica-se triste se pouca gente telefonar. Revela uma falha alheia mas, acima de tudo, uma falha própria: fomos incapazes de nos tornarmos suficientemente importantes na vida das outras pessoas para que elas se tenham lembrado e/ou dado ao trabalho de ligar. No fundo, parecemos criar as datas para garantir momentos de alegria mas procurar com avidez formas de as transformar em mergulhos na tristeza; não conseguir viver sem estabelecer regras que nos manietem e ser especialistas em transformar prazeres em obrigações.

 

(Republicado com alterações.)

Ponto de situação e desistência


escafandro,

1. Defendi alterações na TSU desde o início do programa de ajustamento. Gostaria que tivessem sido anunciadas após o Verão de 2011 e implementadas em 2012. Agora, parece que a TSU ficará como está e que o esforço de correcção orçamental será assegurado apenas através dos impostos. Ou seja: perdem-se o factor de estímulo das exportações e o corte da despesa pública correspondente aos 5,75% do valor dos salários dos funcionários públicos e volta-se a um trajecto sem imaginação que, como sucedeu nos últimos anos, também fará retrair a economia. Vitória? De Pirro, quase certamente.

 

2. Defendi que o esforço de correcção orçamental devia incidir mais sobre o sector público do que o privado, por razões de – pasme-se – equidade (quando as suas empresas se encontram em dificuldades, os funcionários do sector privado não vão buscar salário aos do sector público) e, acima de tudo, porque é o sector privado que nos pode tirar da crise (o sector público desempenha muitas funções importantes mas não exporta). Graças à Constituição que temos, também este ponto parece prestes a cair. Ainda bem? Lamento mas não. Ponto a ponto, estamos a tornar a recuperação mais difícil.

 

3. Qualquer país que, tendo um nível de vida abaixo da média de uma dada zona, pretenda ganhar terreno aos mais ricos tem de apresentar condições atractivas em tantos ramos quantos lhe for possível, em vez de se limitar a queixar-se da injustiça do desnível. No último debate entre Sarkozy e Hollande, este repetia que na última década a França apresentou níveis de crescimento inferiores à Alemanha; a certa altura, Sarkozy atirou-lhe que a Alemanha fez há dez anos aquilo que os socialistas franceses ainda recusam hoje. O pequeno francês hiperactivo tinha toda a razão. E a situação torna-se mais grave quando, em vez de França, estamos perante Portugal, Espanha, Grécia ou Itália. Repare-se no que sucede por cá: exigimos salários e pensões similares aos da Europa do Norte mas recusamos a legislação laboral dinamarquesa, a idade de reforma alemã, o sistema de segurança social sueco. Em contrapartida, temos um Estado quase tão grande e um nível de impostos quase tão alto como os desses países. E somos muito piores no nível de corrupção, na burocracia, no sistema de Justiça. Nestas condições, só é possível recuperar ou, até, manter o nível de vida se os cidadãos dos países mais ricos aceitarem subsidiar-nos. Para sempre.

 

4. Evidentemente, não aceitarão. Nem seria lógico que o fizessem. Na situação deles, nós também não o faríamos. Atente-se no modo como os portugueses do continente reagiram ao buraco orçamental madeirense. Ou na forma como na Catalunha se exige que todos os impostos cobrados na região lá sejam aplicados. Ou até na maneira como os italianos do norte olham para os seus conterrâneos do sul. A que propósito hão-de finlandeses e alemães aceitar enviar-nos dinheiro? Obviamente, só o farão enquanto ganharem com isso (por exemplo, através de captação de fluxos de capitais – os quais, acrescente-se, só vieram para cá devido ao euro) ou, pelo menos, não perderem. Mas, do lado deles e do nosso, durante quanto tempo poderá a situação prolongar-se?

  

5. E isto traz-me ao ponto mais duro. Suspeito há muito que não existem condições para o euro resistir. Cheguei a ser taxativo sobre o assunto mas, talvez ingenuamente, mantive uma ligeira esperança de que fosse possível fazer os povos do Sul perceberem que não há riqueza com moeda fraca e desvalorizações constantes. De que fosse possível fazê-los perceber a inevitabilidade dos cortes e das reformas como via para uma economia de crescimento sustentado. Não é. Nem em Portugal nem nos outros países em dificuldades. Aos governos falta coragem para implementarem verdadeiras reformas, aos cidadãos sobram ilusões de que é possível manter o nível de vida atingido com dinheiro emprestado. Mais: prolongar a agonia afigura-se cada vez mais um erro: o castelo tem demasiadas cartas e há demasiadas mãos a mexer-lhe. Cairá.

 

6. Saiamos do euro. Suportemos dois ou três anos duríssimos e depois, porque não sabemos fazer de outro modo, voltemos ao nosso ritmo tradicional de desvalorização e inflação. Continuaremos pobres mas de uma forma a que já estamos habituados. E nas ocasiões em que tivermos de chamar o FMI (como em 1978, como em 1983), não perderemos tempo apontando o dedo a outros.

Um aniversário


escafandro,

A indústria da electrónica está cheia de guerras de formatos. No final da década de 70, o nascimento do CD pareceu ir dar origem a mais uma. Em 1974, com base num projecto ainda mais antigo, a Philips começara a desenvolver um disco de leitura óptica a que planeava chamar compact disc, para seguir a lógica de outra invenção sua, a compact cassette. Em 1976, a Sony anunciou um projecto similar. Após um período em que a guerra pareceu iminente, em 1980 as duas empresas chegaram a acordo, tendo-o anunciado num evento apadrinhado por Herbert Von Karajan. A presença do maestro tem alguma piada porque se conta que o diâmetro do CD está relacionado com a música clássica. A Sony, cujo projecto original previa um disco com 10 cm de diâmetro, menos 1,5 que o diâmetro proposto pela Philips, terá exigido que a Nona Sinfonia de Beethoven coubesse num único disco. Na altura, a gravação mais longa existente era de Furtwängler, em Bayreuth, 1951, pertencente ao catálogo da Polygram, então propriedade da Philips, a qual tinha 74 minutos, demasiado para o disco de 11,5 cm. Claro que esta é a versão benigna. Na versão menos romântica, a Sony insistiu na mudança porque a Philips já estava preparada para fabricar os discos de 11,5 cm enquanto a Sony ainda não tinha capacidade para produzir quaisquer discos. Isto é, a mudança só atrasava a Philips. Seja a verdade qual for, foi a Sony que acabou por ter a honra de apresentar o primeiro leitor de CDs. Aconteceu no Japão, no dia 1 de Outubro de 1982. Fez hoje trinta anos.

Politicamente correcto oblige


escafandro,

Na televisão, um comentador de corridas de automóveis refere-se a uma mulher como «piloto». Fico à espera de que alguém envie para lá uma mensagem de protesto e ele tenha de se retractar mas, talvez porque as mulheres não vêem corridas de automóveis, a coisa passa incólume. Não devia, porém: se um presidente do sexo – perdão, do género – feminino é agora uma presidenta, por maioria de razões uma rapariga que participa em corridas de automóveis tem de ser uma pilota.

Sonhos e Comboios


escafandro,

Denis Johnson é menos conhecido do que outros escritores americanos actuais mas não devia sê-lo (tem companhia nesse clube: Norman Rush, por exemplo). Sonhos e Comboios é o segundo livro dele que leio, após o volume de contos Filho de Jesus, publicado há um par de anos pela Ahab (em Portugal está também editado Coluna de Fumo, vencedor do National Book Award em 2007, e, segundo parece, a Relógio d’Água prepara-se para lançar Anjos, o primeiro romance que publicou, em 1983). Se os contos de Filho de Jesus tinham uma demão de surrealismo, de realidade distorcida, esta pequena novela de oitenta páginas, não dispensando visões nem sonhos (aparecem logo no título, embora o sentido do original, Train Dreams, seja ligeiramente diferente do português), ancora-se acima de tudo num realismo seco, preciso, sem enfeites nem justificações excessivas, onde muitas personagens são delineadas em três ou quatro frases.

 

A história é simples: Robert Grainier, nascido provavelmente em 1886, no Utah ou talvez no Canadá, classificado como órfão apesar de ninguém saber realmente o que aconteceu aos seus pais, ganha a vida trabalhando primeiro nas obras que ajudam a levar a civilização ao interior americano e mais tarde, quando o corpo já não aguenta esforços físicos intensos, auxiliado por uma carroça e duas éguas, como transportador de pessoas e objectos. Grainier é um homem solitário e de poucas falas, que vive numa cabana isolada na floresta. Tem arrependimentos: uma vez participou na tentativa de linchamento de um chinês, de outra deixou morrer um homem ferido que encontrou nas montanhas, após este lhe contar como, anos antes, abusara de uma sobrinha de doze anos que o irmão dele acabara por matar à paulada depois de a saber grávida. Grainier pensa que estes actos talvez expliquem a dureza do acontecimento mais importante da sua vida; o acontecimento que lhe levou mulher e filha e desencadeou as tais visões. Tirando isso, a sua vida parece nada ter de extraordinário. Como, de resto, o livro. Num primeira análise, Sonhos e Comboios é apenas o relato da vida de um homem simples que, apesar de ter chegado a ver Elvis Presley de relance (à porta da sua carruagem de comboio privativa), lidou sempre com pessoas tão simples e anónimas quanto ele, ainda que ocasionalmente alvo de acontecimentos peculiares, como o fulano que foi baleado pelo próprio cão; o relato da vida de um homem que nunca chegou a ver o mar e andou de avião apenas uma vez, que não conheceu os pais e teve relações sexuais com uma única mulher. E, todavia, sem que o leitor perceba bem como, é também um livro que acaba por espelhar (ou talvez exsudar) muitas das alterações de quase um século de história norte-americana. Oitenta páginas sublimes.

 

Nota: a ortografia é pré-AO (ou não teria comprado a edição nacional).

 

Denis Johnson, Sonhos e Comboios.

Edição Relógio d’Água, tradução de José Miguel Silva.

Palmadinhas gostosas


escafandro,

Há meia dúzia de anos, um artigo na New Yorker começava logo por explicar em que ponto do livro O Código Da Vinci se consegue perceber que Dan Brown é fraco escritor. Resposta: na primeira frase. Trata-se de algo do género: “O conceituado curador Monsieur Não-Sei-Quantos caminhava no interior do Museu do Louvre” e, evidentemente, a explicação prende-se com o adjectivo: nenhum bom escritor enfia assim à bruta pela garganta dos leitores que uma personagem é isto ou aquilo, antes lhes fornece elementos para que possam chegar a uma conclusão própria, muitas vezes não totalmente coincidente com a que ele imaginou; em parte, é esta relação adulta (mas sem sexo, pelo menos na maioria dos casos) entre autor e leitor que permite que os bons livros tenham tantas interpretações. Lembrei-me hoje desse artigo ao folhear numa tabacaria o número de Setembro da revista Ler (sim, ando um bocadinho atrasado mas a minha médica diz que, sendo gajo, não é grave). Com prazer indisfarçado e meticulosidade estonteante (eu estou a usar os adjectivos de forma irónica, o que faz toda a diferença), Rogério Casanova disseca e destroça (embora, considerando o tema do livro, talvez palavras como «espanca» ou «açoita» viessem mais a propósito) o grande êxito «literário» do ano: As 50 Sombras de Grey, de E. L. James. Dirão os mais discernentes (outro adjectivo, mas admitam que pouco usado): ora, tratando-se de um livro inspirado na série Twilight, só que em pior (!), também não é difícil. Permito-me discordar: é; como Casanova o faz, é bastante difícil, para além de diabolicamente divertido (sim, mais um adjectivo; processem-me). Tão divertido que me deixou a um passo (isto não é um adjectivo mas é uma figura de estilo: até ao balcão eram uns cinco ou seis) de quebrar a promessa de não mais comprar a Ler. Resisti porque continuo a achar que cinco euros é quantia mais do que suficiente para pagar as consoantes mudas. Contudo, se tiverem princípios menos firmes do que os meus (nada de vergonhas; acontece com quase toda a gente) e não forem fãs do livro, comprem-na e divirtam-se. Aliás, pensando bem, comprem-na mesmo que sejam fãs: há uma boa hipótese de, estejam ou não dispostos a admiti-lo, gostarem de ser um bocadinho maltratados.