Vírgulas


escafandro,

Republico este texto na sequência da confissão aqui colocada ontem acerca dos meus ferozes combates com as vírgulas os quais seriam apenas uma lembrança do passado se eu tivesse seguido a decisão que nele expressei mas envergonhadamente admito ter-me faltado coragem para abandonar as convenções e sair do terreno conhecido o que no fundo é algo que assusta quase todas as pessoas de bom senso ou até de senso mediano e não somente um ser frágil e de espírito influenciável como eu sou desde nascença ou pelo menos desde que na primária fui gozado por colegas mais velhos por ser demasiado bem comportado e demasiado apreciado pelos professores mas talvez este novo post possa conceder-me uma segunda oportunidade ou talvez não e esteja apenas a iludir-me ao pensá-lo pelo que o melhor é não fazer promessas e limitar-me a apresentar o texto tal como o escrevi há dois anos e meio sendo que mantenho tudo o resto que nele expresso ou apenas um pouco menos do que tudo porque afinal o valter hugo mãe já adoptou as maiúsculas (mas tem uma certa piada constatar que temos agora aqui no Delito uma colaboradora que as não usa): Vou começar a cortar nas vírgulas por como quase toda a gente ter dúvidas frequentes sobre a localização mais adequada para elas mas ao contrário de quase toda a gente sentir vergonha quando as coloco no sítio errado e também por experimentar uma necessidade cada vez maior de adaptar a vida ao meu ritmo e não o meu ritmo à vida e de por isso não desejar impor-me enquanto escrevo e impor aos outros enquanto lêem o que escrevo as pausas que os teóricos da pontuação consideram dever espartilhar uma língua tão mais bonita livre solta e moldável aos gostos e ritmos de cada pessoa que a utiliza ou dela usufrui na sua forma escrita (afinal se tantos autores célebres omitiram os mais diversos sinais de pontuação e se o valter hugo mãe tem o desplante de dispensar as maiúsculas justificando o acto com uma putativa maior fluidez da leitura não vejo qualquer problema em eliminar completamente as vírgulas no que até pode – já aconteceram coisas mais ridículas – permitir que algum editor repare que consigo afinal escrever textos que dão demasiado trabalho a ler para aquilo que valem e caia a meus pés com um contrato de publicação milionário para qualquer coisa que eu ainda teria de alinhavar) mas vou acabar este post com uma porque convenhamos que o ponto final é irritantemente definitivo (não sei se repararam mas também o evitei) e eu faço tenções de aqui voltar e deixar mais uns quantos posts que permanecerão incoerentes mesmo que por eles disperse um montão de vírgulas,

Entre a traição e a falta de alternativas


escafandro,

Entre os que vêm alertando para os perigos de se insistir que não existem alternativas à actual política destaca-se Pacheco Pereira (alguém que gosto de ler e ouvir há muito tempo). A sua coluna de opinião no penúltimo número da Sábado, por exemplo, era inteiramente dedicada ao tema (disponível no Abrupto em prestações suaves mas não muito práticas: 1, 2, 3, 4, 5). Pacheco Pereira estaria certo se o que se dissesse fosse mesmo isso: que não existem alternativas. Mas pouca gente afirma tal coisa. O que se afirma – que eu afirmo – é que quem critica as políticas actuais deveria explicitar as alternativas que propõe. E isto apenas Bloco de Esquerda e Partido Comunista fazem, ao defender que se rasgue o memorando de entendimento. Eu próprio consigo pensar em várias alternativas, das dolorosas e quase certamente inconstitucionais (mas que alterariam o modo de funcionamento do Estado e seriam por isso menos efémeras do que a correcção através de impostos) a algumas sem custos para os portugueses: por exemplo, uma redução das taxas de juro associadas ao empréstimo da Troika (apesar de tudo, não tão elevadas como muita gente pretende, residindo essencialmente o problema nos montantes sobre os quais elas incidem: isto é, precisamos de demasiado dinheiro emprestado). O busílis da questão é que as menos dolorosas não dependem apenas de nós. E isto leva muita gente a dizer que é preciso negociar abertamente com a Troika melhores condições de juros, prazos, montantes, e a criticar o governo por não mostrar estar a fazê-lo. Pacheco Pereira faz parte deste clube. Acha que é preciso negociar. Mais: acha que é preciso mostrar que se está a negociar. E, porque o governo português não dá indícios de negociar, acusa: «o Governo português aí trai Portugal. A palavra é mesmo essa: trai.» Não é. Para existir traição tem de existir consciência de se estar a cometê-la. Este constitui, aliás, o único elemento que pode ser usado para desculpabilizar a teimosia no investimento público por parte de José Sócrates e respectiva trupe (considerações ético-legais à parte): não há traição quando se acredita estar a seguir a melhor via disponível. De resto, se errar fosse traição, quase todos os ex-governantes deste país seriam traidores. Não são. São (foram) apenas incompetentes. Como talvez Passos Coelho e Vítor Gaspar o sejam – mas traidores, não. Ou então, considerando que todas as soluções disponíveis implicam dor (como o próprio Pacheco Pereira reconhece) e que ninguém pode garantir taxativamente qual a menos dolorosa (ver post anterior acerca dos cenários de negociação dura com a Troika), há tantas traições quanto alternativas.

 

Na verdade, poucos sabem o que se passa nos bastidores. Em Setembro, o governo obteve mais um ano para efectuar o ajustamento. No último Conselho Europeu, Passos Coelho defendeu para Portugal o mesmo regime de financiamento bancário que vier a ser aplicado a Espanha. Para um governo tão radical, são indícios de que há disponibilidade para aproveitar as oportunidades. É pouco? Para a maioria da opinião pública e, mais ainda, da publicada, parece que sim. Mas nem Passos nem qualquer outro membro do governo pode (deve) entrar em desafios pueris. Este governo (e o mesmo se passaria num liderado pelo Partido Socialista) não tem margem para se dedicar a bluffs destinados à satisfação da auto-estima de meia dúzia de portugueses – ou mesmo da totalidade dos portugueses. O que socialistas e muitos comentadores ligados ao PSD e ao CDS (incluindo, aparentemente, Pacheco Pereira) defendem não passa da tentativa de aplicar um bluff conhecido ab initio por ambas as partes – o que, obviamente, o condenaria ao fracasso: vejam-se os braços de ferro (permitam-me o eufemismo) esboçados pela Grécia.

 

Que existem alternativas, existem. A nível externo e a nível interno. Resta saber – e era isto que convinha discutir – se, em termos de efeitos imediatos e riscos para o futuro, são melhores do que as opções actuais. Para mim, algumas são; desconfio – e não consigo evitar repetir-me – é que nem todas são constitucionalmente exequíveis. O que me leva a concordar com Pacheco Pereira num ponto importante: devia ter-se começado por uma Revisão Constitucional. Em abono da verdade, refira-se que Passos Coelho a propôs ao chegar à liderança do PSD, numa época em que o PS ainda governava, tendo as críticas chovido de todos os lados, incluindo do interior do próprio PSD (mas não de Pacheco Pereira). Que desde então ele tente evitar o assunto surpreende pouco. De qualquer modo, sendo impossível regressar ao passado (dar-nos-ia muito jeito, apesar de provavelmente nem assim aceitarmos fazer tudo o que seria necessário para evitar a situação em que nos encontramos), temos que analisar as opções que ainda são possíveis. Incluindo – por que não? – a da Revisão Constitucional. Infelizmente, Pacheco Pereira, como tantos outros (com António José Seguro à cabeça), evita avançar com ideias concretas. O que até se compreende, visto esse ser um jogo de elevado risco: no limite, se aplicadas com maus resultados, ainda alguém poderia vir falar em traição.

 

Mas talvez o que mais me tenha incomodado no artigo de Pacheco Pereira seja a pequena batota em que ele o baseou. Atente-se na primeira frase: «O principal argumento governamental usado e abusado pelos seus defensores e parodiado pelos seus propagandistas» (quando é que receberei o cartão de sócio?), «e um must da pauperização do debate parlamentar, é a pergunta ‘então quais são as alternativas?’»; só que, logo a seguir, Pacheco Pereira esquece a sua própria afirmação e dedica-se a rebater o tal outro ponto que, parecendo quase igual, é afinal bastante diferente: que «defensores» e «propagandistas» do governo afirmam não haver alternativas. Para além de ligeiramente desonesto, acaba por se revelar muito menos produtivo.

Três cenários idílicos


escafandro,

Cenário 1 (à beira de um lago, com patos e cisnes deslizando na superfície calma das águas)

Fazemos voz grossa junto da Troika mas é a fingir. Eles percebem-no imediatamente e mandam-nos ter juízo. Os nossos parceiros europeus não acham piada. Por seu turno, os mercados financeiros reagem (e bem: mostrámos não ser de confiança) e os juros da dívida portuguesa voltam a disparar. Acabamos de cair na situação actual da Grécia.

 

Cenário 2 (numa praia de areia branca, com coqueiros inclinados, um veleiro ancorado ao largo e golfinhos saltando à distância)

Fazemos voz grossa junto da Troika e é a sério. Eles cedem e negoceiam-se novos prazos e montantes, e até um perdão parcial da dívida. Contudo, alguns países financiadores mostram-se relutantes em colaborar, expondo novamente as fracturas existentes a nível europeu, os bancos nacionais encaixam perdas elevadas que levam à necessidade de os recapitalizar com (ainda) mais dinheiro público, os mercados perdem a confiança em nós e os juros da dívida portuguesa voltam a disparar. Esperem… agora é que acabamos de cair na situação actual da Grécia.

 

Cenário 3 (numa cabana de montanha cercada por florzinhas, com o sol a brilhar no céu de um azul intenso, pontuado por uma única nuvem muito branca, junto a um rumorejante regato de água límpida, perto do qual dois cachorros, um São Bernardo e um Serra da Estrela, brincam com uma bola colorida)

Fazemos voz grossa junto da Troika e é a sério. Eles não cedem e nós anunciamos a suspensão de pagamento dos encargos da dívida, uma vez que achamos mais justo usar esse dinheiro para garantir salários e pensões. Os mercados perdem toda a confiança em nós e os juros da dívida portuguesa sobem tanto que se tornam um perigo para a aviação. O BCE, o FMI e os países que nos emprestaram dinheiro também não acham piada e cortam os financiamentos. Mas isto a gente já esperava. O pior é que, como a maioria da dívida se encontra em mãos nacionais, há uma data de instituições que encaixam perdas significativas (o fundo de investimento da Segurança Social, por exemplo) ou ficam à beira da falência (os bancos), tendo que ser salvas pelo Estado. Mas – bolas! – o dinheiro que se poupava ao reter os encargos da dívida destinava-se a pagar salários e pensões, não era? Temos pena. Ainda por cima, em menos de nada a situação atinge foros de histeria: os bancos, absolutamente incapazes de obter financiamento na totalidade do planeta e em alguns arredores, perdem depósitos mais depressa do que o Sporting perde pontos; as empresas que têm negócios com o exterior vêem os fornecedores exigir mais e melhores garantias; o investimento, que já anda baixo, fica negativo (que é como quem diz: toda a gente começa a levar o dinheiro para o estrangeiro ou a metê-lo onde muito já se encontra certamente: debaixo do colchão). A situação torna-se insustentável e a saída do euro inevitável. (É por isto e por mais alguns pormenores que ficaram de fora, entre os quais os de índole política, que constitui uma ilusão pensar que se pode denunciar o pagamento da dívida e permanecer no euro, como os partidos de esquerda e a CGTP parecem considerar.) Fora do euro, imprimem-se paletes de notas fresquinhas que valem bastante mais de manhã do que à tarde – e nem mencionemos o efeito da humidade nocturna. Um Clio bem equipado atinge o preço actual de um Mercedes de gama média (com pintura opaca, vá), o que deixaria Francisco Assis bastante incomodado se, por um lado, com os combustíveis acima dos dois euros por litro, o automóvel ainda fosse uma coisa que se usasse por cá e, por outro, o Parlamento ainda estivesse de pé. Contudo, este cenário tem inegavelmente um ponto positivo: permite-nos escapar à situação actual da Grécia.

Nas escadas


escafandro,

Vá-se lá saber porquê mas há alturas em que mesmo um tipo para quem a qualidade sonora é importante acaba por escolher a versão nas escadas, cheia de reverberações esquisitas, à versão de estúdio, muito mais perfeitinha. Quem preferir ouvir com os olhos fechados pode ir aqui.

Ao espelho


escafandro,

Lá em Baixo, como Uma Vizinha

Se eu não fosse eu e me ouvisse lá em baixo, como se fosse uma vizinha, a falar com ele, diria para comigo que me sentia muito feliz por não ser ela, por não dizer as coisas como ela diz, com uma voz como a voz dela e opiniões como as suas opiniões. Mas não posso ouvir-me lá em baixo, como se fosse uma vizinha, não posso ouvir como não devo falar, não posso sentir-me feliz por não ser ela, como sentiria se pudesse ouvi-la. Por outro lado, uma vez que ela sou eu, não lamento estar aqui em cima, onde não posso ouvi-la como se fosse uma vizinha, onde não posso dizer para comigo, como diria se estivesse lá em baixo, como me sinto feliz por não ser ela.

 

Amigos Maçadores

Só conhecemos quatro pessoas maçadoras. Os nossos outros amigos parecem-nos muito interessantes. Todavia, a maior parte dos amigos que achamos interessantes acham-nos maçadores: o mais interessante é o que nos acha mais maçadores. Desconfiamos dos poucos que adoptam de certo modo uma posição de meio-termo, com os quais partilhamos um interesse recíproco: sentimos que, a qualquer momento, poderão tornar-se demasiado interessantes para nós – ou nós, demasiado interessantes para eles.

 

Lydia Davis, Contos Completos. Edição Relógio D’Água (em português pré-AO), com tradução de Miguel Serras Pereira e Manuel Resende.

Eleições?


escafandro,

O Rui Rocha colocou um comentário no meu post anterior defendendo a realização de eleições. A pergunta que me surge é mesmo a que surgiu a c, outro comentador desse post: eleições para quê? O actual governo nasceu de um acto eleitoral com menos de ano e meio e tem por isso legitimidade para governar. De resto, a democracia não pode vergar-se a ciclos de poder demasiado curtos ou nunca qualquer governo terá hipótese de aplicar medidas impopulares. A duração dos mandatos, raramente inferiores a quatro anos, prende-se com esta constatação. Por outro lado, os protestos nas ruas ou nas caixas de comentários de edições online de jornais não podem considerar-se um barómetro fiável para avaliações deste género. Há muito mais gente calada do que a manifestar-se. Mas enfim: poder-se-á alegar que o governo está a implementar políticas bastante diferentes das prometidas em campanha eleitoral, o que o faz perder a legitimidade que lhe foi conferida pelos eleitores. Planando suavemente sobre a incrível e pelos vistos sempre renovada ingenuidade dos eleitores, é um bom argumento. Mas será suficiente para compensar os efeitos negativos de uma crise política neste momento? A queda do governo faria com que, durante meses, nenhuma medida significativa fosse tomada, os objectivos do memorando, já difíceis de atingir, se transformassem numa miragem, a trajectória da dívida nos mercados financeiros se invertesse e os nossos parceiros europeus fossem obrigados a decidir se continuariam a enviar-nos dinheiro sem o cumprimento das contrapartidas acordadas. Ou seja: colocar-nos-ia numa situação verdadeiramente similar à da Grécia. Mas talvez valesse a pena se as políticas do novo governo fossem melhores do que as do actual, certo? Pura ilusão: em menos tempo do que leva a dizer supercalifragilicious expialadocious (ou apenas num pouco mais), o PS mostraria que as exigências de medidas para o crescimento e de atenuação da austeridade que vem debitando (e que reforçaria durante a campanha eleitoral) possuem a consistência de uma bola de gelado de baunilha pousada durante dez minutos no umbigo de uma Charlize Theron em bikini, estendida na praia às três da tarde do dia mais quente do Verão. À frente do governo (qualquer que ele fosse), Seguro afixaria um ar compungido (que, de resto, lhe sai sem esforço) e iria de mão estendida a Bruxelas – ou talvez a Berlim. Isto é: um governo do PS encontrar-se-ia rapidamente na mesma situação de legitimidade que o governo actual – o país é que estaria ainda pior. A austeridade, imposta por financiadores chateados com a forma como agraváramos a situação, regressaria em força; a contestação social também. Mas há mais: alguém acredita que os socialistas reformariam o Estado no sentido e dimensão necessários, indo contra garantias repetidas até à exaustão e afrontando o seu eleitorado típico? Já para não mencionar os riscos ligados à provável inexistência de uma maioria absoluta e da necessidade de formar um governo de coligação. Honestamente, tudo ponderado, só compreendo o desejo de eleições se se acreditar numa das seguintes hipóteses:

– A liderança do PSD mudaria antes de elas ocorrerem, a nova liderança conseguiria ganhá-las e, depois, à frente de uma coligação, implementar as reformas que este governo não levou por diante, o que agradaria à Troika e acalmaria os mercados (hipótese para gente extremamente optimista, portanto, que encara Rui Rio como um messias);

– Um governo de bloco central liderado pelo PS garantiria consenso social e efectuaria as reformas, o que agradaria à Troika e acalmaria os mercados (duvido; a mim parece-me o concentrado ideal de interesses e demagogia – e se em 1983 esta solução resultou, o peso de Estado e, por conseguinte, a teia de interesses a ele associada era bastante menor);

– É altura de afrontar a Troika e, eventualmente, de sair do euro (caso em que, nas tais eleições, se votará Bloco de Esquerda ou Partido Comunista);

Assim sendo, resta-me repetir: eleições para quê?

 

(E, caramba, parem de pensar na Charlize Theron com a bola de gelado no umbigo.)

A tal refundação


escafandro,
Com um ano de atraso, Passos Coelho parece ter compreendido que tem mesmo de mexer a sério no Estado. Mais vale tarde do que nunca, dir-se-á. Receio que, neste caso, tarde possa equivaler a nunca. Há um ano, Passos detinha algum capital de boa vontade e talvez até conseguisse um módico de compreensão por parte da direcção do PS (dificilmente o apoio ou a colaboração). Hoje, o governo encontra-se sob fogo cerrado e o PS, por muitas garantias que receba de que talvez nem seja preciso mexer na Constituição (claro que é), nunca aceitará alterações que ultrapassem a pura cosmética. A sétima avaliação da Troika, perto do final do Inverno, promete. E o caminho até lá anuncia-se divertido. Pelo menos para os apreciadores de humor negro.

Perder a empatia


escafandro,

Afirma que as redes sociais e a Internet estão a mudar o cérebro dos adolescentes. Porquê?

É uma questão muito complexa. É como perguntar se um carro é bom ou mau. Tudo depende da forma como se conduz.

Mas é muito crítica em relação ao uso das novas tecnologias informáticas.

Nunca disse que os computadores são maus para o cérebro. O que disse foi que o cérebro humano se adapta ao ambiente que o rodeia, por isso somos uma espécie tão bem sucedida. E nos últimos anos houve mudanças enormes no ambiente e nos estímulos que rodeiam a mente humana, sobretudo devido ao aparecimento da Internet e de outras tecnologias informáticas. A situação actual é semelhante às alterações climáticas. Eu chamo-lhes alterações mentais. Há quem diga que estamos condenados, outros defendem que a ciência pode ajudar a resolver o problema.

Como?

Essa mudança mental tem a ver com a forma como o cérebro processa a informação. Alguns pais dizem que os filhos terão acesso às novas ferramentas informáticas quer queiram quer não. Mas eu defendo que devemos controlar esta área.

De que forma?

O acesso a alguns sites e às redes sociais influencia muito a forma como as crianças e os adolescentes se relacionam uns com os outros, assistimos a uma perda de empatia nas novas gerações. Muitos jovens têm problemas de identidade e de relacionamento com os colegas. Os videojogos são altamente viciantes, podem gerar distúrbios de atenção e agressividade. Os motores de busca estão a alterar a forma como processamos a memória e armazenamos os conhecimentos.

Os estudos mais recentes mostram que há mesmo alterações físicas no cérebro, por causa do uso frequente da Internet, dos videojogos e das redes sociais…

Exacto. Os dados mostram que há zonas do cérebro com anormalidades devido ao uso excessivo de videojogos e tecnologias informáticas. Uma das alterações é a forma como se liberta dopamina [a molécula produzida no cérebro responsável pelas sensações de prazer]. Verificou-se que as crianças que jogam videojogos começam a ter padrões cerebrais idênticos aos jogadores viciados em casinos.

[…]

No seu estudo encontrou casos dramáticos de dependência da Internet?

Sim, há casos de crianças que passam o tempo fechadas no quarto a brincar com o computador.

E que consequências tem isso?

Desligam-se dos amigos e têm muita dificuldade em interpretar os sentimentos de outras pessoas, não conseguem descodificar a linguagem corporal e o tom de voz em situações normais. Não conseguem distinguir se uma pessoa está triste ou alegre porque estão desligadas da realidade. As relações sociais precisam de muito treino, cara a cara, e há uma nova geração que só comunica por computador.

Isso pode explicar a falta de compreensão, os incidentes violentos, os tiroteios, por exemplo?

Se eu disser “O meu pai morreu” e a resposta for “Isso não me interessa nada”, seria algo que me perturbaria muito. Ora este tipo de respostas está a aumentar. Este Verão, um atleta olímpico britânico, Tom Daley, cujo pai tinha morrido pouco tempo antes das provas, recebeu mensagens horríveis quando ganhou a medalha de bronze e não a de ouro, como se esperava. Eram coisas do género: “O seu pai teria vergonha da sua prestação.” Esse tipo de atitude era impensável há alguns anos. As pessoas estão a perder a empatia.

 

(Da entrevista de Luís Silvestre a Susan Greenfield, cientista britânica, especialista em fisiologia do cérebro, professora de farmacologia sináptica na Universidade de Oxford, na revista Sábado desta semana.)

Da minha falta de produtividade ao terceiro homem, passando pelos buracos do queijo suíço


escafandro,

Adaptando mais uma frase imortal (para além de certíssima e to the point) do Ministro Vítor Gaspar, vem existindo um enorme desvio entre o número de posts que eu gostaria de produzir e o número que os meus dedos efectivamente alinhavam. Os motivos são fáceis de explicar: como as coisas andam, temo só conseguir repetir-me e, talvez mais importante, já nada me surpreende ou incomoda. Aliás, para ser sincero, nos últimos meses apenas as surpresas alheias mantinham capacidade para me surpreender. Agora nem isso. Um exemplo: anteontem ouvi o presidente da União das Misericórdias afirmar que encontrou um português trabalhando num café da Suíça que lhe disse ganhar mais do que o Presidente Cavaco Silva (certamente merece-o), concluindo daí que é preciso confrontar os responsáveis europeus sobre aquilo que a Troika está a impôr a Portugal, e já nem revirei os olhos. Não parece passar pela cabeça de tão insigne personagem, atarefado a ajudar os pobrezinhos, metido num fato de corte impecável, sentado num carro alemão de muitas dezenas de milhares de euros, auferindo provavelmente também ele um salário mais elevado do que o do Presidente da República (quiçá do que o do empregado do café; a propósito: estaria na Suíça em serviço?), como, de resto, não passa pela cabeça de tantos outros, entre os quais muitos ex-governantes cá do burgo, que os países onde um empregado de café ganha milhares de euros por mês fizeram por atingir esse nível de vida no passado e fazem hoje por mantê-lo. Não deve ser preciso explicar por que é tanto dinheiro entra na Suíça mas, para se perceber a diferença, talvez seja conveniente avançar meia dúzia de razões. Desde logo, estabilidade e cumprimento de regras. Depois (inspirar fundo): equipamento industrial, medicamentos, relógios, chocolates, bolachas, cereais de pequeno-almoço, queijos, canivetes, serviços financeiros, turismo; tudo áreas onde, por mérito próprio, os suíços são expoentes de qualidade e prestígio, não precisando de concorrer apenas com base no factor preço. É isto que lhes permite terem o nível de vida que têm; que lhes permite auferirem os tais salários e disporem de auto-estradas baratas e de mais túneis do que… enfim, do que um queijo suíço. Nós não temos economia para tal e nunca estivemos perto de a construir. Só achámos (pelos vistos, ainda achamos) ter direito aos benefícios que lhe estão associados. Uma espécie de direito divino ao que outros conquistaram através do trabalho e da competência. Com esta mentalidade, pode alguém levar-nos a sério? E, honestamente, ainda valerá a pena clamar contra isto? Não mudámos ao longo de séculos, também não vai ser agora. Vou mas é dar descanso aos dedos.

 

P.S.: Claro que, como dizia Harry Lime n’O Terceiro Homem (numa adenda de Orson Welles ao argumento original de Graham Greene), em Itália, durante três décadas sob os Bórgia, houve morte e terror mas surgiram Michelangelo, Leonardo Da Vinci e o Renascimento; na Suíça, em quinhentos anos de paz e democracia, chegou-se ao relógio de cuco. Se as coisas continuarem a piorar (Otelo, talvez a revolução não seja afinal má ideia), podemos sempre manter esperanças de que, no futuro, esta seja vista como uma das mais brilhantes épocas da arte portuguesa. Mas atenção: também neste campo a concorrência é feroz e, com a octogenária D. Cecilia, Espanha já nos leva avanço.

 

(Imagem obtida aqui.)

 

Fuck, I love certain haters…


escafandro,

Como hoje está um bocadinho fresco, talvez venha a propósito. Embora, na verdade e apesar de estar a ficar velho, eu não odeie o frio; tendo é a gostar de pessoas que odeiam.

 

(A propósito: a Margo, com a voz que, já lá vão mais de vinte anos, tantas vezes me embalou durante a universidade, e os restantes elementos dos Cowboy Junkies estarão no CCB a 17 de Novembro e na Casa da Música a 19. Depois não digam que não foram avisados.)