O glamour da cultura ou talvez a cultura do glamour


escafandro,

Panfleto distribuído à entrada de espectáculos incluídos no programa de Guimarães 2012. Desconheço se o conteúdo tem razão de ser mas não me custa a acreditar que sim. Este tipo de projectos é propenso a megalomanias em que as considerações económicas são detalhes mundanos e irritantes, afastados com garantias de ganhos significativos mas nunca directamente contabilizáveis. Os benefícios de «imagem», a criação de «hábitos», o desenvolvimento de uma «indústria cultural» e mais uma catrefada de chavões vencem sempre o cepticismo. No fundo, tudo não passa de um afinal provinciano desejo de parecer culto e inteligente; tão provinciano que acaba invariavelmente misturado com a satisfação de interesses particulares – pois se artistas «menores» e colaboradores diversos correm o risco de não serem pagos, as «mentes» organizadoras, os seus amigos e os artistas consagrados nunca têm razões de queixa. Claro que muitas vezes também é bem feito para os tais artistas menores, que vêem nestas feiras de vaidades uma oportunidade para se «afirmarem» e ganharem muito dinheiro de repente, à custa do erário público. Mas talvez o mais curioso seja que, depois, valeu sempre a pena, foi sempre um sucesso retumbante. Com o lixo empurrado para debaixo do tapete, as críticas desvanecidas pelo tempo e pelo cansaço, e as contas pagas pelo contribuinte. Cultura? Provincianismo puro.

Apelo público ao CDS


escafandro,

Vá lá, arranjem alguém que se oponha a Luís Filipe Menezes na corrida à presidência da Câmara Municipal do Porto. Pode ser Rui Moreira (excessivamente portista para os meus gostos mas, enfim, nem eu estou isento de defeitos), pode ser outra pessoa – não caiam é na asneira de se deixarem colar a um dos símbolos da irresponsabilidade orçamental que assolou este país nos últimos (muitos, demasiados) anos.

E, aproveitando estar com a mão na massa, peço-vos que façam o mesmo em Vila Nova de Gaia se o candidato do PSD for o… o… (caramba, nem tenho adjectivos)… Marco António Costa. Evitem-me um comportamento que detesto: votar em branco.

Muito obrigado.

Visão de fora


escafandro,

Aquele frémito que sentimos ao falarem de nós no estrangeiro… Inevitabilidade ou insegurança? Senti-lo-ão os nova-iorquinos, conscientes que estão de se encontrarem no centro do mundo?

Anyway… Vem isto a propósito do diário de viagem que Michael Timmins, dos Cowboy Junkies, mantém no site oficial da banda. Como publicitei abundantemente, os Junkies andaram por cá há cerca de uma semana. Mike escreveu um post sobre a passagem por Lisboa e outro sobre as experiências no Porto: parece que gostou dos pastéis de Belém, detestou a francesinha e a Casa da Música fê-lo pensar nos stormtroopers da Guerra da Estrelas.

E, já agora, para começar bem a semana, fiquem com mais um tema recente deles.

 

Bananas e um programa de televisão quase clandestino


escafandro,

 

Há vários álbuns míticos com bananas na capa. O meu preferido (e, sendo a minha originalidade inatacável, de milhões de outras pessoas) é indubitavelmente The Velvet Underground and Nico. Mas Between 10th and 11th, dos Charlatans, merece menção honrosa e audições regulares. Os Charlatans ainda existem, claro, e até continuam a produzir canções bastante razoáveis mas, na minha opinião e na de qualquer outra pessoa com aquilo que se pode chamar de patamar mínimo de bom gosto (sente-se abrangido? Excelente), este é o grande álbum deles: se as bananas estão demasiado maduras, a música, apesar dos vinte anos de idade, permanece bastante comestível, num estilo Madchester-quase-a-terminar. Vi pela primeira vez o vídeo de Weirdo (oitavo tema, primeiro single) no mítico programa televisivo Pop-Off que, ainda universitário, acompanhava num televisor com um ecrã pouco maior do que o que hoje se pode encontrar num iPhone – e a preto e branco. (É verdade, crianças, embora a cor já existisse na televisão portuguesa há cerca de uma dezena de anos, ninguém avisara aquele televisor.) Numa época em que, Twin Peaks e um ou outro Império dos Sentidos exceptuados,  os conteúdos televisivos primavam pelo cinzentismo (ou talvez eu tenha ficado com essa ideia por causa do televisor), Pop-Off era um programa estranho mas também estranhamente entusiasmante, pela música que passava, pelos vídeos que produzia (tão low-budget mas tão esforçados que eram verdadeiras obras-primas de arte kitsch), pela Sofia Morais (então – a vários anos de catastróficas participações como jurada em programas de descoberta de talentos – inteiramente adorável), pelas entrevistas, pela vontade de provocar e de quebrar regras. (Quem desejar mais informações pode ir aqui; o artigo é óptimo e inclui coisas tão deliciosamente estapafúrdias como uma jornalista do Diário de Notícias ter pensado, ao assistir por acaso à emissão número 100, que aquilo era uma estação de televisão pirata.) Escrevia eu então (as divagações, garanto-vos, são uma coisa divertida para quem escreve, apesar de serem com frequência – estou consciente disso – uma chatice para quem lê) que vi este vídeo pela primeira vez no Pop-Off. Terá pois sido numa noite de Terça para Quarta, à uma e tal da manhã, fase do ciclo diário em que as minhas capacidades cognitivas tendiam a encontrar-se longe da melhor forma (*)(**), o que, refira-se, só parecia potenciar o efeito do conteúdo do programa. E por que é que ele me ficou na memória quando esqueci tantas outras coisas, entre as quais o conteúdo de todas as aulas teóricas a que assisti às oito da manhã? Em primeiro lugar porque, graças a uma razão misteriosa qualquer, passava estranhamente bem no pequeno ecrã a preto e branco que, alimentado de sinal por uma antena telescópica já bastante torcida, tremeluzia como se sofresse de uma variante electrónica da doença de Parkinson. Depois porque a primeira frase da canção me vem à ideia sempre que encontro pessoas incompreensivelmente felizes (felizmente cada vez mais raras). Deixo aqui o vídeo (que só consegui encontrar numa resolução fraquinha mas afinal tão adequada), com uma dedicatória à Sofia Morais dos tempos em que era gira e divertida, e outra ao pequeno televisor que um amigo a quem o emprestei depois de acabar o curso fez o favor de emprestar a uma namorada de quem se separou em termos tão pouco cordiais que nunca mais quis falar-lhe, nem sequer para lhe pedir o aparelho de volta.

 

Ah, a frase? Most of the time you are happy – you’re a weirdo.

 

 

(*) Nascido no campo, estou habituado a deitar-me cedo.

(**) Como – e deve ser tão óbvio – se encontram neste preciso momento.

 

(Republicado com alterações.)

Isto, às vezes


escafandro,

Não me apetece.

Não te apetece o quê?

Fazer isto.

Isto o quê?

Isto.

Não faças. És obrigado?

Não me parece.

Então não o faças.

Sinto que devo fazê-lo.

Ninguém tem de o fazer.

Desisto, então?

Se te apetecer.

Também não me apetece.

Então faz.

É o que estou a tentar.

 

Já agora: falas com quem?

Contigo. Comigo. Não sei.

 

Ficou bem assim?

Não me parece.

Crenças e expectativas


escafandro,

1. Novas divindades

O ser humano da sociedade ocidental moderna transferiu a crença num deus para a crença na tecnologia. Em raras ocasiões isto se torna tão evidente como depois de uma catástrofe natural. Com tantos satélites e sistemas de medição e telescópios e computadores, como foi possível que ela não tenha sido prevista? E, se foi, por que não se previu ao detalhe (a cidade, a rua atingida) e por que não se implementaram atempadamente (ainda que a margem fosse de minutos ou até de segundos) medidas de protecção? E, se foi prevista e até se implementaram medidas de protecção, a que propósito se permitiu que ocorressem danos? Há nesta crença simultaneamente uma enorme ingenuidade e uma enorme arrogância. Ingenuidade em pensar que tudo se pode prever ao mais ínfimo pormenor; arrogância ao acreditar que o ser humano tem capacidade para moldar a natureza aos seus interesses, fazê-la obedecer às suas conveniências e, em luta corpo a corpo, vencê-la. Não é assim; ainda não é, pelo menos. Acreditar nisto (ou entrar na histeria típica das televisões e agir como tal) dá origem a uma esquizofrenia que leva as autoridades a sentir terem de emitir alertas ao mais ínfimo sinal de perigo, banalizando os alertas e atenuando-lhes os efeitos, e faz com que a qualquer desastre se siga a inevitável busca por culpados (mas se até em fóruns da internet se disse que podia acontecer…). Numa época em que tantas pessoas se sentem frágeis e impotentes perante um mundo que, da economia à tecnologia, não dominam, é algo irónico verificar como parece acreditar-se que outras pessoas têm sempre soluções à disposição. Para o cidadão médio, os profetas actuais sentam-se defronte de ecrãs de computador e precisam apenas de saber interpretar os sinais que neles vêem para que, depois, as autoridades tratem do resto – e tudo acabe bem. Os desastres naturais passaram de castigos dos deuses a incompetência humana.

 

2. O Estado-paizinho

Outra expectativa de muitos humanos actuais (certamente dos portugueses) é que, em situações de catástrofe natural, o Estado «ajude». É verdade que, até certo ponto, o Estado tem obrigação de ajudar: de socorrer, de tratar, de procurar minorar consequências, de alojar provisoriamente. Mas o Estado não tem nem deve ter a obrigação de pagar todos os estragos nem de reconstruir tudo que foi destruído. Fazê-lo implica usar recursos extraídos à totalidade dos cidadãos para compensar quem, tendo muitas vezes forma de se proteger, escolhe não o fazer. (Um exemplo: por que não se encontram seguros todos os edifícios municipais? Um seguro feito em bloco – digamos através da Associação Nacional de Municípios – ficaria baratíssimo.) A tendência para clamar por apoio estatal, tão enraizada entre nós (surge sempre que ventos fortes levam telhados, que chuvas intensas causam inundações, que incêndios destroem florestas, sempre até que uma empresa privada se encontra em dificuldades financeiras) tem custos que, pelos vistos, ainda não percebemos – entre os quais (e é um círculo vicioso) os da perpetuação da mentalidade que nos mantém reféns.

Adenda: Levando isto mais a situação financeira do país em conta, as declarações de Miguel Macedo foram correctas. E as de Passos Coelho lamentáveis. Ainda que o primeiro pudesse ter sido mais diplomático e o segundo quisesse apenas realçar esse facto.

Relações unívocas e tácticas falhadas


escafandro,

Adora quem adora excentricidade mas é demasiado normal para ser correspondido.

 

Exige espontaneidade mas analisa-a à lupa.

 

Esconde a insegurança com a brusquidão e deixa toda a gente insegura.

 

Anseia por desafio mas a agressividade só lhe garante relações com pessoas passivas.

 

Imagina tremendo potencial nos outros mas descobre-o sempre por realizar.

 

Fala tanto que as pessoas deixaram de o ouvir.

 

Deseja uma relação estável mas imagina-a sempre com o parceiro seguinte.

 

Usa o desinteresse como táctica para se tornar interessante mas ninguém lhe liga.

 

Procura debates estimulantes dizendo sempre as mesmas coisas às mesmas pessoas. 

 

Tem pensamentos profundos mas só consegue exprimi-los em termos frívolos.

Pecado e dúvida


escafandro,

 

I’m big on the idea of sin...

A minha primeira ideia, Margo, foi responder-te com o título de um livro escrito por um autor português chamado Mário de Carvalho: era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. Depois percebi a infantilidade da reacção. A verdade é que, se efectivamente também gosto da ideia de pecado, nunca fui muito para além da ideia e cada vez mais me limito a ela.

Por outro lado, não é de excluir que esteja a ser demasiado pessimista, a inventar desculpas e dificuldades. Mas como ter a certeza se, de acordo com o que também cantas mais perto do final do tema: I don’t know if it’s faith or habit but I’m big on the idea of doubt?

 


Relembro que eles estarão no CCB no próximo sábado e na Casa da Música dois dias mais tarde; os tempos não andam propensos a gastar-se dinheiro em concertos mas enfim: se puderem, aproveitem.

Pensamentos ruidosos


escafandro,

Comecei cedo a ser assaltado por pensamentos que o bom senso recomendava manter privados. Mas eram pensamentos tão ruidosos que os esforços para impedir que fossem ouvidos pelas outras pessoas me levavam a trejeitos, pausas, vocalizações estranhas e enrubescimentos variados. Durante anos pensei que a idade me traria a experiência necessária para suportar melhor o barulho no interior da cabeça e evitar reagir-lhe de forma visível. Não está a acontecer. Pelo contrário: à medida que o meu cérebro vai ficando mais lento (num processo tão manifesto que já nem foi capaz de corrigir a aliteração existente no início deste post), os meus pensamentos mostram-se cada vez mais ruidosos (certamente efeitos do amontoar de ferrugem, das folgas, de deficiências de lubrificação) e permaneço tão incapaz como sempre de os esconder. A evolução positiva vem-se registando afinal noutra área: estou-me cada vez mais nas tintas.

Beja


escafandro,

Tenho uma dúvida: por uma qualquer razão que escapa à minha – reconhecidamente mui limitada – capacidade de entendimento, Beja apostou num determinado tipo de especialização (transformar-se num «centro de estruturas sem utilizadores», digamos) ou o governo anterior decidiu fazer dela um concentrado exemplar das suas políticas de investimento – as tais que a esquerda continua a defender?

Die Frau mit langem Schatten


escafandro,

Nos primeiros anos da existência do euro (e com isto quero dizer desde a segunda metade da década de noventa, mesmo antes de ele circular sob a forma de notas e moedas), a Alemanha viu o investimento deslocar-se para Sul (bem como para Leste, mas deixemos isso para outra oportunidade), área geográfica onde os níveis de rentabilidade eram muito superiores e o risco (conforme famosas declarações de Vítor Constâncio) parecia igual. Ainda às voltas com os custos da reunificação, vendo o investimento escapar, confrontada com uma evolução demográfica assustadora e com um comércio onde a China ameaçava dar cartas, a Alemanha implementou reformas – não radicais mas significativas. Por exemplo, reviu a lei laboral e das prestações de desemprego (as famosas leis Hartz, com destaque para a Hartz IV) e alterou o sistema de segurança social, introduzindo, para além de mudanças nas fórmulas de cálculo, um sistema complementar privado e um aumento progressivo da idade da reforma para os 67 anos. Entretanto, os países do sul aplicavam o influxo de capitais em imobiliário, consumo e dívida pública. Quando a crise financeira de 2008 levou primeiro os países europeus a agravar o frenesim despesista e, logo a seguir, expôs o esquema de Ponzi a que se dedicavam há anos (e que muitos ainda hoje desejam prolongar), a Alemanha, não passando ao lado da crise (desde logo por causa dos bancos mas também porque, apesar das reformas, a economia alemã tinha – e tem – falhas), transformou-se num refúgio, vendo regressar os capitais e passando a financiar-se a juros pouco acima de zero. Naturalmente, transformou-se também no mau da fita.

 

Angela Merkel, que nos visita amanhã, foi quase irrelevante no meio de tudo isto. Em 2009 e 2010 deixou que Sócrates, Zapatero, Papandreou e Berlusconi utilizassem notas de euro como se fossem produtos descartáveis (mas, ei, a Alemanha não pode mandar nos restantes, certo?) e, depois, fez o que qualquer outro líder alemão teria feito. Para a Alemanha, como para a Finlândia, para a Holanda ou para a Áustria, era crucial que o euro permanecesse uma moeda forte (foi com base em moeda forte que enriqueceram) e isso implicava garantir que os países em dificuldades aplicavam um travão ao investimento não produtivo e faziam as reformas eternamente adiadas. Ter-se-ia dispensado a faceta punitiva, que hoje se revela prejudicial, mas mesmo essa deve ser compreendida: para um alemão, descobrir que a Grécia tinha aldrabado as contas para aceder ao euro; que vários países haviam aproveitado as taxas de juro reduzidas a que o euro lhes dera acesso para gastar desalmadamente; que, ao contrário do que sucedera na Alemanha, não haviam levado a cabo quaisquer reformas de fundo; para um alemão, como para qualquer pessoa de qualquer outra nacionalidade se colocada perante idêntico cenário, a vontade de aplicar um castigo surgiu instintivamente – e compreensivelmente.

 

Hoje, Merkel está presa entre uma União Europeia que ameaça colapsar e uma política que, a prazo, poderá arrastar a Alemanha para os eternos ciclos de desvalorização-inflação em que os países do Sul são exímios (e nos quais, depois da traumática experiência da década de vinte do século passado, os alemães juraram nunca mais cair). Dentro do euro, Merkel apenas dispõe de três vias: forçar uma austeridade a todo o custo que se revelará contraproducente mesmo para a própria Alemanha, amenizar a austeridade à medida (mas apenas à medida) que forem sendo implementadas reformas de fundo nos países em dificuldades (coisa que está a acontecer muito devagar, se é que está a acontecer de todo), ou aceitar pagar a conta, esquecendo a lição de Weimar. Sendo que, antes de mais, Merkel responde aos alemães, os quais não desejam o bailout e a julgarão dentro de menos de um ano. Aliás, para quem anda por aí a clamar que um governo eleito há dezassete meses perdeu legitimidade por já não reflectir a opinião popular, a política do governo alemão, alinhada com a vontade popular, devia merecer apreço. Pelo contrário, parece ser tão ou mais ofensiva.

 

Mas talvez a parte mais interessante e delicada do problema seja simbólica e não económica. Na ópera Die Frau ohne Schatten (A Mulher sem Sombra), do alemão Richard Strauss, a personagem principal é uma imperatriz presa entre dois mundos, o humano e o dos espíritos, denunciada como não totalmente humana pela falta de sombra. Merkel (que aprecia ópera mas, segundo creio – no que parece ser um pré-requisito para qualquer líder alemão –, prefere Wagner a Strauss) está também presa entre dois mundos (o da responsabilidade orçamental com uma moeda forte e o do laxismo com uma moeda fraca) mas carrega, pelo contrário, uma sombra demasiado longa: a sombra das duas guerras mundiais e das atrocidades do nazismo. Foi para a diminuir que a Alemanha prescindiu do marco e ligou o seu futuro ao de países cronicamente irresponsáveis (poucos alemães, incluindo políticos, desejavam a mudança*), é talvez em parte para a diminuir que se esforça por permanecer no euro. Tudo em vão. A sombra do passado continua a recair sobre os alemães (e continuará durante décadas, sempre que algo correr mal na Europa), tornando-os um pouco menos que humanos. Como provavelmente amanhã muitos cartazes não deixarão de mostrar.

 


* Circunstância que deveria pelo menos abalar as teorias da conspiração segundo as quais a Alemanha procura mais uma vez conquistar a Europa, desta feita sem recurso à força militar.

Adultos


escafandro,

Ora, eu ouvi isto todos os dias da minha educação: são coisas que qualquer pai (e avó) competente repete aos seus filhos. São ilustrações simplistas de uma hierarquia de prioridades saudável. São, também, parte da narrativa católica, da narrativa católica conforme passada às crianças. Foi estranho ouvir aquilo de alguém que falava para adultos, mas não mais do que isso: estranho.

Lourenço Cordeiro, no Complexidade e Contradição, em texto (já referido pela Ana Vidal) sobre a polémica levantada pelas declarações de Isabel Jonet.

 

Caro Lourenço:

Não é assim tão estranho porque muitos adultos parecem hoje pouco mais do que crianças. Não conseguem separar o essencial do acessório, tomam notícias absurdas como verdadeiras, reagem instantaneamente, mantêm uma opinião já depois de se encontrarem na posse de dados suficientes para a perceberem errada, detestam constatar que certas coisas estão fora do seu alcance. Nesta fase de dificuldades económicas, a situação agrava-se. Como a criança que não entende o argumento «é demasiado caro», recusam-se a aceitar más notícias – por exemplo, notícias em que lhes dizem que certas coisas que antes eram possíveis deixaram o ser. Recusam os dados objectivos, acham que é uma injustiça, procuram quem culpar, batem o pé, fazem birra. Crianças. E assim acaba por ser lógico, embora talvez contraproducente, que algumas pessoas comecem a tratá-los como tal.