1. Novas divindades
O ser humano da sociedade ocidental moderna transferiu a crença num deus para a crença na tecnologia. Em raras ocasiões isto se torna tão evidente como depois de uma catástrofe natural. Com tantos satélites e sistemas de medição e telescópios e computadores, como foi possível que ela não tenha sido prevista? E, se foi, por que não se previu ao detalhe (a cidade, a rua atingida) e por que não se implementaram atempadamente (ainda que a margem fosse de minutos ou até de segundos) medidas de protecção? E, se foi prevista e até se implementaram medidas de protecção, a que propósito se permitiu que ocorressem danos? Há nesta crença simultaneamente uma enorme ingenuidade e uma enorme arrogância. Ingenuidade em pensar que tudo se pode prever ao mais ínfimo pormenor; arrogância ao acreditar que o ser humano tem capacidade para moldar a natureza aos seus interesses, fazê-la obedecer às suas conveniências e, em luta corpo a corpo, vencê-la. Não é assim; ainda não é, pelo menos. Acreditar nisto (ou entrar na histeria típica das televisões e agir como tal) dá origem a uma esquizofrenia que leva as autoridades a sentir terem de emitir alertas ao mais ínfimo sinal de perigo, banalizando os alertas e atenuando-lhes os efeitos, e faz com que a qualquer desastre se siga a inevitável busca por culpados (mas se até em fóruns da internet se disse que podia acontecer…). Numa época em que tantas pessoas se sentem frágeis e impotentes perante um mundo que, da economia à tecnologia, não dominam, é algo irónico verificar como parece acreditar-se que outras pessoas têm sempre soluções à disposição. Para o cidadão médio, os profetas actuais sentam-se defronte de ecrãs de computador e precisam apenas de saber interpretar os sinais que neles vêem para que, depois, as autoridades tratem do resto – e tudo acabe bem. Os desastres naturais passaram de castigos dos deuses a incompetência humana.
2. O Estado-paizinho
Outra expectativa de muitos humanos actuais (certamente dos portugueses) é que, em situações de catástrofe natural, o Estado «ajude». É verdade que, até certo ponto, o Estado tem obrigação de ajudar: de socorrer, de tratar, de procurar minorar consequências, de alojar provisoriamente. Mas o Estado não tem nem deve ter a obrigação de pagar todos os estragos nem de reconstruir tudo que foi destruído. Fazê-lo implica usar recursos extraídos à totalidade dos cidadãos para compensar quem, tendo muitas vezes forma de se proteger, escolhe não o fazer. (Um exemplo: por que não se encontram seguros todos os edifícios municipais? Um seguro feito em bloco – digamos através da Associação Nacional de Municípios – ficaria baratíssimo.) A tendência para clamar por apoio estatal, tão enraizada entre nós (surge sempre que ventos fortes levam telhados, que chuvas intensas causam inundações, que incêndios destroem florestas, sempre até que uma empresa privada se encontra em dificuldades financeiras) tem custos que, pelos vistos, ainda não percebemos – entre os quais (e é um círculo vicioso) os da perpetuação da mentalidade que nos mantém reféns.
Adenda: Levando isto mais a situação financeira do país em conta, as declarações de Miguel Macedo foram correctas. E as de Passos Coelho lamentáveis. Ainda que o primeiro pudesse ter sido mais diplomático e o segundo quisesse apenas realçar esse facto.

Pensei o mesmo quando vi a reportagem da visita do ministro ao complexo de piscinas e à cms, ambos atingidos: então nada daquilo tinha seguro?!
Há imensos edifícios públicos (camarários e não só) sem seguro. Nunca fomos bons a delinear as coisas de modo a ter custos bem definidos e razoavelmente estáveis – e como o contribuinte acaba sempre por pagar os danos…
Concordo com os pontos de vista que aqui apresentou. Desde há muito que me parece que os repetidos alertas que as autoridades anunciam a torto e a direito, quase sempre pecando por exageradas, estão a servir alguns interesses, a que as corporações de bombeiros não estão totalmente alheias.
Eu tenho pelos bombeiros um certo respeito e admiro a abnegação de muitos. Mas quem ler coisas como esta, tem que ficar preocupado:
http://amar-abrantes.blogs.sapo.pt/55293 5.html
Não vou tão longe, Tiro ao Alvo, apesar de saber perfeitamente que há muitos interesses ligados aos bombeiros. Considero que é mesmo a pressão da opinião pública, alimentada pela comunicação social (e vice-versa: a pressão da comunicação social alimentada pela opinião pública), que leva as autoridades a não desejarem correr riscos.
lamentável.