O glamour da cultura ou talvez a cultura do glamour


escafandro,

Panfleto distribuído à entrada de espectáculos incluídos no programa de Guimarães 2012. Desconheço se o conteúdo tem razão de ser mas não me custa a acreditar que sim. Este tipo de projectos é propenso a megalomanias em que as considerações económicas são detalhes mundanos e irritantes, afastados com garantias de ganhos significativos mas nunca directamente contabilizáveis. Os benefícios de «imagem», a criação de «hábitos», o desenvolvimento de uma «indústria cultural» e mais uma catrefada de chavões vencem sempre o cepticismo. No fundo, tudo não passa de um afinal provinciano desejo de parecer culto e inteligente; tão provinciano que acaba invariavelmente misturado com a satisfação de interesses particulares – pois se artistas «menores» e colaboradores diversos correm o risco de não serem pagos, as «mentes» organizadoras, os seus amigos e os artistas consagrados nunca têm razões de queixa. Claro que muitas vezes também é bem feito para os tais artistas menores, que vêem nestas feiras de vaidades uma oportunidade para se «afirmarem» e ganharem muito dinheiro de repente, à custa do erário público. Mas talvez o mais curioso seja que, depois, valeu sempre a pena, foi sempre um sucesso retumbante. Com o lixo empurrado para debaixo do tapete, as críticas desvanecidas pelo tempo e pelo cansaço, e as contas pagas pelo contribuinte. Cultura? Provincianismo puro.

6 comentários em “O glamour da cultura ou talvez a cultura do glamour”

  1. “Desconheço se o conteúdo tem razão de ser mas não me custa a acreditar que sim”
    É sempre uma afirmação bonita e altamente credível..

    Se ao invés destas bacoradas escarradas em forma de post fosse tentar perceber aquilo que realmente se passa, ficaria a saber que quem distribuiu esses panfletos e quem sofre, infelizmente, na pele estes atrasos nos pagamentos, têm toda a razão na queixa, não têm razão a quem a dirigem e a quem atingem.

    Estes atrasos nos pagamentos, que infelizmente se arrastam desde meados do ano, dvem-se apenas e só ao atraso na transferência de verbas por parte do governo de Portugal. Fique o senhor a saber que em outubro, com 80% da programação da CEC2012 concluida, o governo tinha transferido 5% do dinheiro devido à fundação cidade de guimarães.

    Fique a saber o senhor que neste entretanto a câmara municipal de guimarães assumiu e pagou milhares de euros que não deve a ninguém mas que o fez apenas para honrar os seus compromissos. Fê-lo atá onde pôde.

    Só tenho pena que estas pessoas que infelizmente sofrem com estes atrasos e pagam bem cara a inércia dos nossos governantes não encontrem interlocutores mais habilitados a defender a sua causa que o senhor, que, diga-se de passagem, consegue a maravilha de ser um cosmopolita bacoco, ou seja, provinciano até ao tutano.

    Para finalizar deixe-me apenas deixar claro como a água que não tenho qualquer ligação com nenhum dos intervenientes deste processo, apenas sou um cidadão que procura informar-se antes de escrever.

    Cordialmente,

    Pedro Mendes

    1. Eu explico: estou-me nas tintas para o caso particular de Guimarães; é só mais um no longo rol de casos similares. Se reparar, aliás, o post parte do panfleto – que recebi em mão – para uma apreciação genérica. As suas informações, aliás, só reforçam o texto, ao mostrar como tudo isto depende quase exclusivamente dos contribuintes.

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