«Embora não simpatize muito com o género da apresentadora Moura Pinheiro», diz a Gui Abreu Lima nos comentários ao post da Ana Lima sobre o fim do Câmara Clara. Pois, eu também não.
(O texto é de 2010 e republico-o – com alterações – porque, para além de servir como uma espécie – realço «espécie» – de homenagem ao Câmara Clara, alguém tem de manter o Delito com um número suficiente de posts por dia; menos de sete ou oito e nem parece o Delito.)
«As mulheres interessantes são mais interessantes que os homens interessantes. São é menos.»
Quando um homem diz que uma mulher é «interessante» não costuma estar a pensar na aptidão que ela demonstra para discutir apaixonada e pormenorizadamente se os melhores filmes de Alfred Hitchcock são os do período inglês ou os do período norte-americano. Uma mulher é interessante, antes de qualquer outra consideração, pelas mesmas razões que um Aston Martin é interessante: questão de linhas (ou curvas) e capacidade para gerar excitação, nervoso miudinho e vontade de – acho que não há forma de escrever isto sem parecer machista, pelo que nem vou tentar – dar uma voltinha.
Mas, claro, não era (apenas) a isto que Pedro Mexia se referia. Provavelmente ele estava também a pensar no conhecimento da obra do Hitchcock. E a fazê-lo de um ponto de vista masculino, classificando como interessante aquilo que nem sempre o será. Reconheçamo-lo: os homens têm um cérebro ligeiramente autista, que muitas vezes se dedica a inventar problemas e a estabelecer prioridades discutíveis. Afinal, não será mais importante fruir os filmes do Hitchcock do que escalpelizá-los e ordená-los por ordem de qualidade? Interessa assim tanto definir se North by Northwest é melhor ou pior do que Os 39 Degraus? Talvez o sentido prático (e mais instintivo) das mulheres as leve a não se deixarem enredar em questões razoavelmente etéreas ou em problemas sem solução: note-se como ainda parecem existir mais grandes escritores ou filósofos do sexo masculino mas, nas áreas técnicas, onde se abordam problemas resolúveis, as mulheres já são a maioria. Ou talvez o facto decorra apenas da falta de tempo: diga-se o que se disser acerca da igualdade dos sexos (perdão, agora diz-se géneros, não é?), a maioria das mulheres tem o tempo muito mais ocupado do que a maioria dos homens – até para ver os filmes do Hitchcock, quanto mais para elaborar análises comparativas entre eles. Enfim, seja a explicação qual for, concordo com Pedro Mexia: as mulheres interessantes são mais interessantes que os homens interessantes (desde logo, tudo o resto sendo igual, são mulheres) mas são menos. E de qualquer modo, independentemente do número que por aí ande, a pergunta fundamental é: como reconhecer uma mulher interessante ao vivo? (As meninas que ainda estão a ler – prova mais do que suficiente de que são interessantes mas também de que isto nada tem a ver com bom-senso – podem inverter os papéis e pensar em homens interessantes.) Serão as que frequentam museus, vernissages e festivais de cinema? Hmmmm, dificilmente: não parecem muitas dessas mulheres apenas pomposas? E que tal aquelas que lêem nos transportes públicos? Sejamos honestos: em primeiro lugar, são poucas; em segundo, são com frequência e na outra acepção do termo, pouco interessantes; por último, estão quase invariavelmente a ler José Rodrigues dos Santos ou Dan Brown, facto que diminui bastante o interesse que suscitam, mesmo na acepção do termo de que estamos a falar. As que escrevem em blogues? Algumas, são-no certamente. Outras… nem tanto. E, de resto, eu estava a tentar descobrir como reconhecê-las ao vivo. Por enquanto, a net ainda não equivale à vida real, pelo menos para pessoas interessantes. (Na televisão, muito embora continuem a ver-se poucas, é mais fácil reconhecer uma mulher interessante: tem o cabelo que a Paula Moura Pinheiro tinha antes de o cortar, os olhos que a Paula Moura Pinheiro ainda tem e apresenta programas com títulos roubados a livros sobre fotografia escritos por Roland Barthes.)
A verdade é que uma mulher – como um homem, de resto – é quase sempre mais interessante enquanto possibilidade do que como realidade. Há uma dúzia de anos, havia uma rapariga ruiva (já confessei a minha atracção por ruivas, não já?) na Fnac do NorteShopping. Estava habitualmente em pé junto a um balcãozinho contíguo à secção de música clássica, vestindo calças de ganga azuis e o coletezinho verde e ocre da Fnac. Foi uma época em que comprei bastante música clássica, pelo que a via com frequência. (A ordem é mesmo esta ou alguém acredita que eu perderia a cabeça ao ponto de comprar Salomé apenas por causa de uma rapariga ruiva?) Tinha uma face larga e cabelo comprido encaracolado. (Que homem heterossexual não gosta de cabelo comprido e encaracolado nas mulheres, por muito fora de moda que em certas épocas possa estar?) Falei com ela um par de vezes, se tanto, apenas para encomendar óperas (sei que lhe encomendei uma de Donizetti mas já não tenho a certeza se foi O Elixir do Amor, se a Filha do Regimento; o meu cérebro inclina-se para A Filha do Regimento mas o meu instinto teima que foi O Elixir do Amor). Lembro-me de que era excelente a efectuar pesquisas no computador (encontrava-me as óperas sem qualquer dificuldade) e que tinha um sorriso bonito (mas não creio que alguma vez tenha sorrido para mim, mesmo na sequência daquelas coisas que se dizem quando se pretende ter piada, como «a Tosca da Callas» ou «isto ainda há-se ser cantado a sério por quatro rapazes esbeltos vestidos com fatos escuros e ar pomposo»). Depois, um dia, deixei de a ver por lá. Provavelmente arranjou um emprego mais bem remunerado, casou, teve filhos, engordou, entristeceu e nunca mais pensou em óperas. E é esta a verdadeira dúvida: aquela rapariga ruiva era interessante ou tinha potencial para ser? E deve um homem procurar logo uma mulher interessante ou uma que tenha potencial? Quase todos os homens têm uma costela de Pigmalião. Mas, especialmente nos dias que correm, as mulheres não são fáceis de moldar, pelo que apostar numa que apenas pareça ter potencial para ser interessante comporta graves riscos de desilusão. Por outro lado, as que parecem interessantes logo à partida são quase sempre inacessíveis, quanto mais não seja por estarem noutras cidades ou, ainda que na mesma, casadas com idiotas (ok, se eles fossem mesmo idiotas elas não seriam inacessíveis). É talvez por isso que, numa visão romântico-pessimista, as mulheres mais interessantes são aquelas que não se chegam verdadeiramente a conhecer – e aposto que elas podem dizer o mesmo acerca dos homens. Afinal, mesmo que a rapariga ruiva da Fnac nem sequer gostasse de música clássica, eu achá-la-ei eternamente interessante.
(Pelo que, nunca fiando, dispenso conhecer pessoalmente a Paula Moura Pinheiro.)
(Ou não.)







