Há pessoas com quem não nos apetece estar. Não lhes temos ódio ou qualquer outro sentimento «forte». Há apenas algo que nos retrai e afasta delas. Consideramo-las frívolas ou tagarelas ou demasiado carentes. Mas por vezes, depois de, contrariados, termos passado algum tempo com elas (num almoço ou num jantar, num encontro fortuito na rua ou num café, numa reunião familiar) surpreendemo-nos ao chegar à conclusão de que não custou tanto como temíamos e de que até apreciámos aqueles instantes. Reconhecemo-lo com uma vergonha ligeira, pela injustiça que cometemos, mas também com um pouco de má vontade, pela cedência a que somos forçados: é desagradável que pessoas de quem decidíramos não gostar nos mostrem que não tínhamos razões válidas para o fazer. E, por isso, continuamos a não ter vontade de estar com elas.
(Republicado.)

Será que estamos a ficar pataroucos?
Estamos de certeza. Mas porquê a pergunta?
Isso é o plural majestático? Pergunto porque a mim o que me acontece normalmente nessas circunstâncias é ver, mais uma vez, que a grande maioria das pessoas tem lá dentro um mundo muito mais interessante e surpreendente do que aquilo que se vê cá de fora.
Lol, touché. (Não há plural republicano?) E sim, eu também penso isso. Mas não acha que há pessoas em relação às quais mantemos (diabos…) quase sempre um bocadinho de má vontade, apesar de nem haver grande razão para isso?
Sim, claro. Mas pareceu-me que estava a dizer que a sua (nossa) má vontade aumentava pelo facto de ser(mos) confrontados com a sua sem razão…
Há má vontade no reconhecimento de que a pessoa em questão nem é assim tão desagradável. A sensação original em relação a ela não aumenta. Fica só misturada com culpa. 🙂
Com culpa e com a irritante descoberta de que não somos tão bons avaliadores de carácteres como pensávamos… 🙂
Gosto de ter um pensamento conclusivo, sobre tal, com alguns toques de elegância –mais não seja para comigo e as minhas vontades, ou falta delas– e afirmar que a empatia é uma coisa caprichosa. Vem e vai, com a mesma frivolidade que nos apetece comer algo ocasionalmente.