Cemitério de posts


escafandro,

Acontece-me frequentemente andar com pouco tempo para escrever textos para o blogue. Se há ocasiões em que isso se conjuga com fases em que também não tenho grande vontade de o fazer, na maioria delas vou – infelizmente – tentando contornar a situação: leio uma notícia que me apetece comentar ou tenho uma ideia para um post (ou para uma série de posts: planeio três séries há meses mas nem uma me atrevi ainda a começar) e, zás, alinhavo meia dúzia de linhas. Mas, por falta de tempo, o texto fica inacabado e/ou com pormenores exigindo verificação (há por aí gente – tão irritante! – que sabe mais do que eu) e/ou à espera de links e /ou a precisar de uma boa revisão que elimine repetições vocabulares (de ideias é inevitável), excesso de adjectivos e de advérbios de modo (sou indubitavelmente especialista supremo em ambas as categorias), aliterações (senhor, como me saem sem sacrifício!) e até falhas na lógica (consigo contradizer-me várias vezes numa única frase, o que, sendo algo que me incomoda, é também algo de que me orgulho porque quase todas as versões são defensáveis e muitas vezes em simultâneo). Vou pegando no rascunho do post ao longo de vários dias, alguns minutos de cada vez, ouvindo o tiquetaque do tempo a passar e da oportunidade a esvair-se, até decidir que já não vale a pena: o assunto tornou-se tão semana passada… toda a gente o esqueceu. E, deste modo, esforço inglório a esforço inglório, o pequeno disco rígido externo que trago na pasta vai ficando cheio de posts inacabados ou, pelo menos, não publicados. Nados-mortos, no fundo. O que transforma o meu disco rígido (isto não é uma metáfora) numa espécie de cemitério de textos com deficiências: inacabados, incoerentes, constituídos por partes que não encaixam bem. E também de alguns que parecem normalzinhos e perfeitamente viáveis (têm todas as frases indispensáveis, todas as virgulazinhas, até um toque de personalidade) mas eu, que os concebi (assumo inteira responsabilidade mas, caramba, não é fácil evitar gerá-los quando o único método contraceptivo disponível é a abstinência), deixei morrer. Contudo, nisto uma mente caótica e ligeiramente macabra como a minha (o que faz com que, afinal, «disco rígido» também possa constituir uma metáfora) até seria capaz de encontrar piada: ooooooh, ando com uma data (e «data» é o termo) de cadáveres na pasta. O pior é que às vezes me ponho a relê-los e lhes encontro imenso potencial. E então sinto vergonha. Penso que fui injusto. Como pude deixar morrer aqueles textos? E depois perco todos os resquícios de bom senso, releio alguns dos posts que publiquei, acho-os péssimos e transformo-me num ser maldoso: olho para os posts sobreviventes e, qual pai de dois filhos gritando para um deles após ter perdido o outro num acidente: tu é que devias ter morrido, não o teu irmão!, acuso-os de não chegarem aos calcanhares dos que se perderam pelo caminho. Atitude reprovável, eu sei, mas que não consigo evitar. De resto, hão-de convir que tenho motivos para reagir assim. Reparem neste texto. Este mesmo, cuja leitura estão prestes a terminar (parabéns pelo estoicismo). Por que raio conseguiu ser publicado?

22 comentários em “Cemitério de posts”

  1. Sugiro-lhe então, que plagie Pedro Correia e imita(invista em) uma série intitulada « os 100 textos que mereciam ter sido publicados».
    Quantos às avaliações gramaticais, semânticas e outras, deixo-lhe uma reflexão: alguém consegue atestar erros de conceção na obra de um pintor, sobretudo de um consagrado?
    Népia!
    O maralhal fica ali, de queixo entalado entre o polegar e o indicador, a cismar, a mirar e remirar, a fungar, mas ninguém declara: alto lá, aquele traço ali está impreciso, aquele contraste é inapropriado…
    O tanas!
    Se o dissessem, arriscavam-se a que o autor lhes enfiasse o pincel pela “paleta” acima.

    1. Até que não seria má ideia se eu tivesse 100 textos que merecessem ser publicados – e isto entre os publicados e os não publicados…

      E é verdade, um erro de ortografia ou de síntaxe salta à vista de toda a gente (bom, de quase toda; bom, de algumas pessoas mas muito picuinhas) enquanto outras artes são mais… er… dadas ao relativismo. Ainda assim, tente ler o monólogo final do Ulysses, do Joyce… 😉

  2. Quando é assim, o melhor é colocar poemas ou citações cheias de absolutamente, links para outros blogs, ou fotografias de gajas com aquela ambiguidade entre o fiambre exposto e o jogo de sombras.

    1. A primeira sugestão é boa e agradeço-a. A segunda também é boa – na verdade, é ainda melhor – mas coloca-me um problema: eu quase só ponho no blogue fotos tiradas por mim e, por várias razões, é-me complicado fotografar “gajas” com o “fiambre à mostra” (você tem uma veia poética fantástica), sendo que as poucas que talvez pudesse fotografar (e desconfio que o plural não se aplica) nunca me deixariam colocar as fotos no blogue, com ou sem «jogo de sombras».

  3. Estou como o João, também guardo os meus cadáveres aqui mesmo, na cave do DO: a pasta dos rascunhos. O que faz de nós mais perversos ainda, suponho. Seja como for, é bom que vás publicando estas confissões inconfessáveis (achavas que as contradições eram um exclusivo teu?). São uma delícia, e sempre te fica o cartório com menos alguns assassínios por asfixia. 🙂

    1. Mas, Ana, há coisas que perdem mesmo a validade (dizer mal do Relvas, atacar o aumento de impostos) e outras que são perigosas (tenho posts que podem ser mais politicamente incorrectos do que o grau incorrecção política que estes tempos politicamente correctos conseguem suportar) e outras ainda que são tão inteligentes que já nem consigo decifrar a mensagem que contêm (e por isso receio que pareçam pretensiosas) e mais algumas que, estando em partes separadas, acho que já não consigo unir de forma lógica (as minhas capacidades de Frankenstein são limitadas, especialmente porque não sei coser em condições) e etc, etc, etc…

      Olha, dou-te um exemplo da alínea referente ao politicamente incorrecto: tenho um post inacabado que começa com a pergunta (e depois disto vou-me deitar e amanhã logo vejo as consequências) “por que é que a mulher emancipada atravessa a estrada?”

      Er… tchau.

          1. Quem não arrisca não petisca. E olha que provavelmente te espera um lauto petisco, dado o número de mulheres aqui no DO (todas emancipadas, claro) à espera que alguém lhes ensine como atravessar uma estrada…

  4. Caro jaa,

    Não me lembro se é sempre o caso com seus posts (creio que sim, algumas vezes, pelo menos), mas foi mesmo bom ler este. Eu como blogueiro (ou bloguista?) inexperiente pensava que era só eu. Mas às “disfunções” literárias que apontou acrescento esta, que também acho, que sou só eu que a tenho: quero que todos os meus posts sejam especiais! Epá, lá isso de deixar um post de 150 palavritas, comentando uma noticia, ainda que com pertinência e originalidade, não, não é para mim. Os meus posts têm de ser longos tratados de originalidade. Resultado: nunca chegam a ser nem tratados nem originais, e são, isso sim, longos – 700 a 1000 palavras. Não quer dizer que, isto de serem longos, seja mau por si, mas, acredito afasta com certeza gente, não cria dinâmica, nem fideliza, porque faz com que publique com baixa frequência. Não sei porquê, ando há que tempos para dar o passo para posts curtos, e não consigo. Acho que não resultam visualmente. Será que tenho algum problema? Neste entretanto, tem sido a página Facebook do Antologia de Ideias que me tem servido de escape para publicar essas “curtas”, que parece que os bloggers (ah agora sim!) “normais” encaixam tão bem nos seus blogs. O que fazer? Deixam ser vosso amigo e publicar também no DO? Ou isto só lá vai de psicanalista? Ajudem por favor!

  5. Jaa, estás a ser injusto. Nada que possas escrever é mau e, acresce, todos nós sofremos do mesmo mal: disco rígido mal formato num dia, um outro dia sem alma ou notícia, mas acabamos sempre por ter alguma coisa para dizer. Beijo

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