Nos primeiros anos da existência do euro (e com isto quero dizer desde a segunda metade da década de noventa, mesmo antes de ele circular sob a forma de notas e moedas), a Alemanha viu o investimento deslocar-se para Sul (bem como para Leste, mas deixemos isso para outra oportunidade), área geográfica onde os níveis de rentabilidade eram muito superiores e o risco (conforme famosas declarações de Vítor Constâncio) parecia igual. Ainda às voltas com os custos da reunificação, vendo o investimento escapar, confrontada com uma evolução demográfica assustadora e com um comércio onde a China ameaçava dar cartas, a Alemanha implementou reformas – não radicais mas significativas. Por exemplo, reviu a lei laboral e das prestações de desemprego (as famosas leis Hartz, com destaque para a Hartz IV) e alterou o sistema de segurança social, introduzindo, para além de mudanças nas fórmulas de cálculo, um sistema complementar privado e um aumento progressivo da idade da reforma para os 67 anos. Entretanto, os países do sul aplicavam o influxo de capitais em imobiliário, consumo e dívida pública. Quando a crise financeira de 2008 levou primeiro os países europeus a agravar o frenesim despesista e, logo a seguir, expôs o esquema de Ponzi a que se dedicavam há anos (e que muitos ainda hoje desejam prolongar), a Alemanha, não passando ao lado da crise (desde logo por causa dos bancos mas também porque, apesar das reformas, a economia alemã tinha – e tem – falhas), transformou-se num refúgio, vendo regressar os capitais e passando a financiar-se a juros pouco acima de zero. Naturalmente, transformou-se também no mau da fita.
Angela Merkel, que nos visita amanhã, foi quase irrelevante no meio de tudo isto. Em 2009 e 2010 deixou que Sócrates, Zapatero, Papandreou e Berlusconi utilizassem notas de euro como se fossem produtos descartáveis (mas, ei, a Alemanha não pode mandar nos restantes, certo?) e, depois, fez o que qualquer outro líder alemão teria feito. Para a Alemanha, como para a Finlândia, para a Holanda ou para a Áustria, era crucial que o euro permanecesse uma moeda forte (foi com base em moeda forte que enriqueceram) e isso implicava garantir que os países em dificuldades aplicavam um travão ao investimento não produtivo e faziam as reformas eternamente adiadas. Ter-se-ia dispensado a faceta punitiva, que hoje se revela prejudicial, mas mesmo essa deve ser compreendida: para um alemão, descobrir que a Grécia tinha aldrabado as contas para aceder ao euro; que vários países haviam aproveitado as taxas de juro reduzidas a que o euro lhes dera acesso para gastar desalmadamente; que, ao contrário do que sucedera na Alemanha, não haviam levado a cabo quaisquer reformas de fundo; para um alemão, como para qualquer pessoa de qualquer outra nacionalidade se colocada perante idêntico cenário, a vontade de aplicar um castigo surgiu instintivamente – e compreensivelmente.
Hoje, Merkel está presa entre uma União Europeia que ameaça colapsar e uma política que, a prazo, poderá arrastar a Alemanha para os eternos ciclos de desvalorização-inflação em que os países do Sul são exímios (e nos quais, depois da traumática experiência da década de vinte do século passado, os alemães juraram nunca mais cair). Dentro do euro, Merkel apenas dispõe de três vias: forçar uma austeridade a todo o custo que se revelará contraproducente mesmo para a própria Alemanha, amenizar a austeridade à medida (mas apenas à medida) que forem sendo implementadas reformas de fundo nos países em dificuldades (coisa que está a acontecer muito devagar, se é que está a acontecer de todo), ou aceitar pagar a conta, esquecendo a lição de Weimar. Sendo que, antes de mais, Merkel responde aos alemães, os quais não desejam o bailout e a julgarão dentro de menos de um ano. Aliás, para quem anda por aí a clamar que um governo eleito há dezassete meses perdeu legitimidade por já não reflectir a opinião popular, a política do governo alemão, alinhada com a vontade popular, devia merecer apreço. Pelo contrário, parece ser tão ou mais ofensiva.
Mas talvez a parte mais interessante e delicada do problema seja simbólica e não económica. Na ópera Die Frau ohne Schatten (A Mulher sem Sombra), do alemão Richard Strauss, a personagem principal é uma imperatriz presa entre dois mundos, o humano e o dos espíritos, denunciada como não totalmente humana pela falta de sombra. Merkel (que aprecia ópera mas, segundo creio – no que parece ser um pré-requisito para qualquer líder alemão –, prefere Wagner a Strauss) está também presa entre dois mundos (o da responsabilidade orçamental com uma moeda forte e o do laxismo com uma moeda fraca) mas carrega, pelo contrário, uma sombra demasiado longa: a sombra das duas guerras mundiais e das atrocidades do nazismo. Foi para a diminuir que a Alemanha prescindiu do marco e ligou o seu futuro ao de países cronicamente irresponsáveis (poucos alemães, incluindo políticos, desejavam a mudança*), é talvez em parte para a diminuir que se esforça por permanecer no euro. Tudo em vão. A sombra do passado continua a recair sobre os alemães (e continuará durante décadas, sempre que algo correr mal na Europa), tornando-os um pouco menos que humanos. Como provavelmente amanhã muitos cartazes não deixarão de mostrar.
* Circunstância que deveria pelo menos abalar as teorias da conspiração segundo as quais a Alemanha procura mais uma vez conquistar a Europa, desta feita sem recurso à força militar.

Numa palavra só: magnífico. Obrigada pelo post e respectivo acompanhamento musical.
Uf! Obrigado, Helena. Eu estava preocupado com o seu comentário – especialmente por causa do título: verifiquei nos tradutores do Google e do Bing (parto do princípio que quando a Google e Microsoft estão de acordo, o grau de confiança é elevado) mas ainda assim…
Eu diria que, em bom alemão, é Die Frau mit langem Schatten.
OK, obrigado. Confesso que a questão da maiúscula vs. minúscula me fez vacilar um pouco. Vou alterar.
Ah, só agora reparei no ‘m’ final: alterado, também. Obrigado de novo.
E daí, não. O tradutor dá-me “langem” como sendo “muito tempo” e “langen” como sendo “longo” – que é o que eu quero. Enfim: para a próxima deixo-me de tretas e uso um título em português…
Isso é na expressão idiomática seit langem, que significa “(desde) há muito tempo”. Mas essa é apenas uma expressão idiomática, nada mais.
Em geral, langem é a forma dativa masculina singular do adjetivo lang (=comprido, longo). (No feminino singular seria langer, no plural seria langen.)
Mas então a forma correcta não seria Die Frau mit langer Schatten?
(Isto ameaça eternizar-se.)
Não. Schatten (=sombra) é, em alemão, masculino. Há muitas palavras que têm géneros opostos nas duas línguas. Por exemplo, em português “o sol” é masculino e “a lua” é feminino, em alemão é o oposto (die Sonne e der Mond, respetivamente).
Já agora, Schatten é uma daquelas palavras alemãs que é igual no singular e no plural, isto é, tanto pode significar “sombra” como “sombras”. Nestas circunstâncias, a forma do pronome ou do adjetivo que a precede tem muita importância, porque nos informa sobre se estamos a falar do singular ou do plural. Por exemplo, der Schatten (=a sombra) ou die Schatten (=as sombras), mit langem Schatten (=com sombra comprida) ou mit langen Schatten (=com sombras compridas).
OK. Quanto é que devo?
Hoje é oferecido. Da próxima vez cobro-lhe.
É bom pensar em aprender alemão, que os tempos estão de emigração. Eu quando fui para a Alemanha fui sem saber uma palavra, na minha profissão posso dar-me a esse luxo, e aprendi lá. Mas, na maioria das profissões, convem aprender um pouco antes de partir. Independentemente das profissões, os alemães tendem a avaliar a inteligência de uma pessoa pela forma como ela fala alemão: se fala bem é inteligente, se fala mal é um ser desprezível, inferior.
A preposição mit (=com) exige a declinação dativa do substantivo que vem a seguir. Ora, o dativo de um substantivo masculino singular tal como Schatten (=sombra) é com um m no fim. Seria com um n no fim se fosse no plural, nesse caso significaria “A mulher com sombras compridas”. Ou seja, dependendo de ter um n ou um m no fim de lang, assim a frase tem significado diferente. É essa a beleza da gramática alemã – é como uma matemática…
#%&§£@!!!!
Vês. É a mania de falar ou escrever em língua estrangeira para agradar aos visitantes. Se tivesses posto o título em português (a Senhora que é uma grande chata) não te sujeitavas a este vexame público.
Afinal sempre podes escrever a tua carta em alemão.
“O alemão é uma língua boa para cavalos e soldados”. Esta meiguice não é a conclusão de algum estudante estrangeiro, desesperado às voltas com o curso de alemão – mas antes uma frase famosa, do mais popular dos imperadores da Prússia, Frederico o Grande, que ficou conhecido na memória popular como “o velho Fritz” – “der alte Fritz”.
Eu acho que o velho monarca era injusto. É verdade que o idioma de Goethe não é melodioso como o italiano; mas trata-se dum língua riquíssima e moldável, que se presta com facilidade igual aos contorcionismos da filosofia e aos jogos de palavras da publicidade. O velho Fritz falava melhor francês que alemão; donde podemos concluir que o seu desabafo, esse sim duma brutalidade de caserna, se deveu mais à ignorância do que à experiência.”
http://camalees.wordpress.com/2011/04/05/o-a lemao-e-uma-lingua-boa-para-cavalos-e-so ldados/
Obrigado pela piedade. Vá lá que não me enganei a copiar o título da ópera…
Em alemão (tal como, aliás, nos tempos medievais, nas outras línguas também) os substantivos (nomes) escrevem-se com maiúsculas. lang (=comprido) é um adjetivo, logo escreve-se com minúscula.
Não há castigo nenhum, não há austeridade alguma quando se endivida mais.
Há simplesmente a irresponsabilidade do passado num grau menor.
Não há hipóteses alguma de mais crescimento nos tempos mais próximos na configuração com que os Estados Sociais Ocidentais têm.
Acabou, Finito, Kaput…
A Alemanha ao ajudar os países, violando todas a regras, e estes ainda a pediram ainda mais só estão a prolongar a agonia. Dar esperança de algo que não vai existir.
A ideia das reformas nesta cultura é outra fantasia.
Não passa da recente citação do Gattopardo de Visconti ainda há pouco colocada aqui no blogue: É preciso mudar qualquer coisa para que tudo fique na mesma.
Bom, eu sou optimista, lembra-se?
Sim. E eu pessimista 🙂
“Die Frau mit langem Schatten”.
Tradução livre: “A mulher com lêndeas chatas.”